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L.A. Takedown

Ano: 1989

Realizador: Michael Mann

Actores principais: Scott Plank, Alex McArthur, Michael Rooker

Duração: 97 min

Crítica: Caro leitor, permita-me que lhe coloque uma pequena adivinha cinematográfica. Qual é o filme qual é ele que se parece com ‘Heat – Cidade Sob Pressão’ (1995), tem a mesma história de ‘Heat’, tem muitos dos diálogos de ‘Heat’, tem as mesmas personagens de ‘Heat’, mas não é ‘Heat’? A resposta, que só saberá quem for um cinéfilo dedicado, é nada mais nada menos que ‘L.A. Takedown’ (em português 'Justiceiro de Los Angeles'), um filme feito para a televisão datado de 1989. Segunda questão. Quem é o realizador/argumentista desta obra? Pois bem, nenhum outro senão o próprio Michael Mann, o realizador e argumentista de ‘Heat’!

Como escrevi na crítica de ‘Thief’ (1981), um dos meus filmes preferidos, considero Michael Mann um génio pouco aclamado do cinema neo-noir moderno, um “nome icónico do cinema policial, nocturno e urbano”, um “inovador no seu retrato ao mesmo tempo realista e artístico da metrópole apinhada de crime, de policias com vidas que não são heróicas”, e cujos “longos planos de carros, de luzes nocturnas reflectidas nos vidros, e de acção que é mais do que apenas fogo-de-vista, que é fria e crua e que tem causas e consequência tornaram-se uma imagem de marca que muitos tentaram imitar, sem conseguir”.

Com ‘Thief’, o seu primeiro filme, Mann atingiu um nível visual invejável, que manteria até hoje (‘Blackhat’, 2015). Com a série ‘Miami Vice’ (1984-1990) quebraria todas as convenções na forma de fazer televisão, que hoje tomamos como garantidas. Os seus ambientes impregnados de realismo, de acção ponderada e filmados com técnicas avant-gard (é o grande pioneiro/artista do cinema digital no século XXI) revelam um estilo único que não é tão aclamado como deveria pelo motivo mais simples do mundo: dramas de polícias são descartados muitas vezes como filmes ‘de acção’, e não são tão papa-prémios como dramas pessoais ou até dramas de gangsters. Mas é só olhar para a carreira de Mann para imediatamente reconhecer o seu génio. Veja-se a perfeição de ‘Thief’, a intensidade de ‘Manhunter’ (1986, o primeiro filme sobre Hannibal Lecter), o paradoxal realismo da fantasia de ‘Collateral’ (2004), a incrível mestria do remake cinematográfico de ‘Miami Vice’ (2006). E claro, veja-se o intocável ‘Heat’ (1995).

‘Heat’ é muito facilmente um dos melhores, senão o melhor filme de acção dos anos 1990 (e esta é uma época apinhada de filmes de acção e de investigação policial). Está na minha lista dos melhores filmes desta década e é presença recorrente nas listas de muito boa gente, de muitos livros/revistas da especialidade, e até, segundo se diz, do próprio FBI. Todos adoramos ‘Heat’, a sua intensidade, realismo e mestria visual, as cenas de acção de cortar a respiração, as electrizantes interpretações de DeNiro e Pacino. Mas uma coisa que muitos cinéfilos e apaixonados por ‘Heat’ não sabem (e até há uns anitos eu próprio não sabia) é que Michael Mann já tinha feito um ensaio para este filme seis anos antes.

No final dos anos 1980 as duas séries de polícias que Mann criara/produzia estavam a dar as últimas. ‘Miami Vice’ fora um sucesso e iria acabar após a sua quinta temporada. Já ‘Crime Story’ (1986-1988) fora menos bem-sucedido, e acabara de ser cancelada após a segunda temporada. ‘L.A. Takedown’, filmado em apenas 19 dias, surgiu nesta altura como um filme para a televisão que também poderia funcionar como o episódio piloto de uma nova série, que acabou por nunca ser feita. O argumento completo (que seria o de ‘Heat’) já tinha sido escrito por Mann no início da década de 1980, mas por vários motivos ainda não tinha visto a luz do dia. Quando finalmente se decidiu a fazer ‘L.A. Takedown’ Mann já tinha cortado mais de 100 páginas do argumento original (pode ouvir tudo da boca do próprio no documentário ‘Mann Made From LA Takedown To Heat’) e restringiu a história aos mínimos possíveis. Não fosse a sua ideia inspirada de pegar no argumento antigo e filmá-lo seis anos mais tarde (pelo meio fez o também interessante ‘Last of the Mohicans’, 1992, com Daniel Day-Lewis), ‘L.A. Takedown’ certamente estaria condenado ao esquecimento, uma tentativa de série falhada de um grande produtor e realizador. Mas porque ‘Heat’ existe, e é tão bom, ‘L.A. Takedown’ ganhou entretanto um estatuto lendário e de culto entre os fãs de Mann.

