Home » » TOP 10 – o Cinema e o Comboio

TOP 10 – o Cinema e o Comboio


As longas pernas de Adrien Brody a correrem em slow motion. Charles McGraw, o rosto cheio de suor, a empunhar uma pistola. Burt Lancaster, o rosto cheio de fuligem, a empunhar uma metralhadora. Albert Finney a encerar o seu bigode. Buster Keaton, mal se equilibrando na parte dianteira da ‘General’. Michael J. Fox, mal se equilibrando na dianteira de um DeLorean sobre carris. A bota de Charles Bronson a surgir matreiramente numa janela, segundos antes de um disparo inesperado. Duas Marias, uma Bardot e outra Moreau, a liderarem uma revolução. Fred MacMurray com um par de muletas, a fingir que é quem não é. Jon Voight abrindo os braços. River Phoenix, a fugir pelos vagões cheios de animais de circo, e a cair naquele que tem um leão… e um chicote!

Todas estas cenas têm em comum passarem-se num comboio. O comboio, o cavalo de ferro, uma pujante força criada pelo homem, um dragão sobre carris que se alimenta a fogo e cospe fumo. Visualmente é extraordinário, e o seu movimento intenso e seguro, o oscilar rítmico das suas roldanas, o rastilho de fumo que deixa para trás, enche cada plano, e a visão e a imaginação do espectador. Desde cedo, o cinema aprendeu a captar o poder do comboio. Nos primórdios da arte, era o meio de transporte por excelência, mas também estava associado ao género aventureiro, da exploração, do western. Um desbravador de caminhos, um formador de continentes e de nações, o cavalo de ferro não perdeu o seu carisma quando perdeu importância como meio de transporte. O western permitiu que sobrevivesse mas ao mesmo tempo o seu espaço confinado e a impossibilidade de alteração de percurso tornaram-se armas para criar suspense e tensão, que os melhores realizadores, de Ford a Hitchcock a Leone exploraram como ninguém. Mas há também uma outra aura, uma de exotismo, de tranquilidade, de descoberta, associada ao comboio. As partidas e as chegadas. As despedidas. As viagens por terras distantes. O rumo, certo e incerto. A vida.

Nos últimos dois anos o comboio ganhou uma maior importância na minha vida. Passei a grande parte do ano passado a fazer uma viagem de três horas, duas vezes por semana. Desde o início deste ano que faço uma viagem de uma hora, duas vezes ao dia. Inevitavelmente, sou recordado de todos os grandes momentos do cinema passados em comboios, e de todos os filmes que têm o comboio como o seu elemento cénico fulcral. É precisamente uma lista destes que apresento em seguida: grandes filmes, passados em comboios (ou seja, não se venham queixar que não está aqui o ‘Once Upon a Time in the West’, o ‘North by Northwest’ ou o ‘Zivot je cudo - A Vida é um Milagre' – têm grandes cenas em comboios, mas não são passados quase inteiramente neles!).


TOP 10 de 'Imagem Real'


1. Runnaway Train

Título em português: Comboio em Fuga 

Ano: 1985

Realizador: Andrey Konchalovskiy 

Actores Principais: Jon Voight, Eric Roberts, Rebecca De Mornay

Duração: 111 min

Num parágrafo: Baseado num argumento de Akira Kurosawa, este filme pouco recordado, centrado numa hipnotizante e animalesca performance de Jon Voight, constitui uma das melhores obras-primas que cinema americano pós moderno alguma vez produziu. É uma mistura arriscada mas perfeita entre o blockbuster e o arthouse, que  começa como um filme de acção dos anos 1980 e acaba como um dos maiores estudos da natureza humana jamais vistos, quando dois reclusos foragidos e uma vítima inocente ficam presos num comboio à deriva e a alta velocidade. CRÍTICA JÁ DISPONÍVEL!



