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Mission: Impossible - Fallout

Ano: 2018

Realizador: Christopher McQuarrie

Actores principais: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames

Duração: 147 min

Crítica: Um ano depois de um dos Verões menos sucedidos da carreira de Tom Cruise (aquele ‘The Mummy’ não correu muito bem, pois não?) não havia dúvidas nenhumas que, se era para voltar ao topo dos blockbusters de acção, só havia uma coisa a fazer: mais um filme da Missão Impossível. Quando em 2015 critiquei o último filme, ‘Mission: Impossible - Rogue Nation’ citei o crítico Stephen Whitty do Daily News que escreveu “Isto é o que os filmes da Velocidade Furiosa querem ser, e o que os filmes do James Bond costumavam ser”. Precisamente. A franchise da Missão Impossível é, incontestavelmente (digo eu), a melhor saga de blockbusters de acção que hoje existe. E o novo filme, o sexto, ‘Mission: Impossible – Fallout’ (sem tradução para português), apesar de não ser tão bem-sucedido como o anterior, é a prova de que ainda continua a ser.

Tom Cruise, apesar dos seus 56 anos de idade (e provavelmente de algumas plásticas que estão a tornar o seu rosto cada vez artificial) é o último sobrevivente de uma era perdida: é a última grande estrela de cinema “à antiga” que Hollywood possui. Os seus filmes são criteriosamente concebidos para se adequarem à sua persona e continuarem a acalentar o culto da sua personalidade, como os velhos estúdios da era clássica faziam com os seus mais famosos actores. Quando isto não acontece (veja-se ‘The Mummy’) o apelo de Cruise já começa a esmorecer. Mas quando acontece (e não é por acaso que Cruise é também produtor dos filmes da Missão Impossível) então aí está na sua praia. Não interessa muito ao espectador se está a ver Ethan Hunt ou Jack Reacher; interessa-lhe se está a ver ou não Tom Cruise em todo o seu esplendor. Quando os filmes de acção modernos se tornaram distopias de adolescentes, odisseias de super-heróis inundadas de efeitos especiais, ou então mornas aventuras de ultrapassados dinossauros com violência excessiva e maus argumentos; o esplendor de Tom Cruise é precisamente esse: ser uma estrela de cinema “à antiga” em obras feitas ao estilo clássico mas com toda a excitação do cinema moderno.

"A franchise da Missão Impossível é, incontestavelmente, a melhor saga de blockbusters de acção que hoje existe. E o novo filme (...) apesar de não ser tão bem-sucedido como o anterior, é a prova de que ainda continua a ser. (...) É como se fosse mais um episódio da série, porque não precisa de construir personagens nem ser propriamente inventivo em termos argumentais. Só precisa que a acção seja espectacular. E não nos importamos nada com isso."

Há um motivo pelo qual a saga da Missão Impossível singrou quando praticamente todas (senão todas) as adaptações de séries de espionagem dos anos 1960 falharam. Nunca tentou recriar a datada aura kitsch ou cómica dessa era. Nunca tentou ir ao extremo oposto, deturpando a essência da série e das personagens em prol de uma estética modernista que até hoje, na minha opinião, ainda não provou ser melhor. Recriou-se, isso sim, a essência da aventura. Depois do excessivamente intrincado primeiro filme de Brian DePalma (1996), e do excessivamente estilizado segundo de John Woo (2000), a saga encontrou o seu equilíbrio, distanciando-se de praticamente todos os outros filmes do seu género, à excepção da veia revivalista de Bond (‘Casino Royale’ ou ‘Spectre’). Um equilíbrio assente, como escrevi na crítica a ‘Jurrasic World’, no “entretenimento da espectacularidade e na espectacularidade do entretenimento”, onde a história não precisa de ser particularmente bem trabalhada, mas tem de ser vivida com doses iguais de intensidade e panache, em glamorosas localizações reais à volta do Mundo (o bluescreen praticamente não existe nesta forma de cinema). Um filme de acção é tão bom quanto a sua capacidade de cativar o espectador para a aventura. E este sexto filme, tal como anterior, é exímio a fazê-lo.

