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The More the Merrier

Ano: 1943

Realizador: George Stevens

Actores principais: Jean Arthur, Joel McCrea, Charles Coburn

Duração: 104 min

Crítica:Damn the torpedoes, full speed ahead!!!”.

Nesta divisa, que várias personagens repetem ao longo do filme de várias formas, o clássico ‘The More the Merrier’ (em português ’Gente a Mais... Casas a Menos’) condensa o seu duplo propósito. Primeiro moralizar o espectador contemporâneo em plena Segunda Guerra Mundial, lembrando-lhe que aconteça o que acontecer, para a frente é o caminho. E segundo, fazê-lo com o toque de comédia anárquica tão característico do cinema americano pré-guerra.

Na minha crítica a outro filme do mesmo ano, ‘Mr. Lucky’, descrevi como na primeira metade da década de 1940 Hollywood esteve maioritariamente concentrada em realizar comédias de ‘escape’, para animar e distrair quer o público, quer as tropas, ou então filmes para elevar a moral e dar uma mensagem positiva de que a Guerra poderia ser ganha e os Nazis derrotados, quer fossem eles dramas, filmes de espionagem, ou filmes de guerras passadas. ‘The More the Merrier’ cai claramente na primeira categoria, a da comédia, mas mesmo estas (tal como outros géneros, incluindo os musicais) tinham sempre uma achega, um paralelismo, uma indirecta, nem que fosse numa cena, para contribuir para o esforço de guerra. E ‘The More the Merrier’ não é excepção.

Mas há ainda mais dois aspectos temáticos a salientar neste filme que o fazem estar num plano acima da média. Primeiro toca (muito ao de leve, mas toca) num ponto então sensível, e que só começou a ser visto no cinema americano depois da guerra acabar, de ‘The Best Years of Our Lifes’ (1946) em diante. Nomeadamente, as consequências emocionais da guerra, para quem fica e para quem vai. E segundo, na sua vertente de comédia, consegue ser bem mais que isso. Herdando do passado recente, é um dos últimos bastiões do screwball, género que inevitavelmente entraria em desuso depois da guerra. O equilíbrio entre estes aspectos nem sempre é o mais perfeito (a comédia romântica acaba por vencer), e nas partes mais dramáticas o filme claramente estagna, mas o esforço ambicioso de tentar condensar todos estes aspectos num único filme é de louvar, embora seja de admitir que hoje só a comédia é realmente memorável. ‘The More the Merrier’ esteve nomeado para 6 Óscares em todas as categorias principais, mas no ano de ‘Casablanca’ apenas conseguiu arrecadar a de Melhor Actor Secundário, para o veterano Charles Coburn.

‘The More the Merrier’ é o último de um contrato de três filmes que o grande realizador George Stevens assinou com a Paramount no início da década de 1940. É igualmente o seu último filme antes de partir para a Guerra, para realizar documentários para o governo, tal como muitos outros realizadores (John Ford, John Huston), só voltando ao cinema em 1948. Em 1943, Stevens estava ainda a uma década de distância de se tornar um dos mais respeitados realizadores de Hollywood (ganharia dois Óscares de Melhor Realizador em cinco anos, por ‘A Place in the Sun’, 1951, e ‘Giant’, 1956, pelo meio realizando o icónico ‘Shane’, 1953), mas já na década de 1930, este outrora director de fotografia do cinema mudo tinha consolidado uma reputação como um versado e multifacetado realizador. Recordemos ‘Alice Adams’ (1935) um drama social com Katherine Hepburn, ‘Swing Time’ (1936), um dos melhores filmes de Fred & Ginger, ou o glorioso ‘Gunga Din’ (1939), o filme sem o qual ‘Indiana Jones’ ou a ‘Múmia’ nunca existiriam. Mas foi na década de 1940 que Stevens encontrou a sua passada. Depois de ‘Penny Serenade’ (1941) um pungente e surpreendente drama com Cary Grant (acreditem, é muito bom), Stevens realizou três comédias icónicas, todas misturando o screwball com questões sociais. Primeiro ‘Woman of the Year’ (1942), a comédia conjugal por excelência com Hepburn e Spencer Tracy. Depois ‘Talk of the Town’, com Cary Grant e a deliciosa Jean Arthur, que alia o screwball ao enaltecimento do sistema de justiça americano (já a moral de guerra e o nacionalismo a espreitar). E por fim ‘The More the Merrier’.

