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Pacific Rim

Ano: 2013

Realizador: Guillermo del Toro

Actores principais: Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi

Duração: 131 min

Crítica: Pergunto ao estimado leitor se se recorda dos ‘Power Rangers’. Pois bem, ‘Pacific Rim’ (2013) é basicamente uma nova versão dos Power Rangers, mas que custou 180 milhões de dólares a produzir.

Quero começar por confessar uma coisa. Não sou averso a um bom blockbuster de Verão. Às vezes um cinéfilo que se preze não tem disposição para ver o ‘Lawrence d’Arábia’, ou um filme sobre uma vítima de cancro ou sobre um deficiente motor, ou um filme só de diálogos. Às vezes, um cinéfilo que se preze só se quer sentar na cadeira sem ter que realizar qualquer tipo de actividade cerebral relevante. Nessas alturas, um espectáculo pirotécnico de luz, som, porrada e muitos (mas mesmos muitos) efeitos especiais é a solução ideal. Nos últimos anos fiquei muito satisfeito com a minha visualização de filmes como ‘The Avengers’ (2012), ‘Transformers 3: Dark of the Moon’ (2011), ou até ‘G.I. Joe: Rise of Cobra’ (2009). Este último é o exemplo extremo. O filme não tem qualquer tipo de qualidade artística cinematográfica, mas tem duas coisas muito boas. A primeira é a quase ausência de história e de diálogos que não ‘diálogos de batalha’. Os produtores souberam muito bem que se houvesse história, desenvolvimento de personagens, ligações emocionais entre estas ou qualquer outra coisa que geralmente ‘enche’ estes blockbusters, então o filme perderia qualidade. Geralmente estes elementos neste tipo de filmes são de fugir, do pior que há – uma sucessão de lugares comuns batidos sem conteúdo. A segunda coisa é que as inúmeras sequências de acção de ‘GI Joe’, que se sucedem umas atrás das outras quase sem pausas, são magníficas. Ou seja, estes filmes existem para ser um display de efeitos especiais e terem um ou outro momento de humor. Há um limite para a quantidade de ‘drama’ lamechas e desenvolvimento oco de personagens. Se este limite for ultrapassado (e a maior parte das vezes é) então o filme torna-se insuportável, porque não há cenas de acção suficientes que consigam eclipsar o massacre que é assistir à história que está a ser exibida.

Pois bem, infelizmente, ‘Pacific Rim’ (2013) está nesta última categoria de filmes. Por mais grandiosos ou mais épicos que sejam os efeitos especiais (e nem são assim tão grandiosos ou tão épicos quanto isso) não conseguem fazer esquecer a parvoíce da história, e a clichezada que brota da boca de todas as personagens. Coisas como esta resultam se o filme existir num universo ‘kitsch’ (como os Power Rangers!). Mas como todos sabemos, desde ‘Batman Begins’, agora tudo se passa em universos densos, escuros e supostamente realistas. Isso só piora o que ‘Pacific Rim’ oferece e revela mais facilmente as suas inúmeras fragilidades ao público.

‘Pacific Rim’ é realizado por Guillermo del Toro, o mexicano fortemente ligado ao cinema fantástico e de terror, não tanto como realizador, mas mais como argumentista e produtor (embora seja comum aparecer nos posters e trailers ‘de Guillermo del Toro’ ou ‘da mente de Guillermo del Toro’, o que engana muita gente…). Independentemente do seu grau de influência no produto final, os seus filmes geralmente abordam um fantástico ‘inteligente’ (como ‘El laberinto del fauno’, 2006, o seu maior sucesso crítico). Mas Del Toro tem também outra paixão, a de adaptação de comics. E se estes filmes não são sucessos críticos, são pelo menos blockbusters de bilheteira que ‘El labirinto del fauno’ nunca foi. Foi Del Toro o realizador de ‘Blade II’ (2002) e dos dois ‘Hellboy’ (2004, 2008). ‘Pacific Rim’ parece provir deste universo, já que tem influências claras dos filmes de Godzilla, por um lado, e de toda aquela manga em que homens controlam máquinas gigantes, e que conseguem sacar espadas e canhões a seu bel prazer, por outro. Ou seja, ‘Pacific Rim’ é uma espécie de Power Rangers vs. Godzillas. Mas nesta colisão, supostamente épica, não há nada de inteligente.

