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Os livros da minha estante: ‘Animazione’ de Gabriele Lucci

Há uns meses inaugurei em EU SOU CINEMA um ciclo dedicado aos livros de cinema que orgulhosamente estão pousados na minha estante, com a apresentação de “Film Music: From Violins to Video” de James L. Limbacher. Contudo acabei, por negligência, por não dar continuidade a esse ciclo (como o leitor pode reparar a produção deste blog infelizmente teve que diminuir nos últimos tempos por motivos laborais e pessoais). Está na altura de reparar esse erro. Se é fã do cinema de animação, certamente vai adorar ler as próximas linhas.

‘Animazione' é um livro italiano lançado em 2005, o primeiro da série Dizionari del Cinema da editora Electa. O livro foi produzido por Gabriele Lucci, que de acordo com a contracapa do livro havia criado em 1991 a Accademia dell’Imagine, um centro de alta formação de cinema e comunicação audiovisual. O livro conta ainda com a coordenação de Anna Maria Ximenes e a colaboração de mais cinco escritores. A versão que eu possuo, oferecida pelo meu irmão talvez no Natal desse ano ou do ano seguinte, não me lembro ao certo, é em espanhol, com tradução de Maria José Furió.

Com o Scrat de ‘Ice Age’ na capa, ‘Animazione’ é uma carta de amor ricamente ilustrada de 350 páginas à história do cinema de animação e aos mais importantes artistas que a ajudaram a moldar. Talvez não seja o melhor livro se procuramos um ensaio crítico sobre a arte e a técnica da animação, mas é um dos melhores, senão o melhor, se procuramos um detalhado e exaustivo compêndio ilustrado. De facto, neste livro encontramos tudo o que precisamos de saber para mergulharmos de corpo e alma na história do cinema de animação, e com tantas imagens, com tanta qualidade de impressão, folheá-lo é um prazer.

Depois de uma breve introdução em que o autor nos dá uma visão geral sobre o que foi e é a animação cinematográfica, não só na América mas na Europa e no Japão (algo raro de encontrar nos livros americanos sobre animação), o livro divide-se em cinco partes: As Palavras Chave; Os Protagonistas; As Obras Primas; Os Filmes e Apêndices.

A primeira parte, As Palavras Chave, aborda, com um texto repleto de imagens extensamente legendadas, sete pontos fulcrais associados à arte da animação: Animais Animados (com passagens obrigatórias pelas personagens Disney, os Looney Toons e tantos outros como Mighty Mouse); Homens e Mulheres Desenhados (de Bosko a Popeye a Lupin III aos Flinstones); Maus muito maus? (de Maléfica a Yosemite Sam ao Capitão Gancho); Heróis em 3D (abordando o então relativamente recente universo da animação digital); Missão… Possível (discutindo as inevitáveis tramas aventureiras comuns à maior parte dos filmes de animação); Os Cenários da Animação (abordando os extraordinários universos concebidos neste género de filme); e por fim Silêncio, está-se a gravar (que explora as várias técnicas da animação, do stop-motion ao motion-capture). 


A segunda parte, Os Protagonistas, concede uma página a cada uma de 44 personalidades que revolucionaram o mundo da animação. Cada página contém a filmografia total (ou seleccionada no caso de ser muito extensa) de cada uma destas personalidades; um texto que mistura notas bibliográficas com comentários sobre o estilo e a particular importância dessa pessoa na história da animação; e uma imagem representativa da sua obra. Nestes nomes estão incluídos personagens óbvias como Walt Disney, Tex Avery, Don Bluth, Brad Bird, Ralph Bakshi ou Hayo Miyazaki; mas o livro vai mais longe, abordando a importância de pessoas como o compositor Alan Menken, os produtores Steven Spielberg ou George Pal, o animador Ub Iwerks ou outras personalidades europeias como Bruno Bozzetto (sendo italiano, o afecto deste livro por Bozzetto é enorme), Jiri Trnka ou Karel Zeman. Um verdadeiro quem é quem da animação, condensado em cerca de 50 páginas de extremamente fácil leitura.

