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Mission: Impossible - Rogue Nation

Ano: 2015

Realizador: Christopher McQuarrie

Actores principais: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Jeremy Renner

Duração: 131 min

Crítica: Dezanove anos volvidos desde o primeiro ‘Mission: Impossible’ (1996), Tom Cruise, agora com 56 anos de idade (não parece nada), brinda-nos com o quinto filme da sua saga de blockbusters inspirada na mítica série de espionagem dos anos 1960: ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ ('Nação Secreta', em português). A primeira pergunta é se com esta idade, Cruise ainda tem estaleca para levar um filme cheio de adrenalina como este às costas. A resposta é um indubitável sim, o que para muitos pode ser surpreendente.

Há precisamente quatro anos estreava ‘Mission: Impossible - Ghost Protocol’, e na minha crítica gozei um bocado com Tom Cruise e os filmes da Missão Impossível, dizendo que era o filme que Tom fazia de cinco em cinco anos, cada vez que queria “ganhar uma pipa de massa e fazer com que o público se lembre que ainda está vivo”. Mas cada vez mais acredito que estava a ser um bocado injusto. Os tempos do mais dramático Tom Cruise de ‘Born on the Fourth of July’ (1989), ‘Jerry McGuire’ (1996) ou ‘Vanilla Sky’ (2001) há muito que podem estar para trás, mas Cruise ainda é o que a maior parte dos galãs actuais do cinema nunca serão: uma movie star “à antiga”. Cruise faz religiosamente apenas um filme por ano, sempre como actor principal, e com os papéis cuidadosamente escritos e criteriosamente escolhidos para se adequarem à sua imagem cinematográfica. Isto ao contrário da maior parte dos actores modernos que fazem inúmeros papéis por ano (secundários ou principais) parecendo seguir a divisa de “aparecer o mais possível”. Veja-se DeNiro. Já tem mais filme pós ano 2000 do que teve nos trinta anos anteriores (e bem sabemos que papéis ele anda a aceitar ultimamente…), e a sua imagem icónica há muito desapareceu; é uma memória dos cinéfilos. A chama icónica de Cruise, pelo contrário, ainda está bem viva, tal como uma estrela da Hollywood clássica. Os seus filmes agora podem ser todos, ou quase todos, de acção, e não propriamente os melhores da sétima arte, e os seus talentos como actor podem sempre ser postos em causa, mas a sua presença forte na tela como herói impõe respeito e nunca pode ser contestada.

Com os filmes da Missão Impossível, Cruise está no pináculo da sua imagem cinematográfica como esse herói, e nunca deixa o público esquecer-se disso. Como produtor para além de actor principal, Cruise sabe o que quer e o que é preciso para manter essa sua chama viva. Os filmes da Missão Impossível foram acompanhando esta ascensão e, sinceramente, tornando-se cada vez melhores. De filme para filme, as arestas vão sendo limadas para encontrar o equilíbrio perfeito entre a espectacularidade, o entretenimento, a acção e o heroísmo, elementos que o cinema dos anos 1990 tinha aos magotes mas que, com o advento dos efeitos especiais computadorizados e os estilos frenéticos de montagem, foram-se esvaindo da maior parte dos filmes de acção. Neste cenário, os filmes da MI já se conseguiram pôr taco-a-taco com os de James Bond como os últimos grandes baluartes do blockbuster de acção assente em stunts reais, belíssimas localizações e entretenimento escapista da mais alta qualidade (mesmo que a história não o seja), com o herói charmoso maior que a vida a salvar o mundo com toneladas de panache. Isto é um grande feito para uma saga destas (veja-se o fiasco da maior parte dos outros filmes baseados em séries de espionagem dos anos 1960), e Tom Cruise é o grande responsável.

‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ herda então desse cuidadoso afinamento ao longo dos anos, recuperando os melhores elementos que cada um dos quatro filmes anteriores e misturando-os para criar um filme dinâmico e intenso, que não precisa de ser sangrento ou violento, que não precisa de ser totalmente ‘realista’, que não precisa de ter uma história totalmente credível (ou até interessante), mas que tem, como escrevi na minha crítica a ‘Jurassic World’, o “entretenimento da espectacularidade e a espectacularidade do entretenimento”. Isso faz dele não só o melhor blockbuster de acção do ano até agora, como, muito facilmente, o melhor filme da saga Missão Impossível. Vinte anos e cinco filmes depois, é incrível que tal aconteça. Mas acontece.

Talvez o segredo esteja na entrada de Christopher McQuarrie para realizador e argumentista. Este é o homem que ganhou um Óscar de Melhor Argumento por ter escrito 'The Usual Suspects’ em 1995, e que em anos recentes tem escrito muito para Tom Cruise. Valkyrie’ (2008), Jack Reacher (2012) e ‘Edge of Tomorrow’ (2014) todos ostentam argumentos seus, e com ‘Jack Reacher’ saltou também para a cadeira de realizador. A relação Cruise/McQuarrie parece estar a resultar e foi a pedido de Cruise que a Paramount trouxe McQuarrie para a saga, depois dos realizadores Brian dePalma, John Woo, J.J. Abrahams e Brad Bird. O que McQuarrie faz, com enorme destreza, é mergulhar de novo no universo da série original. Muito, mas muito facilmente, este é o filme mais fiel ao formato da série, desde o genérico inicial, à forma como se desenrola a trama e inclusive à forma como termina – se a missão acaba, não vale a pena maçar o espectador com mais filme. Há pouca necessidade de introduzir personagens (a maior parte já são conhecidas do público) portanto o filme foca-se numa aventura que é simples, directa, mas imbuída de cenas de tensão, acção e perseguição que, felizmente neste caso, não são gratuitas, mas vão construindo a história. Muito simplesmente, estamos a ver um episódio de duas horas da série.

Evita-se assim a trama demasiado intrincada do primeiro filme ou a construção lamecha do quarto. Já aprenderam que quanto mais se explica uma história de espionagem, mais facilmente o público vai detectar as falhas, mas se não se explicar nada, ou se a explicação for fraquinha (segundo filme) isso também é mau. Ocorre em ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ um meio-termo aceitável em que a história é inteligentemente (ou pelo menos suficientemente) explicada ao longo do caminho, por entre as cenas de acção (da boa!). E estas não existem por existir, por mais artísticas que sejam (recordemos os bailados de Woo para o segundo filme). Pelo contrário, na senda de J.J. Abrahams, tornaram-se cada vez mais bondescas e excitantes. Todos recordamos a escalada de Cruise no Dubai prédio acima. Aqui aumenta-se a parada. “Porque é que as stunts parecem reais?” perguntava um dos trailers. “Porque são reais!”, respondia logo a seguir. Aqui, quando na primeira cena, pré-créditos, Cruise se agarra ao lado de fora de um avião a levantar voo, ficamos siderados, porque sabemos que ele realmente fez isso, sem qualquer efeito especial. Isso é cinema! E ficamos tão absorvidos, que a maior parte dos espectadores nem reparará que a cena não faz grande sentido, já que Cruise ao escapar como o filme mostra iria parar ao aeroporto inimigo… Mas não interessa, a cena resulta visualmente e como entram os créditos com a icónica música de Lalo Schifrin logo a seguir, o público aplaude. Essa capacidade da espectacularidade visual se sobrepor à lógica da história sem causar mossa no espectador e no crítico repercute-se por todo o filme e é um dos seus maiores feitos.