Como todos os ‘bons’ filmes num futuro próximo, 'Pacific Rim' abre com uma voz off que nos conta como a Terra evoluiu desde os dias de hoje até ao ponto onde começa a acção do filme. Esta narração é acompanhada de imagens semi-documentais, carregadinhas de efeitos especiais, como aliás todo o resto do filme. Aqui tive alguma dificuldade em acompanhar algumas sequências e em perceber a forma dos monstros ou dos robôs, mas pensei que esta introdução era apenas um ‘teaser’ do que estaria para vir. Mais tarde apercebi-me que não, e que essa indefinição é constante em todo o filme. Há batalhas épicas de quando em quando. Mas a verdade é que não se percebe nada bem o que se está a passar. Estou seguro que se fizermos ‘pause’, ou se analisarmos o filme ‘frame’ a ‘frame’, será possível contemplar a mestria dos técnicos de software, será possível discernir todas as escamas dos Godzillas, todas as peças dos robôs, quem dá o soco em quem, e de quem é o membro que volta e meia é arrancado e arremessado pelo ar. Mas a verdade é que para o espectador que vê a acção em tempo real, e só vê cada ‘frame’ uma única vez, isso se torna muito difícil. Não sei se é das batalhas serem à noite, ou em céu nublado, ou no mar, se da velocidade dos cortes da edição, ou se de más escolhas de realização. Mas reitero que achei as cenas de batalha com uma grande falta de definição, difíceis de seguir (e até de apreciar os custosos efeitos), e portanto, com o passar do filme, diminuíram de interesse.

Basicamente, os Godzillas surgem na Terra, vindos do fundo do mar, e começam a aterrorizar cidades indefesas da costa. Ao início são ataques esporádicos e espaçados, mas de repente tornam-se mais intensos. A humanidade junta forças e consegue criar os tais robôs Power Ranger, comandados por dois pilotos espetados numa sala de controle na cabeça do dito, ligados cerebralmente um ao outro e por realidade virtual ao robô. Se o leitor não percebeu nada do que eu disse na frase anterior, também não se apoquente. ‘Pacific Rim’ é daqueles filmes que acha que consegue levar a sua avante com frases repletas de jargões científicos muito elaborados, mas que são completamente ocos. De quando em quando alguém diz algo do género (isto não é uma frase do filme, estou a inventar): ‘Uau, este robô tem uma impulsão MacDrive de 7.000 Watts, com movimento de torção 70 polegadas Yamaha, com um exo-esqueleto de liga alfa-mecânica de fibra de platina e rotoscópio acelerador Finman 7, e canhões de propulsão nucleares de plasma…’. Para que serve isto? Para nada, porque depois nada disto tem consequência. Serviu apenas para encher uma cena.

Como dizia, os Power Rangers (desculpem-me continuar a chamá-los assim, no filme são os JAEGERS) defendem as cidades dos Godzillas (perdoem-me chamá-los assim também, no filme são os KAIJU) e as coisas parecem correr bem. Excepto que o nosso herói (Charlie Hunnam, não o melhor actor do mundo) perde o seu irmão numa batalha, o que lhe trará uma suposta complexidade emocional para o resto do filme. 5 anos passam. Por qualquer razão inexplicável, os humanos continuam a viver em cidades da costa (Sidney, Hong Kong), e estranhamente, continuam a ser comidos. A lógica seria já terem todos migrado para o interior dos continentes, mas não. De igual forma inexplicável, o ‘Governo’ descontinua o programa dos Power Rangers, e decide construir uns muros em vez disso. Claro, os muros não resistem, e quando os Godzilla avançam para o ataque derradeiro, a Hong Kong, sobram só 4 Power Rangers. E são estes 4 Power Rangers, comandados pelo nosso herói e mais 7 indivíduos, que terão que defender a humanidade…

