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Morning Glory

Ano: 2010

Realizador: Roger Michell

Actores principais: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton

Duração: 107 min

Crítica: (Nota: Crítica escrita a 26 de Março de 2011. Inédita em EU SOU CINEMA)

‘Morning Glory’ (em português ‘Manhãs Gloriosas’) é uma daquelas comediazinhas românticas, “girinhas” e “fofinhas” (muito ‘inhas’, portanto) que existem aos magotes por esse cinema fora. Hoje em dia já não estão tão em voga como estiveram, por exemplo, nos anos noventa (tendo sido substituídas pelos dramazinhos românticos a la Nicholas Sparks), o que fez com que houvesse uma apelativa aura no trailer que despertou a minha curiosidade. Para além do mais, o filme parecia estar a tentar recuperar uma química há muito perdida; a da comédia romântica jornalística screwball, com diálogos hilariantes metralhados a ritmo frenético, e uma enorme química entre o par principal, que tão prolifera foi na era clássica de Hollywood em filmes como ‘His Girl Friday’ (1940). Por estes dois motivos, e pelo casal principal ser interpretado por dois gigantes da sétima arte, Harrison Ford e Diane Keaton, no seu primeiro filme em conjunto, eu e a minha namorada decidimos dar uma oportunidade a este filme (pois, porque sozinho nunca o veria...).

Infelizmente, foi o filme que não nos deu nenhuma oportunidade de o desfrutarmos. Fica completamente aquém de tudo aquilo que parecia prometer, o que foi uma gigantesca decepção. Não estávamos à espera que este fosse um filme para ganhar grandes prémios, mas não é preciso muito para uma comédia romântica resultar e entreter. Precisa apenas de fluir bem, possuir cenas engraçadas e que façam rir, ter uma química bem explorada entre o casal principal, e ser minimamente credível nas suas situações e no desenvolvimento das personagens para que nos possamos identificar com elas e verter um pouco dos nossos sonhos de romance nelas. Mas todas as oportunidades que ‘Morning Glory’ tem para fazer o visto em cada um destes pontos são desperdiçadas placidamente, sem que o filme tenha grande consciência disso. A história desenrola-se tranquilamente a um ritmo adequado, mas mantém-se sempre à tona da água, nunca mergulha, nunca explora nada. O que sobra é o que chamo de ‘filme-de-sábado-à-tarde’, que nos faz rir de quando em quando, que é facílimo de digerir, que entretém ligeiramente, mas quando se abana o produto, nota-se que ele é completamente oco.

Rachel McAdams, a namoradinha da América (mas que só me convenceu completamente em ‘Passion’, 2012), ficou com o papel principal quando a primeira escolha, Reese Witherspoon, desistiu. Ela interpreta Becky, uma jovem produtora de um programa da manhã de uma televisão de Nova Jersey. Uma completa workaholic (da forma engraçada ‘comédia romântica’ do costume, que não cola muito), ela vê a sua vida pessoal (leia-se amorosa) constantemente a sofrer por causa da sua devoção ao trabalho. Um belo dia, é despedida, mas nem ela nem o filme perdem tempo a ficarem muito preocupados ou desesperados com isso. Em duas cenas rápidas, Becky consegue um emprego bem melhor em Nova Iorque, após uma entrevista com Jerry (Jeff Goldblum, em piloto automático, para não dizer zombie). Jeff está desesperado para encontrar um novo produtor para o seu programa da manhã, ‘Daybreak’, um outrora famoso show que agora anda pelas ruas da amargura, com péssimas audiências e a um passo de ser cancelado pelo canal.

Os apresentadores do programa são a sempre energética Colleen (Dianne Keaton, que apesar de ser uma brilhante actriz dramática, também sabe, como uma mestre, não se levar a sério) e um outro senhor que não interessa nada para a história já que é rapidamente despedido por Becky, no primeiro de muitos actos para espevitar o programa e subir as audiências. O substituto que Becky decide contratar? Nada mais nada menos que Mike (Harrison Ford), numa interpretação que reflecte a personagem, que por sua vez reflecte o filme. Mike é um jornalista veterano e egocêntrico, outrora extremamente conceituado, que agora, mais velho, se acha demasiado bom para estar num mero programa da manhã, mas tem de aceitar por falta de melhores ofertas.

O filme usa esta premissa para se divertir um bocadinho às custas da dupla Keaton-Ford, principalmente quando Becky tem umas ideias bastante invulgares para tentar aumentar as audiências. Se estes momentos jornalísticos (estarem com animais do zoo por exemplo) são bastante engraçados e os dois actores demonstram mais uma vez as suas bem conhecidas veias cómicas, é de lamentar que fora deles, ou seja na ‘vida real’ do filme, haja uma fraquíssima ou quase inexistente interacção entre Keaton e Ford. Como é que é possível conseguir convencer estas duas lendas do cinema moderno a contracenarem numa comédia romântica (ambos impecáveis em termos de timing cómico), e depois só as pôr a interagir apenas duas ou três vezes ao longo de todo o filme? Incompreensível. Quando os seus ritmados e vibrantes duelos verbais enchem o filme atinge-se não só o brilhantismo cinematográfico, mas também os pontos mais altos de comédia que esta película tem para oferecer.

