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Much Ado About Nothing


Ano: 1993

Realizador: Kenneth Branagh

Actores principais: Kate Beckinsale, Emma Thompson, Denzel Washington

Duração: 111 min

Crítica: Desde que estreou em 1993 com um elenco de luxo e se tornou enorme sucesso de bilheteira (embora tenha sido rapidamente esquecido), o filme de Kenneth Branagh ‘Much Ado About Nothing’ tem dividido opiniões. Ainda hoje, na aproximação do seu 20º aniversário, o debate continua: obra-prima moderna do cinema Shakespeariano ou ‘sell-out’ Hollywoodesco? A maior parte dos críticos ‘intelectuais’ inclina-se para a segunda opinião. Eu, por outro lado (e pelo que sei não estou sozinho, note-se) considero-o um dos melhores filmes baseados numa peça de Shakespeare alguma vez feitos. Verdade que é apenas uma opinião, mas gostaria de salientar que apesar de não ter sido o primeiro filme de Branagh do universo shakespeariano que eu vi, este foi o filme que me fez apaixonar pela sua capacidade de realização, que me fez procurar as suas outras adaptações, e é provavelmente a maior causa de ‘Much Ado…’ ser a minha peça favorita do Bardo. 

Branagh entrou de rompante em Hollywood no ano de 1989, com o seu primeiro filme, a obra-prima ‘Henry V’. Jovem prodígio dos palcos britânicos, Branagh revolucionou (num acto tão digo de Orson Wells), o teatro Shakespeariano com pouco mais de 20 anos de idade. Com 28 anos foi nomeado para Óscar de Melhor Actor e Melhor Realizador por ‘Henry V’ , um filme que reintroduziu Shakespeare ao público cinematográfico moderno, aliando grandes actores a um ritmo de realização dinâmico e viril. Talvez por resultar tão bem, por conseguir fazer a ponte entre a arte e (praticamente) o ‘blockbuster’ de acção (ver as cenas de batalha de ‘Henry V’), os puristas shakespearianos torceram o nariz, enquanto as massas agradeceram o eliminar de algumas cenas mais morosas e cheias de diálogo e a introdução de elementos de composição cinematográfica moderna. Contudo, ao contrário de outras adaptações que o sucesso dos filmes de Branagh gerou (‘Romeo + Juliet’ com Leonardo diCaprio, por exemplo) as concessões de Branagh não são feitas para chocar o público ou mediatizar o material, são feitas apenas com o intuito de tornar a adaptação ‘mais filme’, e sempre com enorme respeito ao texto e ao contexto de partida.

Ora, após ‘Henry V’, Branagh esperou 4 anos para realizar a sua segunda adaptação shakespeariana no grande ecrã. Inteiramente filmado durante o Verão numa ‘villa’ no sul de Itália (maioritariamente em exteriores) ‘Much Ado About Nothing’ é a quintessência da fórmula moderna: conceituados actores de palco ingleses misturados com estrelas de Hollywood, juntos em maravilhosas localizações, contracenando em cenas de ritmo dinâmico, conteúdo facilmente perceptível e com contenção (ou eliminação) dos longos monólogos. Se esta fórmula se tornou norma nas adaptações Shakespearianas do novo milénio este filme tem, contudo, algo que quase nenhum filme, de qualquer espécie, natureza ou contexto tem: uma magia intrínseca própria, para além da história, para além da actuação, para além das palavras do Bardo. Este filme tem uma ligação inacreditável entre os actores, um elo de amizade e prazer no trabalho que estão a executar que passa, mais que perceptivelmente, para o espectador. 

Talvez isto seja consequência do facto do filme ter sido filmado num par de meses durante as férias de Verão. Talvez seja consequência do ambiente que Branagh criou no plateau. Talvez seja consequência da magia da peça. Do que quer que seja, ver este filme é uma delícia já que se nota perfeitamente que todos os actores estão ligados, que estão contentes por estarem a fazer o que estão a fazer, como se fossem um grupo de amigos num workshop de teatro num fim-de-semana a ‘brincar’ ao Shakespeare. Isto rapidamente poderia descambar, poderia fazer com que o produto final perdesse qualidade por mera falta de concentração, mas tal não acontece. Este elo, esta intimidade entre os actores, que raros filmes da história do cinema possuem, enriquece de uma maneira incalculável um filme que, tal como quase todos os shakespearianos, vale tanto quanto as actuações, e a dinâmica entre egos, que possui.

