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Ikiru

Ano: 1952

Realizador: Akira Kurosawa

Actores principais: Takashi Shimura, Nobuo Kaneko, Shin'ichi Himori

Duração: 143 min

Crítica: ‘Ikiru’ (em português ‘Viver’) é um dos melhores filmes que eu já vi em toda a minha vida. Ponto final. Fim de crítica.

Bem, talvez seja melhor escrever mais qualquer coisa. ‘Ikiru’ foi praticamente um dos últimos filmes de Akira Kurosawa que eu vi, talvez porque não tenha tanto apelo para um público alargado e jovem como os seus filmes de samurais. Qualquer que seja o motivo, passou-me sempre ao lado, mesmo após ter visto e revisto filmes como ‘Ran’, ‘Rashomon’ ou ‘Seven Samurai’. Há uns cinco ou seis anos contudo, descobri que era o único filme de Kurosawa que constava do livro ‘1001 filmes para ver antes de morrer’, bem como de outras listas, que eu ainda não tinha visto. Ainda para mais, ao ler a sinopse, descobri que a sua personagem principal era um funcionário público de um departamento municipal de Planeamento Urbano. Eu próprio sou Planeador, o que despertou a minha curiosidade, curiosidade essa que já estava espicaçada pois eu por esta altura já tinha chegado ao óbvio: Kurosawa é um dos melhores realizadores que alguma vez existiu. Pois bem, vi o filme, na sua belíssima edição restaurada pelo British Film Insitute, e afectou-me profundamente. Escrevi na altura uma breve nota que dizia que este era “sem dúvida o filme mais puro que já vi, uma saga de um homem vulgar que nunca me abandonará o coração.

Claro que quando revemos um filme que já conhecemos, o impacto nunca é tão grande. Não sei se agora considero ‘Ikiru’ tão imaculado como quando o vi pela primeira vez, mas há coisas que nunca me abandonarão: o lirismo do filme, a mestria e delicadeza do retrato da personagem principal, a emotividade do final, a beleza de todo e cada plano, o seu significado abissal. ‘Ikiru’ é um daqueles filmes que nunca se esquece, pois não decoramos a sua história, decoramos as suas emoções. E por causa disso, todas as falhas que o filme possa ter são esquecidas. Passado um, dois, cinco, dez anos, já podemos nem saber a sequência das cenas ou a história do filme. Mas sabemos sempre, nunca olvidamos, aquilo que o filme nos deu ao coração; um dos melhores, senão o melhor retrato alguma vez filmado sobre o significado da vida.

Roger Ebert escreve no seu livro ‘The Great Movies’, que desde que o viu pela primeira vez, passou a ver ‘Ikiru’ mais ou menos de 5 em 5 anos, e à medida que foi ficando mais velho foi gostando e entendendo cada vez mais o filme. Acho que esse apelo do filme é universal, embora o público pouco habituado a ver cinema fora do mainstream possa ter alguma dificuldade em suportar as suas lentas 2h20min de duração. Mas se tiver um pouco de paciência, de repente vai sentir-se embrenhado na espiral emocional deste filme, brilhantemente construído, vai sentir um nó na garganta, e vai comover-se com este gigantesco monumento à sétima arte. Não fosse o seu realizador/argumentista um dos melhores que esta arte já teve, e cuja sublime essência atinge aqui o seu zénite, não obstante todas as obras-primas que faria posteriormente.

