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Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides

Ano: 2011

Realizador: Rob Marshall

Actores principais: Johnny Depp, Penélope Cruz, Ian McShane

Duração: 136 min

Crítica: Os ‘filmes de piratas’, passados na chamada idade de ouro da pirataria dos séculos XVII e XVIII, já tinham um historial no cinema mudo (várias adaptações da ‘Ilha do Tesouro’ ou o ‘Capitão Blood’ de 1924) quando Douglas Fairbanks filmou ‘The Black Pirate’ em 1926 e transformou-os num género de acção e entretenimento por excelência. Uma década depois, as adaptações de Victor Fleming de ‘Treasure Island’ (1934) e de Michael Curtiz de ‘Captain Blood’ (1935) com Errol Flynn, cimentaram os filmes de piratas como um dos principais géneros do cinema de aventuras da era dourada de Hollywood, onde viveram um prolífero período de popularidade que inclui dos melhores filmes de piratas alguma vez feitos: ‘The Buccaneer’ (1938), ‘The Sea Hawk’ (1940), ‘The Black Swan’ (1942), ‘The Spanish Main’ (1945), ‘The Pirate’ (1948).

Mas após a década de 1950 os filmes de piratas caíram em desuso e Hollywood perdeu o interesse neles. Tornaram-se um género de aventura menor, produtos de co-produções internacionais, e salvo algumas obras avulso como ‘The Pirates’ (1985) de Polanski ou o ‘Treasure Island’ de 1990 (feito para a TV) com Christian Bale e Charlton Heston, raramente mais vimos grandes estrelas e grandes produções no universo da pirataria. Tudo isto mudou quando Renny Harlin embarcou na gigantesca produção de ‘Cutthroat Island’ (1995), um filme de piratas que tentou trazer a aventura e a magia presente no cinema clássico para o estilo despreocupado, de ‘one-liners cliché’ e de acção familiar tão típico dos nineties. Não é que ‘Cutthroat Island’ seja um mau filme. Simplesmente estava um pouco à frente do seu tempo (quer no tom, quer na acção, quer na centralização numa personagem feminina) e foi demasiado tudo, mas principalmente demasiado cheesy, o que acabou por resultar num ruinoso fiasco de bilheteira (detém o recorde do Guinness: 147.2 milhões de dólares perdidos) que praticamente terminou com as carreiras de Harlin e da sua estrela: Geena Davis.

Portanto sempre achei curioso, muito curioso, que a Disney tenha pouco depois decidido transformar uma das suas atracções de maior sucesso da Disneylândia, os Piratas das Caraíbas, num filme. Depois de ‘Cutthroat Island’ os produtores de topo de Hollywood fugiram a sete pés dos filmes de piratas (embora diga-se que o ‘Muppet Treasure Island’ de 1996 é genial), portanto foi uma manobra arriscadíssima que, mais curiosamente ainda, resultou. 'Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl’ (2003), realizado por Gore Verbinski, embora não muito diferente de ‘Cutthroat Island’ (o tom dos anos 1990 dá lugar ao tom dos anos 2000, mas a forma de abordagem é semelhante), teve um sucesso diametralmente oposto, o que só prova que a memória do público é curta e a sua volatilidade também. Mas a qualidade do filme também ajuda. E muito. O Jack Sparrow de Johnny Depp tornou-se uma hilariante instituição, umas das grandes personagens do século XXI, reavivando a sua carreira, e o filme, no geral, é uma fabulosa e extasiante aventura, que entretém como poucas, diverte, e transporta todos os espectadores para o mundo excitante e, neste caso místico, da pirataria como nenhum outro filme de Hollywood em muitas décadas.

A sequela era portanto inevitável. ‘Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest’ (2006), já não é tão fresco mas mesmo assim é incrivelmente desfrutável (ainda me lembro do que me ri ao vê-lo no cinema com amigos). Já o terceiro filme, 'Pirates of the Caribbean: At World's End’ (2007) parece demasiado forçado. A história do casalinho principal, a delicada mas aguerrida Elizabeth Swann (Keira Knightley) e do ferreiro Will Turner que se torna um herói (Orlando Bloom), chega ao fim já com o seu sumo totalmente espremido e o filme dá imensas voltas e reviravoltas para capitalizar numa história que não tem grande substância e que procura desesperadamente ser épica. A franchise estava esgotada, e quando uma franchise se esgota só há duas soluções possíveis: ou fazer uma história de origens (a prequela), ou reinventá-la.

E reinventá-la foi precisamente o que os senhores da Walt Disney Pictures fizeram em 2011, com o quarto filme da saga: ‘On Stranger Tides’ (em português ‘Por Estranhas Marés’). Primeiro, Gore Verbinski saiu da cadeira de realizador (lançaria ‘Rango’ no mesmo ano), dando lugar a Rob Marshall, o famoso director teatral que havia realizado três filmes musicais (‘Annie’, 1999; ‘Chicago’, 2002 e ‘Nine’, 2009) e um drama (‘Memoirs of a Geisha’, 2005) e que portanto era uma escolha estranha e ousada. Segundo, mudou-se o foco, oficialmente (e finalmente!), para uma nova personagem principal: Jack Sparrow. Muitos se esquecem que os primeiros três filmes não eram sobre o Capitão Jack Sparrow. Ele era uma personagem ‘secundária’ relativamente à trama de Will e Elizabeth, um escape cómico que foi justificadamente ganhando cada vez mais destaque pela força da sua personalidade.

