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Dial M for Murder

Ano: 1954

Realizador: Alfred Hitchcock

Actores principais: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings

Duração: 88 min

Crítica: Notei por estes dias uma falha grave deste blog. Não tinha criticado ainda nenhum filme de Alfred Hitchcock, e a sua carinha laroca ainda não aparecia no separador ‘Grandes Realizadores’. Pois bem, hoje é o dia. E o meu primeiro argumento é talvez o mais controverso. Para mim, ‘Dial M for Murder’ é o melhor filme de Hitchcock. Bem, pelo menos é o meu favorito. Não vou dizer que é ‘Vertigo’ (1958) ou ‘Psycho’ (1960) ou ‘Notorious’ (194X6) se isso não corresponde à verdade, só porque os críticos dizem e redizem (chegando a um ponto em que já não sabem porque o dizem) que são estes os seus grandes filmes. Sim, claro, são todos grandes filmes, mas também ‘Trouble with Harry’ (1955) é maravilhoso, ‘The Lodger’ (1927) é tecnicamente perfeito, e aí por diante. Eu já vi todos os filmes de Hitchcock. E eu quero dizer mesmo todos, desde ‘The Pleasure Garden’ (1925) até ‘Family Plot’ (1976). Mas nenhum outro me fascina tanto, me dá tanto prazer de visualização, como ‘Dial M for Murder’.

Feito a meio da década de 1950, o melhor período da carreira de Hitch, ‘Dial M for Murder’ não só iniciou um momento de quase perfeita técnica cinematográfica que foi ascendendo em espiral de filme para filme até culminar em ‘Psycho’ seis anos depois, como também marcou o início da era Grace Kelly, que só teria 3 filmes. ‘Dial M for Murder’ é um filme de uma mestria invejável, tecnicamente hipnotizante, mas completamente directo, sem o subcontexto voyeurístico nem o demorado estudo de decomposição emocional que caracterizam as maiores obras deste período, como ‘Rear Windw’ (também 1954 e também com Kelly), ‘Vertigo’ (1958) ou ‘Psycho’ (1960).

Hitchcock já tinha filmado com sucesso filmes confinados a espaços muito reduzidos e com um número muito restrito de actores (transpondo peças de teatro) sem os tornar maçadores, quer visualmente, quer em termos de história. Em ‘Lifeboat’ (1944) toda a acção se passa num pequeno bote salva vidas. Em ‘The Rope’ (1948), filmado em apenas três longos takes, tudo se passa num apartamento de três divisões. Em ‘Dial M for Murder’ (também baseado numa peça de teatro) 95% da acção passa-se numa única divisão, na sala de estar de um apartamento. Mas não pense o leitor que isto torna o filme moroso e visualmente cansativo. Hitchcock consegue arranjar infinitos ângulos de filmagem (não creio que repita um plano duas vezes) e o olho do espectador está sempre a captar novas coisas na divisão. A isto acresce o filme ter sido filmado em 3D (aquando da primeira ‘loucura’ pelo 3D nos anos 1950 – não, não foi o James Cameron que inventou o 3D…). Nas mãos de um mestre, o filme tem um enorme sentido de profundidade. Há sempre objectos (uma mesa, um candeeiro) entre a câmara e os actores. Este feito é ainda mais espantoso quando pensamos no tamanho da divisão onde se passa a maior parte da acção. E se por um lado os planos são semi-estáticos, a história é incrivelmente fluída.