Em 1952 Kurosawa ainda não era propriamente um nome reconhecido internacionalmente. Havia começado a sua carreira no início da década de 1940, num dos períodos mais conturbados da história recente do Japão, com dramas de época e policiais noir. No final da década, com filmes como ‘Drunken Angel’ (1948) ou ‘Stray Dog’ (1949), Kurosawa já ganhara um enorme respeito no seu país. E foi em 1950, com ‘Rashomon’, um ‘noir com samurais’ que quebrou convenções de estrutura narrativa e fotografia como antes fizera ‘Citizen Kane’, que Kurosawa entrou de rompante na cena artística internacional. ‘Rashomon’ foi o grande vencedor do Festival de Veneza e ganhou um prémio honorário nos Óscares (quando ainda não havia o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro). Quatro anos mais tarde, Kurosawa faria aí sim, na minha acepção, o seu primeiro épico de samurais, ‘Seven Samurai’ (1954), que marcaria uma nova fase da sua carreira e o tornaria uma referência para toda uma nova geração de cineastas. Mas entre ‘Rashomon’ e ‘Seven Samurai’, entre o seu despertar internacional e o filme que o fez singrar, estão dois filmes que na altura, e até ainda hoje, não tiveram tanta atenção como mereciam - ‘Hakuchi’ (1951), baseado no romance ‘O Idiota’ de Dostoievski (cuja versão integral não sobreviveu – só o podemos ver numa versão fortemente cortada pelo estúdio, mas que não deixa de ser fascinante) e ‘Ikiru’.

Só por si ‘Ikiru’ é um filme fenomenal. Se pensarmos contudo que Kurosawa tinha 40 anos quando o filmou, é ainda mais surpreendente a forma como ele retrata os sentimentos do idoso, e a visão integral que tem da vida. Este fascínio com a essência da vida e com a terceira idade iria ser predominante em todos os filmes que Kurosawa iria fazer até ao final da sua carreira que não incluíram samurais, nomeadamente o fabuloso ‘Dersu Uzala’ (1975), ‘Rapsódia em Agosto’ (1991) ou a sua derradeira obra-prima ‘Madadayo’ (1993). ‘Ikiru’ é o big-bang de Kurosawa desta temática e está feito de uma forma tão perfeita que, na minha óptica, nunca foi superado, nem pelo próprio, nem por qualquer outro cineasta. Nem mesmo o fantástico ‘Make Way for Tomorrow’ (1937)  de Leo McCarey, nem o seu mais famoso remake que seria feito no ano seguinte também no Japão (provavelmente consequência de ‘Ikiru’): ‘Tokyo Story’ de Ozu. Porque há uma simplicidade pura em ‘Ikiru’ que os restantes filmes não contêm. Porque há uma verdade universal neste filme, para além da história, para além das personagens, para além da fotografia – que está na sua alma intangível – que desabrocha na perfeição quando começamos a assistir a este retrato comovente dos últimos seis meses de vida de um simples e anónimo funcionário público.

Na sequência inicial várias coisas são estabelecidas. Primeiro a personagem de Kanji Watanabe, interpretada com uma poderosa timidez e introspecção por Takashi Shimura (um ilustre actor secundário de 21 filmes de Kurosawa). Watanabe é o director do departamento de apoio ao cidadão do município, mas tal como é ilustrado, e a voz off subtil salienta, há mais de 30 anos não faz nada senão estar atrás da secretária a carimbar papéis e a submetê-los para outros departamentos. Mais tarde no filme, temos algumas explicações para a sua rotina apática; a sua mulher morreu jovem e ele teve de cuidar do filho sozinho, embrulhando-se num trabalho pelo qual nunca teve grande paixão para subsistir. Agora, o seu filho negligencia-o e está mais preocupado com o prémio de reforma que o pai estará para receber em breve, do que com a própria infelicidade do pai.

Segundo, nesta cena vemos também um conjunto de moradores a procurar sensibilizar os funcionários camarários para o problema do seu bairro degradado, que possui uma fossa ao ar livre com água impura e cheia de bichos. Querem que a Câmara construa lá um parque infantil. Numa sequência com os cortes clássicos de Kurosawa, e que é um ataque claro à burocracia municipal, começam e terminam no departamento de Watanabe, passando por todos os restantes departamentos pelo caminho. Em cada um deles são reencaminhados para o seguinte. Água impura é no departamento das águas. Parque novo é no departamento dos Parques. Resolver o problema da fossa é no departamento das obras públicas, ou no de saneamento. Etc, etc. De departamento em departamento não chegam a lado nenhum, e depois disto o filme abandona-os durante mais de uma hora, para se focar em Watanabe.