Se no quarto filme a missão inicial corria mal e portanto “o governo negava o conhecimento das suas actividades” e a equipa da MI tinha que se desenrascar sozinha, aqui acontece uma artimanha semelhante. Ao receber as suas clássicas instruções em Londres (desta vez em vinil, como nos primórdios da série) Ethan Hunt vê que a gravação foi adulterada pelo misterioso Lane (uma fantástica interpretação de vilão do actor Sean Harris), o líder de uma misteriosa organização criminosa chamada ‘O Sindicato’. Lane mata o contacto de Ethan, e este é raptado e torturado. Mas conseguirá escapar, com ajuda da nova menina jeitosa da saga, Ilsa (a sueca Rebecca Ferguson que dá uma convincente profundidade ao papel), que até mesmo ao final não se percebe exactamente quem é e para que lado trabalha. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, o novo director da CIA (Alec Baldwin) culpa a equipa da MI de muitos problemas diplomáticos do passado (recordamos, por exemplo a explosão do Kremlin do quarto filme), o que faz com que a “ultrapassada e antiquada” secção de espionagem seja finalmente dissolvida e absorvida pela CIA. Uma manobra um pouco como se viu em recentes filmes de Bond. Recusando-se a “voltar para casa” e intento em tentar derrubar o misterioso Sindicato, Ethan torna-se um agente pária e desaparece de cena. A sua equipa é despromovida para trabalho de gabinete, incluindo o simpático Benji (Simmon Pegg continua o excelente escape cómico da saga), o possante Luther (Ving Rhames, o único actor para além de Cruise a entrar em todos os filmes da saga) e o mais adormecido Brand (Jeremy Renner, que foi introduzido no quarto filme para substituir Cruise, mas já que este não dá mostras de se retirar foi agora promovido a chefe da MI). 

Mas Ethan não vai ficar escondido por muito tempo e cedo reaparece cada vez mais próximo do Sindicato e do seu plano secreto e, com bons e maus no seu encalço, e sempre com a misteriosa Ilsa a aparecer no seu caminho, vai reactivar a velha equipa. De Cuba a Paris, de Viena a Marrocos, e com o clímax em Londres, cara a cara com Lane, o filme não abranda. Da perseguição de motas pelas auto-estradas de Marrocos, à cena intensa na Ópera de Viena, homenageando ‘The Man Who Knew Too Much’ (1956) de Hitchcock (mas desta vez com 3 snipers), ao clássico assalto a uma caixa forte super-protegida, desta vez com a particularidade de ser debaixo de água (mais uma excitante cena, mas que infelizmente é a única que teve que ser computadorizada), o filme atira-nos tudo o que consegue à cara e nós não nos importamos nada. Há neste filme uma enorme sensação de acaso que transparece para o espectador no desenrolar da história. Ethan Hunt não tem tempo para pensar à medida que os eventos se desenrolam e vai improvisando pelo caminho. A forma como o filme está escrito faz parecer que foi precisamente isso que aconteceu ao argumentista. Portanto o que o espectador recebe é uma sucessão incessante de cenas de acção que tentam colmatar o que corre mal nas anteriores, e essa imprevisibilidade impede o filme de se tornar desinteressante e batido. Já todos vimos inúmeros filmes deste género e até já vimos cenas semelhantes em filmes da MI (uma parecida perseguição de motas ocorreu no segundo filme…), mas aqui tudo soa a fresco e até ao plano final nem sequer temos tempo para respirar, tal como Ethan na cena subaquática.

Claro que há coisas que nos fazem revirar os olhos. A incessante comunicação em tempo real entre membros da equipa em várias partes do globo (agora já nem sequer vemos auriculares ou microfones) tornou-se vulgar nos actuais filmes de espionagem e soa sempre a falso por mais que se veja. Já no quarto filme tinha criticado a forma como, mesmo tornando-se fugitivos, mesmo perseguidos pelo seu próprio governo, Ethan e os restantes agentes conseguem sempre desencantar, sabe-se lá de onde, passaportes falsos, bilhetes de avião, bilhetes para eventos selectos, plantas de edifícios, a mais recente tecnologia, e internet infinita até no meio do deserto. No quarto filme ainda arranjaram uma desculpa para não aparecer a personagem da mulher de Ethan (Michelle Monaghan), centro do terceiro filme, mas aqui ela nem é referida. E alguém me explica como é que Benji, após supostamente ganhar num concurso bilhetes para a Ópera em Viena (na realidade é Ethan quem lhos envia) decide placidamente ir? É que ele está em Washington, um bocadinho longe diga-se! Por mais valioso que seja o bilhete da Ópera, deve custar umas vinte vezes menos que a passagem de avião! Não parece uma atitude credível, principalmente porque se dá a entender que ele acha mesmo que ganhou os bilhetes…

