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Mandariinid

Ano: 2013

Realizador: Zaza Urushadze

Actores principais: Lembit Ulfsak, Elmo Nüganen, Giorgi Nakashidze

Duração: 87 min

Crítica: ‘Mandariinid’ (2013), em português com o título mais simples de pronunciar ‘Tangerinas’, é um daqueles filmes, tal como muitos portugueses, que internacionalmente tentam a sua sorte praticamente só em festivais, e só depois de serem bem-sucedidos nessas esferas é que acabam por chegar, muito lentamente, às mais vulgares salas de cinema. Datado já de 2013, este filme da Estónia tem a seu favor o facto de este ano ter sido um dos cinco nomeados para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar de ter perdido para o favorito ‘Ida’, isto não é coisa pouca. Portugal por exemplo, curiosamente (ou não) nunca conseguiu estar entre os cinco nomeados. Para além do mais, também foi nomeado para o Globo de Ouro e outros prémios americanos na mesma categoria, e arrecadou prémios de Melhor Filme em alguns festivais europeus como os de Bari, Jerusalém e claro, Tallin.

Esse impulso extra fez com que ‘Mandariinid’ ganhasse algum momento internacionalmente e esta semana estreia-se em Portugal, obviamente apenas em poucas salas de Lisboa e Porto. Ontem tive a felicidade de ganhar um bilhete para ir à ante-estreia deste filme, o quinto do realizador georgiano Zaza Urushadze (desconheço toda a sua obra – aliás, creio ser este o primeiro filme da Estónia que vejo em toda a minha vida), e cujo leque de actores era para mim também só um conjunto de nomes numa ficha técnica. Portanto foi sem qualquer contextualização que me sentei a ver o filme. E não encontro mal nenhum nisso. Porque assim podemos desfrutar do prazer da descoberta. E esse prazer é ainda melhor quando o filme vale a pena. Neste caso posso dizer com segurança que valeu a pena, muito embora o filme acabe por cair nas mesmas teias que caracterizam os ‘filmes-festival’. Há um conjunto de normas que os filmes obscuros de pequenos países têm de seguir se quiserem ser nomeados nos festivais internacionais (os portugueses recusam-se a acreditar nisso, mantendo a sua ‘integridade’, mas é verdade). E ‘Mandariinid’ vai de encontro, certo e seguro, de quase todas elas. Por exemplo, se o filme é exibido com legendas, então qual a necessidade do genérico, e do texto introdutório, serem em inglês? Consigo cheirar uma cópia de festival a metros de distância…

Por isso não se espera que este seja um filme artístico, com uma realização poética, característica de muito cinema independente europeu. Em vez disso temos um filme que formalmente está muito próximo das grandes produções, em termos de fotografia, enquadramentos e movimentos de câmara. Por exemplo, a câmara nunca está estática. Tem sempre um pequeno movimentozinho, nem que seja incrivelmente subtil. Por vezes é tão vagaroso que não se percebe porque é que não podiam ter simplesmente deixado a câmara parada. As normas modernas já não o permitem, embora num único plano o movimento tenha valido a pena (quando o extremo da câmara encontra uma pequena folha de árvore). Apesar do cepticismo inicial da sala onde me encontrava, com prognósticos como “o filme vai ser uma seca” ou “muito parado”, ‘Mandariinid’ está bem longe disso, misturando a sua história com uma mensagem poderosa a uma narrativa bem estruturada e vários momentos de escape humorístico. Tudo para manter o público confortável e esperar, dessa forma, que a mensagem consiga ser bem digerida e se propague.

Uma co-produção de várias instituições estatais georgianas e estónias, ‘Mandariinid’ abre com um genérico plácido com música a condizer (uma música que, diga-se, acaba por enervar já que é sempre a mesma ao longo de todo o filme). O texto inicial dá-nos o contexto da história, levando-nos à Geórgia dos anos 1990, durante a Guerra do Cáucaso. Numa terra dividida entre russos, chechenos e georgianos, os estónios vêm-se embrenhados num conflito que não é o seu, e a maior parte regressou já à sua terra natal. Mas alguns, por vários motivos, ainda ficaram. Quando vemos as primeiras imagens estamos na oficina de Ivo (uma grande interpretação de Lembit Ulfsak), um velho carpinteiro cujo trabalho é fazer caixas de madeira. Ele e o seu vizinho Margus (Elmo Nüganen) são dos últimos estónios ainda a viver numa zona rural da Geórgia. Isto porque Margus é dono de uma enorme plantação de tangerinas, que estão a poucos dias de ficar propícias para a colheita. Com Margus a colher as tangerinas e Ivo a fazer as caixas para as transportar, o objectivo destes dois homens é fazer a colheita, vender as tangerinas e assim regressar à Estónia para se juntarem às suas famílias que já partiram. Ou pelo menos é isto que Margus quer fazer. Ivo poderá ter outras razões para ficar.

