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Un chien andalou

Ano: 1929

Realizador: Luis Buñuel

Actores principais: Pierre Batcheff, Simone Mareuil, Luis Buñuel

Duração: 16 min

Crítica:Era uma vez…” diz o primeiro intertítulo. No céu, uma nuvem trespassa a Lua, cortando-a ao meio. Num apartamento, um homem (o próprio Luis Buñuel) trespassa o olho de uma jovem com uma faca, num dos planos mais chocantes de toda a história do cinema. Assim começa ‘Un Chien Andalou’ (em português ‘O Cão Andaluz’) a obra surrealista por excelência do cinema mudo, realizada por Buñuel e Salvador Dali.

Hoje em dia talvez seja difícil de descrever o impacto dos 16 parcos minutos de ‘Un Chien Andalou’ na altura do seu lançamento. Hoje vemo-lo e ainda sentimos o terror da imagem inicial, marco do filme e do cinema mesmo 90 anos volvidos, sorrimos perante a sua anarquia, reflectimos sobre a filosofia dos seus planos, as eminentes metáforas, mas não ficamos talvez, inteiramente, surpreendidos, chocados. Apesar de tudo, nunca vimos obra semelhante é certo, mas já vimos tanto cinema herdado destas breves imagens que já ficamos dessensibilizados.

Em 1929 não era qualquer um que fazia um filme. Após 1960, com o surgimento das primeiras câmaras de uso pessoal, finalmente houve espaço para o aparecimento de curtas-metragens experimentais, amadoras, artísticas, como ‘Dog Star Man’ (1962) ou o iraniano ‘Khaneh siah ast’ (1963), que abririam caminho para outras formas de fazer cinema longe dos estúdios. Hoje em dia, qualquer pessoa com um Iphone e o Youtube consegue fazer e partilhar o seu próprio pedaço de cinema artístico. Mas raro é o exemplo daqueles que o fizeram pré-1960 e nesse sentido ‘Un Chien Andalou’ está 30 anos à frente do seu tempo. Por outro lado, está perfeitamente no seu tempo, visto que herda de todo o meio surrealista onde nasceu, e desta combinação improvável surge um incrível e vibrante pedaço de cinema. Curtas-metragens contemporâneas como ‘La petite marchande d'allumettes’ (1928) de Jean Renoir podiam ser mais poéticas, mas não deixavam de ter uma história linear e uma estrutura clássica. ‘Un Chien Andalou’, destramente, nega as regras da linguagem cinematográfica que existiam em vigor até então, por isso é efectivamente um ‘choque’, não só em termos de conteúdo, mas também em termos de forma. Aliás, poderá ser exactamente isso que o plano ousado da sequência inicial quererá dizer: “Esqueçam o que os vossos olhos viram até hoje. Vamos cortá-los para que possam abrir-se de novo, para esta outra realidade – a realidade surrealista – que vos oferecemos.

Espanhol de origem, Buñuel mudou-se para Paris em meados da década de 1920. Aí, trabalhou brevemente no cinema como assistente de realização e produção tornando-se familiarizado com o meio. Contudo, para a sua primeira curta-metragem como argumentista, produtor e realizador, iria procurar a independência e a liberdade para seguir as suas convicções, que a preciosa assistência financeira da sua própria mãe permitiu-lhe concretizar. Com a assistência criativa de Salvador Dali (está creditado como co-argumentista), Buñuel criou uma série de quadros sonhados que poderão (ou não) ter significado, e poderão (ou não) ter uma lógica racional. Digo “ou não” pois será o espectador, e não o crítico, que deverá tomar essa decisão por si numa obra como esta. 