Mas para além destas e outras clássicas incongruências dos filmes de acção de teor mais familiar, a própria espectacularidade do filme ajuda a ultrapassá-las, e na realidade encontro pouco que possa criticar em ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’, tendo em conta o filme que é e quer ser. Tem adrenalina? Tem. Pode não ser tão artístico nas suas cenas de acção como o segundo filme, ou tão intenso como o terceiro, nem tão explosivo como os filmes de Michael Bay ou Jason Statham, mas energia não lhe falta. Tem emoção? Tem. Não a do género dramático (não é filme, nem tem actores, para isso), mas aquela associada ao suspense e à criatividade do entretenimento. Tem surpresas? Bem, algumas. O argumento é dos melhores de toda a saga, e só é previsível ocasionalmente, e para quem já leva muitos anos a ver filmes deste género. Por exemplo, sabemos que, sendo este um filme da MI, alguém vai usar uma daquelas clássicas máscaras para fingir que é outra pessoa. Às vezes o filme mostra isso ao público de antemão. Às vezes não, para oferecer uma surpresa ao espectador no final da cena. Aqui, pelo menos para mim, foi fácil de adivinhar essa surpresa, o que é sempre chato. E por fim, tem bons vilões? Dos melhores. Há um inevitável paralelismo à saga Bond, quer no vilão principal (Lane daria um excelente vilão Bond), quer nos capangas (por exemplo um mastodonte chamado ‘Bone Doctor’), mas isso permite maiores desafios para os nossos heróis, que é basicamente o que queremos ver, mesmo sabendo que vão todos sobreviver no final.

Tempos desesperados exigem medidas desesperadas’ é a tagline do filme. Com isto a saga da Missão Impossível quer ir ao limite da acção semi-realista que vimos em ‘Skyfall’ ou nos mais recentes filmes da Marvel. Mas fá-lo com carisma e com um enorme sentido de dever ao entretenimento da velha guarda. Cruise opta por se vender ao consumismo de outras formas (veja-se as produtoras associadas: a chinesa China Movie Chanel e a árabe Alibaba Pictures Group), mas nunca põe em causa o conteúdo do seu filme nem, mais importante que isso, a sua integridade como o actor de topo deste tipo de extravagâncias. Podemos acusar o filme de ser Hollywoodesco, incongruente e ‘apenas’ simpático entretenimento escapista com mais looks que brains, mas nunca podemos acusá-lo de não dar o melhor de si em toda e cada cena de acção, de não o fazer com dedicação, realmente e sem auxílio de um computador, e de não respeitar, cima de tudo, o espectador pagante, dando-lhe precisamente aquilo que pagou para ver. E até mais.

Como quinto filme de uma saga já dada como morta pela crítica mais que uma vez, se há filme que excede as expectativas é este. O cinema verdadeiro também pode surgir em filmes que não são dramáticos nem artísticos, e como está filmado, independentemente do conteúdo, ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ consegue ser cinema verdadeiro. E, independentemente da capacidade de actuação de Cruise e do desenvolvimento da personagem de Ethan (que admitamos não é muito) isso faz dele uma verdadeira estrela de cinema, ou melhor dizendo, de Hollywood. Stephen Whitty do Daily News diz sobre o filme: “This is what the 'Fast and Furious' movies want to be, and the Bond pictures used to.” Precisamente. ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ é um filme de acção/espionagem dos anos 1990 em pleno 2015. Fixe! Que mais se pode querer?

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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