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Top 15 – Trilogias Favoritas

Há muito muito tempo, quando o cinema estava nas suas primeiras décadas, não era muito comum um filme ter sequelas. Filmes que eram um sucesso eram reproduzidos, certamente, mas isso, no seio da gigantesca máquina do estúdio, não significava a preguiça de um remake mascarado de sequela. Verdade que os ambientes podiam ser reproduzidos, bem como as temáticas, o leque de actores, e até as personalidades das personagens. Mas havia o esforço de criar personagens novas, histórias novas, situações novas, twists novos para a mesma fórmula. Recordemos os vários filmes de Fred & Ginger, ou os noirs da Warner Brothers com Humphrey Bogart, Peter Lore e Sidney Greenstreet.

A sequela, com raras excepções, sempre foi reservada para o filme de série B. Até há década de 1950 não havia televisão e esta linha de montagem de produtos de concepção mais rápida e barata, herdada das curtas de personagens icónicas do cinema mudo (o Vagabundo por exemplo) era assumida pelas first features de pouco mais de uma hora, que abriam o programa cinematográfico destinado para a família. Os vários filmes da década de 1930 de Laurel & Hardy são disso exemplo. Tal como são os filmes de terror da Universal, os policiais de 'Thin Man' ou os mistérios de Sherlock Holmes, a que já dediquei espaço neste blog. Tal como é a saga familiar de Andy Hardy com mais de uma dezena de filmes entre 1937 e 1946.

Mas quando a televisão assumiu o papel desse entretenimento familiar em formato da novela cinematográfica, as sequelas mal se viram no cinema americano até praticamente ao nascimento do blockbuster nos anos 1970, com a notória excepção dos filmes de espionagem da década de 1960. Aliás, começaram a ser vistas mais no cinema do resto do mundo (a trilogia Apu, dos Dólares ou das cidades medias de Jacques Demy) do que propriamente no americano. Quando apareciam, eram geralmente associadas a grandes sucesso do cinema para a família, como quando ‘Father's Little Dividend’ (1951) sucedeu a ‘Father of the Bride’ (1950), ou quando o épico bíblico ‘The Robe’ (1953), o primeiro filme em widescreen, teve uma imediata sequela: ‘Demetrius and the Gladiators’. Portanto, só quando na década de 1970 o sistema de estúdios ruiu, as companhias de cinema foram compradas pelos grandes conglomerados empresariais e o cinema entrou na era comercial moderna é que as sequelas, vistas como formas fáceis de obtenção de lucro num cinema cada vez mais descaracterizado, inundaram o mercado e se tornaram uma obrigação para todos os sucessos de bilheteira.

"Numa época em que o cinema tem uma forte crise de identidade e em que a falta de inspiração aliada a uma facilidade crescente de fazer grandes lucros sem propriamente ser original banalizou a sequela, é importante recordar que as grandes trilogias existem, não devem ser esquecidas, e devem ser tidas como exemplos a seguir."

Se Coppola deu classe à sequela como o seu ‘The Godfather: Part II’ (1974), as sequelas surgiram principalmente em géneros menos artísticos como o de horror nos anos 1970 ('Halloween', 'Friday, the 13th'), a acção nos anos 1980 ('Rambo', 'Die Hard'), as comédias dos anos 1990 ('American Pie'), e finalmente, hoje em dia, os filmes de animação e os de super-heróis, que atolaram completamente a indústria. Fazer uma sequela e dar logo o salto para a trilogia (quadrilogia, quintologia e aí por diante) não é, no cinema moderno, nada de mais. O público mundial procura o território seguro dos grandes blockbusters e não se importa muito de apanhar as histórias a meio-termo. Incrivelmente, é o cinema que agora segue o molde das séries televisivas, que embalaram numa idade dourada. Inúmeros filmes hoje em dia (notoriamente os da Marvel) nem começam nem acabam. Não desenvolvem as personagens porque isso já foi feito num filme anterior. Não terminam para deixar o público à espera da próxima sequela. Por isso existem num limbo onde realmente pouco acontece; apenas uma aventura pouco memorável e descartável, porque está perfeitamente ciente de que no ano seguinte será substituída por outra, tal como um episódio de uma série sabe que na semana seguinte será substituído por outro. Detesto os filmes em que isto acontece. Mesmo. Mas a verdade é que o público em geral não concorda comigo e o negócio está a ser bastante lucrativo.