Basicamente ‘L.A. Takedown’ conta exactamente a mesma história de ‘Heat’. Mas fá-lo com muito menos recursos a todos os níveis. Os custos da produção são claramente inferiores, e embora seja maioritariamente filmado nas ruas de Los Angeles, nota-se a falta daqueles elementos, nos planos de câmara, nos backgrounds, nos adereços cénicos, que as grandes produções de Hollywood conseguem oferecer e que, por esta altura pelo menos, escapavam às produções televisivas. O que em ‘Heat’ é um gigantesco camião, aqui é uma carrinha. O que em ‘Heat’ é uma enorme infra-estrutura portuária, aqui é um pequeno centro comercial a céu aberto. O que é em ‘Heat’ é uma épica cena de perseguição que dura 20 minutos, aqui é uma troca de tiros de 2 minutos. Do mesmo modo, em 4:3, com som Mono e qualidade de imagem ‘televisiva’, estamos longe da sumptuosidade fotográfica e sonora que caracterizam as produções do grande ecrã de Mann.

Mas não deixe que nada disto o engane, caro leitor. Em termos de essência, ‘L.A. Takedown’ tem-na toda, mesmo que a qualidade da produção e dos actores não esteja à altura. Para além do mais, isto não é necessariamente mau. A qualidade de imagem ‘televisiva’, por exemplo, ajusta-se ao ambiente do filme, o ambiente das ruas cheias de criminosos, dos polícias que trabalham na noite, do jogo do gato e do rato entre os dois lados da lei. Aqui, tal como nos filmes mais sleezy de Cassavetes (eg. ‘The Killing of the Chinese Bookie’, 1976) não seria a mesma coisa se em vez de pontilhadas de grão, as cores do ecrã estivessem imaculadas. Perder-se-ia a urbanidade e o realismo. Assim sendo, quando logo na primeira cena vemos um detective a levantar-se pesadamente da cama numa manhã e a arrastar-se até ao chuveiro, parece que regressamos ao universo de ‘Miami Vice’, com musica eighties a condizer. Este detective podia ser o Sonny Crockett de Don Johnson. Mas neste caso é Vincent Hanna, interpretado por Scott Plank, que no início não parece grande coisa mas depois vai-se entranhando no espectador. E é curioso notar que algumas das entoações da sua voz são estranhamente familiares. Terá Al Pacino imitado a sua voz quando incarnou Hanna em ‘Heat’?!

Na cena dois cortamos para uma sequência de assalto, algo que Mann sabe filmar com uma mão atrás das costas. É muito menos imponente que a de ‘Heat’ claro, e muito menos explosiva que a maioria das séries modernas, mas possui a intensidade das melhores cenas de ‘Thief’ ou ‘Miami Vice’. Ou seja, nos anos 1980, não havia ninguém a fazer este tipo de cenas da mesma forma ou melhor que Mann. Um grupo de assaltantes mascarados, liderados por Patrick McLaren (o actor Alex McArthur) assalta um carro blindado para roubar uns títulos do tesouro. O gangue funciona como um relógio suíço, mas o seu elemento mais recente, Waingro (Xander Berkeley) gosta de violência e mata os polícias sem necessidade. Os ladrões fogem com o saque mas o assalto não foi tão limpo como desejariam, deixaram pistas e sangue de polícias, e portanto o jogo do gato e do rato entre polícias e ladrões, entre Hanna e McLaren, inicia-se.

De um lado, Hanna, apesar de ser talvez demasiado novo para ser credível como o líder de uma equipa policial (Pacino dá muito mais maturidade ao papel em ‘Heat’), inicia a sua investigação nos meandros do submundo, procurando chegar aos misteriosos assaltantes através de informadores e começando a juntar lentamente as peças do puzzle. Os contrapontos emocionais são dados através da relação com a sua mulher Lilly (a bela Ely Pouget), com quem desabafa, mostrando o mesmo lado do polícia-humano, que sente os horrores do seu trabalho apesar de estar viciado nele, que ‘Miami Vice’ mostrava episódio atrás de episódio.

