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Histoire(s) du cinema: TCM – Turner Classic Movies; ou a minha escola de cinema

A grande parcela de uma grande paixão é inexplicável. É algo que vem de dentro, do íntimo. É como um segredo do qual só nos sabemos a origem, mas que escolhemos esquecer para o envolver de mística, para não perder aquele quinhão de fantasia associado ao momento em que a conhecemos e decidimos abraçá-la, amá-la para sempre. Não, não estou a falar de pessoas, mas podia. A paixão pelo cinema, ou pelo menos a minha paixão pelo cinema, rege-se por muitos dos mesmos princípios.

Claro que sei identificar factos inequívocos que me levaram a ela. Posso falar, como aliás já o fiz em crónicas anteriores, do interesse que me foi suscitado pelo meu irmão mais velho que, tinha eu tenra idade, me puxava para ver filmes com ele na televisão; filmes como os das sagas ‘Star Wars’, ‘Indiana Jones’ ou ‘A Night at The Opera’ (1935) dos irmãos Marx. Posso falar da minha tia que nos ensinou a gravar algo que estava a dar na televisão num VHS virgem, instigando assim em nós a veia do coleccionismo, e dando-nos a conhecer a liberdade de rever uma obra, ou uma cena, ou apenas uma frase de diálogo a nosso bel-prazer, décadas antes da gravação digital e de tudo o que ela agora permite instantaneamente. Posso falar da sorte que tive de nascer no seio de uma família que teve a possibilidade de nos oferecer, não só videogravadores e canais de satélite (e depois cabo), mas também, a partir do final dos anos 1980, VHSs originais que ainda mais espicaçaram o nosso interesse, primeiro por obras infantis e familiares, e depois aos poucos elevando o espectro da nossa sensibilidade cultural. 

Posso falar de todos estes factores, mas são factores exógenos, que me proporcionaram um ambiente, mas não me obrigaram, como é óbvio, a esta devoção. É por isso que hoje os meus irmãos não têm o grau de paixão que eu tenho. Cada um tem a sua própria identidade, e ainda bem. Pelo contrário, acredito que o Big Bang da minha paixão adveio, como provavelmente a todas as outras pessoas que estão a ler este texto, de algo endógeno. No meu caso, uma grande paixão pelas artes performativas (mais tarde estaria ligado muitos anos ao teatro universitário como argumentista e actor); pela escrita (este blog é auto-explicativo, não?!) – aliás, comecei a notar a qualidade de argumentos muito antes de notar na qualidade de realização ou de actuação – e, porque não admiti-lo, pelo glamour da industria cinematográfica. Sempre me senti fascinado por essa capacidade de criar ambientes fantasiosos, quiçá escapistas; essa capacidade de criar mundos condensados em duas horas, e personagens maiores que a vida que muitas vezes representam a própria vida. Sempre me senti fascinado por essa capacidade que o cinema tem de entreter, ensinar e seduzir ao mesmo tempo, do drama à comédia, da arte ao brejeiro, da qualidade de um ‘Gone with the Wind’ (1939) à parvoíce completa de um ’Robin Hood: Man in Tights’ (1993) (só para citar um exemplo completamente ao acaso!)


Mas tenho a plena consciência que o meu primeiro contacto com estas valências multifacetadas do cinema, e esse processo de íntima autodescoberta, não adveio das sessões em família no sofá da sala ao sabor de VHSs de filmes para jovens, nessa era despreocupada entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Tenho a certeza absoluta que o meu passaporte para o mundo do verdadeiro cinema, e como consequência para esta minha insaciável paixão, adveio de três letrinhas: T. C. M. Turner Classic Movies.

O TCM, como o próprio nome indica, foi um canal de televisão por cabo fundado pelo Sr. Ted Turner, o multimilionário magnata dos media que criou por exemplo o primeiro canal de notícias 24h (a CNN) e que, como todos os cinéfilos sabem, foi casado com Jane Fonda durante aos anos 1990. Mas para mim, cinéfilo de gema, o maior feito de Turner foi precisamente este canal que lançou em 1994, criado para compensar o facto de outro canal de Turner, o TNT – Turner Network Television (que se não me engano também chegamos a ter em Portugal), ter deixado nesse mesmo ano de emitir filmes clássicos para passar a ser um canal de entretenimento mais generalista.

