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Brothers

Ano: 2009

Realizador: Jim Sheridan

Actores principais: Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Tobey Maguire

Duração: 105 min

Crítica: Em duas palavras: pouco credível.

‘Brothers’, o filme de 2009 de Jim Sheridan, é um daqueles filmes que nunca devia ter sido feito. Ou melhor, se era para contar esta história desta maneira, então o meio cinematográfico talvez não tenha sido o mais apropriado. ‘Brothers’ é um daqueles filmes de argumento, escrito por argumentistas que não sabem realizar, e filmado por um bom realizador mas que provavelmente não teve a liberdade para cortar dezenas de páginas do guião a seu bel-prazer. Isto porque o cinema é um meio visual, e há muitas coisas que não precisam de estar escritas, como num livro, para que o espectador perceba as emoções. Primeiro, ‘Brothers’ necessita que as suas personagens debitem tudo, do estilo dizer frases como ‘Hoje estou triste’ para que o público saiba que estão tristes. Segundo, quando se faz estes filmes fortemente sentimentais com cenas climáticas com píncaros de emoção, uma coisa precisa de ocorrer antes: uma construção credível das personagens e das emoções que justifiquem o clímax. Neste filme isso não ocorre, o que é algo que inicialmente me surpreendeu mas depois não, quando estudei melhor a carreira do argumentista. O responsável pela adaptação é David Benioff, que iniciou a sua carreira cinematográfica adaptando o seu próprio livro ‘25th Hour’ para o argumento que seria filmado por Spike Lee em 2002, naquele que eu considero ser o melhor filme da década de 2000. Contudo, Benioff escreveu depois ‘Troy’ (2004) e no mesmo ano de 2009 o péssimo ‘Wolverine’. Mas a verdade é que também escreveu ‘Kite Runner’ (2007) e concebeu a adaptação para televisão da ‘Guerra dos Tronos’. Resumindo, Benioff é inconstante excepto na mulher (é casado com a linda Amanda Peet há 8 anos) e ‘Brothers’ é um exemplo dessa inconstância, conseguindo passar do péssimo ao genial com o virar de uma cena.

Claro que com as porcarias que hoje andam à deriva pelas salas de cinema, ‘Brothers’ bem que poderá ser uma alternativa minimamente interessante, mas sinceramente, para um público experimentado, e comparando-o com outros filmes com temas semelhantes, fica muito aquém do esperado e muito aquém daquilo que Jim Sheridan sabe fazer. O realizador irlandês teve o seu pico da década de 1990, nas suas três colaborações com Daniel Day-Lewis: ‘My Left Foot’ (1989), ‘In the Name of the Father’ (1993) e ‘The Boxer’ (1997), e desde então tem-se mantido no universo dos dramas emocionais com toques de delicadeza e urbanidade: ‘In America’ (2002) e até o filme com 50 Cent: ‘Get Rich or Die Tryin'’ (2005). Mas qualquer qualidade que Sheridan possa ter e tente dar a ‘Brothers’, a verdade é que esbarra contra uma parede sólida: um argumento literário, rígido e demasiado explicativo que não dá liberdade para que o visual contribua para contar a história.

Este filme é um remake de um filme Dinamarquês feito em 2004, uma prática corrente em Hollywood desde a década de 1990, quando esgotou as suas ideias originais, mas que presentemente até está a cair em desuso, pois a política está agora firmemente voltada para a realização de sequelas de sucesso garantido. Eu nunca vi o ‘Brothers’ original, mas tenho a certeza que esse filme estará cheio de poderosas e sombrias subcorrentes emocionais, e muitos sentimentos subentendidos entre as linhas, muito para além daquilo que os meros diálogos exibem.

Mas quando este tipo de filmes se transfere para a América (salvo raras excepções, como por exemplo a adaptação de Fincher de ‘Millenium I’), especialmente se o filme está cheio de estrelas da moda e está apontado para um público mais alargado, o subcontexto e as subcorrentes são completamente esquecidas. Tudo torna-se explícito, tudo tem que ser dito, pois os produtores tratam o público cinematográfico como um ente muito burrinho, que precisa da papinha toda feita para poder prestar atenção e desfrutar do que está a ver. Quando um drama é feito para que o espectador não tenha que pensar, ao jeito da mais brejeira comédia, então torna-se numa novela, e não num filme. E isso, para o meu gosto peculiar, é mais do que aquilo que eu consigo suportar.

‘Brothers’ exibe um triunvirato de jovens estrelas: Tobey Maguire, Natalie Portman e Jake Gyllenhaal. Nenhum deles tem a idade nem a maturidade adequada para os papéis que estão a desempenhar (há 30 ou 40 anos o filme seria interpretado por actores trintões com muita quilometragem emocional), e estão todos a esforçar-se demasiado para fazerem o seu ‘filme sério’, com um ‘realizador sério’, para serem tidos como ‘actores sérios’, e lavarem a cara de outras aventuras cinematográficas. Só como exemplo Gyllenhaal passou daqui para ‘Prince of Persia’!

