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Trilogia Austin Powers

Anos: 1997 / 1999 / 2002

Realizador: Jay Roach

Duração: 94 / 95 / 94 min

Actores principais: Mike Myers, Michael York, Elizabeth Hurley (1º filme), Heather Graham (2º filme), Beyoncé Knowles (3º filme)

Crítica: O leitor que me perdoe, mas quero começar esta crítica/crónica à trilogia de Austin Powers com dois gritos de guerra. Então com licença… Aqui vai… YEAH BABY YEAH!... GROOVY!... Obrigado, caro leitor. Agora que já tirei isto do meu sistema, pode continuar a ler.

Quem está familiarizado com estas páginas sabe bem que sou um apaixonado do género cinematográfico intitulado ‘spy-fi’. As críticas neste blog abundam, desde filmes, a crónicas, a tops. É um género de acção intensa (ou tão intensa quanto podia ser nos sixties), argumentos fantasiosos, espiões irresistíveis, vilões que querem dominar o mundo, miúdas sedutoras, e uma grande autoconsciência do quanto esta fantasia estava demasiado perto da caricatura. 

Mas o brilhantismo do spy-fi, no seu auge nos anos 1960, é que nunca realmente, salvo raras excepções, chegou a esse estado caricatural. Sarcasmo e ironia? Sim. Gozo dos lugares comuns? Também. Mas nunca uma aberta paródia. Os filmes seguiam uma fórmula inevitável, é certo, mas deslumbravam com o seu universo alternativo, um universo imbuído de uma despreocupada aura surreal, sexy e tão explosiva quanto a época (e os orçamentos baixíssimos) permitiam. Assim criava-se a ilusão cinematográfica do charme, das belas localizações, da boa vida e da aventura, mesmo estando conscientemente a roçar o kitsch. Há melhor? É a velha teoria do tão mau que se torna bom, sendo que neste caso não é assim tão mau quanto se possa pensar, o que torna a coisa ainda melhor.

Obviamente que é impossível levar a sério filmes como ‘Ok Connery’ ou ‘Our Man Flint’, mas é isso o que torna estes espiões, tal como Matt Helm ou Buldog Drummond, especiais. Bond ditava o ritmo e era mais sério, embora no final da década também tenha tido perfeita consciência dos limites que estava a cruzar (ver ‘On Her Majesty’s Secret Service’, 1969). Mas o verdadeiro spy-fi seguia de perto este rasto, brincando com os clichés o máximo que podia, mas sempre respeitando e nunca ofendendo o material de base, enrolando-se nos lugares comuns mas nunca se rebaixando ao ponto de os desprezar para fazer comédia. E foi por isso que estes filmes criaram um género de direito próprio, e é por isso que são tão bem amados por uma cambada de totós como eu. 

Para os fãs, o spy-fi parecia destinado a ser uma relíquia cinematográfica dos anos 1960, um género que tinha tido a sua altura, e que depois tinha morrido, como por exemplo os spaghetti westerns (que derivaram dos westerns nos mesmos moldes que os spy-fi derivaram dos filmes de espiões). As comédias de espiões que se seguiram (e que hoje ainda existem) não são spy-fis, no verdadeiro sentido do termo. São apenas comédias, que por acaso têm espiões e que vão a James Bond buscar piadas fáceis. Definitivamente, depois dos anos 1960 não mais se viu spy-fi. Isto é, até ao ano de 1997, quando um comediante televisivo canadiano resgatou este género praticamente do esquecimento e concebeu o primeiro verdadeiro e genuíno spy-fi em mais de 30 anos. E pelo caminho, ainda teve tempo de fazer uma brilhante comédia, e um filme memorável. O nome desde comediante é Mike Myers, e o filme que fez foi Austin Powers: International Man of Mystery’ (em português ‘Austin Powers - O Agente Misterioso’).