O argumento é simples. O fabuloso actor Ray Milland (um senhor da representação, e que venceu o Óscar de Melhor Actor 10 anos antes por ‘The Lost Weekend’) interpreta um ex-tenista profissional que casou com uma mulher de famílias ricas (Grace Kelly) e que desde então tem vivido praticamente às suas custas. Mas Grace Kelly está a ter um caso com um escritor americano, interpretado por Robert Cummings (apesar de ter feito vários filmes com Hitchcock, Cummings para mim será sempre o Parrish de ‘King’s Row’, 1942). Temendo o divórcio, Milland chantageia um ex-colega de liceu (Anthony Dawson) que também não é 100% honesto, para matar a sua mulher e assim ficar com o dinheiro do seguro de vida e da herança. Milland concebe o plano perfeito e sai de casa para ter um álibi intocável. Mas Dawson falha no momento crucial e Kelly mata-o, sem querer, na luta. Mais tarde, Milland consegue insinuar à polícia que Kelly é mesmo culpada e ela é acusada de assassínio e condenada à morte. Se Milland não a matou de uma maneira, mata-a da outra, ainda por cima com a ajuda do estado! Será bem sucedido no seu plano diabólico ou irá o inspector da polícia (uma performance maravilhosa e incrivelmente britânica de John Williams), com a ajuda de Cummings, descobrir a verdade e o verdadeiro vilão, e salvar Kelly quando todas as provas apontam para ela? 

O filme é soberbo por quatro grandes motivos. O primeiro é que o argumento é genial. Os diálogos fluem com uma gigantesca naturalidade e incrível magnetismo. Apesar das cenas teatrais serem longas (às vezes mais de 10 minutos cada uma), o público nem se apercebe disso pois está completamente hipnotizado com a trama, e com a forma como Hitchcock, com a sua mão invisível, agarra o espectador e o puxa até à ponta da cadeira. E mais surpreendente é o filme, e o trabalho de Hitchcock, quando nos apercebemos que o público já sabe à partida que o marido é o vilão. Isto não retira uma pinga de suspense à história, à medida que o público rói as unhas impacientemente, à espera que as personagens descubram aquilo que ele já sabe.

Em segundo lugar o filme possui uma das cenas mais extraordinárias que o Cinema já produziu, e talvez a cena mais bem conseguida de Hitchcock. Ok, ninguém morre num chuveiro, nem está a ser perseguido por um avião num campo de trigo. É ‘apenas’ uma cena de diálogo numa sala de estar. Mas que diálogo, mas que tensão, mas que força oculta, que vibração de egos! Eu costumo chamar a esta cena a da ‘sedução macabra’. Nela Milland exerce uma chantagem psicológica sobre Dawson, à medida que lentamente lhe aperta o cerco e o convence a matar Kelly. Este quase monólogo que dura cerca de 20 minutos (desde os 10 min de filme até cerca da meia hora), onde o público descobre pela primeira vez que Milland é o vilão e aquilo que pretende, é perfeição pura. Funciona porque tem 3 elementos que funcionam: a mestria do argumento, do actor e da realização. Se um falhasse a cena descambaria e tornar-se-ia pouco credível, fazendo desabar os alicerces do filme. Como está, sentimos a mesma tensão de Dawson sente, ficamos vidrados na performance viperina de Milland e mergulhamos de cabeça na trama. E, quando damos conta, meia hora de filme já passou e temos o coração nas mãos. E a cena teve exclusivamente duas pessoas a ‘conversarem’ numa sala de estar de um apartamento. Quando a arte da actuação é boa, é boa, e Hitchcock consegue introduzir no celulóide o hipnotismo de ver uma peça, uma boa peça de teatro, ao vivo.

Em terceiro lugar, está a actuação de Milland. A cena que descrevi no parágrafo em cima é o ponto alto da sua carreira, e claro, o ponto alto do filme, mas a sua actuação nas restantes cenas está apenas uns milésimos a baixo. Talvez no seu último grande filme (teria um pequeno papel em ‘Love Story’ em 1970) Milland é indescritível. É ardiloso a montar a sua armadilha com uma voz de seda, mas possui sempre um brilho malicioso no olhar. É maquiavélico no disfarce de um gentleman e quando sorri faz lembrar o Joker, de tão subtil e assustador que consegue ser, sem nunca (até mesmo ao final) quebrar a sua aparência. Só o público, por saber dos seus planos, é que consegue ver para além da sua fachada, o que lhe dá profundidade como personagem. Milland deixa o público entrar e revê-la-lhe os segredos para que possa jogar com ele. Se em filmes posteriores de Hitchcock o voyeur é a personagem principal e o público torna-se voyeur por osmose, aqui o prazer macabro é todo do público, porque lhe é dado a oportunidade de ver e de saber coisas que mais nenhuma personagem (tirando Milland) sabe. Por momentos, o filme é tão cativante que o público chega mesmo a torcer (em segredo) por Milland, e pelo sucesso do seu plano diabólico. Só quando o plano dá para o torto é que o público é chamado à realidade, e muda a casaca, passando a torcer pelos bons.