‘The More the Merrier’ tem um elenco de pesos pesados da comédia dramática, aluminis de realizadores como Preston Sturges, Frank Capra ou o próprio Stevens, e que enchem as medidas do filme com a sua energia. Lidera Jean Arthur, a actriz com um timbre de voz estranhíssimo que apenas faria dois filmes depois da Guerra, mas cujo talento recordamos com ternura de clássicos como 'You Can't Take It With You’ (1938) ou ‘Mr. Smith Goes to Washington’ (1939). O seu par é Joel McCrea, actor por excelência de Sturges de filmes como 'Sullivan's Travels' (1941) ou magnífico 'The Palm Beach Story' (1942). Por fim, completando o trio, temos Charles Coburn, o simpático senhor cheinho de meia-idade, cuja personalidade bem-falante, simpática e muitas vezes até infantil tinha sido explorada por Sturges perfeitamente em ‘The Lady Eve’ (1941), onde interpreta o aldrabão pai de Barbara Stanwyck. Aqui, Coburn é igualmente matreiro, mas usa a sua personalidade para o bem.

É com ele precisamente que começamos, depois de um preambulo em que uma voz off hilariante nos descreve o quão acolhedora e tranquila é a vida em Washington em plena guerra, enquanto as imagens que vemos são de pessoas atafulhadas em todo o lado, nos transportes, nas casas, nos restaurantes. Acontece que durante a Guerra a cidade de Washington tornou-se o quartel general da América, e portanto a população da cidade aumentou exponencialmente. A falta de casas suficientes tornou-se um enorme problema, com políticos, funcionários públicos, soldados à espera de mobilização, secretárias e tantas outras pessoas a partilharem quartos e a viverem em espaços reduzidos. O filme, destramente, brinca com este problema que estaria bem presente na vida dos espectadores contemporâneos. Coburn interpreta Benjamin Dingle, um alto funcionário do governo que chega a Washington precisamente para tratar de problemas da habitação (embora não o faça muito durante o filme). Como chega dois dias adiantado ao hotel (com orgulho, como explica ao porteiro, mostrando assim a sua personalidade), descobre que a sua suite ainda não está disponível. Tem então de se juntar à imensa horda de pessoas que procuram alojamento na cidade. Então vê um único anúncio no jornal na coluna ‘para alugar’. Connie (Jean Arthur) procura companheiro para partilhar casa.

Com a mestria matreira que o caracteriza, Dingle consegue ultrapassar a imensa fila de pessoas que esperam à porta da casa de Connie para tentar alugar o quarto, e fica com a tão cobiçada cama para si. Estes são os momentos mais fáceis, mas mais eficazes de comédia do filme; a forma como Dingle naturalmente se introduz (quase se força) na casa de Connie contra a sua vontade (ela queria alugar a uma senhora), e a forma como ela aceita o desafio mas se vinga logo na manhã seguinte, com um horário rígido de arranjo matinal ao qual Dingle, hilariantemente, não consegue corresponder. Pois enquanto Connie segue a vida pelo seguro, com regras rígidas e horários fixos, Dingle é muito mais despreocupado, e a sua infantilidade natural, por vezes inconveniente, esconde um bom coração. Tanto que, quando descobre esta personalidade de Connie, decide tornar-se uma espécie de seu anjo protector e cupido. Porque o decide fazer? Não se percebe muito bem. Fazer o bem ao próximo, só porque sim? Talvez. O filme perde zero segundos a pensar nisso e a personagem de Joe (Joel McCrea) surge precisamente na altura ideal para Dingle pôr o seu plano em marcha. Também ele procura alojamento na cidade, nos poucos dias que lhe faltam antes de ser enviado para África. Dingle decide, sem que Connie saiba, alugar a Joe metade da sua metade do apartamento, o que gera uma das cenas mais engraçadas do filme, quando ela chega a casa. Descobre Joe? Não logo. O filme estica os seus desencontros pelas divisões da casa uns bons cinco minutos. Delicioso.