Os enquadramentos sucedem-se, separados por intertítulos aparentemente ilógicos: “8 anos antes”, “6 anos depois”, “na Primavera”. Primeiro a sequência inicial do corte do olho. Depois um homem (Pierre Batchef) estranhamente vestido, anda de bicicleta na rua. Uma mulher (Simone Mareuil) lê um livro num quarto e, tendo um pressentimento, vai à janela para ver esse homem cair no passeio. Já no apartamento, o homem possui um buraco na palma da mão de onde saem milhares de formigas. Essa mão aparece no meio da rua. Uma outra mulher que a apanha é atropelada, sob o olhar pérfido do homem no apartamento. Depois, esse mesmo homem ataca a mulher, apalpando-a, e quando lhe toca nos seios estes transformam-se no seu rabo nu. A mulher foge e agarra numa raquete para se defender. Percorrendo a divisão para chegar até ela, o homem tem que puxar, com uma corda, dois grandes pianos. Os pianos contêm burros mortos em decomposição. De repente, dois padres (Salvador Dali um deles!) aparecem amarrados igualmente à corda (muitos livros da especialidade dizem que os burros se transformam em padres, mas há um plano em que se vê claramente os dois elementos a serem arrastados simultaneamente). À noite, o homem está na cama com de novo com as estranhas roupas, e um estranho entra pelo quarto, tira-lhe essas vestes, atira-as pela janela, e coloca-o de castigo contra a parede. Há um flashback. Dois livros transformam-se em duas armas. O estranho é alvejado no apartamento e quando cai ao chão afinal está num parque. É levado em braços por outros homens. De novo no apartamento o homem fica sem boca e a mulher sem pêlos no sovaco, que aparecem na barba do homem. Ela abre a porta do quarto e vai parar a uma praia. O homem já está lá à sua espera. Junto ao mar, encontram a roupa atirada pela janela. Passeiam. No final o casal, sob a forma de figuras de cartão, aparece meio enterrado na areia.

É isto uma história de amor? É uma crítica social? Ou é simplesmente um monte de imagens dispersas, que aparecem simplesmente para chocar, sem real significado? Quanto mais vezes vejo ‘Un Chien Andalou’ cada vez mais me convenço que a primeira opção é a correcta. Quanto mais velho e maduro me torno, mais tenho tendência para ler nas imagens claras metáforas da relação entre um casal; questões de fidelidade, sexualidade (mais aberta do que em qualquer filme de então), medos, desejos, fetiches e finalmente a felicidade. Não me parece que seja por acaso que, quando Buñuel sincronizou uma banda sonora instrumental definitiva para ‘Un Chien Andalou’ em 1960 (a que agora aparece no DVD do filme), tenha escolhido um tango argentino como peça central, um género carregado de energia e sensualidade. Todo o filme é um tango entre os seus dois protagonistas, um tango de várias ilusões, de emoções dadas e recebidas, de desejos contidos e explodidos que, graças à magia do cinema, se materializam. Quando os restantes cineastas queriam (ou tinham que) ser subtis na sua abordagem ao desejo, com innuendos destramente camuflados, Buñuel simplesmente limita-se a filmá-los, tornando o sonho, o desejo, o fetiche, elementos físicos na vida das personagens que, obviamente, não os estranham, pois são uma parte delas.

Da mesma forma, não me parece por acaso, também, a anarquia que o filme contém, que sentimos ser propositada e demasiado ostensiva. Num primeiro plano, é-o realmente, ao quebrar convenções fílmicas e revolucionar a estrutura narrativa. Hoje em dia, como disse em cima, o filme não surpreende tanto, embora, quase paradoxalmente, não seja datado – o seu estilo e brilhantismo artístico permanece e continua a cativar, tão fresco como qualquer obra contemporânea. Por outro lado, quando mais vezes se o vê, mais se encontra uma lógica sequencial nos eventos, mais se consegue ler nas entrelinhas o evoluir da relação, da história de amor se quisermos, entre o casal principal, desde a primeira premonição da mulher até à cena final na praia. E é inegável a forma como o filme guia o espectador por um espectro de emoções cuidadosamente construídas: o choque, o terror, o amor, a sexualidade explícita, o ódio e até a crítica social e religiosa (os padres arrastados às custas do homem e que o impedem de satisfazer o seu desejo sexual). Se fosse apenas a anarquia pela anarquia, tenho dúvidas que o filme se conseguisse construir desta forma tão exímia.