A peça em si enquadra-se nas ‘comédias de erros’ do cânone do Bardo. No geral é uma peça engraçada, ligeira e com ritmo, mas não deixa de ter alguns tons mais sombrios como catalisadores da história. Don Pedro (interpretado por Denzel Washington com postura mas com um brilho gozão no olhar) regressa vitorioso de uma guerra não especificada a Messina, para passar umas semanas de lazer na casa de Leonato. O seu séquito inclui Benedick (Branagh) um solteirão orgulhoso e com a língua afiada, o jovem Claudio (interpretado por Robert Sean Leonard, então famoso pelo seu papel em ‘Dead Poet Society’, 1989, e que agora pode ser visto na série Dr. House), e o seu meio-irmão, que acaba por ser o vilão da peça, interpretado por Keanu Reeves (consensualmente a pior performance do filme, muito rígida e sem sabor). A entrada triunfal em Messina entrecortada com a preparação da cidade para receber os heróis constitui uma das sequências de créditos mais espectaculares da história do cinema (nos anos 1990 a maior parte dos filme ainda tinha os créditos no início), onde não falta o brilhante tema de Patrick Doyle, virtuoso e melódico, cativante e heróico. Aliás, ao longo de todo o filme, desde o tema principal ao simples ‘underscoring’, Doyle contribui fortemente para o sucesso de cena após cena. Para mim, esta é a melhor banda sonora da sua carreira, e também uma das melhores que o cinema já conheceu. Sou dono de uma cópia original do cd desta banda sonora (que só consegui adquirir no estrangeiro) e confesso que é uma das que mais gosto de ouvir. Quer sozinhas quer no filme as músicas sustêm-se brilhantemente (para quem aprecia bandas sonoras instrumentais e sinfónicas, claro) e, mais importante que isso, conduzem emocionalmente o filme.

A filha de Leonato, Hero, é interpretada por uma Kate Beckinsale de apenas 20 anos, fresquinha da escola de artes dramáticas. O seu rosto, a sua personalidade e a sua actuação são puras e belas, livres de muitos dos tiques que mais tarde viria a adquirir como ‘actriz séria’ (ou de acção – ver ‘Underworld’ e as suas sequelas). A sua prima, Beatrice (a brilhante Emma Thompson, então mulher de Branagh), também de língua afiada, completa o leque de personagens da casa de Leonato. Basicamente Claudio apaixona-se por Hero e o seu amor é retribuído. Tornam-se noivos e preparativos são feitos para o seu casamento. Entretanto, Beatrice e Bennedick não se podem ver um ao outro. Isto é uma ténue desculpa para as cenas se encherem de brilhantes diálogos irónicos, pungentes e poéticos entre Branagh e Thompson, que debitam as frases rebuscada do Bardo como se fossem uma extensão da sua própria natureza. É mais um duelo amigável entre dois artistas da palavra do que propriamente uma troca de insultos, e as suas cenas em conjunto contribuem para encher o filme de sabor poético e humoristico Shakesperiano. Não tarda até que Don Pedro reúna os outros para porem em marcha o plano de fazer Beatrice e Bennedick se apaixonarem um pelo outro. E assim começa a porção ‘comédia de erros’ da peça. Os contornos mais sombrios surgem quando a personagem de Reeves, nada satisfeito com a felicidade de Claudio e pelo facto do seu meio-irmão, Don Pedro, preferir este a ele próprio, decide minar o casamento. Consegue, através daquelas artimanhas que só resultam em peças do Bardo, convencer os restantes homens que Hero está a ser infiel na noite antes do casamento. Como consequência, no dia seguinte, Claudio rejeita Hero na cena mais poderosa e impactante do filme.

Contudo, isto não é Hamlet nem Othelo, é uma comédia ligeira, portanto a peça a partir deste ponto muda de rumo, para tornar as coisas equilibradas mais uma vez. É aí que entra o glorioso Michael Keaton, no papel do guarda nocturno Dogberry. Se a história estagna neste ponto, a comédia atinge o seu pico, e o filme ganha uma acrescida profundidade. A performance de Keaton neste filme é também, para mim, a melhor da sua carreira, e a forma como escolhe ser Dogberry constitui daquelas interpretações que se vê muito, mas mesmo muito raramente. Peço ao leitor para imaginar a personagem de Jack Sparrow, mas 8 anos antes. Aliás, quando algum tempo depois de ter feito esta ponte mental li que a primeira escolha para Sparrow tinha sido precisamente Keaton, compreendi imediatamente porquê. Sempre ouvi dizer maravilhas da performance de Johnny Deep (é na realidade, confesso, fabulosa), mas estou certo e seguro (embora nunca ninguém sem ser eu alguma vez o tenha sequer ponderado) que Jack Sparrow foi parcialmente baseado no Dogberry de Keaton. Genial e divino, só se pode explicar que não tenha sequer sido nomeado (e ganho!) o Óscar de Melhor Actor Secundário por não ser um actor ‘da moda’. O mesmo papel feito (pior) por um Johnny Deep ou um Bradley Cooper ou um George Clooney teria certamente garantido a estatueta dourada… Dogberry tem um discurso tão estúpido que se torna inacreditavelmente hilariante, e tão fora de contexto que o próprio acaba por salvar o dia incrivelmente e praticamente sem querer (embora o queira já que é, relembre-se, o guarda!).