2. The Narrow Margin

Título em portuguêsForças Secretas

Ano: 1952

Realizador: Richard Fleischer

Actores Principais: Charles McGraw, Marie Windsor, Jacqueline White 

Duração: 71 min

Num parágrafo: Um épico filme noir de série B, estimulante, dinâmico, viciante, que conta a história de um polícia que tem de levar uma testemunha de Chicago até Los Angeles, e evitar que ela seja morta por gangsters na longa e claustrofóbica viagem de comboio. Suficientemente esticado para ser estilizado, mas nunca perdendo a sua aura de realismo e urbanidade, o filme está imbuído de fortes actuações, frases como chicotes, trocas épicas de piropos, acção intensa e eventos que não deixam o público ir à superfície tomar ar. CRÍTICA JÁ DISPONÍVEL!



3. The General

Título em portuguêsPamplinas Maquinista

Ano: 1926

Realizador: Clyde Bruckman, Buster Keaton

Actores Principais: Buster Keaton, Marion Mack, Glen Cavender

Duração: 107 min

Num parágrafo: Tecnicamente magnífico, senão perfeito (Keaton o actor e Keaton o realizador no auge), este filme que conta a história de um pobre mas inventivo condutor de locomotiva que quer provar o seu valor à sua amada em plena Guerra Civil Americana, não é para mim uma comédia, como geralmente é tida, mas sim uma enorme aventura, com traços de comédia. Neste caso a comédia é sempre de situação, portanto nunca distrai da história/aventura bem construída (e que é servida pelas gags, não vice-versa), mas acaba por não ter o protagonismo, a meu ver, para ser completamente hilariante (daí preferir mais 'Sherlock Jr.', 1924)!



4. The Train

Título em portuguêsO Comboio

Ano: 1964

Realizador: John Frankenheimer

Actores Principais: Burt Lancaster, Paul Scofield, Jeanne Moreau

Duração: 133 min

Num parágrafo: Um filme de guerra extraordinário, sobre como os trabalhadores de uma estação de caminho de ferro francesa tentam impedir que os alemães façam partir um comboio carregado de obras de arte roubadas rumo a Berlim, nos últimos dias da Segunda Grande Guerra. Visualmente impactante, cheio de tensão, tão ritmado como o próprio comboio, com uma enorme sensação de realismo e sustido por um leque fabuloso de actores que sabem perfeitamente o que estão a fazer, o filme é um gigantesco pedaço de tudo o que há de bom no cinema. E como se isto não bastasse, Burt Lancaster está absolutamente soberbo.



5. Night Train to Munich


Título em português: Expresso de Munique

Ano: 1940

Realizador:  Carol Reed

Actores Principais: Margaret Lockwood, Rex Harrison, Paul Henreid

Duração: 95 min

Num parágrafo: O filme bem que poderia ser de Hitchcock, mas Reed, o realizador de 'The Third Man', dá o seu cunho pessoal a este magnífico clássico de guerra britânico, com o seu característico jogo de luz a preto e branco, uma dinâmica hipnotizante e algum humor negro que surrealmente resulta bem. Rex Harrison é um agente inglês que se infiltra como Nazi para tentar resgatar um cientista checoslovaco e a sua filha das garras dos alemães, num filme cujo clímax se passa a bordo, como o título indica, de um comboio rumo a Munique, onde também viajam os gloriosos Charters and Caldicott, que só querem voltar à 'Old Blighty' (ver 'The Lady Vanishes', em baixo, quase uma prequela deste filme). Um filme de 'aventura em tempo de guerra' perfeito, pelo o qual me apaixonei na adolescência.