A grande riqueza do TCM, desde a primeira emissão, estava na sua biblioteca de filmes. Turner havia estado a comprar muita coisa nos anos dourados dos impérios corporativos americanos (os anos 1970 e 1980), portanto tinha ao se dispor um espólio invejável com dois grandes trunfos no baralho. Primeiro, o espólio clássico da Warner Brothers, nomeadamente todos os seus filmes pré-1950, que incluíam clássicos como ‘Casablanca’ (1942), ‘Yankee Doodle Dandy’ (1942) ou ‘Sergeant York’ (1941). Segundo, toda a MGM, e daqui vinham obras clássicas como ‘Gone with the Wind’ ou ‘Wizard of Oz’ (1939), e tudo desde então, de ‘Where Eagles Dare’ (1968) até telefilmes então contemporâneos como ‘Crazy in Love’ (1992) que, se a memória não me falha, foi o filme mais recente que alguma vez vi no TCM. E havia mais uma valência do TCM em relação ao TNT; os filmes a p/b passavam no TCM mesmo a p/b, inalterados, e não nas ridículas versões colorizadas que Turner tentou impingir ao mundo nos anos 1980.


O TCM era um canal que transmitia 24 horas por dia, mas em muitos países da Europa foi forçado a partilhar grelha (uma escolha que ainda hoje é para mim um pouco incompreensível) com outro canal de Turner: a Cartoon Network. Se só conhece a Cartoon Network de agora, com os seus desenhos animados violentos e invisionáveis por qualquer criança, deixe-me dizer-lhe que a Cartoon Network dos anos 1990 não tinha nada a ver. A Cartoon Network dos anos 1990 era um canal absolutamente glorioso; o canal que me acompanhou por toda a infância e adolescência. Era um canal que, mais uma vez, ganhava com o espólio de Turner, não só dos cofres da Warner Brothers (e isso significava ter os 'Looney Toons'), e da MGM (e isso significava ter o ‘Tom & Jerry’), mas também tudo o que os míticos estúdios Hanna-Barbera produziram (e isso significava ter os 'Flinstones', o ‘Top Cat’, os ‘Jetsons’, o 'Scooby Doo', e tantos, tantos outros).

Juntar a Cartoon Network com o TCM era perder a glória destes dois canais 24h por dia. Mas era ganhar um mega-canal de entretenimento familiar clássico como nunca houve nos anais da televisão. De dia o canal transmitia a Cartoon Network. Mas entre as 20h e as 5h (ou entre as 21h e as 6h dependendo da mudança da hora!) o canal magicamente mudava para o TCM. Tal como muitos países na Europa, Portugal passou a ter este mega-canal dual lá para meados da década de 1990, precisamente na mesma altura em que os meus pais instalaram televisão por cabo em nossa casa. Tinha uns 11 ou 12 anos de idade. O meu mundo estava prestes a ser abalado por um terramoto de entretenimento.

A Cartoon Network passou a ser o meu canal de eleição. Duvido que visse outro canal. Não me recordo de ver. O meu inglês não era o melhor, mas foi aqui que o limei, hora após hora, dia após dia. Não obstante de outras séries mais modernas que o canal passava como ‘Dexter’s Laboratory’, ‘Johnny Bravo’ ou ‘Johnny Quest’, tornei-me um fã incondicional, até hoje, de ‘Tom & Jerry’, ‘Top Cat’ ou de Bugs Bunny. Lembro-me de uma vez, em férias, ter acompanhado na íntegra (!) a maratona de oito horas de ‘Tom & Jerry’ que o canal decidiu transmitir. Provavelmente devo-me ter sentido enganado a primeira vez que descobri que o canal era abruptamente interrompido às 20h. Não me recordo. E não me recordo provavelmente porque o choque deve ter durado pouco. Quando mais ou menos por esta altura o meu avô me ofereceu uma pequena televisão, para a qual não tinha uso, para o meu quarto (a minha primeira TV!) de repente descobri aquele mundo misterioso que a Cartoon Network se tornava depois das 20h. O Mundo do TCM. O Mundo do Cinema Clássico.


Esperar por esta transição passou a ser uma grande rotina da minha vida; uma dança que se foi alterando com a minha idade e com a altura do ano (quando mudava para as 21h!). Quando era mais novo e jantava mais cedo (pelas 19h-19h30), comia apressadamente para me escapulir para o meu quarto o mais depressa possível. Mais tarde, passei a assistir à mítica passagem da Cartoon Network para o TCM antes de ir jantar. Mas isso era irrelevante. O irrelevante é que a via.