Mais uma vez realizado por Christopher McQuarrie, o argumentista oscarizado de ‘The Usual Suspects’ (1995) que se tornou o argumentista e realizador par excellence de Tom Cruise (realizou ‘Jack Reacher’, 2012; e ‘Rogue Nation; e escreveu ‘Valkyrie’, 2008; ‘Edge of Tomorrow’, 2014; e até ‘The Mummy’); ‘Mission: Impossible – Fallout’ prossegue não só a história do filme anterior (tornando-se na primeira sequela directa da saga) como mantém o estilo visual e estrutural revivalista que ‘Rogue Nation – o mais fiel à série original – havia introduzido. Assim, a primeira cena explica logo 90% da trama, quando Ethan recebe a proverbial cassete com a mensagem contendo a sua missão. Não nos importa que o método seja datado, embora questionemos quem é que na sede da CIA perdeu tempo a fazer todas aquelas animações que Hunt (e o espectador) vêem, ilustrando a missão e a história (um estagiário talvez?). Importa sim que o filme, tal como o anterior, não tenha necessidade de perder tempo com o supérfluo. Porque sabe perfeitamente que só precisa de desculpas contextuais suficientemente credíveis para justificar a montanha russa de adrenalina que vai injectar no espectador pelas duas horas seguintes. É como se fosse mais um episódio da série, porque não precisa de construir personagens nem ser propriamente inventivo em termos argumentais. Só precisa que a acção seja espectacular. E não nos importamos nada com isso.

Na sequência do filme anterior, Ethan continua no encalço do ‘Sindicato’, uma poderosa organização criminosa, e de Lane, o seu cabecilha (Sean Harris está mais apagado que no filme anterior, mas continua uma presença poderosa). Ambos podiam estar perfeitamente num filme de James Bond, o que constitui mais um elogio a esta saga. Depois de Lane ter sido travado pela equipa da Missão Impossível no filme anterior, o ‘Sindicato’ dispersou-se para formar um novo grupo, ‘Os Apóstolos’ comandados pelo misterioso John Lark, cuja verdadeira identidade é desconhecida. A missão de Hunt é descobrir quem é Lark e travar a venda de três cápsulas de plutónio capazes de gerar três bombas nucleares. Tudo indica que Os Apóstolos estão intentos em usá-las para lançar o caos no Mundo, depois de terem originado, como teste, um surto infeccioso em Caxemira.

"A missão levará a equipa primeiro a Paris, onde Cruise e McQuarrie aumentam a parada das sequências de acção a cada quarto de hora, num ritmo frenético que mantém o espectador na ponta da cadeira. O salto do avião e a extensa perseguição pelas ruas do centro de Paris são mais duas obras de arte cinematográficas em termos do intenso realismo que possuem (100% credível porque é 100% real)."

Logo no início Hunt e a sua equipa; Benji (Simmon Pegg num tom menos cómico que nos filmes anteriores) e o possante Luther (Ving Rhames, cool como sempre mas visivelmente mais pesadão) ficam muito perto de recuperar o plutónio. Contudo, a missão corre mal e os vilões conseguem escapar com a preciosa mercadoria. De notar que Brand (Jeremy Renner) nem aparece nem é mencionado neste filme, supostamente porque o actor não conseguiu conciliar a sua agenda de filmagens com o último filme dos Vingadores. A sua falta não é contudo muito sentida, embora tire coerência interna à saga, principalmente porque este filme se irá ligar muitas vezes ao passado como a única forma de suportar o arco emocional das personagens.

Apesar do erro inicial, a equipa não se irá dar, obviamente, por vencida e inicia a sua missão de recuperar o plutónio com um truque quiçá previsível, mas que certamente faria os criadores da série original orgulhosos. Com apenas um par de dias até ao anunciado holocausto, o chefe interpretado por Alec Baldwin (dará o ar da sua graça mais tarde embora temos pena que não tenha sido mais aproveitado) dá à equipa carta branca para avançarem. Mas devido ao seu falhanço inicial são obrigados a levar consigo um duro agente do CIA chamado August Walker (o “SuperHomem” Henry Cavill). Obviamente, Walker não se dará nada bem com Hunt, já que os dois homens têm métodos e filosofias de trabalho completamente diferentes. A sua rivalidade é algo que o filme até explora de forma produtiva para o desenrolar da história e, principalmente, das cenas de acção.