Myers fez o seu nome como comediante de televisão na popular série ‘Saturday Night Live’. Como muitos comediantes desta série, Myers pegou na sua personagem mais popular, Wayne, e fez um filme. ‘Wayne's World’ (1992) tornou-se um sucesso de bilheteira, originando logo a sequela em 1993. Com sucesso como comediante e com bom crédito nos estúdios, Myers não ficou à sombra da bananeira. Como outros alumini de ‘Saturday Night Live’ poderia ter começado a fazer comédia atrás de comédia. Mas não o fez. Aproveitou a liberdade financeira para se dedicar a conceber a sua grande obra-prima, a sua grande personagem, emulando a sua paixão assumida, o spy-fi.

É este precisamente o elemento fulcral que logo se distingue em ‘Austin Powers’, esquecendo as piadas, esquecendo o humor, esquecendo o comercialismo. O que transparece imediatamente é a paixão. Estamos a falar de um filme que tinha muito pouco a seu favor: um orçamento ridículo de 17 milhões de dólares, um realizador estreante vindo do mundo da televisão (Jay Roach), um comediante (que por definição não podia ser um artista), como actor principal, e um argumento sem grande história, com pouca profundidade e uma grande simplicidade no seu humor. Mas o filme é uma pérola e a melhor homenagem que alguma vez se fez aos spy-fi. Como explicar este paradoxo?

Regressamos de novo à palavra ‘paixão’. Myers não está aqui a fazer uma comédia de espiões, não está aqui a parodiar só os clichés do agente secreto e dos vilões para obter gargalhadas. Isso já se tinha visto antes. O que Myers faz é apenas ligeiramente diferente, mas é suficiente para fazer toda a diferença. Myers está a parodiar os próprios filmes do spy-fi, reinventando-os para criar o seu produto original. E nota-se perfeitamente que Myers não se limitou a basear-se nos lugares comuns que existem no imaginário do público. Ele realmente viu estes filmes, como olhos de ver, tal como Mel Brooks havia feito outrora com outros géneros cinematográficos. Myers aborda James Bond (principalmente, pareceu-me, ‘Dr. No’, 1962; e ‘You Only Live Twice’, 1967), aborda ‘Deadlier Than the Male’ (1967), aborda os filmes de Flint (‘Our Man Flint’, 1966, e ‘In Like Flint’, 1967), aborda a série de ‘The Avengers’ e todas têm o tratamento simples mas eficaz da paródia comercial, sim, mas a paródia que é inteligente e que é sincera.

A grande arma do filme, obviamente, é o seu humor, um o humor que não agradará a todos os públicos, pois nunca é ostensivamente engraçado para gerar a gargalhada fácil. Ao mesmo tempo, não é um humor refinado e inteligente, para a peça ter a subtileza artística de uns ‘Monty Python’. Está na fina linha entre a piada seca e a surrealmente irreverente, balançando uma mescla de estilos, subtilmente inseridos nas cenas. O que quer que seja, a mim faz-me sempre, sempre sorrir  com a sua autoconsciência, mesmo que não me desate a rir com tudo. Portanto, sou da opinião que se o leitor se deixar levar pela contagiante energia deste filme, baixará instintivamente as defesas, e de repente estará a achar-lhe um piadão, mesmo que não perceba todas as referências. E, quem sabe, pode ser que de repente também dê por si a soltar expressões como ‘Yeah Baby Yeah!’

Mike Myers é o dínamo da película, e nunca abranda para apanhar o fôlego. Ele interpreta Austin Powers, um agente irresistível, não muito sexy mas cheio de mojo, que começa o filme a vibrar na psicadélica swinging London dos anos 1960. O seu némesis é o soberbo vilão Dr. Evil (feito à imagem do Blofeld de ‘You Only Live Twice’ interpretado por Donald Pleasance). Dr. Evil é mais uma vez interpretado por Mike Myers, e é esta luta entre os dois Myers, Austin e Dr. Evil, que alimenta toda a saga. Na sequência inicial, Dr. Evil, perseguido por Austin, foge para o espaço numa câmara de criogenização, para voltar um dia no futuro e conquistar o Mundo (muahahaha!!!). Austin aceita então igualmente entrar em hibernação gelada, para estar disponível no dia em que Dr. Evil decidir regressar. Tal ocorre trinta anos depois, nos anos 1990. Dr. Evil regressa  à Terra para reorganizar o seu império do mal, e Austin é descongelado pelo seu chefe (interpretado por Michael York) para o combater. E para o auxiliar, e também para o ajudar a adaptar-se aos nineties, é-lhe atribuído uma nova parceira, Vanessa, interpretada por Elizabeth Hurley, que aborda o papel com um misto de voluptuosidade e modéstia britânica (que não dura muito). Mas a história do filme, realmente, é o menos importante.

