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Thief

Ano: 1981

Realizador: Michael Mann

Actores principais: James Caan, Tuesday Weld, Willie Nelson

Duração: 122 min

Crítica: Vou começar sem rodeios. ‘Thief’ (1981), em português ‘O Ladrão Profissional’, é um filme espectacular. Se me permitem um corrido de adjectivos, é uma obra inteligente, artística, urbana, hipnotizante, ritmada, credível, com profundidade e uma valente lição de bom, incrível, Cinema. Mas ‘Thief’ é um completo e total desconhecido. E isso ultrapassa-me. Ultrapassa-me como um filme como este não faça parte do cânone do comum cinéfilo. Filmes como ‘Scarface’, por exemplo, feito apenas dois anos depois têm legiões de fãs, mas ‘Thief’ é apenas uma memória da anterior geração que o encontrou no cinema ou na televisão (é só ler as inúmeras entusiásticas críticas no imdb), ou então uma relíquia encontrada por pessoas como eu, que o procuraram por ser o filme de estreia de um então produtor e argumentista de series de TV, e que se tornaria um nome icónico do cinema policial, nocturno e urbano, e um dos nomes maiores do cinema das últimas duas décadas (senão para o Mundo, pelo menos para mim). Estou a falar, claro, de Michael Mann.

Mann começou por produzir séries de TV policiais nos anos 1970, e nos anos 1980 estaria ao leme de uma das series mais bem-sucedidas deste género (‘Miami Vice’). Mann foi inovador no seu retrato ao mesmo tempo realista e artístico da metrópole apinhada de crime, de policias com vidas que não são heróicas, e os seus longos planos de carros, de luzes nocturnas reflectidas nos vidros, e de acção que é mais do que apenas fogo-de-vista, que é fria e crua e que tem causas e consequências, tornaram-se uma imagem de marca que muitos tentaram imitar, sem conseguir. E o homem que iria realizar filmes como ‘Manhunter’ (1986), o magnifico ‘Heat’ (1995), ‘Collateral’ (2004), ‘Last of the Mohicans’ (1992, uma mudança surpreendente para o filme de época mas quem conhecer Mann e vir o filme irá compreender) e claro, o próprio remake de ‘Miami Vice’ (2006, um dos melhores filmes da década de 2000, para mim pelo menos), iria impregnar o seu primeiro filme, ‘Thief’, de todos estes elementos que tão bem o caracterizam e que definem a sua imagem cinematográfica. Em ‘Thief’, estes elementos estão em estado bruto. Poderão não estar tão eximiamente trabalhados como nos filmes acima citados, mas estão todos lá, na história, nos planos, nos sentimentos subjacentes, desabrochando no ecrã cena após cena, num espectáculo visual de qualidade invejável, e com uma intensidade dramática digna de registo e caracterizada por um pungente realismo.

James Caan (que também co-produziu o filme a par do futuro rei dos blockbusters, Jerry Bruckheimer, e do próprio Mann) é o ‘ladrão’. Seria suficiente dizer que este é o filme preferido de Cann de toda a sua carreira (e estamos a falar do homem que foi Sonny em ‘The Godfather’). Mas há motivos para isso. Ao contrário dos heróis de ‘Driver’ (1978) ou ‘Drive’ (2011, um filme que retira mais do que inspiração a estes dois filmes), o ladrão não é propriamente uma figura trágica e anti-heróica, de poucas palavras, não é um homem sem nome, um cavaleiro solitário, num universo nocturno estilizado. Em ‘Thief’, Caan interpreta Frank, uma figura bem real, num mundo bem real. Não é um herói, nem um anti-herói, é apenas um homem. Frank é um arrombador de cofres profissional, que havia estado mais de 10 anos na prisão. Agora, com 35 anos de idade, Frank faz golpes precisos, exímios, de risco moderado. O seu objectivo o usual, o mesmo do Carlito de Al Pacino em ‘Carlito’s Way’ (1992), chegar àquele montante, àquele valor, para se retirar, dizer adeus à vida do crime, assentar com uma mulher e tentar ter uma vida normal.

