Oscar

Ano: 1967

Realizador: Edouard Molinaro

Actores principais: Louis de Funès, Claude Rich, Mario David

Duração: 85 min

Crítica: Louis de Funés, o eterno rezingão. O cinema de Louis de Funés é, nos dias de hoje, como uma espécie de ilha do tesouro. Só poucos sabem como lá chegar, mas aqueles que lá chegam são saciados por infinitas riquezas. Este fenomenal actor francês, quer do teatro quer do cinema, e que teve o seu pico na década de 1960, nunca fez a transição para o cinema americano, e quase nunca para as grandes co-produções internacionais, e talvez seja essa a razão do seu fraco reconhecimento a nível mundial. Em França não creio que haja alguém, incluindo da nova geração, que não o conheça. Os seus filmes estarão para os franceses como estão para nós talvez as comédias de António Silva. Aliás, o grande épico de acção/comédia da Segunda Guerra Mundial, do qual é o actor principal, ‘La grande vadrouille’ (1966), foi o filme mais visto em França durante 30 anos, até ‘Titanic’ em 1997 o ter destronado. Mas fora da França, é raríssimo ouvir o nome de Funés. É talvez relembrado como o homem que foi o Gendarme em 6 filmes e o Comisário Juve nos 3 filmes de Fantômas. Mas a verdade é que as décadas de 1960 e 1970 estão cheias de outras entradas que ostentam como personagem principal um senhor de meia-idade numa posição de semi-poder, sempre mal disposto, que fala a cem à hora, que entra em espirais de loucura tempestuosa a desancar em tudo quanto respira e que é, ao fazer todas estas coisas, e envolvido nas situações mais caricatas, infinitamente engraçado.

Tenho andado a descobrir aos poucos as comédias de Funés, e recentemente comprei uma série dos seus filmes, cada um a 1 euro, no Jumbo (passe a publicidade), um preço ridículo para algo tão bom. O leitor poderá descobrir por si os filmes do Gendarme, ‘La grande vadrouille’, ‘Les aventures de Rabbi Jacob’ (1973), ‘Hibernatus’ (1969), ‘Le grand restaurant’ (1966), mas eu hoje vou falar de ‘Oscar’ (1967) que me deliciou este domingo de tarde quando o vi pela primeira vez.

Realizado por Edouard Molinaro (que também realizou ‘Hibernatus’), ‘Oscar’ é baseado numa peça de teatro de Claude Magnier. O filme não se preocupa em ‘abrir a peça’, como é prática corrente, e passa-se todo num espaço confinado, nas várias divisões de uma casa. Logo à cabeça, esta casa, só como cenário, é magnífica. A sua arquitectura moderna, que é usada para efeitos cómicos, trás à memória as aventuras de Tati em ‘Playtime’, lançado nesse mesmo ano. Nunca há o ênfase na concepção do espaço, nem a câmara chama a atenção para isso, mas subconscientemente este espaço está sempre a ser utilizado na trama para provocar uma sensação de ridículo e demonstrar as relações entre as personagens. A forma como se corre escada acima, escada abaixo, se anda à volta de alguns patamares labirínticos, se espreita por aberturas ou por paredes de vidro ou se usa o mobiliário pós moderno, incute sempre uma dinâmica acrescida à acção. Este filme tem uma magnífica gestão de espaço, sobre o qual assenta um brilhante ritmo cómico que só muito poucas vezes perde momento. Sempre que o perde, o espectador sente isso, mas isto poderá não ser sempre necessariamente mau. Quando volta a encontrar a sua passada, o filme fá-lo com muito mais intensidade, e então o impacto é muito maior. Quase que funcionam como pausas para respirar.

A trama é uma de encontros e desencontros, de males entendidos, de coincidências e de muita berraria, ao mais belo estilo cómico, que começa lentamente e depois vai subindo, subindo, até praticamente roçar o insano e a parvoíce pura. Louis de Funés é Bertrand Barnier, um empresário de sucesso. É uma manhã como outra qualquer, mas vai revelar um dia que dificilmente irá esquecer. Cedo, muito cedo, tocam-lhe à porta. É Christian Martin (interpretado por Claude Rich), um contabilista da sua empresa. Martin é um ser estranho, algo nervoso mas muito assertivo. Primeiro convence o chefe a dar-lhe um aumento, porque vai casar. Depois de o conseguir, pede a mão da filha de Barnier. E para dote refere que roubou ao chefe 60 milhões de francos, que não se importa de devolver, se a filha for sua. Mas a verdade é que Martin não sabe que o seu amor, Jacqueline, não é a filha de Barnier (ou será?!). Jacqueline apenas disse isso para que Martin achasse que ela era rica. A verdadeira filha de Barnier, Colette, quer efectivamente casar, mas com Óscar (o ex-chauffeur da casa). Mas Óscar partiu para o Pólo Norte. Colette não se faz rogada. O que ela quer é casar com alguém para sair de casa dos pais. Portanto, inventa que está grávida. Entretanto a verdadeira noiva de Martin aparece em casa. Não podendo casar a filha nem com Martin nem com Óscar, Barnier procura outros pretendentes (como o seu massagista) ao mesmo tempo que quer reaver o seu dinheiro. E eis que entra a questão das malas. Há uma mala com as jóias e outra (igualzinha) com o dinheiro (outro ‘roubo’ de Christian) e ambas são iguaizinhas à mala com a roupa da empregada que está no seu último dia de trabalho, pois vai casar com um barão. E no meio disto tudo ainda está a míupe mulher de Barnier, alheia a estas andanças e sempre com um comentário desproporcionado. 