Quer se goste ou não do humor metralhado, ou do argumento superficial (o vilão quer dominar o mundo e pronto), a verdade é que há um enorme magnetismo nesta película. Para começar forma-se uma gigantesca afectividade em relação às personagens. Veja-se as cenas, por exemplo, em que Austin e Vanessa vão-se apaixonando (ao som de Burt Bacharach, mais uma subtil homenagem) – credíveis e naturais, mais até que as de muitos filmes românticos. Igualmente, o sorriso infantil do próprio Austin (por exemplo nas cenas do seu ‘enlarger’), que quase se pode dizer que é o sorriso do próprio Myers a conter-se para não estragar a cena, abraça o público numa enorme familiaridade. Depois há a frenética explosão de cor e energia cativante que todo o filme contém; no design de produção, no guarda-roupa, no fabuloso genérico inicial, naquelas transições de cena em que parece que mergulhamos num videoclip dos Monkeys. Depois há os delicados pormenores; o capanga Mustafa (Will Farrell), a Powers-girl chamada Alotta Fagina (a actriz Fabiana Udenio), ou a maneira como Myers diz ‘judo chop’ antes de fazer qualquer golpe, etc, etc, etc. E por fim há Dr. Evil.

Dr. Evil é bem capaz de ser uma criação ainda melhor que a de Austin Powers. A sua estupidez e casmurrice, a sua total consciência de que é um vilão só porque sim, o seu plano estereotipado, as suas interacções com os capangas (que incluem interpretações de Seth Green, o seu filho, Robert Wagner, o seu nº 2, e Mindy Sterling, a sua assistente alemã) são absolutamente deliciosas. Quando o seu filho Scott diz para ele matar Austin já, em vez de lhe contar todo o plano, e Dr. Evil recusa veementemente, está aqui o óbvio dos filmes de espiões, mas que funciona como um momento forte de comédia sem necessariamente ter uma punchline. É um estilo que que se repercute por todo o filme. E os inesperados à partes (como os cortes para as famílias dos guardas depois de estes morrerem, ou a sequência fabulosa das frases entrecortadas) completam o quadro. São pormenores que juntos formam um todo muito melhor do que a estrutura superficial do filme deixava antever.

‘Austin Powers’ é apenas uma comédia, quiçá por vezes brejeira (por princípio não gosto de comédias que têm ‘humor de sanita’), mas consegue sempre resultar, porque tem energia, porque tem uma alegre inocência, e nunca é ofensiva (como nas cenas da nudeza escondida). Tem a despreocupação mas a qualidade suficiente para fazer sorrir sem ser superficial e, acima de tudo, para os fãs do spy-fi, consegue ir buscar toda essa maravilhosa aura e reproduzi-la fielmente. E como bónus, não se esquece dos juros respeitantes à evolução do cinema nos 30 anos que passaram. Austin ficou 30 anos congelado e teve que se adaptar aos anos 1990. O filme faz o mesmo em relação ao género do spy-fi. Depois dos anos 1960, ficou congelado, parado no tempo. Myers descongelou-o e adaptou-o, com brilhantismo, ao cinema cómico moderno. Sem dúvida alguma esta é a melhor homenagem de sempre a um extraordinário, mas sub-valorizado género da história do cinema. E se o leitor não encontrar valências em ‘Austin Powers’ ao menos este facto é inatacável, e digno de todo o mérito. É precisamente esse mérito que constitui o legado de Myers ao próprio cinema.