Infelizmente, acaba tudo demasiado depressa. Porquê? Porque o filme parece menos interessado no potencial da parelha Keaton-Ford (a parte ‘comédia’), e prefere manter o seu foco na personagem de Becky (a parte ‘romântica’). O filme é, como muitos outros do género, sobre a sua viagem de auto-descoberta; pessoal, emocional e romântica. Assistimos à sua luta diária para manter o programa de pé e as audiências no alto, porque é isso que alimenta a sua satisfação profissional e consequentemente pessoal. Assistimos ao desabrochar do seu novo romance com Adam (Patrick Wilson), literalmente o primeiro tipo jovem e bem parecido que encontra no novo estúdio (nada forçado…). Assistimos ao seu clash de personalidades com o Mike de Harrison Ford, que eventualmente acaba por se tornar uma espécie de figura paternal, numa relação de amor-ódio ao estilo de ‘cada um dá ao outro conselhos de vida e ambos aprendem, eventualmente, a ser pessoas melhores’. Aliás, a relação dentro e fora do trabalho ocorre muito mais entre Becky e Mike. A Colleen de Diane Keaton é quase um aparte irrelevante (mais um desequilíbrio que cai mal ao filme), embora admita-se que ver Keaton a dançar e a cantar com 50 Cent, numa das tais manobras publicitárias do programa, seja, no mínimo, invulgar e só por si já quase valha o preço do bilhete...

Paradoxalmente (ou não) são estes os elementos, que o filme considera apartes, que mais contribuem para lhe dar carácter. Os vários estados pelos quais Becky passa, esses já estão tão entranhados no imaginário do espectador que este quase dirá de cor o que vai acontecer a seguir. Claro que com as manobras publicitárias, e com o descobrir de cada um de como trabalhar em equipa e como maximizar o seu próprio potencial em parceria com os outros, as audiências vão melhorar e o programa vai tornar-se um sucesso. Claro que a relação de Becky com Adam vai eventualmente dar frutos mesmo com alguns contratempos pelo caminho, como o clássico desentendimento causado pelo seu vício no trabalho. Mas eventualmente Becky também perceberá que a vida é mais que isso. E o mesmo acontece com Ford. Claro que este dinossauro rabugento da velha guarda vai derreter, e tornar-se uma pessoa mais simpática, ajudando os outros, ajudando o programa e como não podia deixar de ser, a si próprio. A moral do filme não é nada dúbia, nem o modo como chega lá. O argumento original, da autoria de Aline Brosh McKenna (que vinha de escrever as comédias 'The Devil Wears Prada’, 2006, e ’27 Dresses’, 2008) é totalmente limpinho e bem aprumado, como quem diz, fecha tudo muito convenientemente, nada é deixado à imaginação, e tudo está bem quando acaba bem. 

‘Morning Glory’ chega-nos pela mão do realizador Roger Michell, que em 1999 fechou o milénio com uma das mais influentes comédias românticas da nossa geração: ‘Notting Hill’. Depois de quatro dramas, cada um com os seus motivos de destaque; ‘Changing Lanes’ (2002), 'The Mother’ (2003), 'Enduring Love’ (2004) e ‘Venus’ (2006), regressou ao género que o tornou famoso, mas desta vez fica-se pela superfície mais básica e mais simplória deste estilo cinematográfico. Talvez por a aposta ter sido perdida, os seus dois filmes seguintes até hoje regressaram ao drama romântico: ‘Hyde Park on Hudson’, 2012, e ‘Le Weekend’, 2013, que já critiquei. Mas em ‘Morning Glory’ o que vemos é um produto bem longe daquele género de cinema em que supostamente se inspira e que está a tentar homenagear, e são precisamente os toques de modernidade e a falta de mestria em conciliar a comédia e o romance com um argumento bem ritmado que deitam tudo a perder.

A sua fraqueza contudo, é simpática e perdoável, nada ofensiva para o espectador (reconhecemos em todas as cenas, as boas intenções dos envolvidos), e provavelmente afectará mais o crítico do que o espectador comum, e mais o cinéfilo que encontra o filme por acaso do que o casal apaixonado que o vê bem aconchegado. O facto de ser ‘fofinho’ e ‘girinho’ e ‘queridinho’ e solarengo e bem-disposto são claras vantagens para o produto de entretenimento simpático e leve que quer ser. Mas lamenta-se a falta de exploração da interessante ideia de base, a incapacidade do argumento de cativar e surpreender, e principalmente a ausência de mais química entre Harisson Ford e Dianne Keaton. As duas lendas satisfazem completamente os seus papéis, mas fazem-no separados um do outro. Michell bem que os poderia ter juntado em mais cenas. Isso é para mim o grande senão desta comédia. O outro é o facto de McAdams estar também bastante aquém de um papel que, nas mãos de uma velha lenda do screwball (Barbara Stanwyck, Katherine Hepburn, Jean Arthur) valeria ouro. Na sua interpretação da menina certinha americana, McAdams está perfeita para as mais vulgares cenas ocas que este filme contém. Mas claramente desaponta nas alturas em que a sua personagem tem que ser multifacetada e emocionalmente mais versátil, e desaponta ainda mais quando partilha a cena com Keaton ou Ford.

‘Morning Glory’ é uma comédia romântica que pela sua fonte de inspiração, pelo seu casting, pelo seu ambiente descontraído e por alguns momentos muito bem conseguidos, destramente evita ser má como muitas outras entradas contemporâneas do género. Mas daí até ser um bom filme ainda tem um enorme caminho para percorrer. Resta o entretenimento leve que dá, sempre com um sorriso. 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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