Confuso? Não esteja leitor. ‘Oscar’ é o tipo de filme que explica muito bem a sua trama, pois ela é toda a base da comédia que irá proporcionar. Aliás, a comédia é ainda mais forte pela antecipação do que irá acontecer, por isso é essencial que o espectador esteja a seguir muito bem o que se está a passar. Por exemplo, quando as várias malas iguais começam a convergir para o mesmo ponto da casa, o espectador sabe que mais cedo ou mais tarde elas vão começar a ser trocadas, sem que os intervenientes se apercebam disso. Só o nervosinho miúdo dessa antecipação e a vontade que o espectador tem de gritar para o ecrã “ahh, estás a levar a mala errada!” criam uma grande afinidade com o filme. Com apenas 80 minutos, ‘Oscar’ concebe na perfeição a sua história e sabe exactamente quando deve tentar o público, quando deve saciar o seu nervoso e quando deve surpreende-lo com um twist da trama que, talvez pecando por ser previsível, não deixa de entreter.

E o cerne desta comédia telenovelesca de enganos é Louis de Funés. A maneira como ele consegue que o público fique fascinado por uma personagem claramente mesquinha é incrível. É um actor que consegue ser execrável e fofinho ao mesmo tempo, e os seus acessos de loucura atingem patamares cómicos invejáveis. A forma como ele quer casar a filha com quer quem que seja para reaver os seus 60 milhões de francos, ou a maneira como corre de um lado para o outro atrás da mala do dinheiro e fica possesso sempre que a abre e está lá o sutiã da empregada revelam ser momentos de actuação cómica indescritíveis. E fá-lo tão bem que quando entra abertamente no reino da parvoíce inverosímil fá-lo de uma forma completamente verossímil. Sim, nós acreditamos que este senhor que já anda a acumular tensão há meio dia perdeu completamente as estribeiras e saltou-lhe um parafuso, quando mais uma vez abre a mala errada e começa a fazer caretas, ruídos de avião com a boca e a jogar uma macaca invisível. E não nos importamos nada. Mas o que nós queremos mesmo é que ele entre nas suas espirais de berraria, porque aí é que nos faz a nós, espectadores, perder as estribeiras de riso. Ao mesmo tempo, quando está tão contentinho com as suas maquinâncias, que se lhe abre o sorriso mais maléfico/fofo (se tal é possível) que o cinema já conheceu, não podemos deixar de sentir alguma empatia por este avozinho. É o eterno rezingão, o Walther Mathau, o Lionel Barrymore, que por detrás tem um coração sensível (como se revela nas últimas cenas), mas que se recusa a revelá-lo, como princípio básico da sua natureza de rabugento. 

‘Oscar’ é uma comédia muito, mas muito boa. Poderá até ser uma das grandes comédias da história do cinema, pelo seu ritmo quase non-stop de momentos que geram risadas incontroláveis. Não se distingue muito em termos de história de outras comédias de engano por esse cinema fora, é certo, mas não será esse o seu interesse principal. Aqui está um produto honesto, roçando o convencional em termos de estrutura, mas que foi feito por uma máquina bem oleada, uma máquina que existia para levar Funés ao leme, direitinho rumo ao espectador. A gestão do espaço é brilhante, o argumento está muito bem escrito e as restantes actuações fazem o seu papel e não se intrometem no caminho de Funés. Porque Funés é um dínamo, e quando ganha momento é impossível pará-lo. O suor que se vê no seu rosto não é de maquilhagem, é um de verdadeira entrega ao papel, de concepção de uma personagem completamente hipnotizante. Funés não é a personagem ‘Oscar’ a que o título se refere, mas é, para todos os efeitos, ‘Oscar’, o filme. É a chama do filme, é a sua alma. É tudo. Sem Funés este filme não seria nada, e por o ter torna-se simplesmente perfeito. Com todo o respeito a ‘La grande vadrouille’, ‘Oscar bem que poderá ser o melhor filme da carreira de Funés, e é talvez o filme em que Funés é mais Funés, em que dá tudo o que tem, enriquecendo a qualidade do filme, e enriquecendo e fazendo rir o espectador como directa consequência.

Já amava Funés. Agora amo também ‘Oscar’. E se é para descobrir Funés, porque não começar por aqui? Em 80 minutos, o espectador leva de frente, num grande soco cómico, tudo o que foi Louis de Funés. E é um soco que vale bem a pena levar.

Aparentemente, descubro agora, há um remake cinematográfico desta peça feito em 1991 com Sylvester Stallone no papel principal. Tenho medo de pensar em tal coisa e, só de saber esta informação, acho que hoje vou ter pesadelos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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