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Mitt liv som hund

Ano: 1985

Realizador:  Lasse Hallström

Actores principais: Anton Glanzelius, Tomas von Brömssen, Anki Lidén

Duração: 101 min

Crítica: O realizador sueco Lasse Hallström está já há mais de 20 anos em Hollywood a fazer filmes dramáticos, alguns mais ligeiros (‘Chocolate’, ‘The Hoax’), alguns com mais significado (‘The Sider House Rules’, ‘The Shipping News’) e mais recentemente encontrou um novo público ao fazer filmes baseados em romances de Nicholas Sparks (‘Dear John’, ‘Safe Haven’). No entanto, como muitos realizadores estrangeiros que fizeram a transição para a meca do cinema, o seu melhor filme continua a ser o último que fez no seu país natal e que lhe deu o bilhete para a América. Esses filmes detêm a liberdade, a pureza e até alguma inocência e ingenuidade que em Hollywood seria impossível de obter. Para Hallström esse filme é ‘Mitt liv som hund’, ou em português ‘Vida de Cão’, pelo qual recebeu duas nomeações para os Óscares, por realização e argumento, algo que só acontece muito esporadicamente com um filme não falado em inglês.

Este é um filme muito particular, na medida em que consegue ter um forte contexto emocional sem que contudo as cenas que o constituem explicitem isso abertamente. Ou seja é um filme carregado de cenas rotineiras, do dia-a-dia, das pequenas especificidades da vida. Se isto por um lado dá um acutilante sentido de realidade ao filme por outro esta escolha pode levar a situações que se afastam claramente da corrente principal da história, bem como a exageros e inconsistências na tentativa de criar um retrato lírico mas realista das personagens. Mesmo assim, como trabalho de realização o filme é intocável. Tem um ritmo poderoso construído a partir de cenas que se recusam a ser poderosas.

O jovem actor Anton Glanzelius (que tinha apenas 11 anos) interpreta Ingemar, um rapaz que vem de uma família desfeita. O pai está ausente e a mãe tem uma doença grave. Ele próprio poderá sofrer de algum tipo de instabilidade mental (algo que nunca é explicito no filme), que o leva a exagerar constantemente as suas brincadeiras de criança, quer só, quer com os amigos. Para além do mais as constantes discussões em casa afectam-no profundamente. Assim sendo, encontra um refúgio fechando-se no seu próprio mundo, no mundo dos seus pensamentos. Estes são retratados em termos fílmicos através de belos planos do céu nocturno estrelado, encimados por uma voz off (de um Ingemar mais velho?). Este plano repete-se constantemente ao longo do filme, dando-nos uma percepção da evolução emocional do rapaz, e das questões da sua alma. Subjacente está o seu amor por cães, e as suas questões existencialistas, que advêm do seu olhar para o céu, estão associadas ao destino de Laika, a cadela que foi enviada para o espaço pelos russos na década de 1960.

Quando a sua mãe deixa de estar em condições para tomar conta dele e do seu irmão, cada um é enviado para um familiar. Ingemar parte então para o interior da Suécia, para ir viver com um tio. Aqui o filme muda de tom. O que se iniciara como um drama, muda para o retrato clássico da aldeia, das suas personagens particulares, das pequenas intrigas, da existência pacata do dia a dia. O filme mostra as novas amizades de Ingemar, especialmente o laço que cria com uma jovem rapariga, que se torna a sua companheira de aventuras. Mas mesmo assim, por detrás deste retrato idílico, esconde-se a natureza incompreendida de Ingemar, e a sua revolta interior. Nunca ninguém o entende, e há alguns exageros forçados. Ele é uma criança que quer brincar, mas sempre que o faz algo corre mal e é confundido como um rapaz rebelde e arruaceiro, à procura de problemas. Isto vai-se acumulando dentro dele. Após este período que consome grande parte da duração do filme, há um pequeno interlúdio, um catalisador para o terceiro acto, em que Ingemar volta para casa e para a sua mãe, somente para o público assistir a mais uma discussão e vê-la a morrer num espaço de poucos minutos. Então o filme chega ao seu objectivo. Ingemar volta para a casa do seu tio, e aí as suas emoções, até então contidas, finalmente vêm ao de cima…

Ao contrário de outros filmes com temas similares (notavelmente a obra prima de Neil Jordan, ‘The Butcher Boy’, 1997), em ‘Mitt liv som hund’ não há explosões climáticas. Acaba tudo por ser muito contido, e há apenas breves vislumbres de emoção, explosões momentâneas que acabam por passar. A vida e a rotina diária curam todos os males, o filme parece dizer. Isto acaba por ser desapontante se o público está à espera de um drama pungente para mexer com emoções e fazer chorar baba e ranho. Mas este filme, realista e lírico, consegue mexer na mesma com as emoções do espectador mais sensível. A sua riqueza reside no facto de não ser explícito. Há uma contenção que resulta bem melhor do que muitos dramas mastigadinhos.

A dedicação de Ingemar ao seu cão, que explica o título do filme, e que gera um (suposto) contributo forte para o seu clímax emocional quando o cão é morto, é para mim um dos falhanços principais deste filme. Isto porque o público nunca vê a relação de Ingmar com o cão, nem a forma como essa relação evolui. O cão aparece uma e única vez, num flashback no final do filme. Até aí é apenas mencionado. Por um lado percebe-se esta escolha, mais artística e formal que propriamente emocional. Mas assim o público não sabe qual é a verdadeira natureza do elo de Ingmar com o seu companheiro canino.

Mesmo assim, ‘Mitt liv som hund’ apresenta uma história apelativa e interessante, que prefere focar-se nos eventos que definem o crescimento do rapaz, e menos na sua relação com a mãe, que não é central apesar de ser um catalisador óbvio. O seu conflito emocional para lidar com a doença da mãe e mais tarde com a sua perda não entra artificialmente na história para bem do dramatismo da peça, portanto acaba por diluir-se na nova vida que Ingmar encontra na pequena cidade. E é como devia ser, pois as crianças crescem, e ao crescerem esquecem mais cedo ou mais tarde os problemas do passado. Não é que Ingmar não sinta a perda da mãe. É apenas demasiado jovem para deixar que isso o impeça de continuar a crescer e evoluir.

Fiel à vida, verdadeiro, e com pitadas de liberdade poética, ‘Mitt liv som hund’ é o filme de referência para definir o estilo de Hallström, e acaba por ser um trabalho importante, apesar de simples.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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