Nesse dia Watanabe vai ao médico e descobre que as dores que está a sentir são cancro do estômago, e que pouco mais vai ter que seis meses de vida. Desolado, sem amigos, sem poder depender da família, e sem qualquer alegria de viver, anda perdido pelas ruas de Tokyo. Durante uma hora, o filme parece perder-se com ele numa busca sem sentido por qualquer tipo de emoção, por qualquer vontade de vida. Primeiro há a longa sequência nocturna em que Watanabe se alia a um bêbado (“quero esbanjar o meu dinheiro, mas não sei como”, diz-lhe) e percorrem juntos os bares e as prostitutas. Depois, no dia seguinte, Watanabe agarra-se a uma jovem que trabalha na Câmara, comprando-lhe prendas, levando-a ao cinema e a jantar. Mas nenhuma destas coisas parece resultar. Não acha conforto nem na bebida nem nas prostitutas, e enquanto o seu companheiro se diverte, fica num canto a matutar sobre o significado de tudo, sobre como desperdiçou a sua vida. E a jovem a quem se alapa nos dias seguintes, primeiro tem pena mas cedo se farta dele, não lhe podendo dar nem o amor nem o companheirismo que ele necessita. Mas de repente, uma frase, uma ideia, fazem mudar tudo. Watanabe decide que tem de fazer uma coisa significativa na vida antes de morrer, e então toma a si a cruzada de construir o tal parque infantil.

Watanabe muda de rumo, e numa ousadíssima escolha estrutural, o filme também. O filme nega a cruzada de Watanabe, pois a partir do momento em que ele se decide a fazer isso, o filme corta para o seu funeral. Aí, há oportunidade para mais crítica social (pois os seus superiores ficam com os louros da construção, que está a ser louvada na imprensa), mas à medida que a noite avança, e os seus colegas de trabalho já beberam demasiado saqué, a verdade do que se passou, da batalha de Watanabe pelo parque, começa a vir ao de cima em flashbacks eficazes e poéticos…

A história do filme é bastante simples, mas a beleza com que é contada tem enormes ramificações emocionais, e um infinito significado. A escolha de contar o filme sempre do ponto de vista de outros (primeiro através da voz off, depois dos outros funcionários camarários, depois da família, depois do bêbado e da jovem, e por fim dos presentes no funeral) é brilhante, misturando uma realização directa, eficaz e poderosa com uma ponderação delicada de todos os aspectos da trama. O filme, admitamos, toma o seu tempo, principalmente durante a hora em que estagna para contar a odisseia de Watanabe com o bêbado e com a jovem. Mas só exteriormente é que o filme aparenta estar estagnado. Em cada cena, em cada momento, é só olhar para o rosto de Takashi Shimura, para termos o vislumbre da sua alma, e da forma como a solidão, o vazio, a falta de significado se vão apoderando dele. Poderosíssimos são os seus olhos suplicantes, carentes, ao longo de todo o filme. Poderosíssimo o facto de ele quase não mexer os lábios quando fala, e a forma como o faz sempre a medo, em sussurros, a voz saindo-lhe a custo e carregada de emoção. 

Quando, a noite avançada, ele canta uma canção no bar, todo o bar, e todos os espectadores, param para ouvir, com um nó no coração, tocados pelo sentimento das suas palavras. Diz a capa do DVD que possuo que Kurosawa pediu a Shimura para cantar “como se fosses um estranho num mundo onde ninguém acredita que existes”. Já muita gente cantou no cinema em momentos de grande emoção. Nunca como em ‘Ikiru’. Quase precisamos de chegar o ouvido para a frente para ouvir, mas aquela voz perfura-nos, despe-nos de todas as mentiras, de todas as coisas não importantes, para atingir o básico, o puro, o verdadeiro. Da mesma forma, no mais belo plano do filme, Watanabe senta-se no baloiço do recém-construído parque, a neve a cair docemente. Apenas baloiça, nada mais, cantando de novo, e nós percebemos tudo, pois apesar da sua usual apatia agora já não canta em desespero, canta com paz e serenidade.