E se só existisse este filme, que pérola magnífica seria. Mas um sucesso nos tempos que correm nunca sobrevive sem a sequelinha. Dois anos depois, com um público mundial absolutamente rendido, maior orçamento, e maiores ambições, Myers e Austin Powers estavam de volta, em ‘Austin Powers: The Spy Who Shagged Me’ (1999, em português, Austin Powers: O Espião Irresistível).

No início, após mais uma sequência de créditos memorável, o filme parece satisfazer as suas promessas. A história arranca de uma forma fresca e dinâmica, carregadíssima de referências aos filmes clássicos do spy-fi. De salientar a referência a ‘In Like Flint’, a única referência directa a toda a trilogia, que surge quando Austin vê televisão no seu quarto de Hotel e diz “Hey, In Like Flint, my favorite movie”. Infelizmente, à medida que o tempo de filme vai passando, começa a sofrer da síndrome clássica das sequelas. Vai revertendo para o mesmo modelo, a mesma estrutura cénica e até as mesmas piadas do primeiro filme, aninhando-se nesse território confortável e não conseguindo contribuir com muito de original.

Neste segundo filme, Dr. Evil usa a sua máquina do tempo para regressar aos anos 1960, roubar a mojo de um Austin já criogenado, bem como umas ogivas nucleares, e exigir um resgate ao mundo e ao presidente americano (um kennedyzado Tim Robbins). Austin viaja igualmente no tempo para tentar deter Dr. Evil e recuperar a sua mojo. Tirando os twists inerentes às viagens no tempo (que principalmente no final do filme assumem maior destaque) as ramificações do argumento são quase todas semelhantes às do primeiro filme.

É a inevitável autoconsciência do material (que Myers ainda consegue manter com alguma frescura) que salva as inúmeras inconsistências do filme. Veja-se, para ilustrar este ponto, a cena mesmo antes de Austin ligar a máquina do tempo, em que Myers e Michael York falam directamente para a câmara, quebrando a quarta barreira, e dizem ao público para esquecer as óbvias incongruências espacio-temporais e desfrutar do filme. E o público faz precisamente isso, mas já não sabe tão bem quanto soube da primeira vez.

Uma das coisas que não gostei nada foi a forma como Elizabeth Hurley foi logo despachada na primeira cena. Achei algo ofensivo e insultuoso em relação ao primeiro filme, como se o estivessem a deitar fora para poderem fazer um remake mascarado de sequela. Contudo, há um raio de sol nesta escolha. Permite a introdução de uma das melhores personagens da saga, a agente Felicity Shagwell. Interpretada por Heather Graham, a lindíssima Heather Graham, esta personagem está absolutamente brutal: sexy, engraçada, irreverente, e numa cena, Ursula Andress! Ou melhor, quando tem oportunidades para se mostrar, o que não ocorre muitas vezes. Depois de surgir, e a história se estabelecer, acontece algo curioso. Quer ela, quer aliás Austin Powers, tornam-se um aparte. Porquê? Porque Myers decide divertir-se à grande e à francesa com as personagens de Dr. Evil, Fat Bastard (também interpretado por Myers com quilos de maquilhagem) e a inspirada adição do anão réplica de Dr. Evil, Mini-Mi (interpretado por Verne Troyer). O problema é que as cenas infinitas com estas personagens, apesar de serem engraçadas, são totalmente inconsequentes para a história. São enormes pausas argumentais, para andarem em círculos às costas do humor peculiar da trilogia, enquanto o ritmo contagiante de Austin Powers se perde...