Findo o último desenho animado (o que ocorria por volta das 19h50-19h55), a Cartoon Network ficava a passar separadores e anúncios literalmente a “encher chouriços” até chegarem as 20h em ponto. E então a imagem ficava preta. E então aparecia o símbolo do TCM, umas letras brancas rodeadas por um quadrado branco, num fundo preto. E então ouvia-se um rufar de tambores que culminava com o som apoteótico dos pratos de uma bateria e uma melodia simples, que reduzia em volume para se poder ouvir a voz grave, que nunca esqueci, do locutor do canal. A frase que ele pronunciava era icónica e ainda hoje está firmemente gravada na minha memória. Foi a frase que me definiu como cinéfilo: “Tonight on TCM…

Tonight on TCM” era seguido de uma breve apresentação da grelha para essa noite, que geralmente não passava de quatro filmes, ou três filmes mais um documentário. Enquanto assistíamos a algumas imagens dos filmes num pequeno quadrado, o locutor fazia um brevíssimo, mas extremamente apelativo, resumo de cada um. Era qualquer coisa como “Cary Grant stars as a man on the run on Alfred Hitchcock’s classic thriller ‘North by Northwest’” ou “James Cagney stars as a man trying to reach the top of the world in Raoul Walsh’s gangster drama ‘White Heat’”… O leitor não me pode ver, mas neste momento estou com um sorriso de orelha a orelha!


Eu nesta altura não sabia quem era Hitchcock, ou quem era Cary Grant, ou quem era James Cagney. Eu não sabia nada. Foi nesta escola que aprendi. Basicamente, eu ficava a ver o início de todos os filmes. Pelo menos daqueles que passavam às 20h. Se o início me puxava (como o de ‘North by Northwest’ ou de ‘White Heat’ certamente puxavam) ficava a vê-los. Senão desistia. Foi aqui que conheci Cary Grant, Spencer Tracy, Katherine Hepburn, Judy Garland, Humphrey Bogart ou James Cagney. Foi aqui que vi pela primeira vez filmes como ‘Gone With the Wind’, ‘The Wizard of Oz’, ‘The Big Sleep’ (1946), ‘The Maltese Falcon’ (1941), ‘Dirty Dozen’ (1967), ‘The Night of the Iguana’ (1964), ‘Meet Me in St. Louis’ (1944), ‘Lolita’ (1962), ‘The Time Machine’ (1960), ‘A Tale of Two Cities’ (1935), ‘The Bad and the Beautiful’ (1952), e tantos, tantos, tantos, tantos outros. Foi aqui também que vi os meus primeiros documentários sobre cinema, com uma elevadíssima fasquia de qualidade.

De facto, só havia uma única falha no canal TCM neste formato truncado. O espólio de filmes era estranhamente limitado. Verdade que só podiam passar três ou quatro por noite, mas não creio que este canal, pelo menos na sua versão portuguesa, tivesse em carteira mais de cinquenta ou sessenta obras. Passado uns meses, passado uns anos, eu basicamente já tinha visto todos os filmes que passavam no canal, mesmo aqueles que inicialmente não me haviam apelado. Mas a repetição fazia parte da paixão. Era sempre um prazer ouvir aquele “Tonight on TCM”, sentir aquela excitaçãozinha ao saber quais eram as obras dessa noite, e ficar a rever pela décima vez ‘Casablanca’. Mas depois, com a introdução do videogravador na minha vida, esta repetição tornou-se menos interessante. Foi excelente pois não só passei a gravar aqueles filmes que davam de madrugada a horas em que não podia ver em directo, como passei a guardar, para a posteridade, todos estes filmes clássicos (VHSs que ainda hoje, vinte anos depois, fazem orgulhosamente parte da minha estante). Mas não foi tão excelente deixar de ter novas obras para descobrir. 

Talvez por esse motivo, num determinado momento no tempo (peço desculpa não saber precisar o ano) a operadora de cabo de eleição dos meus pais decidiu finalmente dividir o canal em dois. Sim, é verdade, por um breve período de meses (não creio que tenha ultrapassado os dois ou três) passei a ter quer a Cartoon Network quer o TCM 24h por dia. Foi um sonho tornado realidade. Foi um período incrível. Foi um período em que pude finalmente desfrutar do restante espólio do TCM, aquele que, por qualquer motivo idiota, não tinha lugar nas sessões da noite, reservado sempre às mesmas cinquenta obras. Mas foi um prazer que não durou muito, e pouco depois voltou-se ao mesmo esquema de partilha entre a Cartoon Network e o TCM, o esquema dos filmes que eu já tinha visto e revisto.