Esta existência tranquila das primeiras cenas, enquadrada por belas paisagens e pelo vagar da vida do campo que a câmara capta de uma forma exímia, é quebrada com o aproximar da guerra. Um dia dá-se um confronto à porta da casa de Margus e todos os soldados morrem excepto dois, que ficam gravemente feridos: Ahmed, um mercenário checheno (Giorgi Nakashidze, mais um bom actor), e Niko (Misha Meskhi), um soldado georgiano. Ivo, com a paz de espírito que o caracteriza, leva os dois homens para sua casa, trata deles, e coloca-os em quartos separados. Ahmed é inicialmente impetuoso e dogmático, e as suas discussões com Ivo representam muito daquilo que são as perspectivas opostas do conflito. Niko está mais ferido e portanto mais combalido, mas também está caracterizado para representar o estereótipo do povo georgiano, que luta para revindicar a sua própria terra ancestral. Embora o objectivo último seja mostrar a inutilidade da guerra em geral e desta em particular, é interessante notar que, sendo este um filme estónio-georgiano, a escolha de representar o lado dos ‘invasores’ através de um mercenário checheno, sem ideologia geo-política, é bastante curiosa. É a desculpa ideal para assim se retratar apenas a perspectiva do estónio inocente e do georgiano ‘ocupado’, evitando assim fazer declarações que poderiam causar ondas internacionais. Uma manobra subtil, embora dúbia.

Ivo faz com que ambos prometam que, enquanto estão em convalescença sobre o seu tecto, nenhum tentará matar o outro. Ambos aquiescem e gera-se uma co-existência pontilhada de ódio e discussões, mas que desemboca inevitavelmente em auto-descoberta, à medida que os dias passam, eles vão recuperando, e o gelo entre ambos vai derretendo no dia-a-dia doméstico. O que se forma aqui é o clássico microcosmos de guerra, que admitamos não é propriamente novo. O filme bósnio ‘No Man’s Land’, que venceu o Óscar de melhor Filme Estrangeiro em 2001, em que dois homens de facções opostas ficavam presos na mesma trincheira, vem mais do que uma vez à memória. E podemos andar ainda mais para trás e recordar por exemplo ‘Hell in the Pacific’ (1968) em que um soldado americano e um japonês ficavam sozinhos numa ilha deserta durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui, a diferença é que o cenário é menos intenso. A guerra aproxima-se, sim, e o tempo urge, mas a existência deste canto no meio do nada continua na sua rotina cíclica; o apanhar das tangerinas durante o dia, as discussões sobre a vida, a morte e a guerra durante a noite, o inevitável aumento de compreensão mútua entre os lados opostos da barricada.

O filme contudo não é muito exímio a criar tensão. Tem dois pontos a que se agarra. O primeiro é a luta contra o tempo da apanha da tangerina, que só com dois homens parece uma tarefa impossível. O segundo é a constante antecipação do confronto físico entre os dois soldados, que repetem várias vezes “quando ficar bom saímos desta casa e eu vou-te matar”. O filme joga estes dois factores contra a aproximação da guerra, que é dada aos poucos; explosões ao longe, a chegada de alguns soldados, a eventual morte… Mas a antecipação destes eventos desenrola-se mais no subconsciente do espectador do que propriamente no ecrã. Em verdade, em termos de realidade fílmica, notamos que muito pouco se passa nas cenas que efectivamente nos são mostradas. A partir do momento em que os quatro estabilizam em casa de Ivo, por exemplo, nunca mais os vemos a apanhar tangerinas. Para quem está a lutar desesperadamente contra o tempo, conversam muito e comem muito e fumam muito, filosofando sobre a vida. Deduzimos que estamos a assistir apenas aos momentos de pausa no trabalho, a hora de almoço ou o fim de tarde, mas não é propriamente isso que o filme passa ao espectador. Podia, muito facilmente, ter intercalado mais destas cenas para que pudéssemos perceber o seu esforço. Afinal, estes homens precisam do dinheiro da venda das tangerinas para poderem começar uma nova vida na sua terra natal.

O mesmo se passa na relação entre os dois soldados dentro de casa. É mais aquilo que imaginamos, porque já vimos muitos filmes com situações semelhantes, do que propriamente aquilo que o filme nos dá. E o que dá, está cheio de artificialidade na forma como cria os momentos de tensão. Ahmed está muito menos ferido que Niko, por exemplo, mas estranhamente demora tanto tempo como ele a recuperar. Porquê? Claro, para poderem estar na mesma casa aquele tempo todo, a gerar faísca. Ou pelo menos, uns rosnares iniciais. Isto porque, como Ahmed é apenas um mercenário sem ideologia, muito mais facilmente consegue quebrar o gelo e ver o lado humano do seu adversário. Conseguiria vê-lo assim tão facilmente se fosse um russo? Não me parece.

