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OSS 117: Rio ne répond plus

Ano: 2009

Realizador: Michel Hazanavicius

Actores principais: Jean Dujardin, Louise Monot, Rüdiger Vogler

Duração: 101 min

Crítica: O agente Hubert Bonisseur de la Bath, nome de código OSS 117, é uma criação do escritor francês Jean Bruce. O primeiro livro surgiu em 1949 por isso não deixe que a sigla o engane, caro leitor – OSS 117 precede o primeiro livro de 007 por exactamente quatro anos (interessante, não?!). Um primeiro filme foi feito nos anos 1950, ‘O.S.S. 117 n'est pas mort’ (1957), mas foi a meio dos anos 1960, depois do sucesso dos primeiros filmes de James Bond, e o trágico falecimento do próprio Bruce num acidente de automóvel, que os filmes de OSS 117 explodiram no mercado europeu. Mais para o mal do que para o bem, os filmes do OSS 117 foram parar às mãos do Eurospy – as co-produções franco-italianas spy-fi de baixo orçamento que fizeram as delícias do público na década do flower power. Entre 1963 e 1970 nada menos que 6 filmes foram feitos, sendo que o espião foi interpretado pelos praticamente esquecidos Kerwin Mathews (2 filmes), Frederick Stafford (2 filmes), Luc Merenda (1 filme) e o não tão esquecido John Gavin (1 filme). 

Felizmente, ao contrário da maior parte do espólio spy-fi dos anos 1960 (já critiquei ‘Our Man Flint’ ou ‘Ok Connery’ neste blog), os filmes de OSS 117 tinham um grande trunfo: não eram paródias. É como se estivéssemos a ver um filme de Bond, mas feito sem dinheiro e sem grande qualidade técnica. 'Niente rose per OSS 117' (1968), por exemplo, com John Gavin no papel principal, é uma mistela de vilões fracos, perseguições dengosas e miúdas giras (incluindo a gloriosa Luciana Paluzzi), mas com pouca ou nenhuma substância. Contudo, tem a aura daqueles policiais urbanos dos anos 1970, e talvez seja esse o motivo dos filmes terem sido tão bem sucedidos e terem conseguido propagar-se por tantas sequelas, ao contrário dos mais humorísticos spy-fi que ao fim do segundo filme morriam.

Os filmes de OSS 117 despediram-se em 1970, com ‘OSS 117 prend des vacances’ e durante 30 anos tornaram-se apenas uma memória de alguns cinéfilos dedicados ao spy-fi e ao eurospy, como eu. Mas no final do milénio surgiu uma pequenina coisa chamada Austin Powers (que também já critiquei) de estrondoso sucesso de bilheteira, e que recapturou a essência e o espírito de uma era do cinema há muito esquecida. Estou certo e seguro que terá sido o sucesso mundial de Austin Powers, e a subsequente revitalização da paródia de espionagem, que terá inspirado o regresso de OSS 117 ao cinema francês, desta vez esquecendo a seriedade e abraçando a comédia.

Hoje poderá surpreender o leitor descobrir quem esteve por detrás dessa revitalização. Os nomes do realizador Michel Hazanavicius e do actor Jean Dujardin são agora sobejamente conhecidos; ambos ganharam Óscares por ‘The Artist’ em 2011. ‘The Artist’ foi o seu terceiro filme em conjunto. Os dois primeiros foram precisamente as duas comédias do espião OSS 177, lançadas em 2006 e 2009. Quando se juntaram para fazer 'OSS 117: Le Caire, nid d'espions' (2006), Hazanavicius era um virtual desconhecido, apenas tendo feito filmes para a televisão e um único para o cinema, o esquecido ‘Mes Amis’ (1999). Já Dujardin havia começado a sua carreira no cinema francês nem meia dúzia de anos antes, e ainda não se tinha afirmado. Já se havia cruzado com Hazanavicius, contudo, em ‘Les Dalton’ (2004), filme que este havia escrito e em que Dujardin tinha um papel secundário. Talvez se tenham conhecido aqui, não sei, mas o que importa é que quando em 2006 se reencontraram para fazer 'OSS 117: Le Caire, nid d'espions' geraram uma enorme faísca. Se os filmes OSS 177 dos anos 1960 são películas de acção kitsch e de baixa qualidade, uma memória facilmente esquecida, já 'OSS 117: Le Caire, nid d'espions' (2006) é uma verdadeira obra-prima da comédia, uma genial paródia, e um dos filmes mais divertidos da primeira década do século XXI. Rivaliza facilmente com Austin Powers e é uma das entradas obrigatórias para rir a bom rir com espiões que o cinema moderno pode oferecer.