Seria difícil bater Marlon Brando em ‘On the Waterfront’ mas parece incrível que Milland nem sequer tenha sido nomeado para os Óscares. Ofusca completamente Grace Kelly (que por acaso ganharia o seu Óscar nesse ano, mas por ‘Country Girl’). No papel da mulher ingénua, Kelly parece algo perdida. Poderá estar confinada pelo papel, é certo, mas falta alguma chama na sua actuação. Dos seus três filmes com Hitch, este é claramente o seu pior em termos de actuação, vivacidade e importância. Quase se leva a crer que outra actriz no papel resultaria num filme sem grandes diferenças. Claramente, este filme pertence primeiro e acima de tudo a Milland, e só John Williams (como inspector) lhe consegue cheirar os calcanhares. O filme desemboca numa luta de egos e de sagacidade entre os dois, até ao final climático, de fazer roer as unhas e quebrar os nervos.

E em quarto está o estilo visual já discutido. O espaço confinado, os eternos recursos a planos extraordinários que levam o espectador para dentro da acção e lhe dão ao mesmo tempo uma sensação de confinamento, a incrível noção de perspectiva, a tensão que não abranda, etc, etc.

‘Dial M for Murder’ é uma obra-prima cinematográfica. Entretém, agarra, tem um excelente argumento, excelentes interpretações e é realizado por alguém que filma cada plano, cada segundo, com um objectivo bem claro. Pode ser acusado de ser simples, de ser algo superficial, de se truncar a uma peça de teatro, de se cingir a um retrato convencional 'bem vs mal' e não explorar as profundezas do ser humano. Mas filmes simples, superficiais, baseados em peças de teatro e que não exploram as profundezas do ser humano também podem ser bons filmes. Não é preciso ser voyeur para ser uma personagem eterna. Não é o tema do filme que faz o filme. É o filme como filme, aquilo que ele é, como é concebido e o que o caracteriza, que determina a sua qualidade. Milland é apenas um ex-tenista que quer matar a mulher para ficar com o dinheiro. É o ‘mau’, é o ‘vilão’ e no fim receberá a sua justa recompensa. Não tem conflitos, nem dicotomias. Mas a sua presença é divina. Quando o público moderno se sente hipnotizado por Christoph Waltz nos filmes de Tarantino é devido à sua presença e não àquilo que a sua personagem possa dizer ou fazer. Milland, em ‘Dial M for Muder’ é o íman que sustém todo o filme e o faz explodir, auxiliado por todo o brilhantismo técnico que está por detrás, a patamares cinematográficos excitantes, cativantes e deslumbrantes.

‘Dial M for Murder’ não é ‘Psycho’, mas é um filme brindado com uma técnica cinematográfica perfeita e uma das melhores actuações da história do cinema. Que mais se pode querer de um filme? Os amantes de cinema muitas vezes criticam a construção lenta e pausada, onde pouco se passa, de ‘Psycho’, mas depois arregalam os olhos nas cenas em que a Sra. Bates explode no ecrã. ‘Dial M for Murder’ nunca tem explosões tão intensas nem tão dramáticas, mas a sua construção é uma pérola. Ver a cena da sedução macabra é ver cinema, puro, verdadeiro.

Existe um remake (como sempre, infelizmente) chamado ‘A Perfect Murder’ que foi filmado por Andrew Davis em 1998 e que contém no elenco Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortenson. Nunca vi e, sinceramente, nunca quero ver. Para quê mexer num filme, se o filme é perfeito… Mexer nele é só assassinar essa perfeição, passe o trocadilho...

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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