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Une vague nouvelle: élégie de la beauté

A cidade ecoava e ela era uma sombra. O preto e o branco amador escoavam pela tela e ela contornava os carros. Um grito, duas palavras. Uma camisola, sem sutiã. O andar vago, o olhar matreiro. A tentação e o cabelo curto. O sorriso ondulado. O Herald Tribune era uma desculpa para diluir-se nas ruas de Paris. O Belmondo queria ser Bogart e balouçava o cigarro. E ia atrás dela. E foi. E fugiu. E perdeu-se. E passou horas fechado no apartamento. E a camisola continuava sem esconder que ela não tinha sutiã. E o cabelo curto não a tornava masculina mas sim feminina, feminina até ao tutano, até à traição, até à delicada forma de fazer vida, de ser vida, de aproveitar a vida. Era 1960, e estávamos em Paris. E o nome dela era Jean Seberg, e foi a primeira mulher fatal da Nouvelle Vague. Fatal não na personalidade, mas nos contornos. Fatal no cinema que mudava para sempre na mão de Godard. Fatal na doçura da voz, na tentação do corpo. Fatal na liberdade. Fatal na vida, que acabou por lhe ser fatal, quando a tirou a ela própria, dezanove anos mais tarde.


E então dois olhos dinamarqueses faiscaram o ecrã. Dois olhos bem abertos, profundos, poços infinitos de poesia trágica. E o homem da voz rouca empunhava constantemente a câmara em eterno namoro àqueles olhos. Não abandonava a cara que os olhos iluminavam, o rosto que tomava sentido e prestava vassalagem à chama que deles advinha. E os olhos olhavam em frente, respondendo ao apelo. E a magia contagiante possuía a câmara, invadia a celulóide, pressionava a bobina, derretia o projector, consumia o ar e atirava-se, à velocidade da luz, à alma embalada do espectador, semeando-se nela para sempre, em terno declínio de paixão. Ela sorria de esguelha, por cima da chávena, do cigarro, da espingarda. Ela traiu Belmondo de novo. Ela traiu-se. Ela queria um filho. Ela correu pelo museu. Ela dançou. Dançou no café. Dançou na floresta. Ela tinha uma linha de ancas e uma sorte trágica. Ela era uma deusa e os seus olhos conquistavam universos, levavam homens à perdição. O seu nome era Anna Karina, e cada vez que era filmada uma parte dela era-lhe roubada e dava vida à fita. Desvanecia no ecrã para dar vida ao filme e a nós, e a mim, ainda hoje, ainda agora. Era a sua sina.


Eis que um corpo surge tingido de luz vermelha, que muda para azul, que muda para amarela, que muda de novo para vermelha. Eis o corpo nu na cama, Eis o amor pelas partes do corpo. Eis as nádegas firmes e tentadoras. Eis o cabelo loiro revolto e emancipado, os lábios cheios. Da cama para o telhado e a beleza é sufocante, o calor inebriante, o cabelo ainda mostra o desprezo pelo que não é belo, pelo que não é etéreo. Nos anos 1950 Deus criou-a, Vadim moldou-a, mas em 1963 Brigitte Bardot ensinava ao Mundo o que é a sensualidade, o que é a perfeição dos contornos, o que é a insanidade da devoção à beleza inefável que pode surgir do conjugar dos genes, como um corpo pode explodir em criação para ser, somente ser, simplesmente ser, imaculado, perfeito, belo.


Ela era uma de duas que se encontraram em Rochefort. Ela vinha de Cherbourg. Ela corria na estação e cantava “Mon Amour”. Ela era a mais misteriosa, a que mais se escondia, a que menos deixava transparecer o segredo das suas emoções. Os lábios estavam sempre entreabertos, o sorriso era inocente. Os olhos perscrutavam, emocionavam-se. Ela mudava, ela era o camaleão de cabelos longos e loiros. Ela foi a terceira a trair Belmondo quando era sereia do Mississípi. Ela estava enfadada e tornou-se a bela do dia. Ela conquistou Rochefort, inundou a cidade de cor, música e dança. Ela era o ideal feminino, a conjugação perene da elegância, da altivez eterna que está nos píncaros mas que se derrete para balouçar a carteira de mansinho, e ser elevada em braços fortes somente para flutuar ao atravessar a rua ao som de Legrand. Ela é Delphine, Séverine, Geneviéve. Ela é Julie ou Marion, uma delas talvez, nenhuma, as duas. Mas será sempre Catherine, tal como nas férias em Portugal. Catherine Deneuve, deusa, musa, mulher.