‘Ikiru’ tem brilhante fotografia, brilhante design de produção, brilhantes actuações e brilhantes toques subtis de realização. Quando Watanabe sai da clínica todos os sons são abafados até que quase é atropelado por um camião. Aí todos os sons da rua regressam de repente, assustando quer Watanabe, quer o espectador, que estava a sentir o peso da má notícia. Quando Watanabe decide embarcar na sua cruzada, sai a correr de um restaurante, e numa mesa estão a cantar os parabéns. Mas só no final do plano é que vemos a miúda a quem estão a cantar. Até aí, da forma como a câmara está posicionada, quase parece que estão a cantar a Watanabe, ao seu, digamos, (re)nascimento. Destaca-se também a forma como a estrutura temporal do filme é oferecida; demorar meia hora numa única noite de desespero, e remeter a sua cruzada épica pela construção do parque infantil a meia dúzia de rápidos flashbacks. Creio que porque aí a personagem já estava (quase) redimida, e portanto não havia necessidade do filme se demorar neste ponto, que seria certamente o epicentro da história se fosse qualquer outro realizador a filmá-la.

Mas apesar desta virtuosidade técnica, que demonstra o quão bom realizador/artista era Kurosawa, não é isso que é importante salientar em ‘Ikiru’. Importa sim salientar aquilo que o filme inspira no espectador, aquilo que o filme respira com cada frame: a resposta à mais importante das questões, o significado da vida. Diz-se que Kurosawa fez o filme para expurgar os seus próprios demónios. Qualquer que seja o motivo, ‘Ikiru’ é uma obra tão pura que o seu apelo é universal. A subtileza é uma das suas armas. Nada é directamente mostrado. O espectador tem que tirar as suas próprias conclusões e verter no filme os seus próprios sentimentos. O realismo é a segunda. Não é por acaso que este é o único filme de Kurosawa em mais de 20 anos que não tem no elenco o seu famoso actor principal: Toshirô Mifune. Ele era um herói cinematográfico (foi-o em todos os filmes samurai de Kurosawa) mas Watanabe é uma pessoa bem real, por isso era necessário uma abordagem mais subtil, um actor mais discreto.

E não é por acaso que o final é de certo modo desmoralizador. Aqui está o segredo da estrutura do filme. Se mostrasse os eventos da perspectiva de Watanabe, Kurosawa estaria a demarcar uma posição inspiradora sobre o sentido da vida. Desta forma, Kurosawa deixa que o espectador interprete como quiser, e use as lições do filme como quiser. O filme é desmoralizador para quem fica, pois apesar de tudo o que aconteceu os seus colegas de trabalho não têm força para se redimirem e regressam à mesma rotina burocrática, à mesma teia de cinismo e fofoca e ociosidade. Mas não foi, nem de perto nem de longe, desmoralizador para Watanabe. É só vermos o plano do baloiço para perceber que ele se redimiu, que a sua vida foi salva. Agora, cabe ao espectador fazer a sua escolha. Roger Ebert escreve “I think this is one of the few movies that might actually be able to inspire someone to lead his or her life a little differently”. Concordo completamente. E é por isso que não há nenhum outro filme na história do cinema que se lhe compare.

Humilde e poderoso. Deprimente e inspirador. Ousado e contido. Puro e delicado. ‘Ikiru’ dá e nega, mas tudo tem um propósito. Constrói-se sem pressas para que possamos mergulhar nele e senti-lo, como se fosse a nossa própria história. Para o espectador moderno é um filme de ritmo lento, talvez em demasia. Mas as melhores coisas da vida são aquelas pelas quais vale a pena esperar. Talvez seja só por volta da 1h45min de duração que finalmente começamos a vislumbrar o segredo de ‘Ikiru’. Mas quando o fazemos não há volta atrás. Aliás, nem quereríamos. E daí até ao final do filme, até ao final da vida, ‘Ikiru’ comove e inspira, como poucos, como nenhum outro filme. ‘Ikiru’ é uma obra-prima, e o melhor filme que Kurosawa alguma vez fez. Obrigado, sensei.

2 comentários:

  1. Segui sua dica e aluguei Ikiru. Como uma cinéfila idosa, imagino me identificar facilmente com Watanabe. :-)

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  2. Acho que fez muito bem. Depois parti-lhe aqui o que achou do filme!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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