Eu tive a felicidade de, quase por mero acaso, descobrir este filme pouco depois do seu lançamento. Fascinado pelo spy-fi, como o leitor bem sabe, o filme despertou a minha curiosidade, mas nada me preparava para gostar tanto como acabei por gostar. Nunca tinha ouvido falar de Hazanavicius, muito menos de Dujardin, mas tomei nota de ambos os nomes. Fiquei fascinado, principalmente, pelo génio cómico de Jean Dujardin como o espião machão mas algo bronco e extremamente inconveniente. Foi portanto com interesse que recebi a notícia, três anos mais tarde, que o duo estava de regresso para a sequela: ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ (em português ‘Agente 117 Perdido no Rio’) – filme que, ou muito me engano, não foi lançado nos cinemas portugueses. Fui um dos primeiros na fila, no entanto, para o mercado caseiro mas infelizmente este segundo filme não fez o que lhe era pedido. Apesar de ter mais recursos à sua disposição e apesar de continuar a ter momentos de comédia absolutamente soberbos, não consegue fazer jus à reputação do primeiro filme e muito menos superá-lo, o que é uma grande decepção. Acontece o mesmo com Austin Powers. A novidade, a frescura e a irreverência está no primeiro filme. Depois é muito difícil livrar-se dessa sombra.

O primeiro filme passava-se nos anos 1950, no Egipto francês, no início da era de espionagem da guerra fria. A aura misteriosa do noir e os fantasmas da Segunda Guerra Mundial ainda estão bem presentes no ambiente do filme e na sua comédia, que se cinge principalmente ao Bond de Sean Connery (as semelhanças de Dujardin com Connery são notórias). Já ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ avança alguns anos no tempo até aos swinging sixties, e translada a sua acção até um Brasil imerso em flower power, bossa nova e calor. Dessa forma, o filme toma um tom muito mais despreocupado e fica muito mais livre para expandir a sua comédia, brincando com o universo do spy-fi e dos grandes espiões cómicos da década de 1960, como Matt Helm (a voz de Dean Martin enche a banda sonora) ou Derek Flint, e até com outras obras leves, coloridas e solarengas que também se fizeram por esta altura, como os filmes de Elvis. Nesse sentido ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ é uma deliciosa viagem no tempo para os fãs do género, em termos de guarda-roupa, cenários e enquadramentos, tal como Austin Powers havia sido. 

A sequência pré-genérico passa-se na Suíça, onde o irresistível mas algo lento de raciocínio espião OSS 117 salva o dia perante um monte de espiões chineses – daqueles que são extremamente competentes em tudo menos disparar tiros, falhando OSS 117 até a um metro de distância! Mais tarde, estes chineses irão também parar ao Brasil, tornando-se catalisadores de sequências engraçadas que funcionam como escapes da história principal. Tal como um bom filme de espiões, é depois do genérico o nosso herói recebe a missão a que se dedicará no resto do filme. A missão consiste em ir ao Brasil trocar uma larga quantia de dinheiro por um microship com informação extremamente valiosa – o nome de agentes Nazis em França (bla bla bla) que está na posse de um ex-Nazi, Professor Von Zimmel (o actor Rüdiger Vogler) refugiado na América do Sul.

Em termos de estrutura, este filme pouco difere do primeiro. Para começar OSS 117 é emparelhado com uma fascinante agente da Mossad, Dolorès Koulechov (interpretada pela belíssima Louise Monot) cujas roupas e corte de cabelo estão desenhados para a fazer parecer, curiosamente, a Bond-girl interpretada por Gemma Artenton no então mais recente filme de Bond: ‘Quantum of Solace’ (2008). Obviamente Dolorès é muito mais inteligente e tem muitas mais valências que OSS 117 e por isso no início detesta-o, bem como o seu machismo e a sua inconveniência. Mas inevitavelmente, com o decorrer da aventura, ela acaba por capitular ao seu charme infantil. Juntos, percorrem o Brasil de uma ponta à outra, perseguindo e sendo perseguidos (pelos chineses, pelos Nazis, e com americanos e israelitas ao barulho), enquanto prosseguem a sua busca pelo microship e desmantelam a rede de Nazis foragidos na América do Sul. Com a ajuda do filho hippie de Von Zimmel (Alex Lutz) a aventura leva-os do Rio de Janeiro até Brasília, daí até às maravilhosas cataratas de Iguaçu, e por fim o clímax, visualmente magnífico, ocorre de novo no Rio, em redor do Corcovado.

Um dos melhores aspectos que este filme contém é precisamente a filmagem de exteriores. A equipa viajou realmente para o Brasil para filmar, mas isso muitas vezes não é suficiente se o realizador não for talentoso. Neste filme, muito pelo contrário, Hazanavicius consegue captar na sua câmara toda a vibração do Brasil e toda a beleza dos locais escolhidos para pano de fundo desta história, sem que a existência das personagens em primeiro plano saia prejudicada. Neste filme, o espectador vai realmente para o Brasil com OSS 117, o que é óptimo. Assim sendo, consegui detectar também subtis homenagens a ‘Moonraker’ (1979), com Roger Moore, o único filme de James Bond filmado parcialmente no Brasil. Outras homenagens incluem, estranhamente, o filme de Lubitsch ‘To Be or Not to Be’ (1942) e algum Hitchcock (‘Vertigo’ e ‘North by Nortwest’). Digo estranhamente porque são referências fora do spy-fi e portanto fogem um pouco do enquadramento desta película. Mas porque a maioria até consegue ter a sua piada, são bem-vindas.