E então o sorriso adolescente despoletou no ecrã. Não tinha mais que 24 anos esse sorriso. Os olhos brilhavam. Os cabelos lisos enquadravam o rosto. Maquilhava-se ao espelho. Encostava a cabeça ao ombro no cinema. Percorria a loja de discos. Cantava. Era a filha de Marx e da Coca Cola. Tinha o sorriso mais belo que alguma vez brindou a face da Terra. A Bardot falava na mesa ao lado. Era feminina e queria compreender o masculino de Léaud. Chantal Goya. Chantal Goya. Não uma actriz. Não uma cantora. Um primeiro amor. Um primeiro amor adolescente. A miúda que desejamos beijar pela primeira vez. A primeira que queremos fazer rir. A primeira a quem queremos dar a mão, com quem queremos passear, ir mais longe, conhecer os segredos, os contornos, fazer cócegas na barriga e descobrir vezes sem conta o sorriso a bel-prazer. Chantal Goya. Conheci-te em mil mulheres e continuo a querer-te, porque arrastas o puro da juventude contigo quando os anos passam. Continuo a querer-te, porque és a fonte da juventude, o elixir eterno que comove a chama do prazer, a irreverência do significado da juventude perdida e desperdiçada. Desperdiçada? Não, se a teus braços. Não, se for perdida contigo. Não, se te sentir, se conseguir desmascarar os teus dentes alvos com um sorriso. Não, se me deres a mão e aceitares sair comigo, e dar-te a mim, e perder-te na confiança da minha irreverência.


O telefone chama. Ela apela desesperada. Ele fica preso no elevador. Ela sofre. Ela trabalha com todos. É a musa de todos. De Bunuel a Godard. De Demy a Truffaut. Malle adora-a. Wells idolatra-a. Põe um bigode e corre pela ponte. Salta do Jules para o Jim. Do Jim para o Jules. A vida é para ser aproveitada, o amor sugado no momento presente. Está dentro do carro no momento fatal. Ela é a noiva. Sempre foi. Sempre será. A Uma Thurman não lhe chega aos calcanhares, nem ao dedo mindinho do pé, nem à ponta da unha. Ela é a criada. Ela é eterna. Ela é muito muito mais que uma beleza. Ela é uma actriz, superior a todas as outras da sua geração. Não era Bardot ou Karina, não derretia o mundo masculino com um gesto ou um olhar. Mas era Jeanne Moreau, e levava ao colo a arte do ecrã.


Ela era a segunda de duas que se encontraram em Rochefort. Ela beijou o Mundo com o seu encanto forte, a sua presença dominante, porque afinal era a mais velha das duas que se encontraram em Rochefort. Ela veio a Lisboa quando foi hospedeira para Truffaut. Mas nunca devia ter trocado o avião pelo carro. A sua chama vacilou quando o carro capotou, e 25 anos depois de ter nascido, faleceu. A sua dança com Gene Kelly em Rochefort, parcos meses antes, é imitada pelos anjos que a levam aos ombros, que pintam as nuvens com os contornos da sua beleza, do seu rosto. Ela encontrou o homem da sua vida na rua, e a paz na tela dançante. Era irmã da Catherine mas não era Deneuve. Era Dorléac, e o seu primeiro nome era Françoise. E estará sempre viva nas almas que se encantam em Rochefort ao sabor de Legrand, ao sabor dos dois corpos que vestidos de vermelho dançavam timidamente e cantavam a vida, as flores, os risos e os choros.

1 comentários:

  1. Mike, o texto está todo muito bem escrito. O primeiro paragrafo é sublime. Boa !

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Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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