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Et Dieu... créa la femme

Ano: 1956

Realizador: Roger Vadim

Actores principais: Brigitte Bardot, Curd Jürgens, Jean-Louis Trintignant

Duração: 95 min

Crítica: Deus pode ter criado a mulher mas foi Roger Vadim que criou Brigitte Bardot. Estranhamente, também foi Bardot que ajudou a criar Vadim, um escritor/jornalista menor que no início da década de 1950 era também um aspirante cineasta. O homem que nas próximas décadas iria engravidar uma Catherine Deneuve de 19 anos, que iria casar com Jane Fonda e obrigá-la a ter orgias sexuais, e pelo caminho iria fazer um cinema de classe mediana e abertamente sexual e erótico (ver crítica de ‘Barbarella’, 1968), teve em Bardot a sua primeira musa cinematográfica.


Um dia, Vadim viu uma menina de 15 anos num anúncio de uma revista e ficou obcecado por ela. Esta menina, claro, era Bardot.  Vadim procurou-a, seduziu-a e pouco tempo depois tornaram-se amantes, o que causou grandes distúrbios com a família de Bardot e que levou a que a jovem menina tentasse suicidar-se.  Com 18 anos de idade, Bardot casaria com Vadim, tornando-se a sua primeira mulher. Logo de seguida, a sua carreira no cinema iniciou-se, mas Vadim nunca se mostrou satisfeito com os filmes que ela fazia. Ele achava que nenhum filme refletia convenientemente o carisma sexual de Bardot. Em vão, Vadim tentou vender a vários produtores a ideia de um filme em que Bardot fosse o epicentro erótico. Foi então que Vadim decidiu que ele próprio faria o filme. ‘Et Dieu... créa la femme’ tornou-se o filme de estreia de Vadim e, embora não tenha sido o primeiro filme de Bardot, na realidade é com se fosse. Após a estreia do filme, Bardot, de 22 anos, tornou-se uma sensação do dia para a noite, um irrefutável objecto de desejo, e um dos ícones sexuais (do cinema e não só) das décadas de 1950 e 1960.

Se muito disto se deve às qualidades intrínsecas da própria Bardot (não só corporais, mas também, com cada filme que foi fazendo, de actuação), grande parte do crédito tem de ser dado a Vadim, e à capacidade que tinha, não tanto de realização, mas de saber capitalizar como ninguém a natureza felina e sexual das suas actrizes. Fez o mesmo com Fonda em ‘Barbarella’. Como escrevi na critica a este filme “Durante 90 minutos, estou seguro que ninguém se lembrou de outra mulher, Bardot ou quem quer que seja”. Em ‘Et Dieu... créa la femme’, durante um hora e meia também ninguém se consegue lembrar que existe outra mulher no Mundo. Só existe Bardot, Bardot, Bardot. Uma verdadeira Lolita, Bardot é dona e senhora de todos os homens, quer os do filme, quer os da audiência. E isto é ainda mais brilhante por um motivo muito simples. O filme é, muito honestamente, fraco e pouco oferece de interesse. É um melodrama passado em St. Tropez, uma cidadezinha francesa à beira-mar, onde uma rapariga de espírito livre tenta encontrar o verdadeiro amor. Mas Bardot faz, pela sua mera presença, que ninguém se aperceba do quão fraco e desprovido de interesse o filme acaba por ser…

Para uma actriz tal nova é incrível a força que Bardot tem. Usa o seu corpo e a sua sexualidade como ninguém e o modo como faz cada plano em que entra gerar faísca e começar a arder (em sentido figurado – o ‘on fire’ dos ingleses!) torna o filme, só por isso, inesquecível. Mas ao mesmo tempo é incrível também como esta sensação passa para o espectador, já que o filme mostra, realmente, muito pouco de explicito, uma óbvia consequência da época em que foi feito. Vendo-o nos dias de hoje é por vezes difícil de acreditar o quão controverso foi este filme e porque é que foi banido em vários locais do globo. É a mesma razão pela qual uma mulher de bikini pode ser muito mais cativante e muito mais sexy que uma mulher nua, sem segredos, com tudo revelado. E é a mesma razão pela qual que ainda hoje os cinéfilos estremecem de prazer ao ver as interpretações de Garbo, Dietrich, Bacall ou Monroe e nunca as viram em trajes menores, e muito menos sem trajes ou em cenas de sexo, como é o pão nosso de cada dia nos tempos que correm. Havia uma qualidade inerente, uma corrente de subentendidos, uma cumplicidade entre os actores e os espectadores que os diálogos e os planos enfatizavam, e portanto não era preciso mostrar aquilo que o público podia imaginar, muito melhor, por si só. Vadim utilizou toda esta forma subtil de filmar cenas mais, digamos, ousadas, que já existia no cinema desde os anos 1920, mas deu-lhe um cunho pessoal e esticaria a corda como nunca antes, desbravando caminho para a abertura sexual que o cinema teria na década de 1960. Em ‘Et Dieu... créa la femme’ o inuendo sexual está sempre presente, mas nunca nada é mostrado, o que só torna o filme (pois o seu epicentro, Bardot, é credível e hipnotizante), em algo muito mais bem conseguido… pelo menos neste ponto em particular.