A cena inicial é clássica, um assalto, sem palavras, só tensão e acção. Os ambientes que Mann consegue criar associados a uma banda sonora etérea da banda Tangerine Dream estabelecem o ambiente do filme. E quando o assalto termina e Caan e o seu parceiro (interpretado por Jim Belushi) guiam calmamente para a segurança, os clássicos planos da perspectiva das rodas do carro e das luzes da cidade reflectida no vidro que Mann popularizaria na série ‘Miami Vice’, ajudam a embalar-nos definitivamente para o tom e para o significado do filme.

Mas algo corre mal com o passador que tenta vender os diamantes roubados. Após a venda, o passador é morto, e o dinheiro, que seria destinado a Caan é roubado. Caan vai então atrás de quem o fez e tropeça na maior rede mafiosa da cidade, encabeçada por um magnífico Robert Prosky, no seu primeiro filme (apesar dos seus 51 anos) e que eu até ver ‘Thief’ pela primeira vez só tinha visto em comédias dos anos 1990. Aqui está tudo menos cómico. É uma figura ameaçadora e rouba praticamente todas as cenas em que está. Prosky faz uma proposta a Caan. A de ir trabalhar para ele, fazer assaltos para ele. O risco é maior, mas a recompensa também. Caan tem que dar uma resposta em breve.

E é nesse momento que o filme, então sempre de ritmo acelerado, abranda e fica mais de 20 minutos em desenvolvimento de personagem. Mau? Nada disso. É um golpe de génio. Isto porque as interpretações são excelentes, o argumento está bem escrito (natural, verdadeiro, nada lamechas) e os planos continuam a roçar a perfeição. Não existem neste filme emoções estereotipadas ou compradas. É tudo fruto de uma crua realidade, de um intenso realismo. As interpretações são terra-a-terra, com a faísca da improvisação, e não precisam de ser exageradas, os diálogos são credíveis e naturais e o drama acaba por ser uma extensão das personagens, dando-lhes dimensão.

Primeiro vemos Caan a ir à prisão visitar o seu antigo companheiro, uma breve interpretação do cantor Willie Nelson. Nelson está a morrer e quer que Caan o tire da prisão. Depois vemos Caan a ir tomar café com uma empregada de mesa que conhece (interpretada pela lindíssima Tuesday Weld), a quem abre o coração e a quem conta o seu plano de vida. Quer uma sequência quer outra não nos fazem querer voltar à acção. Ambas puxam-nos ainda mais para as personagens.

Na primeira Nelson diz algo como ‘tenho angina qualquer coisa, estou a morrer, tira-me daqui’. A simplicidade do filme em assumir que não precisa de explicar qual é a doença de Nelson é meritória. ‘Angina qualquer coisa’ é a expressão que se usa. É um recluso. Que sabe de medicina? Não seria a cena bem mais artificial se ele descrevesse a sua doença? A doença não interessa, o que interessa é sair da prisão, para morrer fora. Só isso importa, morrer fora, morrer livre. Na segunda sequência, na do café, existe a mesma naturalidade, a mesma forma de mostrar as coisas. O ano passado falou-se muito da cena do café em ‘Silver Linnings Playbook’, mas era uma cena de argumento estereotipado com um propósito claro, exibir Lawrence. Em ‘Thief’ assistimos a uma conversa, ou melhor, praticamente a um monólogo de Caan sobre a sua vida e a sua experiência na prisão. Mas estamos a sugar cada palavra que ele está a dizer. E quando pede mais natas para o café a meio de uma frase, e depois a retoma, nem pestanejamos, porque é algo real, e estamos completamente agarrados para ouvir o resto da história. É praticamente a única cena de ‘desenvolvimento de personagem’. E o filme não precisa de mais. É maravilhosa. Não é à toa que Caan considera esta a melhor cena da sua carreira. Tem motivos para estar orgulhoso.