Ou seja, parece-me, na minha humilde opinião, que esta ostensiva anarquia esconde na realidade uma obra cuidadosamente planeada, plano a plano, sequência a sequência. O objectivo? Chocar, criticar, revolucionar mentes, obrigar a pensar, eliminar tabus. É famosa a história de que na estreia do filme em Paris, Buñuel encheu os bolsos de pedras para se precaver de qualquer eventualidade, receoso da reacção do público. Contudo, e talvez por essa capacidade que o espectador tem de ler nas imagens a história de um casal, apesar de todos os eventos ‘fora’ e da forma rica e explicitamente visual com que é contada, não houve uma reacção tão revolucionária por parte público como Buñuel esperava. Ficou satisfeito com o sucesso da película, que lhe abriu as portas para os mais altos círculos surrealistas da sociedade artística parisiense, mas não ficou satisfeito que o filme fosse tão bem aceite e não tão polémico como antevia. Por isso mesmo, Buñuel e Dali, antes de se chatearem um com o outro, ainda trabalharam em conjunto num segundo filme de uma hora, o não menos surpreendente, ‘L’Age D’Or’ (1930), muito mais incisivo e que, esse sim, abalou a estrutura da sociedade francesa como queriam que ‘Un Chien Andalou’ tivesse abalado. 

Buñuel teve uma carreira longa e diversa, indo parar ao México durante a Segunda Guerra Mundial, onde fez uma série de filmes como ‘Los Olvidados’ (1950) e depois voltou para França em plena Nouvelle Vague onde faria obras-mestras como ‘Belle de jour’ (1965), até ao seu último filme em 1977, ‘Cet obscur objet du désir’. Mas apesar de se ter tornado mais pausado e mais técnico na sua abordagem fílmica, nunca perdeu a sua irreverência, e o seu fascínio pelos temas basilares do surrealismo: a abertura da sexualidade, o desmascarar da fachada das convenções, a decomposição da essência dos relacionamentos, que nos trazem de volta à aura, rebelde e electrizante, que ‘Un Chien Andalou’ possui. Não faço ideia ao que Buñuel e Dali se referem quando intitulam a sua obra de “um cão andaluz”, mas para mim há uma ideia clara daquilo que o filme é, para além da sua capacidade de choque, para além da transposição dos princípios surrealistas para a sétima arte. É uma história de um relacionamento idilicamente realista, que bem poderá ser um parente afastado de ‘L’Atalante’ (1934) de Jean Vigo, que já critiquei nestas páginas, onde essa aparente contradição igualmente existe.

Por fim, ‘Un Chien Andalou’ é um marco por outra razão, nomeadamente a feliz coincidência, ou talvez a inspirada decisão, deste par de surrealistas espanhóis ter escolhido precisamente o meio fílmico para expor as suas ideias sobre a corrente surrealista. Isso não só tornou a sua mensagem muito mais forte do que seria em quadro ou em livro, como também contribuiu imenso para que a sétima arte expandisse os seus horizontes e quebrasse as suas barreiras, que influenciariam para sempre o cinema artístico e independente. ‘Un Chien Andalou’ são 16 minutos que não valem exactamente pelo seu argumento (embora haja aquela chama da essência do relacionamento numa sociedade presa pelas convenções), pelos seus actores ou até pela sua realização. Vale, acima de tudo, pela sua estética, não só a presente mas também a futura, aquela que deixa antever, aquela que preconiza. Nove décadas depois, é um filme que ainda não perdeu a sua irreverência, a sua capacidade de mexer com as emoções do espectador, e a sua panóplia de significados, tantos quantos espectadores. E se isso não constitui bom cinema, então não sei o que constituirá.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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