Por um lado, talvez tenha sido pelo melhor que Bloom e Knightly tenham ambos declinado participar no quarto filme, pois as suas personagens já não tinham nada mais para oferecer e isso deu liberdade ao filme para se centrar na personagem que praticamente sozinha ainda mantinha a franchise fresca e viva. Por outro, isto constituía sem dúvida um grande desafio, porque as grandes personagens secundárias são memoráveis precisamente porque são secundárias, e não perdem interesse tão rápido ao não terem de transportar emocionalmente uma história quando essa história já não tem nada para dar (como aconteceu com Bloom e Knightly). Poderia Jack Sparrow ser o centro de um filme e ter a força e a profundidade suficientes para carregar um novo arco argumental? E como fazê-lo funcionar? Este era realmente o maior desafio de ‘On Stranger Ties’, um desafio ao qual o filme nunca consegue inteiramente responder. 

Para resolver este imbróglio, os argumentistas recorreram à mesma técnica de inúmeras outras sequelas de Hollywood. Em vez de se tentar escrever uma história original que se enquadrasse com a personalidade de Jack Sparrow (isso daria muito trabalho), basicamente utilizou-se uma história já existente à qual se introduziu, forçadamente, Sparrow ao barulho. O filme acaba por ser uma adaptação livre do romance de piratas ‘On Stranger Tides’ de Tim Powers, com todas as possíveis artimanhas para dar o máximo tempo de filme possível a Sparrow. Numa primeira instância isto trás inúmeras vantagens a este quarto filme. Primeiro porque Depp nasceu para ser Sparrow e neste filme está ao seu melhor nível (naquele que seria o seu último sucesso comercial até ‘Black Mass’, quatro anos depois). A sua presença engraçada e deliciosa é fascinante e hipnotizante cena a cena, segundo a segundo, o que é uma enorme mais-valia. O facto de não ter muitas outras personagens para lhe roubarem tempo de antena nem cenas de acção é óptimo e algo que, neste filme, ainda resulta porque é uma bem-vinda novidade, uma espécie de ‘spin-off’ da lenda dos ‘Piratas das Caraíbas’. Se resultará nos próximos filmes (teremos ‘Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales’ já em 2017), isso já é outra história.

Segundo porque o filme segue uma estrutura muito literária (o livro passado a filme), algo que é também, de certa forma, uma bem-vinda novidade. Com Rob Marshall ao leme a demonstrar os seus brilhantes talentos de composição cenográfica e que a suas qualidades vão bem além dos musicais (tal como aliás já havia feito em ‘Memoirs of a Gueisha’), ‘On Stranger Tides’ é sem dúvida alguma, até hoje, o mais coeso, coerente e até artístico filme da franchise. Cada cena, principalmente na primeira parte do filme, tem valor por mérito próprio na forma como está estruturada, como ajuda a construir as personagens e como encaminha a história nas suas várias direcções. Rara é a cena, mesmo as de acção, que seja só para encher, o que dá um ritmo bastante interessante ao filme. Mas ao mesmo tempo, rara é a cena que não seja de acção. Desde a cena de perseguição inicial pelas ruas de Londres, onde Sparrow surge para tentar salvar o seu imediato e descobrir quem é quem anda a contratar uma tripulação em seu nome – uma das melhores, senão a melhor sequência de acção da saga – cada cena deste filme ergue-se como uma épica set piece. Se isto dá uma enorme riqueza visual e entretenimento a cada cena individualmente (e o 3D, para quem o viu em 3D nesse ano de 2011 em que tudo era lançado assim; é fabuloso), uma das maiores críticas a ‘On Stranger Tides’ é constatar de repente que o todo nunca é maior do que a soma das partes. Ficamos até ao final do filme à espera que seja, mas nunca é. E há várias coisas que contribuem para isto.

A primeira é a história. Na realidade, não há grande história neste filme, apesar das suas 2h15. Em Londres, Sparrow descobre que é uma antiga paixão sua, Angelica (uma Penélope Cruz que, tal como nas comédias em que entra, nunca consegue estar séria muito tempo), que está a contratar a tripulação em seu nome. O objectivo era atrair Sparrow, já que este possui o mapa que poderá levar à proverbial Fonte da Juventude (ver final de ‘At World's End’) e que Angelica procura a mando da coroa espanhola. Sparrow vê-se então abordo do navio do Barba Negra (o intenso Ian McShane), pai de Angelica, que procura a Fonte para si próprio. Mas haverá outros partidos interessados. Para começar o próprio Sparrow. Depois, a mando dos ingleses (e após a recusa de Sparrow aquando de um tête-à-tête com o Rei Jorge no início do filme), o Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), uma personagem que estranhamente regressa filme após filme (mesmo após ter morrido num deles!); estranhamente pois não parecia assim tão popular. E é isto. Os vários concorrentes vão estar constantemente no caminho uns dos outros, com inúmeras traições e reviravoltas à mistura, à medida que seguem as várias pistas e recolhem os artefactos necessários (uns cálices, uma lágrima de uma sereia), até que navegam todos rumo ao local onde está a fonte e onde se dará o showdown. Para um bom showdown no local onde está a fonte da vida eterna ver ‘Indiana Jones and the Last Cruzade’ (1989). Para um mau showdown no local onde está a fonte da vida eterna ver ‘On Stranger Tides’…