Se o primeiro filme foi uma lufada de ar fresco, cómico, irreverente, e uma gigantesca homenagem aos spy-fi, este segundo vai-se sustendo a custo e no final já perdeu todo o gás. Não há aquela vibração groovy (embora se vá, literalmente, aos sixties) nem a mesma alegria cómica. Já conhecemos as personagens e as situações. Limitamo-nos a revisitá-las. É muito semelhante ao retorno de uma personagem conhecida a um novo sketch de comédia. Por mais engraçado que seja o sketch (e não nos enganemos, ‘The Spy Who Shagged Me’ é engraçado), e por mais diferentes que sejam as piadas, não deixam de saber a pouco, porque existem sempre no mesmo enquadramento. Neste filme ainda damos o desconto, pois gostamos imenso do primeiro filme e ainda vamos ao sabor da sua onda, ainda não enjoamos deste enquadramento, e adoramos Heather Graham. Mas é com tristeza que no final sentimos a chama de Austin Powers a apagar-se e tememos que não se consiga suster para um terceiro filme. Terceiro filme esse que realmente surgiu, três anos depois, confirmando os nossos piores receios.

Em 2002 surgiu então o último (até hoje) Austin Powers: ‘Austin Powers in Goldmember’ (em português ‘Austin Powers em Membro Dourado’). Mais uma vez o filme eleva a fasquia na sua sequência de abertura. A sua espectacularidade musical, explosiva e colorida, bem como as aparições especiais de Tom Cruise, Gwyneth Paltrow, Danny DeVito, Steven Spielberg ou Britney Spears, definem esta, sem qualquer sombra de dúvida, como como a melhor sequência de abertura de todos os Austin Powers (e quiçá de todo o cinema?!). Mas mais uma vez, depois de começar numa nota tão elevada, o filme desaponta, em termos de história e em termos de humor. Aliás, a própria cena de abertura, talvez inadvertidamente, já tinha revelado o que o filme iria ser: um enorme pedaço de comercialismo espectacular e bombástico, baseado em personagens /acontecimentos /piadas familiares e batidas.

A história, onde Dr. Evil usa de novo a sua máquina do tempo para ir aos anos 1970 raptar o pai de Austin e adicionar o vilão Goldmember à sua trupe, é a mais fraca dos três filmes e faz ainda menos sentido. Pior, nem se dão ao trabalho de tornarem a peça auto-consciente, como no segundo filme, nem, por exemplo, de eliminar a personagem de Graham, como haviam eliminado a de Hurley. Pior ainda é o filme já não ter aquelas surpreendentes referências, que imbuíam Austin Powers do espírito dos spy-fi, nem momentos cómicos únicos. As referências são principalmente aos próprios filmes anteriores de Austin Powers (e muito menos aos clássicos do spy-fi) e nota-se uma clara falta de inspiração nas piadas (a insistência na piada do ‘mole’, por exemplo, é patética).

E para terminar, Austin ainda é mais relegado para terceiro plano, enquanto o número de sequências com Dr. Evil, Mini Me, Fat Bastard e Goldmember (o quarto papel de Mike Myers neste filme) cresce e cresce e cresce, suportando todo o peso cómico e argumental do filme. Não medi, mas estou completamente seguro que Dr. Evil tem muito mais tempo de filme que Austin Powers, incluindo cantar músicas rap e ir ao Jerry Springer. Tem mais piada que Austin? Neste momento certamente que sim. Mas isto é suposto ser ou não ser uma aventura de Austin Powers? Em grande parte do filme, ‘Austin Powers in Goldmember’ parece um spin-off com a personagem de Dr. Evil. Se assim é devia-se ter chamado ‘Dr Evil and Goldmember’ ou algo do género.

Michael Caine é a escolha absolutamente perfeita para o pai de Austin (não consigo imaginar outra), dando um toque de classe que este filme carecia. Já Beyoncé, no seu primeiro papel no cinema, acaba por ser um eye-candy minimamente aceitável como a agente dos anos 1970 Foxxy Cleopatra (a whole lot of woman), e que acaba por ir para o futuro com Austin, tal como Felicity Shagwell havia feito. Do lado dos vilões, admito que gostei bastante da forma como o Scott de Seth Green evoluiu. Consegue sempre ser engraçado.