Depois entramos na análise dos filmes em si. A terceira parte, As Obras Primas, apresenta de forma mais detalhada as dez obras que, para os autores, são as melhores da história da animação. Estas são ‘Snow White and the Seven Dwarfs’ (1937), ‘Fantasia’ (1940), ‘Allegro non troppo’ (1976), ‘Who Framed Roger Rabbit’ (1988), ‘The Nightmare Before Christmas’ (1993), ‘Toy Story’ (1995), ‘Chicken Run’ (2000), ‘Shrek’ (2001), ‘Sen to Chihiro No Kamihahushi (2001) e ‘Finding Nemo’ (2003). Cada filme é descrito ao longo de seis páginas. As primeiras quatro contêm a ficha técnica, a sinopse comentada e vários pedaços de trivia (como de costume, as imagens abundam). As últimas duas contêm o resumo da película em “24 Fotogramas”, ou seja, 24 imagens seleccionadas pelos autores com legendas que vão descrevendo a história.

Podemos debater se estas dez escolhas são ou não acertadas (falta muita Disney pós 1940 por exemplo) mas não as podemos realmente criticar de serem más. A inclusão de ‘Shrek’ e ‘Finding Nemo’ pode parecer talvez descabida hoje, mas em 2004/2005 fazia todo o sentido; foram os filmes que revolucionaram a animação digital. Resta dizer que quando recebi o livro apenas não tinha visto o filme italiano ‘Allegro non troppo’ (1976). Depois de o ter visto, e de o ter criticado neste blog, não me importei nada que tivesse sido incluído. Grisney ou lá como se chama aquele indivíduo americano, não o faria melhor!


Já a quarta parte apresenta (quase) todos os outros importantes (e menos importantes) filmes de animação que se fizeram ao longo da história do cinema. O filme atribui duas páginas a cada um, seguindo o modelo anterior mas sem a parte dos 24 Fotogramas. Ou seja, apresenta a ficha técnica, uma breve sinopse comentada, trivia e algumas imagens. São 89 filmes, de ‘Die Abenteuer des Prinzen Achmed’ (1926) a ‘Robots’ (2005), então acabado de estrear. Pelo meio temos praticamente todos os filmes da Disney; as primeiras obras dos estúdios americanos que surgiram no início do novo milénio (Pixar, Blue Sky, Dreamworks) ou os trabalhos de senhores como Ralph Bakshi, Don Bluth ou Nick Park. Temos uma ênfase especial na animação italiana (ex. ‘La Rosa de Bagdad’, 1949; ‘West and Soda’, 1965; ou as obras recentes de Enzo D’Alò) sem contudo esquecer outras obras inglesas (ex. ‘Animal Farm, 1955; ‘Yellow Submarine’, 1965, ‘Watership Down’, 1978), francesas (ex. ‘Le planete sauvage’ 1973; ‘Les Triplettes de Belleville’, 2003), espanholas (ex. ‘El Cid’, 2003), e outras à volta do globo mais ou menos fora do mainstream. Visitamos a animação japonesa com obras como ‘Akira’ (1989) ou ‘Steamboy’ (2004); e obviamente os filmes do estúdio Ghibli. E visitamos também produtos híbridos de imagem real e animação, do mítico ‘Vynáles skázy’ (1958) a ‘Space Jam’ (1995).

Por fim, os Apêndices dão-nos uma breve cronologia dos grandes marcos da história da animação (basicamente resume as 200 páginas anteriores); a listagem de todos os vencedores do Óscar de Melhor Curta Metragem de Animação (categoria criada em 1931) e de Melhor Filme de Animação (categoria criada em 2002); a listagem dos maiores festivais de cinema de animação existentes (incluindo o Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho); uma listagem de parques temáticos (aka das Disneylândias existentes no globo); os sites da internet mais importantes e uma listagem bibliográfica (bastante extensa aliás).