6. Murder on the Orient Express

Título em portuguêsCrime no Expresso do Oriente

Ano: 1974

Realizador: Sidney Lumet

Actores Principais: Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman 

Duração: 128 min

Num parágrafo: Sem rodeios, o melhor filme baseado num romance de Agatha Christie alguma vez feito. Como um all-star cast (de Lauren Bacall a Sean Connery, de Ingrid Bergaman a Anthony Perkins), e o mais extraordinário Poirot da história (Albert Finney), esta adaptação do romance que retrata a morte com 12 punhaladas de um passageiro de um comboio, onde há precisamente 12 suspeitos, é um estudo cinematográfico 'inglês' até ao tutano, requintado, sumptuoso, e transbordando de charme e carisma. Pode não ser macabro ou denso (é um filme 'para a família') mas é o expoente máximo do whodunit comercial, e faz completamente jus à obra de base.



7. The Lady Vanishes

Título em portuguêsDesaparecida!

Ano: 1938

Realizador: Alfred Hitchcock

Actores Principais: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas 

Duração: 96 min

Num parágrafo: Uma das maiores obras, a par de '39 Steps', de Hitchcock na década de 1930, 'Lady Vanishes' mistura whodunit, com mistério, com espionagem, com a chamada de atenção à ascensão Nazi, que culminaria com o iniciar da Guerra um ano depois. Uma jovem socialite viaja pela Europa com as amigas e ao embarcar num comboio conhece uma senhora idosa. Momentos depois essa senhora desaparece e ninguém no comboio parece admitir que essa senhora alguma vez existiu. Com vilões com pouco mascarados sotaques alemães, um herói acidental (um jovem Michael Redgrave) e um escape cómico na dupla, criada para este filme, Charters and Caldicott (os actores Frank Launder e Sidney Gilliat), dois típicos ingleses no comboio que só querem chegar a Inglaterra a tempo de um jogo de críquete, 'Lady Vanishes', tal como 'Night Train to Munich', não é só um filme de aventuras, é um brilhante estudo psicológico (a paranóia no espaço confinado do comboio), pontilhado com romance, comédia e nazis a serem derrotados. Que mais se pode querer?



8. Union Pacific

Título em portuguêsAliança de Aço

Ano: 1939

Realizador: Cecil B. DeMille

Actores Principais: Barbara Stanwyck, Joel McCrea, Akim Tamiroff 

Duração: 135 min

Num parágrafoPopularizou-se dizer que o western passou de género menor do cinema a forma de arte em 1939 com o filme de Ford ‘Stagecoach’. Mas 1939 tem outro western seminal digno de registo, ‘Union Pacífic’ de Cecil B. DeMille. O homem que já fizera ‘Iron Horse’ foi dos primeiros realizadores a reconhecer que o comboio foi fulcral no desbravamento do continente norte americano, e que retratá-lo era retratar o próprio Oeste, a própria América e a própria alma dos homens e mulheres que a conquistaram. Este filme retrata a progressão da linha de ferro até à costa californiana, e da luta entre os homens que o estão a construir e o protegem, e os homens que querem impedi-lo de chegar ao seu destino. O contexto poderá ser maior que a soma das partes, e os dramas pessoais marinam por entre cenas de acção grandiosas e majestosas (à DeMille). E se Joel McCrea não é exactamente a arquétipa incarnação do herói do Oeste, a performance forte de Bárbara Stanwick como a filha do maquinista, e centro do triângulo amoroso que inclui o herói e o vilão, rouba o espectáculo e sustém-no.



9. Von Ryan's Express

Título em portuguêsO Expresso de Von Ryan

Ano: 1965

Realizador: Mark Robson

Actores Principais: Frank Sinatra, Trevor Howard, Raffaella Carrà 

Duração: 117 min

Num parágrafoO filme mais épico filmado da forma menos épica de sempre. Uma enorme, gigantesca, 'maior que a vida', set-piece de acção/tensão num ambiente de Segunda Guerra Mundial, que retrata a fuga de um conjunto de prisioneiros de guerra num comboio roubado, rumo à neutra Suiça. Mas se os eventos se sucedem a velocidade vertiginosa, e cada paragem, cada passagem por uma cidade, cada aproximação de uma patrulha, é um momento intenso, o filme peca por mostrar tudo com uma morna neutralidade, com uma montagem e planos de câmara pouco ousados e imaginativos. Para além do mais, no topo de um elenco forte está uma performance nada convincente (mais uma vez) de Frank Sinatra...