Assim, a missão levará a equipa primeiro a Paris, onde Cruise e McQuarrie aumentam a parada das sequências de acção a cada quarto de hora, num ritmo frenético que mantém o espectador na ponta da cadeira. O salto do avião e a extensa perseguição pelas ruas do centro de Paris são mais duas obras de arte cinematográficas em termos do intenso realismo que possuem (100% credível porque é 100% real). Pelo meio há sequências de pancadaria (como a da casa de banho da discoteca – só não achei grande piada ao suposto momento de humor); um reencontro inesperado com Ilsa (Rebecca Ferguson) que poderá ser (ou não) uma aliada; a viperina presença sedutora de uma intermediária conhecida como a Viúva Branca (uma interessante Vanessa Kirby); e a presença diabolicamente ameaçadora de Lane que de presa pode rapidamente passar a predador.

"Cada sequência supera a anterior em termos de adrenalina e prova, com cada frame que passa, que os efeitos especiais não precisam de dominar a tela para o resultado final ser espectacular (...) McQuarrie realiza num estilo da velha escola; a edição foca-se sem pressa no rosto dos actores, no movimento dos veículos e enquadra ambos na beleza dos locais de filmagens escolhidos. Infelizmente, isso é muito raro de ver hoje em dia."

De Paris rumamos a Londres, perseguindo Lark cuja identidade é finalmente revelada. Destaque tem de ser dado, obviamente, para mais uma longa sequência de perseguição onde McQuarrie não desaponta os fãs de Cruise mostrando-o a correr de todo e qualquer ângulo possível. E por fim rumamos às cordilheiras asiáticas em Caxemira para a mega sequência de acção final. Aqui Ethan, com a ajuda da sua equipa e de um reencontro muito especial (o badalado regresso de Michelle Monaghan à saga) tem de fazer literalmente o impossível para conseguir cumprir o destino de todos os heróis: desarmar a bomba antes do contador chegar ao zero.

Em termos de acção não há absolutamente nada que se possa dizer contra esta entrada mais recente da saga da Missão Impossível. Cada sequência supera a anterior em termos de adrenalina e prova, com cada frame que passa, que os efeitos especiais não precisam de dominar a tela para o resultado final ser espectacular. Cruise anda de mota, barco, camião e helicóptero, para além de saltar de um avião, e a câmara desfruta desse realismo, permitindo como consequência o espectador desfrutar dele. McQuarrie realiza, tal como já o fizera anteriormente, num estilo da velha escola; a edição foca-se sem pressa no rosto dos actores, no movimento dos veículos e enquadra ambos na beleza dos locais de filmagens escolhidos. Infelizmente, isso é muito raro de ver hoje em dia. Até nos filmes de James Bond já não conseguimos sorver a cor local, tão frenético é o estilo de montagem. Não é por se estar sempre a mudar de plano que uma sequência de acção se torna mais intensa; ‘Fallout’ é a prova disso.

Veja-se a perseguição de motas. Não precisamos de estar sempre a ver zooms de rodas a girar ou de mãos a rodar o volante como acontece noutros filmes. Vemos a mota inteira a fugir a alta velocidade e isso é que nos dá adrenalina. E veja-se a perseguição final de helicóptero. Algum bluescreen é utilizado obviamente, por motivos de segurança, mas a sua demanda por realismo, e o facto do espectador o sentir, torna-a muito honestamente na melhor sequência de acção com helicópteros da história do cinema – ou pelo menos que eu me consiga recordar. Do mesmo modo, já não se via um filme com tão bem construídas cenas de acção desde – precisamente – o último filme da Missão Impossível. É por isso que estes filmes continuam a singrar mesmo indo contra a corrente de todos os restantes filmes de acção. Os espectadores modernos reagem positivamente a grandes efeitos especiais, disso não há dúvidas. Mas um verdadeiro cinéfilo, seja de onde for, seja qual for o seu gosto particular (cinema de acção ou não) irá sempre reagir ainda mais positivamente a bom cinema. E os filmes da Missão Impossível neste momento são bom cinema. 