Graças a Deus, há excepções. Para muitos de nós que crescemos nos anos 1980, a verdadeira sequela era aquela que vinha aos pares para, juntamente com o filme original, completar uma trilogia. Dois filmes sabiam a pouco. De quatro para cima já era esticar a corda em demasia. Portanto três era, e continua a ser, aquele número mágico, uma estrutura perfeita que permite uma cadência em três actos e uma equilibrada montanha russa de emoções. Quer sejam pensadas de antemão ou não, quer sejam apenas temáticas, algumas trilogias tornaram-se absolutamente icónicas. Numa época em que o cinema tem uma forte crise de identidade e em que a falta de inspiração aliada a uma facilidade crescente de fazer grandes lucros sem propriamente ser original banalizou a sequela, é importante recordar que as grandes trilogias existem, não devem ser esquecidas, e devem ser tidas como exemplos a seguir. 

Esta lista é pois o meu tributo às minhas trilogias preferidas. Algumas delas, pode argumentar o leitor, já tiveram mais filmes entretanto. Vou fingir que não faço ideia do que está a falar! Concentre-se apenas nestas entradas e se por acaso sentir uma necessidade premente de fazer uma mega maratona neste fim-de-semana, já tem aqui pano para mangas e… não hesite! 


15. Trilogia 'Toy Story'

Filmes constituintes: 'Toy Story' (1995), 'Toy Story 2' (1999), 'Toy Story 3' (2010)

Realizador: John Lasseter (1º e 2º filme), Lee Unkrich (3º filme)

Actores principais (voz): Tom Hanks, Tim Allen, Don Rickles

Num parágrafo: Se a Disney até há bem pouco tempo não estava muito interessada em levar sequelas ao grande ecrã, a Pixar sempre foi a grande rainha dos estúdios de animação neste departamento. E o seu crème de la crème é a saga 'Toy Story'. O primeiro filme é icónico, não só porque é o primeiro filme de sempre animado totalmente por computador, como é uma excelente aventura para a família, com doses bem temperadas de acção, humor e moral familiar. Mas para mim o segundo filme é que é a obra mestra da saga, se não em arte, pelo menos em humor. Absolutamente hilariante do primeiro ao último segundo. Mas já não vi com tão bons olhos o terceiro filme, um massivo sucesso de bilheteira (o filme da Pixar mais bem sucedido de sempre). Sempre achei que a primeira metade é frouxa, uma mera repetição das temáticas e das cenas dos dois primeiros filmes. Já a forma lírica e emocionante como termina... bem, isso é outra história completamente. Fabuloso. É por isso que um 'Toy Story 4', agendado para 2018, não soa nada bem, porque o final perfeito do terceiro filme será arruinado...


14. Trilogia 'The Godfather'

Filmes constituintes: 'The Godfather' (1972), 'The Godfather: Part II' (1974), 'The Godfather: Part III '(1990)

Realizador: Francis Ford Coppola

Actores principais: Marlon Brando (1º filme), Al Pacino, Diane Keaton

Num parágrafo: Confesso, talvez para surpresa do leitor, que nunca fiquei siderado com 'The Godfather', nem a primeira vez que o vi na adolescência, nem agora, quatro ou cinco visualizações depois. Claro que reconheço a genialidade da saga do ponto de vista formal, técnico e fotográfico, mas o que falha para mim é não haver o poder da intimidade para além da fachada da 'saga de gangsters', que tanto seduz os espectadores por ser precisamente uma 'saga de gangsters'. Um drama romântico filmado da mesma maneira nunca teria tanta popularidade. E a verdade, na minha perspectiva, é que o tom da trilogia é monocórdico, está desprovido de paixão e de cenas que lhe podiam dar humanidade (Brando a gloriosa excepção). O segundo filme é notório; quase 2h30 até à primeira cena íntima e até lá uma história vaguíssima de intrigas 'backstage' que se vão desenrolando sem nunca serem realmente explicadas. A história é irrelevante e é tratada como tal. E as personagens envolvem-se a si próprias em auras para aumentar a sua mística, essa tal que seduz espectadores pela mística em si, não por aquilo que ela implica. E o terceiro filme nem se fala, diálogos pobres e uma estrutura sem a inteligência dos anteriores; um remake menor mascarado de sequela. Uma saga de um soberbo, embora contido, formalismo cinematográfico, mas não, na minha perspectiva, de grandes obras do cinema.