No fim, ‘tudo está bem quando acaba bem’, os casais unem-se ainda mais apaixonados, e a personagem de Reeves é desmascarada e presa. De salientar também a fabulosa qualidade técnica da sequência final. O filme termina com um ‘tracking’ contínuo (ou seja, uma única filmagem sem cortes) durante cerca de 4 minutos, em que os actores principais e todos os extras dançam nos exteriores da formosa ‘villa’ ao som da música ‘Strike Up Pipers’. A maneira como esta sequência está construída e a forma como a câmara se move (acabando inclusive por se elevar numa grua depois de ter passado por interiores e andado a ‘dançar’ com os actores) é suficiente para gerar inveja nos realizadores mais conceituados e ‘tecnicistas’.

Quando o filme termina há uma sensação indescritível de felicidade. Acabamos de assistir a uma avassaladora experiência de ‘feel good’ e de amor à vida, a um filme fantástico de exuberante alegria. Branagh faz o impossível, transforma ‘Shakespeare’ num produto de qualidade de Hollywood, que pode ter grandes estrelas sem as descontextualizar e sem fazer cedências em relação à erudição e à qualidade artística do material de base. A actuação, contudo, tal como em todas as adaptações de Branagh, é por vezes demasiado leve, especialmente por parte dos actores americanos. Mas quer Branagh quer Thompson brilham e a eles junta-se um leque de actores secundários, esses sim, de tradição shakespeariana (Brian Blessed, Imelda Stauton, etc). E, vale a pena repetir, os 10 minutos em que Keaton entra valem sempre a pena cada vez que se vê o filme.

É um filme leve? É. Contém uma formula Hollywoodesca? Contém. Mas mesmo assim é um filme de elevada qualidade, com magníficos cenários solarengos, grandes actuações e que é fiel à peça original. Está concebido para o público moderno, sim, mas tem uma qualidade que as várias ‘modernizações’ shakespearianas que apareceram desde então, não conseguem, por mais que tentem, atingir. Para mim isto é uma obra-prima e um dos meus filmes preferidos, simplesmente porque me faz sentir bem cada vez que o vejo, e posso vê-lo uma e outra vez sem me fartar (algo que também me acontece quando vejo ‘Les Demoiselles de Rochefort’, 1967, de Jacques Demy). A música inspira-me, tal como as brilhantes frases do Bardo. Que mais se pode querer de um filme? De quantos filmes se pode dizer que nos aquecem por dentro, que nos inspiram, que nos alegram? Por isso é que defendo ardentemente que isto é uma obra prima, que, infelizmente, não teve o crédito que merecia. É famoso o facto de os produtores terem gasto 10 milhões de dólares somente em publicidade para tentar obter nomeações para os Óscares e não terem recebido nenhuma. Verdade que 1993 é o ano de ‘Shindlers’s List’, mas uma nomeação para melhor filme não seria descabida. E num ano em que quem ganhou o Óscar de Melhor Actor Secundário foi Tommy Lee Jones no filme ‘The Fugitive’ parece incrível que Keaton não tenha tido sequer uma nomeação. Teria certamente, estou seguro, se fosse um actor mais ‘popular’. O mesmo se passa com o filme. Branagh não era (e não é ainda) uma superestrela, nem um considerado mestre realizador. Felizmente, a desdizer os críticos puristas de Shakespeare que acusam Brannagh de se vender a Hollywood, bem como o desdém da Academia, o filme foi um estrondoso sucesso de bilheteira, provando que a fórmula pode juntar qualidade a apelo de massas. Este mesmo sucesso literalmente não voltou a acontecer em futuras produções shakespearianas de Branagh. A última já foi em 2006 e desde então Branagh já realizou, entre outras coisas, o filme ‘Thor’! Das 3 adaptações subsequentes, saliento o maravilhoso ‘Hamlet’ de 1996 (crítica aqui), de 4 horas, filmado em 70 mm, que merece uma visualização atenta.

Por todas as razões que descrevi recomendo vivamente ‘Much Ado About Nothing’. É linguagem shakespeariana é certo, algo que seguramente não apelará a todos, mas é uma excelente maneira de entrar em contacto com a obra do Bardo. É um filme verdadeiro, apaixonado, que se sustem sozinho como uma grande comédia séria e, mais do que isso, como uma obra cinematográfica de relevo. A minha relação com este filme, que tem talvez uns 15 anos, é uma de paixão intensa. Estou seguro que assim se irá manter.



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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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