"Claro que não é tudo um mar de rosas. (...) O argumento deste filme é menos conseguido do que o do anterior (...) Os clássicos truques da equipa da MI já não conseguem nesta fase, seis filmes e centenas de episódios depois, ser obtidos sem previsibilidade. Os grandes twists ao nível de personagens (...) estão também pouco mascarados. (...) e este é um filme inconstante na forma como tenta recuperar a intensidade dramática e emocional em redor de Ethan."

Claro que não é tudo um mar de rosas. Para conseguir singrar na sua vertente de espectáculo de acção/aventura, naturalmente ‘Fallout’ tem falhas noutros departamentos. O argumento deste filme é menos conseguido que o do anterior, não propriamente por ser menos inventivo em termos de história-base (andam mais ou menos a par), mas porque as surpresas são menos surpreendentes. Os clássicos truques da equipa da Missão Impossível (notavelmente o uso das máscaras) já não conseguem nesta fase, seis filmes e centenas de episódios da série depois, ser obtidos sem previsibilidade. Do mesmo modo, os grandes twists ao nível de personagens (quem é quem e de que lado – bons ou maus – está) estão também pouco mascarados. Confesso que adivinhei a identidade de John Lark não no início do filme, mas quando vi o primeiro trailer há mais de seis meses. Quando isso acontece não é nada bom.

Por fim, este é um filme inconstante na forma como tenta recuperar a intensidade dramática e emocional em redor da personagem de Ethan Hunt. A subtileza da sua ligação à personagem de Ilsa no filme anterior tinha sido muito bem construída, algo que infelizmente não se repete aqui. A sua inclusão na história é algo forçada e depois tem de ceder passagem a um muito aguardado reencontro entre Ethan e o seu verdadeiro amor. Sem querer revelar muito mais, tenho a dizer que a cena em que essas duas personagens se reencontram é um momento absolutamente extraordinário (o melhor momento emocional de toda a saga), porque possui um pungente realismo e sentimos realmente os sentimentos entre elas (sim, até mesmo da parte de Tom Cruise). Contudo, o filme deita tudo isso a perder no final, com uma resolução emocional francamente pobre e até algo machista (argumentos escritos por homens…), com o intuito não só de justificar as escolhas de Hunt, com resolver linhas argumentais pendentes tirando personagens do caminho ao mesmo tempo que se abre caminho para outras… Aquela cena perto do final na tenda do hospital é para mim o pior momento do filme, por estes motivos.

Mesmo assim, tudo somado, não nos podemos queixar muito. Este tipo de filmes tenta ter sempre algum conteúdo dramático para humanizar as suas personagens, mas nunca estamos à espera que esse conteúdo seja transcendental, porque pagamos o bilhete para ver outra coisa. E isso que queremos ver, ‘Mission: Impossible – Fallout’ dá-nos. Em grande estilo. Com quase duas horas e meia é o filme mais longo da franchise, mas nem damos pelo tempo a passar, tamanha é a intensidade do seu encadeamento de cenas excitantes. É verdadeiramente uma luta contra o tempo. É verdadeiramente um filme que se desenrola como o mítico rastilho do genérico da série de televisão. Está a faiscar o tempo todo com a iminência do perigo até à épica explosão final.

"É verdadeiramente um filme que se desenrola como o mítico rastilho do genérico da série de televisão. Está a faiscar o tempo todo com a iminência do perigo até à épica explosão final. (...) É um filme de acção/espionagem com a aura da mítica série dos anos 1960; o rigor cinematograficamente realista que caracterizou os filmes de acção dos anos 1990; e a epicidade do blockbuster pós moderno, em pleno 2018. Fixe!"

Termino parafraseando o final da minha crítica ao filme anterior. ‘Fallout’ é um filme de acção/espionagem com a aura da mítica série dos anos 1960; o rigor cinematograficamente realista que caracterizou os filmes de acção dos anos 1990; e a epicidade do blockbuster pós moderno, em pleno 2018. Fixe! Que mais se pode querer? Pela minha parte absolutamente nada. Que venham mais destes, porque nós iremos estar cá para vê-los.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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