O filme desenrola-se como uma grande caça ao tesouro, ao estilo de inúmeras comédias ou road movies, onde o que interessa é mais a aventura pela aventura – as piadas e a acção que vão acontecendo pelo caminho – do que o propriamente o objectivo, ao qual, sinceramente, o filme não parece prestar muita importância (agora de repente recordo-me que em ‘Cutthroat Island’ ocorre o inverso, ou seja, o tesouro é encontrado nem a metade do filme – terá isso contribuído para o seu fiasco?!). No geral, o filme não satisfaz porque colmata as suas falhas argumentais com acção, acção e acção (e mais acção!), o que em teoria seria excelente na perspectiva do tipo de filme que quer ser, mas na prática não resulta muito bem, porque mesmo os grandes filmes de acção têm de a justificar, o que não é o caso. Por isso mesmo, apesar de todas as cenas serem, individualmente, épicas, ‘On Stranger Tides’ acaba por não ser a divertida e excitante extravagância de entretenimento de piratas que foram os primeiros dois filmes da saga, porque se centra quase exclusivamente na concepção dinâmica da sua aventura - uma aventura que, quase paradoxalmente, acaba por ser algo apática pois não tem uma grande ligação às personagens (afinal, Will e Elizabeth fazem mais falta do que aquilo que os produtores pensavam) e porque não dá importância nenhuma ao seu tesouro. Teria ‘Indiana Jones’ tanto interesse se não desse importância ao Santo Graal?! Teria ‘Goonies’ tanto interesse se não houvesse o fascínio do tesouro do navio pirata?! O enfoque na epicidade da acção em cada cena faz com que ‘On Stranger Tides’ tenha uma construção lenta (leva horas a chegar aonde quer chegar), mas depois quando finalmente chega ao seu objectivo, e onde aí sim deveria deslumbrar-nos com entretenimento blockbuster do bom, acha que já teve o suficiente anteriormente e portanto não o dá (!!!), despachando a coisa para chegar ao final rapidamente. Depois de tanta construção, o clímax deste filme é fraco, frouxo e passa a correr. E o final vem e vai do mesmo modo, quase sem o espectador se aperceber disso. Como é possível?! É fácil; vivemos na era das sequelas, portanto agora nenhum blockbuster se dá ao luxo de terminar decentemente…

‘On Stranger Ties’ pode ter Johnny Depp no seu melhor eu cómico. Pode ter tudo aquilo que gostamos de ver num blockbuster de piratas; explosões, lutas de espadas, elementos sobrenaturais, piadinhas e muita fantasia. Pode ter um exótico glamour sexy, quer nas localizações, quer em Pennelope Cruz. Individualmente, todas as pequenas coisas que o filme deveria ter, tem. Mas eu não consigo dizer que este é um grande filme de Verão, porque era preciso mais. Algo falha na soma das partes. A história embala-nos no seu ritmo com uma promessa que nunca chega. E quando o final chega perguntamos “era só isto”?! O filme entretém cena a cena, e a personagem de Sparrow ainda não se tornou maçadora, embora não altere muito o seu estilo de filme para filme. Contudo, esta é uma história que tem a dinâmica de um romance, não de um filme, e que precisava de ser mais, digamos, apimentada. Consigo imaginar que funcione muito melhor na forma escrita, porque o leitor pode lê-la lentamente, ao longo de semanas, e consegue fazer retratos imaginários muito mais sumptuosos do que aqueles que este filme acaba por mostrar.

Um blockbuster de Verão em 3D não se deve acanhar, mas também não pode ser só fogo-de-vista.‘On Stranger Ties’ tem tudo e mais alguma coisa atirada para a frente da tela durante a sua construção, mas nada de substancial consegue ser materializado no clímax. Tem ambição a mais em toda a sua concepção, mas emoção a menos quando é necessário colmatar a história. É isto o que acontece quando se contrata o realizador de ‘Memoirs of a Gueisha’ para filmar um a história que não pára um segundo para respirar entre as suas sequências de acção: uma cenografia, um design de produção e uma realização de enorme qualidade. Mas falta o resto, pois não há muito que Marshall consiga fazer em relação a este argumento. É por isso que às vezes precisamos de um Renny Harlin, nem que seja só para conseguir fazer com que a acção, só por si, valha a pena, se tudo o resto falhar. E se calhar bem que era preciso um pouco desse toque aqui...

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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