Connie acaba por ceder e os três começam a viver juntos, o que gera mais peripécias, e as personalidades brincalhonas dos dois homens continuam a colidir com a séria de Connie. Mas aos poucos vemo-la a derreter. Contudo o plano de Dingle para que Connie e Joe se apaixonem fica inicialmente minado quando ele descobre que ela está noiva (há dois anos!) do maçador funcionário público Charles J. Pendergast (Richard Gaines), o tanso usual neste tipo de comédias. Na realidade, Connie nem está verdadeiramente apaixonada por ele, mas ele corresponde à sua visão de decência e segurança, embora não seja nada imaginativo nem estimulante. Isto só gera mais peripécias de Dingle para pôr Charles fora e Joe dentro do coração de Connie. Sabemos que eventualmente isso irá acontecer, a sua química é salientada desde o momento em que se encontram pela primeira vez, mas o filme segue vagaroso, mas seguro, os trâmites das comédias românticas; os desentendimentos, a conversa inesperada mas sincera que quebra o gelo ou a primeira dança, neste caso tornada mais interessante porque em Washington há oito mulheres para cada homem…

Mas se o apaixonar entre Joe e Connie não tem muito de novo, a não ser a comédia que o envolve, essa paixão leva o filme aos seus melhores momentos, porque obriga as personagens a saírem da sua zona de conforto e ganharem profundidade e seriedade. Numa brilhante cena em que a câmara apanha as duas camas de lados opostos da parede que divide os seus quartos (quase parece que estão a dormir juntos), Joe e Connie partilham os seus medos de se apaixonarem e/ou casarem tão perto da partida de Joe para a guerra. Aqui o filme atinge o seu clímax dramático e cumpre o seu dever patriótico. Infelizmente, é um clímax que rapidamente se esbate, porque no dia seguinte um jovem vizinho invejoso denuncia Joe às autoridades como um espião japonês. Aqui a comédia de enganos entra de novo em força quando Joe, Connie, Dingle e o próprio Pendergast vão parar à esquadra da polícia, e os pequenos píncaros dramáticos que o filme atingiu são esquecidos, em prol de um desfecho feliz para o seu romance. Isto porque já faltam menos de 24 horas para Joe partir, e com Pendergast ou sem Pendergast, Dingle quer ter a certeza que, nesse período, Connie e Joe descubram que foram feitos um para o outro…

A coisa que acho mais incredível em ‘The More the Merrier’, mesmo sabendo que é uma comédia romântica fantasiosa, é precisamente esta fixação de Dingle pelo romance entre Joe e Connie. O senhor parece não ter outro propósito na vida. Muito bem que tenha decidido que iria arranjar maneira de tirar Connie da sua monótona rotina e do seu noivado enfadonho, mas Joe é literalmente a primeira pessoa que ele encontra na rua e Dingle mede-o apenas (neste primeiro momento) pelo seu aspecto físico. E mesmo que Joe fosse a melhor das pessoas, que garantia tinha Dingle que ele se iria apaixonar por Connie? E ela por ele? Coincidências fílmicas usuais e extremamente convenientes à parte, o triângulo amoroso do filme; a mulher demasiado séria, o galã honesto com sentido de humor, e o tanso crédulo e pouco imaginativo que mais cedo ou mais tarde irá levar um chuto no traseiro, é bastante desinspirado, seguindo a fórmula bem marcada pelos filmes de Fred & Ginger da década anterior ou outras obras screwball como ‘The Awful Truth’ (1937). Isto para não falar do facto de alguns conceitos de aceitação social relativamente à relação entre homens e mulheres e ao casamento se terem tornado bastante datados e não poderem ser vistos com a mesma intensidade nos dias de hoje. Como o filme assenta neles, não só na construção do seu enquadramento de comédia como nos encontros e desencontros que conduzem ao final, perde muita da energia desnecessariamente.