Tudo somado, ‘Animazione’ é o melhor livro de animação que possuo. É realmente aquilo que pretende ser, um Dicionário Ilustrado. A parte das Palavras Chave e dos Protagonistas será sempre uma excelente introdução ao meio, eficaz e apelativa, quer para leigos quer para especialistas. Já a parte dos Filmes é um hercúleo compêndio que só não é perfeito porque há algumas falhas quase inexplicáveis. Quem descreve um a um quase 100 filmes, com um bocadinho mais de esforço podia incluir mais 10 ou 15 e assim completar algumas épocas, estilos e áreas geográficas que deixou a meio. Por exemplo só alguns filmes dos Estúdios Ghibli estão incluídos. Não era por mais meia dúzia que o livro iria ficar mais denso. E se o livro tem entradas para ‘Who Framed Roger Rabbit’ (1988) ou ‘Space Jam’ então deveria referir – e não refere – a trilogia pioneira da Disney que misturou imagem real com animação: ‘Mary Poppins’ (1964); 'Bedknobs and Broomsticks' (1971) e ‘Pete’s Dragon’ (1977). Se calhar acharam que já tinham Disney em demasia. Mas sem Disney não havia animação, por isso…


Obviamente, visto que o cinema é um meio em permanente mutação e com uma infindável produção, aconteceu a ‘Animazione’ o mesmo que acontece a inúmeros livros de cinema: já se tornou desactualizado. Mas isso não impede que seja um grande compêndio até 2005, o que implica que é um grande compêndio do século XX. Praticamente não há outro igual respeitante à animação cinematográfica. Não é propriamente um livro que valha pelo seu texto, embora seja agradável percorrer os olhos por ele para nos recordarmos do que cada filme é, o que representa e como foi feito. Mas é um livro que vale a pena, e muito, pela listagem e pelas imagens.

O seu objectivo é precisamente esse, fazer com que o leitor o folheie e se vá recordando dos filmes e comece a ter vontade de os ver ou rever. Quando me ofereceram o livro, talvez tivesse visto entre metade e dois terços dos filmes descritos. Hoje já vi praticamente todos. Volta e meia tiro-o da estante, começo a folheá-lo e escolho ver um dos filmes que ainda não vi; ou então lembro-me que é boa altura para rever um dos “clássicos”. É também uma óptima listagem para decidir qual o próximo filme de animação para mostrar ao meu filho. Ele também já ganhou o hábito de ir buscar o livro à estante e começar a folheá-lo, porque fica seduzido pela rica colecção de imagens que possui. Também ele já me começou a pedir este ou aquele filme, somente baseado nessas imagens. Há dois tipos de grandes livros de cinema; grandes ensaios teóricos e críticos, ou então livros como este, que nos impelem a (re)descobrir o cinema.

Com a massiva proliferação de filmes de animação digital na última década, ‘Animazione’ pedia uma actualização, ou então uma sequela dedicada exclusivamente ao século XXI. Mas até isso acontecer, o leitor não perde nada em tentar adquirir esta obra. Tanto quanto consegui apurar, o livro já não está em stock na maior parte dos grandes vendedores. Mas na internet ainda há cópias de boa qualidade, mesmo que em segunda mão, a circular a preços acessíveis. Na minha humilde opinião, vale a pena. A animação é um dos meus géneros preferidos. Se é também o seu, e se se quiser recordar de inúmeros filmes que marcaram a sua infância e a sua vida, ou pretende descobrir um admirável mundo clássico de animação fora de Hollywood, este é o livro ideal para o ajudar. Para folhear e voltar a folhear, sozinho ou em família, e para o inspirar e ajudar a decidir o que ver no próximo serão ou na próxima tarde de sábado, bem enroscadinho no sofá com um balde de pipocas no regaço e os seus entres queridos em redor. É uma bela perspectiva.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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