E por fim temos a personagem central, a de Ivo, o idoso que põe a água na fervura cena após cena e tem sempre algo mordaz, incisivo, mas introspectivo a dizer sobre a condição humana e a situação em que se encontram. Não me interpretem mal, Ivo é uma grande personagem, mas não é ele também um mediador artificial? Nunca perde a compostura, sabe sempre o que dizer e desde o início parece que está a manipular os seus dois pacientes para que percebam a inutilidade da guerra e para que façam as pazes. É assim tão seguro de si quanto parece? As fragilidades de Ivo raramente vêm ao de cima e isso parece-me uma grande falha do filme, precisamente porque o filme fica mais rico quando elas aparecem.

Também achei o final demasiado anti-climático. A mensagem é clara, a futilidade dos conflitos entre os homens e, como não podia deixar de ser, a ponta de esperança para o filme acabar numa nota elevada. Mas não é a frase final de Ivo dita claramente para o público e não para a personagem que está ao seu lado? E mais, dita de propósito para o público de festival, que aplaude sempre as mensagens políticas e de anti-guerra, estejam em que filme estiverem? É a última machadada de ‘filme festival’ que ‘Mandariinid’ oferece, adequadíssima para ganhar os prémios baseados em mensagens sociais e geopolíticas, mas não tanto para fazer jus a um filme que tinha muito mais para oferecer.

‘Mandariinid’ pela sua história simples, directa, mas que consegue ser cativante e ter brevíssimas ramificações emocionais, pelas suas belas actuações, pela sua realização segura embora um pouco desinspirada e principalmente pelo conteúdo da sua mensagem, poderia ser facilmente considerado uma obra fortíssima de anti-guerra. Isto é, se nunca tivesse sido feito, e melhor, um filme deste género anteriormente. Mas como todos sabemos, já foi, e muitas vezes, por isso a mais valia de um filme destes fica um pouco mais difícil de discernir. Provavelmente nunca se fez um filme sobre este conflito em particular, mas se os valores que tenta transmitir são universais então esta especificidade de pouco conta. O filme teria de compensar com outras ideias que na realidade existem, mas não conseguem ser exploradas. A dualidade de Ivo (porque não quer partir para a Estónia) ou a dicotomia entre os dois pacientes, são dois exemplos de sentimentos chaves do filme que não têm um décimo da exploração que mereciam. E o mesmo se passa com as tangerinas. Elas dão o título ao filme, mas a meio deixam de aparecer e sequer de importar. Que lhes aconteceu? Conseguiram acabar a colheita? Não sabemos. O filme abandona as tangerinas como abandona tudo o resto em prol da sua mensagem, e mais valia chamar-se ‘Era uma vez na Geórgia’ ou até ‘Ivo’.

Portanto saímos de ‘Mandariinid’ com um sorriso por termos assistido a uma história inspiradora, com uma mensagem forte e verdadeira, e que é dada de uma forma consistente, sóbria, sem grande floreados nem lugares comuns, alguma nostalgia e bastante sarcasmo. Mas no fundo no fundo esse sorriso mascara a desilusão de não termos assistido a absolutamente nada de novo, a um tema mais que batido, a personagens que não saltaram da tela para nos tocar, porque existem para cumprir não as suas missões, mas as do realizador/argumentista.

‘Mandariinid’ é uma excelente oportunidade de ter um vislumbre de um cinema de leste que raramente chega a estas margens portuguesas (para mim foi uma estreia no cinema estónio-georgiano), e isso é óptimo porque se descobre como existe qualidade técnica e de actuação até nos cantos mais afastados da Europa. Mas no limite, o filme é feito pela sua mensagem, não para explorar a sua situação, ou as suas personagens. Acomoda-se na sua rotina e pouco se afasta dela, em termos de história e tom, e isso é a sua maior desvantagem. Mesmo assim, que não haja dúvidas. Na semana em que estreia ‘Terminator Genesis’ ou ‘Magic Mike XXL’, ‘Mandariinid’ é provavelmente a melhor coisa que se pode ver por estes dias num cinema português. Agora daí até ganhar prémios já vai um longo caminho, e mais uma vez o teor social ganha a batalha contra a qualidade cinematográfica intrínseca. Ao menos neste caso essa qualidade existe, o que é óptimo. Só faltava ter-se aventurado mais um bocadinho fora da sua zona de conforto…

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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