E foi assim que, também por ter chegado à idade de ir para a faculdade, deixei de ver o TCM. Ele já me tinha dado tudo o que tinha para dar. E eu já tinha recebido todas as lições, já as tinha memorizado todas, filme a filme, actor a actor, diálogo a diálogo. Já não havia mais nada a partilhar entre nós, a não ser aquele respeito mútuo que existe entre um professor apaixonado e dedicado no final do ano, e alunos sedentos de conhecimento que cresceram ao sabor das suas lições de vida que nunca esquecem, e que as levam bem junto ao coração para o resto da vida.

Depois disso perdi um bocado o contacto com o TCM. Até porque acho que durante um período andou a saltar, de forma inconstante, para dentro e para fora da grelha da minha operadora de cabo. Lembro-me que houve uma altura quando fui morar sozinho, em que quis recomeçar a gravar filmes, nomeadamente em DVD, e que o canal não existia. Descubro agora na internet que o TCM resistiu honradamente nalgumas operadoras portuguesas até Dezembro de 2013. Quando a companhia de Turner fez uma parceria para criar o hoje existente Cartoon Network Portugal (uma patética imagem da antiga Cartoon Network) as transmissões do TCM foram indefinidamente cessadas, até hoje. Foi o fim de um gigante. Foi o fim de uma era.

O TCM foi simplesmente o melhor canal de cinema que alguma vez existiu, tal como a Cartoon Network foi o melhor canal de desenhos animados. E isso ninguém pode tirar a Turner. Contudo, é com pesar que olho para a Cartoon Network de hoje, e para todos os outros canais de desenhos animados. Nem um passa ‘Tom & Jerry’. Nem um passa ‘Looney Toons’. Como vão as nossas crianças crescer se só vêm desenhos animados espalhafatosos, ruidosos e violentos sem o mínimo de classe (o ‘Tom & Jerry’ e os ‘Looney Toons’ podiam ter alguma violência, mas mostravam-na com classe e surrealismo cómico). Da mesma forma, hoje temos em Portugal o Canal Hollywood, temos o Sci-Fi, temos o AMC, temos o AXN em várias cores e a Fox em vários géneros, e temos o TV Cine para quem está disposto a pagar mais para desbloquear o sinal. Mas não há um único que passe cinema clássico como o TCM. 


Sempre achei ridícula a preguiça do mundo moderno televisivo. Assumem que as pessoas vão ler as notícias todas na internet, portanto o telejornal tornou-se uma sucessão de reportagens temáticas e peças de opinião. Assumem que as pessoas vão ver os filmes todos na internet e portanto já não passam os velhos clássicos. Há quantos anos não dá um ‘The Sound of Music’ numa tarde de feriado na televisão pública? Há quantos anos não dá um ‘Casablanca’? Assumem que ser antigo é ser desinteressante, é não dar audiências. Um computador não substitui a magia de descobrir o cinema num canal como o TCM. E não é o novo filme da Marvel que alguma vez vai substituir a magia que é ver pela primeira vez ‘The Wizard of Oz’.

Eu sou o cinéfilo que sou hoje, falo tão bem inglês como falo hoje, sei tanto sobre cinema como sei hoje, ganhei o prazer pela cultura e pelo entretenimento que sinto hoje, graças ao TCM. E nunca me vou esquecer disso. O canal ainda hoje existe por esse mundo fora, vivendo para ensinar novos cinéfilos e deliciar cinéfilos de longa data. Mas não em Portugal. E assim uma nova geração inteira de cinéfilos portugueses não é criada, porque o “Tonight on TCM” deixou de soar nas nossas televisões. Que desperdício. Que tristeza. Por mais evolução tecnológica, por mais Netflix, o mundo dos cinéfilos ainda precisa de um TCM. Estou feliz por ter feito parte da sua época dourada em Portugal, quando era um jovem a desabrochar para o cinema. É com pena e pesar que percebo que os jovens de hoje não terão o mesmo privilégio. É um dom insubstituível.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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