Maguire interpreta o papel de um capitão do exército americano, casado com Natalie Portman. Esta, mesmo com uma tonelada de maquilhagem para a fazer parecer mais velha, não leva ninguém a acreditar que, com aquele corpinho jeitoso, já deu à luz duas filhas, uma de 6 e outra de 4 anos de idade. Maguire tem um irmão, interpretado por Jake Gyllenhaal, que acabou de ser libertado da prisão após muitos anos (não podem ter sido assim tantos anos, a não ser que tenha entrado na prisão aos 15!), por um crime que o filme nunca diz qual foi.

O filme, na sua fase inicial, oscila completamente entre dois extremos para provar um ponto. Por um lado, o filme tem cenas banalíssimas que não levam a lado nenhum, só para mostrar que as suas personagens são pessoas normais, que têm vidas normais, que fazem coisas normais como ir ao supermercado ou brincar com os filhos. Por outro, o filme muda imediatamente para os confrontos dentro do lar, para discussões altamente dramáticas logo à cabeça e cheias de clichés. Não sei se este argumentista sabe mas pode-se fazer um filme inteiro cheio de cenas ‘normais’ ou de ‘rotina’ que seja, mesmo assim, incrivelmente dramático e poderoso emocionalmente (por acaso sei que sabe, é só ver '25th Hour'!). Tudo está na forma como se escreve e filma essas cenas. E, se se quer ter discussões muito dramáticas, há certamente modos muito mais inteligentes e realistas de chegar lá. Um ano antes, o surpreendente filme ‘Rachel Getting Married’ (2008), por exemplo, tinha provado precisamente isso. Mas em ‘Brothers’ o drama não funciona, de forma alguma. Já tudo se viu antes, e se antes já não era grande coisa, agora também não o é. Isto se não for pior. Estes confrontos começam por ser centrados na personagem do avô das crianças, o grande Sam Sheppard (que mais parece o avô de Portman!), um actor que ensina estes jovens como é que a coisa se faz, mas cujo papel de um veterano do Vietnam que agora passa a maior parte do tempo bêbado não ajuda muito, porque lá está, cai neste poço de lugares comuns. Obviamente, vê Maguire como o orgulho da família, e Gyllenhaal como a ovelha negra, e o seu comportamento acaba sempre por gerar conflitos também nos outros.

Mas depois de nos contextualizar, o filme manda Maguire para o Afeganistão. Aí, supostamente, morre numa missão. Alguém acredita? Não. Só mesmo as personagens do filme. Na América, a sua mulher e os seus filhos recebem a notícia e começam a lidar com a perda, com a ajuda preciosa de Gyllenhaal que começa a tornar-se um pai substituto para as crianças e começa a aproximar-se de Natalie. E aí o filme revela-nos, com pouca surpresa, que afinal Maguire está vivo numa gruta algures no Afeganistão, a ser torturado por Talibãs muito mauzinhos. Mais coisas pouco credíveis neste filme: 1) o modo como a família reage e lida com a perda (é só ver os filmes magníficos ‘Ordinary People’, 1980 ou ‘La Stanza del Figlio’, 2001 para ver como isto se faz). 2) Gyllenhaal acabou de sair da prisão, mas não parece ter qualquer tipo de emprego, nem parece estar interessado em procurar um. Como é que come? Vive às custas da cunhada? Gyllenhaal não parece fazer nada o dia todo excepto andar a orbitar em redor de Portman e das crianças. 3) Porque é que os Árabes passam 3 meses a torturar Maguire só pelo prazer de o torturar? Não parecem querer o mínimo de informações. Não tem outros sítios para ir, outras bombas para lançar? Só o fazem por maldade, claro está, porque o filme mais uma vez quer provar um ponto. 

Quando Maguire é levado ao extremo da resistência no seu cativeiro, finalmente quebra emocional e mentalmente (algo ocorre que não vou revelar). Mas, muito curiosamente (ou não, já que este argumento é extremamente artificial), é precisamente logo a seguir que chega a cavalaria americana e ele é salvo e enviado, como um herói, para casa. Mas o trauma que sofreu em cativeiro é demasiado grande, e quando regressa à vida rotineira não se consegue adaptar, aliena-se da sua família e dos seus amigos, torna-se paranóico e finalmente uma ameaça constante, não só em relação à felicidade da família, mas inclusive à integridade física dos seus elementos. Isto vai-se adensando, adensando, até que se chega ao final climático, que, infelizmente, é mais uma vez despoletado por algo pouco credível. A gota que faz transbordar o copo surge de algo que é dito pela filha mais nova, que tem 4 anos. Agora eu pergunto, como é que uma criança de quatro anos consegue articular uma frase daquelas? É sobredotada? Ou simplesmente Benioff  não sabe como fala uma criança de quatro anos? Já que estamos numa de recomendar filmes, permitam-me que cite ‘Shoot the Moon’ (1982) de Alan Parker, com Diane Keaton e o glorioso Albert Finney. Aí está um filme sobre um casal em confronto cujas discussões afectam os filhos, que é construído de uma forma brilhante e credível.