Do outro lado, McLaren, depois de tentar matar Waingro sem sucesso por não ter seguido o plano e morto os polícias, sente que o ‘calor’ (heat) da polícia está demasiado perto, e portanto propõe aos seus outros dois companheiros um último grande assalto a um banco, antes de se retirarem. Ele próprio, que sempre manteve um low profile e nunca se relacionou com ninguém, depois de conhecer Eady (Laura Harrington) num restaurante, começa a imaginar uma vida com ela num qualquer paraíso fiscal. Mas para isso precisa de fazer o proverbial ‘one last job’. 

O clímax do filme ocorre no dia do assalto ao banco. As coisas parecem estar a correr bem para os assaltantes mas Waingro denuncia-os à polícia para se vingar e dá-se um showdown no local. Apenas McLaren consegue escapar e desaparece, tendo o caminho aberto para a liberdade. É só apanhar um avião com o seu passaporte falso ao final do dia. Mas Eadie descobre quem ele é e recusa-se a ir com ele. E ainda há o ajuste de contas com Waingro. Abandonará McLaren estes laços e apanhará o avião para a liberdade? Ou a sua necessidade dual, amorosa e de vingança, fá-lo-á manter-se em Los Angeles? E irá Hanna conseguir apanhá-lo a tempo? Tudo se encaminha para um segundo showdown, uma manobra ousada num filme tão curto, que só Mann podia levar avante com sucesso.

É difícil criticar ‘L.A. Takedown’ sem fazer o inevitável paralelismo a ‘Heat’. Algures alguém terá visto este filme na televisão, e sem dúvida ter-se-á sentido cativado pela humanidade destas personagens, pelos diálogos dinâmicos, pela beleza, simplicidade e frontalidade das cenas, pela intensidade das cenas de acção. Mas a maior parte das pessoas viu ‘Heat’ primeiro, tal como eu, um filme com F maiúsculo, com actores de topo, com enorme orçamento, e portanto injustamente se considera ‘L.A. Takedown’ como andar de cavalo para burro. Há a tentação de sentir a mesma coisa, por exemplo, quando se vê a versão de 1925 de ‘Ben-Hur’ que já critiquei. Tirando talvez alguns centenários, toda a gente viu a versão de 1959, que ganhou 11 Óscares, primeiro. Mas nesse caso, tal como no de ‘L.A. Takedown’, há muitos pontos a favor destes filmes originais, que os remakes tornaram muito melhores, é certo, mas nunca o poderiam ser se o original não fosse tão bem conseguido. Não se fazem omeletes sem ovos, e ‘Heat’ não seria tão bom se ‘L.A. Takedown’ não fosse totalmente satisfatório para um filme televisivo de baixo orçamento.

Admito que é bastante estranho ouvir as mesmas frases pronunciadas por actores claramente piores. De Niro e Pacino estão numa classe à parte e dão um novo sentido a todos os diálogos, mas Plank e McArthur, como disse, vão-se entranhando no espectador, e o facto do argumento ser realista, humano, incisivo e eficaz ajuda, ou seja, faz avançar a história ao mesmo tempo que dá profundidade emocional às personagens. Pois num produto como este isso tem que ser feito com enorme economia, e nesse sentido ‘L.A. Takedown’ tem notas máximas. A relação de Hanna com a esposa, por exemplo, feita através de breves cenas ao fim do dia em casa ou no bar onde esta trabalha, está brilhante, muito embora parcamente, retratada. A sua única discussão, na rua, tem frases que são usadas em ‘Heat’ ao longo de várias cenas. Esta eficácia para dar dimensão emocional às personagens é de louvar e permite mostrar o quão inteligente foi Mann quando resumiu o seu argumento. Mas também permite mostrar a mesma inteligência no argumento expandido.