Isto porque no departamento das ‘cenas de partir o coco a rir’ este filme tem poucos momentos de génio. Quem se pode esquecer das magníficas piadas visuais do primeiro filme, aqueles momentos que para sempre ficarão registados nos anais do cinema? A cena hilariante da galinha e da luz é um baluarte da comédia. A cena em que Jean Dujardin toca guitarra num café do Cairo só por si valia todo o filme. Mas onde estão essas cenas icónicas na sequela?! Em vez do humor visual que tão bem resultou no primeiro filme, aqui recorre-se praticamente até à exaustão à piada falada, insistindo sempre na mesma tecla da estupidez e do humor seco e inconveniente de OSS 117, algo que para os fãs do primeiro filme é material mais do que gasto. Até a piada em flashback, que funciona brilhantemente no primeiro filme e que aqui é retomada, soa demasiado forçada, um mero repetir desinspirado de uma fórmula. No primeiro filme era novidade e a surpresa despertava uma torrente de riso. Aqui, como já conhecemos a gag, seria necessário criar um novo twist para proporcionar semelhante sensação. Mas tal twist não foi criado. Infelizmente, esta constatação pode aplicar-se a quase todo o filme.

Mesmo assim, ainda vão aparecendo momentos para mais tarde recordar e onde se pode dar uma valente risada, como a recorrente piada dos tiros (no final do filme os vilões ainda não conseguem acertar um raio de um tiro!), e a perseguição no Hospital, que é bem capaz de ser o momento de comédia mais icónico de todo este filme. Contudo a história acaba por ser demasiado vaga e demasiado desinteressante (uma desculpa para os pôr no Brasil a andar de um belo cenário para o outro) e os elementos que deviam suster o filme: as piadas visuais, os one-liners e a personalidade do espião trapalhão, bronco e convencido que salva o mundo sem saber como, são demasiado frouxos, uma repetição para pior e já não tão fresca do primeiro filme. Pedia-se mais humor visual, mais set-pieces de comédia e menos conversa. Pedia-se uma maior imaginação para oferecer uma sequela que não estivesse tão agarrada à fórmula do primeiro filme, mas sinceramente, que sequela não está? Este filme consegue ser engraçado, mas nunca assim tão engraçado, pelo menos como o primeiro filme era do primeiro ao último minuto. E é isso que o espectador mais lamenta.

Jean Dujardin contudo, permanece brilhante no seu retrato de OSS 117. O homem é puro génio cómico como raramente se vê no cinema (Chaplin, Lewis, Sellers, Martin) e as expressões no seu rosto são absolutamente impagáveis. Se o segundo filme funciona é porque é ele que interpreta o espião, e é uma enorme pena que o argumento não o deixe aplicar o humor visual que tantas risadas me proporcionou no primeiro filme. Quando vi pela primeira vez ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ em 2009 escrevi que iria “continuar a ver os filmes de OSS 177, desde que seja Jean Dujardin a interpretá-lo”. Por uns tempos, falou-se que iria ser feita mais uma sequela, e os rumores continuaram quando Dujardin e Hazanavicius se juntaram para começar as filmagens de um novo filme.

Mas esse filme, como o leitor bem sabe, foi ‘The Artist’. Por um lado isso foi bom, já que ‘The Artist’ é um óptimo filme e tornou famosos actor e realizador, mas foi mau no sentido em que essa fama inevitavelmente significa que nunca mais vão regressar ao género comédia/paródia, género esse que os senhores que dão prémios consideram brejeiro. Nem de propósito, o novo filme de Hazanavicius (sem Dujardin) é ‘The Search’ (2014) um drama na Chechnya, enquanto Dujardin tem rondado uma carreira Hollywoodesca que só a sua falta de destreza na língua inglesa tem evitado, mas mesmo em França tem-se ficado pelos filmes mais sérios. Foi a sua mestria cómica corporal que o permitiu ser tão convincente em ‘The Artist’ portanto é uma pena que se perca essa genialidade num actor que ainda tinha muito para dar à comédia.

Felizmente, para além de ‘The Artist’, há uma pérola que ninguém nos pode negar: 'OSS 117: Le Caire, nid d'espions' (2006). Genial. Já ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ (2009) esforça-se por recapturar essa chama mas na minha opinião não é muito bem conseguido. Quando o original é tão fascinante, a sequela vai sempre sofrer, por tão boa que seja, por causa da comparação. ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ padece desse mal, mas como ente isolado ainda tem licença para fazer rir. Dujardin e Hazanavicius provavelmente nunca farão um novo OSS 117, portanto ‘OSS 117: Rio ne répond plus’ ficará registado como o derradeiro e aquele em que pudemos sentir a magia do primeiro filme mais um bocadinho. Mesmo que tivesse sido só um cheirinho do primeiro já tinha valido a pena. Como foi um pouco mais, então ainda melhor.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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