Mas no global, estamos a falar de um filme desinspirado e incoerente, quer nos twists, quer na evolução das personagens. Aquela sequência na Academia dos Espiões, um flashback para a adolescência de Austin e Dr. Evil, é péssima e não faz qualquer sentido, nem em termos do background das personagens que nos foi dado ao longo da trilogia, nem em termos dos próprios twists finais deste filme, tal como revelados por Michael Caine na cena climática a bordo do submarino de Dr. Evil. Basicamente, foram inventando factos sobre as personagens à medida que precisaram deles, deitando fora o que estava para trás. Exactamente o mesmo que haviam feito para tirar Elizabeth Hurley do caminho no segundo filme, que me tinha deixado um sabor amargo na boca.

‘Austin Powers in Goldmember’ acaba por ser aquilo que os críticos temiam que fosse o primeiro filme, mas que felizmente não foi: uma comédia banal baseada em clichés de espiões, que se prende na piada fácil (a piada das legendas é das poucas originais), e que se mexe com moleza e sem energia para cativar, entre breves picos de risadas. É um produto preguiçoso, que o pouco que resulta só resulta porque tem os filmes anteriores a fazer-lhe suporte. Não tem material para um filme: podia bem ser uma curta-metragem lançada junta com o filme seguinte de Myers, qualquer que ele fosse. Como está é uma capitalização banal dos dois filmes anteriores para completar a trilogia, vender uns bilhetes e dar ao público a oportunidade de rever as personagens que gosta e conhece, bem como uma carrada de cameos. Mas se o objectivo era esse, não era preciso fazer um filme novo. O público sempre pode comprar o DVD ou o Blu-ray do primeiro Austin Powers e reviver toda a sua magia cómica, toda a sua inspiração ‘spy-fi’, com uma qualidade tão pura que nunca deixará de surpreender. Quem mais poderia fazer comédia com o simples inverter de marcha de um carro futurista num corredor estreito?

Hoje em dia correm rumores que Mike Myers (que pouco cinema fez depois de Austin Powers, excepto dar voz a Shrek) está a preparar um ‘Austin Powers 4’. Não sei se é boa ideia. Mas hey, todos estão a fazê-lo, o Rocky, o Mad Max, os Dumb and Dumber. Nesta era moderna, o público já não se parece importar com a falta de originalidade, desde que veja personagens conhecidas. Mas a personagem de Austin é tão forte, e a irreverência do primeiro filme é tão grande, que tenho fortes esperanças que a década de permeio tenha sido tempo suficiente para Myers conceber novas surpresas e novos contornos para a sua personagem. Quem sabe, podemos voltar a sentir a magia do primeiro filme de novo, ou até, sentir uma magia completamente nova, que o segundo e o terceiro filme não nos trouxeram.

Fazer comédia boa e original é difícil. Criar uma personagem cinematográfica icónica e mundialmente reconhecida e relembrada, mesmo passado uma década, é hercúleo. E fazer isso ao mesmo tempo que se reaviva um género cinematográfico morto há 30 anos é inaudito. Mike Myers e o realizador Jay Roach (que iria de seguida fazer a trilogia 'Meet the Parents’), conseguiram fazer estas três coisas em ‘Austin Powers: International Man of Mystery’ e é isso que tem constantemente de ser louvado. As sequelas decambaram, como todas geralmente descambam, e o terceiro filme não deveria ter sido feito. Mas quando pensamos em Austin Powers não são esses aspectos negativos que recordamos. Recordamos sim a cor, a alegria, a jovialidade, a comédia irreverente e atrevida, o tratamento ternurento do spy-fi, e as personagens imbuídas de humanidade e naturalidade, o que faz alimentar ainda mais a sua chama cómica. Austin Powers, pelo menos o primeiro filme, é mais do que uma comédia de espiões. É a comédia de espiões. Não faz rir. Faz sorrir. E fica. É o spy-fi do século XXI, e está tudo dito. Ou quase tudo. Há sempre mais uma frase a dizer. Uma frase memorável, para estar nos rankings a par de “Rosebud” e “Nobody’s perfect”. Vá, digam comigo:

YEAH BABY YEAH!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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