Bardot interpreta o papel de uma órfã que vive com uma família adoptiva em St. Tropez. Constantemente, inevitavelmente, tem sempre vários homens à volta dela, atrás dela, seguindo um padrão clássico neste tipo de histórias. Há dois homens mais relevantes. O primeiro um rico empresário, homem da vida, que não esconde o jogo, interpretado por Curd Jürgens, cujo papel mais reconhecível poderá ter sido o de vilão no filme de James Bond ‘The Spy Who Loved Me’ (1977). O segundo o rapaz pelo qual a personagem de Bardot está realmente apaixonada, Antoine (interpretado por Christian Marquand). Mas Bardot, nova como é e ciente dos seus dotes e da constante atenção que recebe, comporta-se sempre de uma forma muito livre e muito aberta em relação ao seu corpo e à sua sexualidade (talvez uma fachada) e portanto nunca mostra a Antoine que gosta dele, tratando-o como aos outros homens. Ao mesmo tempo, esta atitude faz com que ela seja alvo da inveja das outras mulheres da vila, que à boa forma das carpideiras de semelhantes vilas (como acontece por exemplo em ‘Malena’, 2000, de Tornatore), coscuvilham e espalham boatos falsos acerca dela.

Bardot brinca com os homens (é só ver a impactante cena inicial, ela sentada na relva) mas na realidade só quer um. Mas os seus planos e os seus sonhos são deitados por terra por dois motivos. Primeiro descobre que Antoine só está interessado nela para um ‘one night stand’. Depois, corre o risco de ser enviada de volta para o orfanato. Encurralada, ela decide casar com o irmão de Antoine, um homem muito menos excitante (interpretado por um muito jovem Jean-Louis Trintignant, que se tornaria um actor icónico do cinema francês), mas em sua defesa há que dizer que ela se esforça por amá-lo e por ser uma mulher digna, para assim poder integrar a pequena sociedade da vila. Mas é sol de pouca dura. A nova vida que passa a levar é demasiado banal, e ela sente-se enjaulada. Por mais que tente não consegue (ou não quer) escapar à sua verdadeira natureza, e o seu amor pela música, pela dança e pelo próprio amor fala constantemente mais alto. Pouco depois, Antoine regressa à cidade e a personagem de Jürgens está sempre a pairar, à espera que ela se decida. Estes três homens entram em conflito, quer profissionalmente (há uma história secundária sobre a compra de terras e a construção de um casino, que na realidade é pouco interessante), quer relativamente ao seu amor (ou desejo) pela personagem de Bardot, reflectido nos constantes ciúmes que têm uns dos outros e nas intrigas que formam para conseguirem (re)conquistar, ou pelo menos possuir, Bardot. E é obviamente este segundo ponto que o filme mais capitaliza. E é obviamente este ponto que vai dividir Bardot, que não se importa de os ver os homens disputarem-na mas ao mesmo tempo sente o fardo do dever, e o peso da escolha, o que a leva a sentir-se cada vez mais enjaulada.

E se tudo o resto se desenrola como uma telenovelinha na qual Bardot é exibida à mínima oportunidade, pelo menos o clímax emocional do filme faz todo o sentido. E não só faz sentido, como acaba por ser o seu ponto mais alto. No final, incapaz de se decidir, sentindo-se cada vez mais confinada pelo dever, pela sociedade e pelos homens, Bardot finalmente explode, explode para ser quem quer, libertando o seu desejo felino, animal, e expressando a sua verdadeira natureza livre. Durante cinco minutos, Bardot dança num café ao som de um ritmo tribal, enquanto os homens da sua vida assistem impotentes. E é a dança que não só revela a sua personagem, mas também a própria Bardot, e que a torna imortal entre as grandes deusas do ecrã. Godard pode ter filmado as partes do seu corpo nu em ‘Le Mepris’ (1963), e ela pode ter mostrado os seus dotes (e decotes) em centenas de outros filmes, mas é nesta dança, no desenlace emocional de ‘Et Dieu... créa la femme’ que Bardot inequivocamente se define, electrizando a celulóide com a sua tensão e carisma sexual.

Esta dança é o ponto fulcral do filme e é toda a sua razão de ser. Todo o filme é lento e a sua história é deveras desinteressante. Mas a dança não só é cinema ritmado e que faz faísca, como permite completar (para o bem ou para o mal) os arcos de todas as personagens, conseguindo assim manter o filme à tona e de certo modo salvá-lo, já que o espectador termina a sua experiência de visualização relativamente saciado. A única chama que este filme tem é Bardot, e a única cena de grande interesse é esta última da dança. Era pior se fosse ao contrário e eu não creio que Vadim estivesse realmente interessado em algo mais que isto. Ele queria exibir Bardot, e queria estabelecê-la como um ícone sexual. Cumpriu ambos os objectivos. Ela brilha, o seu corpo fala um milhão de línguas, e ela sabe como o usar qualquer que seja a circunstância, a cena ou a emoção. O arco da sua personagem, a sua ascensão e a sua queda, poderiam ter sido muito melhor filmados por um realizador mais sábio e mais experiente, e poderiam ter mais lustro com um argumento melhor polido. Mas creio que Vadim deu isso de barato logo à cabeça, e não se importou. E a verdade é que o espectador, principalmente o masculino, também não se importará. Se ‘Et Dieu... créa la femme’ não nos dá uma história nem interessante nem de qualidade, ao menos deu-nos, a nós espectadores, e a todo o imaginário cinematográfico, a única e a verdadeira Brigitte Bardot, a pura Bardot, a felina Bardot, no momento em que a sua sexualidade nasceu. Só por isso, o filme vale a pena, porque todos adoramos o momento em que uma lenda nasce. E se essa lenda é Brigitte Bardot, então ainda melhor.

Em 1988, após muitos casamentos e uma carreira aos ‘esses’, Vadim faria como último filme para o grande ecrã um remake americano do seu primeiro filme: ‘And God Created Woman’, com Rebecca De Mornay no papel que foi de Bardot. Eu nunca vi este filme, mas rezam as crónicas que não perdi nada. Um filme como este precisa de uma chama. De Morney pode ser uma boa actriz, e até era sexy na sua juventude, mas não era Bardot. E provavelmente está aí a grande diferença…

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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