Mas por incrível que possa parecer o clímax de ‘Brothers’ é realmente bom. É a única cena surpreendente do filme, a única que se eleva acima da banalidade cinematográfica que se encontra nos dramas mais corriqueiros. É uma pena que o espectador tenha tido que sofrer 90 minutos de tédio para conseguir lá chegar. Este filme poderia ter sido muito bom, se houvesse um equilíbrio mais adequado entre aquilo que se diz e aquilo que se sente, mas faltou esse discernimento. Até o final do filme, mesmo após o bem conseguido pico emocional, reverte de novo para esta fórmula ridícula de ter que expressar tudo e mais alguma coisa. Num banco de jardim, sabemos que Maguire finalmente abrirá o coração, e contará a Portman o segredo daquilo que se passou no seu cativeiro. O público sabe esse segredo, pois assistiu ao filme, portanto não existe nesta cena nenhuma revelação ao espectador, nem nada que ele precise ouvir. Só Portman ouvirá isso pela primeira vez e finalmente compreenderá as atitudes do marido e fará as pazes com ele e com a sua alma. Mas o espectador sabe que tudo isso acontecerá portanto não precisa de o ver. O início da conversa com a câmara lentamente afastando-se, os diálogos perdendo-se no som natural e na introdução da música final, e as letras do genérico começando a rolar, teria sido suficiente. Cada espectador faria a ponte mental e compreenderia. Mas não, o filme força, obriga o espectador a passar pelo processo moroso de ouvir tudo outra vez, tintim por tintim. Portman diz ‘Conta-me o que aconteceu’. E Maguire lá diz ‘Ok, vou contar-te. Aconteceu isto assim e assado, cozido e grelhado’. Para quê? São 5 minutos de filme desperdiçados pois o público já sabia isto tudo. É apenas mais uma desculpa para que possam chorar mais baba e mais ranho e abraçarem-se antes que o filme termine? É para que o público compreenda bem e não tenha dúvidas? Não se percebe.

‘Brothers’ possui um bom material de base, e até o apresenta de uma maneira interessante, portanto para alguém que não tenha as minhas exigências argumentais nem o meu horror a ser tratado como um espectador burro, o filme certamente proporcionará um bom espectáculo cinematográfico. Sheridan acaba por fazer o melhor que pode com o material e as jovens vedetas acabam por ficar acima da linha de água no que toca às suas actuações. Portman, bem, é a Portman do costume, mas consegue brilhar (tal como brilhou pouco depois em ‘Black Swan’, 2010) em dois momentos cruciais no filme, das duas vezes que atende o telefone para receber primeiro a notícia que o seu marido está morto e depois a de que ele afinal está vivo. No resto da hora e meia de filme ela passa quase todo o tempo em várias formas de pranto, e ainda por cima é condicionada pelas coisas banais que a circundam, pelo que pouca mais oportunidade tem de se revelar. Gyllenhaal e Maguire por seu lado vão correspondendo, sendo que o segundo, uma consequência do papel, acaba por ter a tendência para o exagerado dramatismo, o chamado ‘overacting’. Quanto aos restantes actores, quando vi este filme em 2009 previ que Taylor Geare, que interpreta o papel da filha mais velha de 8 anos, iria longe, visto apresentar uma naturalidade e um talento invulgar. Contudo, tirando o minúsculo papel de filha de DiCaprio em ‘Inception’, não a vi em mais nada, mas bem, também é ainda muito nova. Já outra actriz jovem que o filme tem, Carey Mulligan, passa mais despercebida, embora hoje em dia seja uma estrela muito maior.

Na realidade não creio que o mal aqui esteja na realização nem na actuação. O filme acaba por ser um fiasco por causa do modo como é estruturado e da sua inconsistência, do qual Benioff será provavelmente o maior responsável. Mais cenas ‘normais’ e ‘rotineiras’ mas com significados mais profundos subjacentes eram necessárias. Em vez disso, temos cenas ‘rotineiras’ sem qualquer significado, e cenas altamente dramáticas com o seu significado estabelecido de todas as formas possíveis para que nenhum sentimento seja subentendido nem nada escape ao olhar do espectador mais desatento. Por seu lado o clímax é excelente, mas sinceramente, baseado na história até esse ponto, não acredito nele. Bem, talvez eu esteja a ficar muito exigente e um velho rezingão em vésperas de fazer 29 anos. Mas sinceramente, como um todo, ‘Brothers’ acaba por não me apelar, e se é para ver famílias a desfazer-se pela morte ou por confrontos emocionais entre os seus membros, então ‘Ordinary People’ ou ’Shoot the Moon’ são obras primas memoráveis e inolvidáveis que valem a pena ver, enquanto ‘Brothers’ é apenas estatística nas carreiras destes meninos famosos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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