Por amar Weld, para precisar de dinheiro para subornar juristas para libertar Nelson e por querer chegar ao seu objectivo mais depressa para dizer adeus a esta vida, Caan aceita fazer um único assalto para os mafiosos, muito mais arriscado, mas com a possibilidade de ganhar uma quantidade de dinheiro como nunca sonhou. No início poderíamos ter pensado que ele era um solitário, mas não. Está ligado a Weld, está ligado a Nelson, que foi o seu único amigo na prisão. Irá fazer o trabalho para se salvar, não só a si mas também a eles. É o proverbial ‘one last job’, que tantos filmes de acção dos anos 1980 e 1990 tiveram, incluindo do próprio Mann. Tudo parece correr de vento em poupa, os mafiosos tratam-no bem, dão-lhe dinheiro, dão-lhe um bebé quando ele descobre que Weld não pode ter filhos. Tudo parece avançar demasiado rápido para o sonho. Mas claro, nem tudo será perfeito. A polícia corrupta (os únicos polícias que aparecem em todo o filme) começam a estar no seu encalço, e depois de uma épica cena de assalto o chefe dos mafiosos (numa cena hipnotizante de Prosky, excelentemente filmada) recusa-se a deixar Caan desaparecer do mapa e não fazer mais assaltos para ele. A sua família e os seus amigos são ameaçados. O sonho tão perto parece tornar-se num pesadelo. E é aí que Caan revela a sua natureza animal, instintiva, mas inevitavelmente humana e toma conta do assunto pelas próprias mãos, tal como muitos anti-heróis dos 1980 o fizeram e como Ryan Gosling iria fazer, imolando este filme, em ‘Drive’ (2011)… 

Tudo somado ‘Thief’ contém cena atrás de cena hipnotizante, de ritmo intenso, e de acção bem construída. A cena em que Prosky destrói o sonho de Caan é brilhante, e é logo seguida da cena em que Caan expulsa a mulher de casa, para a proteger, e para se preparar para a grande vingança. Não há cá diálogos lamechas, não há explicações. Na realidade o filme nunca as dá. A verdade é nua e crua, mas não é inteiramente fria. Porque por trás da sua superfície o filme tem sempre uma forte componente humana, mesmo que ela não seja atirada ao desbarato para a frente da câmara. O drama é sempre uma consequência dos actos das personagens e não vice-versa. O filme não embeleza, mas também não recorre ao cliché para mostrar a degradação física e humana. Neste mundo nada é fácil, mas não impossível, e quem luta tem mais hipóteses. É só ver o plano da cara de Caan quando completa o grande assalto, o suor e a sujidade no rosto, o ar de cansaço mas de satisfação, pois agora terá uma vida pela frente. Mas quando esse sonho se desfaz, os seus olhos praticamente se tornam baços. Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer.

O filme pode estar, na realidade, a focar-se num criminoso, mas nunca tenta fazer de Caan um herói, e isso é uma das suas maiores valências. O Frank de James Caan é um homem comum, e faz o que tem de fazer para ser feliz. O filme é sobre a sua jornada para esse objectivo. Pelo caminho tem pitadas de filme de assalto, de filme de mafiosos, de filme sobre a noite suja americana que tem pouco lustro, embora seja pontilhada de luzes, e muitos segredos. Mas também tem alguma esperança. É um filme com uma chama rara de humanidade. Nunca é belo, mas é sempre ritmado, completamente cativante e artístico. Não tão artificialmente artístico como ‘Drive’ (não há slow motions, por exemplo) mas tem aquela subtileza da fotografia a que Mann nos habituaria em toda a sua carreira.

‘Thief’ é o filme seminal sobre o ‘último grande roubo’. Caan tem a performance da sua vida. E a carreira de Michael Mann ficou definitivamente lançada. A única nomeação que este filme teve (ou pelo menos a única que figura no imdb) foi para a Palma D’Ouro. Que outro filme sobre um ladrão a fazer o ‘último grande roubo’ dos anos 1980 teve uma distinção semelhante? ‘Thief’ é bom, ‘Thief’ é muito bom, porque é sincero, credível e puxa-nos para o seu universo. E está à espera de ser (re)descoberto.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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