Mas essa energia é largamente compensada pelo ritmo incessante dos diálogos e sequências humorísticas (recordemos que “Damn the torpedoes, full speed ahead!!!”), e pela história simpática (essa sim intemporal) que alia a comédia ao romance, de um jovem casal que passa por tudo e mais alguma coisa para no fim descobrirem que foram feitos um para o outro. Sim, há uma leve sombra da guerra que paira sobre o filme que lhe tenta dar alguma profundidade (e que terá sido sentido com mais pesar pelo público de 1943), mas é o próprio filme que reconhece que no final não dá muita importância a esse aspecto e parece até esquecer-se que na manhã seguinte Joe vai partir, e que as possibilidades de não regressar são muitas. Mas em 1943, na América, esse assunto era tabu, e a moral subjacente ao filme é que nas circunstâncias mais adversas e no mais curto espaço de tempo o amor pode surgir e ficará à espera, até o homem cumprir o seu dever e regressar.

Isto bem que poderá ser o que está por detrás da história, mas nunca será tão memorável como a forma como a história é contada, que é o verdadeiro trunfo de ‘The More the Merrier’. Se Coburn merece o seu Óscar pela performance do mais estranho cupido de sempre (numa altura em que uma persona de comédia podia ganhar um Óscar – hoje seria impossível), já tenho mais dúvidas quanto à escolha de McCrea, que por vezes parece demasiado adormecido. Mas Arthur tem faísca de sobra para os dois e deste triângulo, e da por vezes ousada realização de Stevens, surge um filme que independentemente das suas mensagens em tempo de guerra, e de algum antiquado convencionalismo social (ambos factores que o fazem abrandar), é uma das mais eficazes comédias românticas da Hollywood clássica. Quando engata nessas icónicas sequências, o filme tem leveza, dinamismo e charme para cativar, diálogos de mestre, e uma inocência infantil (Dingle e Joe lêem banda desenhada, por exemplo) que é recordada pelo espectador de hoje com um misto de alegria e nostalgia. Era uma irreverência que o cinema tinha, e as personagens tinham, e os twists da história tinham, que davam, muito inteligentemente, um sentido à palavra ‘entretenimento’ que o cinema não mais conheceu. E por causa disso o romance arrebatava, e continua, 70 anos depois, a arrebatar e a fazer sorrir. Sem a comédia irreverente o romance nunca poderia ser convincente. Assim surge dessa chama, e acreditamos que as personagens podem assentar e continuar a viver embaladas por essa energia.

É por este motivo que a história de base é universal e o filme é ainda tão fácil de ver e tão simpaticamente apelativo passadas tantas décadas. Sentimos que se podia passar em qualquer lugar, com qualquer casal. Nem de propósito o remake ‘Walk Don't Run’ (1966) (um daqueles filmes que vi na adolescência na TV e nunca mais revi) confirma precisamente isso, ao esquecer o cenário e as mensagens moralizadoras em tempo de guerra (é o que menos importa nesta história com o passar do tempo) e focar-se apenas na comédia e no romance. Aqui troca-se Washington por Tóquio durante os Jogos Olímpicos de 1964. O maior interesse deste filme? É o último da carreira de Cary Grant. Demasiado velho para o papel de Joe que lhe assentaria como uma luva em 1943, Grant adopta o papel de Dingle e torna-o seu, despedindo-se do cinema com a enorme graciosidade que o caracterizava. Por esta razão, ambas as versões merecem uma espreitadela.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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