10. The Great Train Robbery

Título em portuguêsO Grande Assalto ao Comboio

Ano: 1903

Realizador: Edwin S. Porter 

Actores Principais: Gilbert M. 'Broncho Billy' Anderson, A.C. Abadie, George Barnes

Duração: 11 min

Num parágrafoNão é propriamente um filme passado num comboio (todas as regras, mesmo as minhas, têm excepções), mas seria difícil fazer esta lista sem este título. Esta curta de dez minutos feita no amanhecer do século XX, quando o cinema nem sequer gatinhava ainda, foi um quebra convenções. Aqui praticamente nasceu a imagem poderosa do comboio como elemento da ficção cinematográfica (os irmãos Lumiere já tinham provado o poder da locomotiva em 'L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat', 1986), testou-se a edição paralela, e mexeu-se pela primeira vez, realmente, com as emoções do público. O plano final, o disparo para a câmara, é famoso, mas o assalto ao comboio está imbuído da mesma intensidade. Bem vindo comboio. Bem vindo western. Bem vindo cinema.




Ilustres Suplentes:

'Shanghai Express' (1932), 'Sin nombre' (2009), 'The Darjeeling Limited' (2007), e também, porque não 'Source Code' (2011, o que é que anda Duncan Jones a fazer, que já não faz um filme desde este??)


Melhor Filme de 'Animação' (as opções eram quase inexistentes...)


11. The Polar Express

Título em portuguêsPolar Express

Ano: 2004

Realizador: Robert Zemeckis

Actores Principais: Tom Hanks, Chris Coppola, Michael Jeter 

Duração: 100 min

Num parágrafoEste filme de Natal de Robert Zemeckis não foi propriamente um sucesso de bilheteira, nem foi muito aceite pelos críticos, numa altura em que filmes inteiramente feitos em motion capture ainda não tinham sido completamente aceites pela comunidade cinematográfica. O filme, que retrata a viagem mágica de um miúdo no comboio polar até ao Pólo Norte para conhecer o Pai Natal, tem uma historia linear e previsível, e um tom que não se parece decidir entre o infantil, o inspirador e o mais dramático (até chega a ser assustador!). Com cantigas ao barulho e eventos de toda a espécie para ‘encher a viagem’, para mim a verdadeira riqueza do filme está menos na sua mensagem e na sua linha argumental (que admitamos, são fracos), mas mais na sua animação (que é soberba, digam o que disserem do CGI e do motion capture) e na performance central (em todos, ou quase todos, os papéis) de Tom Hanks. O take 2 de Zemeckis, ‘A Christmas Carol’ (2009), com Jim Carey, tem um argumento bem mais forte e é mais ousado, mas não sei se tem tanta pureza cinematográfica como tem este negligenciado ‘Polar Express’.




Outros filmes que ainda não vi, mas podem valer a pena:

'The Iron Horse' (1924), 'Transiberian' (2008); e será que o 'Snowpiercer', que estreou esta temporada, terá lugar nesta lista...?

0 comentários:

Enviar um comentário

Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

Vídeo do dia

Citação do dia

Top 10 Posts mais lidos de sempre

Com tecnologia do Blogger.

Read in your language

No facebook

Mais lido da semana

The Boss Baby

Ano: 2017 Realizador:  Tom McGrath Actores principais (voz): Alec Baldwin, Steve Buscemi, Jimmy Kimmel Duração: 97 min Crític...

Quem escreve

Quem escreve
Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

Visualizações

Seguidores Blogger

Seguidores Google+

 
Copyright © 2015 Eu Sou Cinema. Blogger Templates