Primeiro, em ‘Heat’ Mann faz ligeiras afinações, muitas vezes imperceptíveis. A palavra que um dos assaltantes repete constantemente como tique, por exemplo, e que mais tarde permitirá à polícia identificá-lo, é ‘slick’ e não ‘sport’ como em ‘L.A. Takedown’. Do mesmo modo, algumas frases transitam entre personagens de um filme para outro. Mas a verdadeira mestria de ‘Heat’ é a adição de elementos que enaltecem e levam ao épico toda a produção. Os exemplos mais berrantes estão nas construções das sequências de acção, mas não contribuem tanto para o sucesso de ‘Heat’, a meu ver, como as alterações a nível emocional. O Hanna de Pacino tem uma relação com a esposa muito mais esticada no tempo, e portanto vamos assistindo lentamente ao seu casamento a desintegrar-se por causa da sua devoção intensa ao trabalho. Ao mesmo tempo, a introdução de uma filha alheada (Natalie Portman) dá ainda mais profundidade à sua vertente humana. E o mesmo acontece na relação de McLaren com Eady. Em ‘L.A. Takedown’ ela descobre quem ele é vendo a notícia do seu assalto na televisão e simplesmente decide não fugir com ele. A partir daí o filme não mais a mostra. Em ‘Heat’ toda a sequência é muito mais forte e muito mais climática. E podemos dizer o mesmo da famosa cena em que Hanna e McLaren tomam um café como se fossem velhos amigos. Em ‘L.A. Takedown’ surge quase como um mero acaso, uma boa ideia pouco explorada. Em ‘Heat’ é todo o cerne do filme. A frase "não te afeições a nada nem ninguém que não possas largar em 30 segundos" é pronunciada por Hanna nesta conversa no café para descrever McLaren, e não, como em 'Heat', toda a filosofia de vida deste. Por fim, há várias personagens secundárias em ‘L.A. Takedown’ que apenas dizem meia dúzia de frases, mas que em ‘Heat’ constituem grandes e importantes sub-plots. É o exemplo dos problemas pessoais da personagem do parceiro de McLaren (Val Kilmer). 

Mas é curioso notar que a ausência destas personagens, destas cenas, desta exploração emocional, não afectam muito, por incrível que possa parecer, ‘L.A. Takedown’. Se ‘Heat’ não existisse, desconheceríamos que estas personagens secundárias teriam maior profundidade, desconheceríamos que a história teria mais ramificações, mas ficaríamos igualmente satisfeitos com o filme. Porque ‘L.A. Takedown’ está focado precisamente no ponto certo: na dualidade entre Hanna e McLaren. E foi essa chama que Mann manteve, de uma forma directa e cheia de intensidade, quando resumiu a sua história. Aqui conseguimos sentir tanto a sua força como em ‘Heat’, independentemente do que se está a passar à sua volta seja mais ou menos espectacular. A humanidade destas duas personagens, os seus motivos e o seu ‘drama’ mantêm-se e são o cerne deste pequeno trabalho televisivo. É portanto necessário reconhecer o talento especial de Mann para transformar uma história na outra e manter este fio contudo. E é isso que se torna ‘L.A. Takedown’ fascinante, para além de ser uma história espectacular, com elementos cénicos que se manteriam em 'Heat' sem tirar nem pôr.

Assim sendo, se ‘Heat’ não existisse, ‘L.A. Takedown’ poderia ficar facilmente na história como um dos melhores filmes de acção feitos directamente para a TV. Como existe, é muito mais fácil descortinar as falhas e as fraquezas de ‘L.A. Takedown’ e, do mesmo modo, porque os filmes e as séries televisivas avançaram tanto em termos de espectacularidade da acção no século XXI, este telefilme pode desapontar um pouco o fã moderno. Mas isso é o ponto que menos me preocupa.

‘L.A. Takedown’ tem o ambiente da série ‘Miami Vice’, a espectacularidade da história de ‘Heat’ e o olho para a composição de Michael Mann. Só isto já atesta a sua qualidade. Mas tem que fazer muito em pouco tempo e com mínimos recursos, e isso acaba por ser o seu maior problema. A essência está lá, mas a materialização não é feita em pleno. Portanto foi a melhor ideia da vida de Michael Mann produzir o épico completo, com actores de topo, poucos anos mais tarde. Saberia certamente que tinha ouro nas mãos e que para o concretizar na perfeição precisava de tempo, dinheiro e qualidade na produção. Por isso mesmo, se é para ficar a conhecer esta história só há um filme que se deve ver: ‘Heat’ (1995). ‘L.A. Takedown’ fica para os curiosos e os die-hard fãs de Mann, principalmente os do seu período ‘Miami Vice’.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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