Uma coisa que detestei em ‘Pacific Rim’ foi que desde o 10º minuto de filme, quando a história se estabelece, até uma hora depois, não há praticamente uma única cena de acção. O filme perde uma hora na parte ‘drama’, ‘construção das personagens’ e ‘construção da história’. Vemos o nosso herói a ‘desaparecer’ tal Bruce Wayne em ‘Batman Begins’, para posteriormente ser chamado 5 anos depois para cumprir o seu destino. Vemos o desmantelamento do programa dos Power Rangers, a construção do muro, a formação da ‘resistência’ (liderada por Idris Elba), o recuperar dos 4 robôs que ainda podem ser usados e dos respectivos pilotos. Vemos a busca do nosso herói por um novo parceiro de combate. Esta acaba por ser uma jovem interpretada pela actriz Japonesa Rinko Kikuchi (que foi nomeada para o Oscar por ‘Babel’, 2006, e que é a única neste filme com o mínimo de intensidade dramática), que tem um passado a esconder (aliás, toda a gente neste filme tem um ‘issue’ qualquer, como dizem os americanos). Depois há o jargão técnico. Depois há a dupla de cientistas, o escape cómico (e a única dupla com química no filme) interpretados por Charlie Day e Burn Gorman. Depois há um novo segredo, sobre aquilo que os monstros realmente querem. E depois surge uma das poucas coisas interessantes, o cameo do grande Ron Pearlman, no papel de um traficante de partes do corpo de Godzillas mortos.

E só depois disto tudo é que se dá o ataque decisivo dos Godzillas, e a luta para salvar a humanidade. Quando chega, lamento, mas chega tarde de mais. O limite de que falei no início foi ultrapassado. E depois, como disse, percebe-se pouco das cenas de acção. Claro que os Power Rangers vão morrendo até que só sobra o nosso herói e a sua namorada. Claro que o líder da resistência dará um discurso épico no momento devido (‘on cue’ como dizem os inglese) e fará um grande sacrifício. Se o nosso herói é o Ben Affleck cá do sítio, Elba é o Bruce Willis, se me permitem esta analogia ao ‘Armagedão’… perdão ‘Armageddon’.

No fim fiquei muito pouco satisfeito com este filme. A história não presta e está cheia de falhas (tantas outras que não mencionei aqui), os efeitos especiais não são exibidos em todo o seu esplendor porque fazem parte de cenas mal filmadas, os actores não são grande coisa, as personagens secundárias são super estereotipadas, e ainda por cima houve a lata de sufocar o espectador com conteúdo suposto dramático durante 1 hora, em vez de lhe dar cenas atrás de cenas de acção. Eu até posso perdoar estar a ver um filme de Power Rangers contra Godzillas, se eles andarem à porrada como andam os Transformers ou os GI Joes. Mas o filme replica a táctica que usa para os jargões técnicos. Quando dá jeito, debita-se uma coisa complicadíssima e dá-se-lhe extrema importância. Depois, quando é para despachar, arranja-se uma desculpa qualquer. Por exemplo, os dois pilotos do Power Ranger têm que ser cerebralmente e emocionalmente compatíveis, e o filme perde muito tempo a demonstrar o quão complicado é a escolha de um novo parceiro para o nosso herói. Mais tarde, quando um dos pilotos de outro Power Ranger fica ferido, Elba, o líder da resistência, toma o seu lugar como se nada fosse. O outro piloto pergunta-lhe ‘mas teremos compatibilidade?’ e Elba responde em duas frases algo como ‘sim, porque eu conheço-te muito bem de trás para a frente’. Problema resolvido.

Estou desapontado com Del Toro. ‘Pacific Rim’ é entretenimento descerebrado do pior. Típico blockbuster de Verão, mas mesmo para blockbuster tem falhas grandes. Estou feliz apenas por duas coisas. Primeiro porque o vi em IMAX 3D e ao menos pude desfrutar da experiência. Acho que numa sala normal morreria de tédio. E segundo pela aparição de Ron Perlman. Este é um filme para entreter que não me entreteve. Tem uns efeitos sonoros topo de gama (que vá lá não deixam ninguém adormecer), e muito dinheiro desperdiçado em efeitos visuais. Mas este filme poderia ser todo feito em duas salas, uma com um ecrã verde, e uma com um computador. E isso, meus amigos, não é cinema. Se me dessem pancadaria da boa, umas boas piadas ou até, quem sabe, umas miúdas jeitosas, eu perdoaria a ofensa. Assim sendo digo, ‘adeus, até nunca’.

1 comentários:

  1. Esse filme foi considerado por várias críticas como o melhor filme de ação de 2013.
    Não sei porque essa aversão a ele!
    O filme cumpriu seu papel em desenvolver uma história como as antigas séries como powers rangers, ultraman, robô gigante que eram séries bobas japonesas, em obra de arte. Mas tem gosto para tudo...

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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