13. Trilogia 'Apu'

Filmes constituintes: 'Pather Panchali' (1955), 'Aparajito' (1956), 'Apur Sansar' (1959)

Realizador: Satyajit Ray

Actores principais:  Subir Banerjee (1º filme), Smaran Ghosal (2º filme), Soumitra Chatterjee (3º filme)

Num parágrafo: Eu vi a trilogia 'Apu' de Satyajit Ray apenas uma vez há alguns anos quando comprei a caixa de DVDs (já era tempo de a voltar a tirar da estante!). Na altura andava na faculdade e recordo que me deixou uma grande marca emocional. A trilogia segue o pequeno Apu desde a infância pobre numa pequena aldeia indiana até à meia-idade, contando a sua luta para se tornar um escritor e sobreviver às várias adversidades da vida. Ao som de uma banda sonora de Ravi Shankar, Ray impregna a sua obra de profundo lirismo e de uma incrível naturalidade, mesmo que as várias situações trágicas que Apu terá que superar sejam de certa forma típicas do melodrama. O que distingue esta trilogia é a profunda humanidade que possui, a beleza intrínseca das suas simples composições e claro o seu pungente retrato da Índia pobre dos anos 1950. Um dia destes tenho que rever a trilogia e aí pode ser que suba mais uns lugares neste top!


12. Trilogia 'Austin Powers'

Realizador: Jay Roach

Actores principais: Mike Myers, Elizabeth Hurley (1º filme), Heather Graham (2º filme), Beyoncé Knowles (3º filme)

Num parágrafo: YEAH BABY YEAH!! A trilogia Austin Powers é uma daquelas trilogias em que o primeiro filme é tão poderoso que gera uma onda tão grande que os dois restantes filmes a podem surfar sem realmente acrescentarem muito de novo. O grande feito de 'International Man of Mystery' e do génio por detrás dele, Mike Myers, foi ter, praticamente sozinho, regenerado um género que estava morto e enterrado há quase trinta anos: o spy-fi. Fortemente baseado nas paródias de espiões dos anos 1960, Austin Powers recupera essa aura e dá-lhe o cunho pop dos anos 1990. A mistura em teoria não antecipava ser nada de especial, mas na prática provou ser trancendental. Pode ser algo brejeira mas nunca é ofensiva. E pelo caminho é irreverente, hilariante e uma carta de amor ao cinema dos anos 1960. Mas não preciso dizer mais porque já está tudo escrito na minha crítica à trilogia, que o leitor pode ler aqui.


11. Trilogia 'Millenium'

Filmes constituintes: 'Män som hatar kvinnor' (2009), 'Flickan som lekte med elden' (2009), 'Luftslottet som sprängdes' (2009)

Realizador: Niels Arden Oplev (1º filme), Daniel Alfredson (2º e 3º filme)

Actores principais: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre

Num parágrafo: A mini-série sueca que foi distribuída pelos cinemas europeus como uma trilogia é, numa palavra, fantástica. Já os livros haviam redefinido o conceito de thriller jornalístico moderno, e os filmes fazem o mesmo, prendendo o espectador à cadeira do primeiro ao último minuto, através de cenas cativantes e inteligentes que se sucedem umas às outras com um ritmo hipnotizante, constantemente brincando com as nossas emoções e expectativas. É verdade que a qualidade dos filmes vai decrescendo (é difícil bater o primeiro filme - nem a versão americana o consegue), mas como o romance de base é sempre inspirado e tem sempre um novo desenvolvimento para nos surpreender, o filme aproveita muito facilmente essa deixa. Veja-se, por exemplo, a genial cena do tribunal no último filme. E claro, é preciso salientar o trabalho de Noomi Rapace. Ela é Lisbeth Salander.


10. Trilogia 'Dark Knight'

Filmes constituintes: 'Batman Begins' (2005), 'The Dark Knight' (2008), 'The Dark Knight Rises' (2012)

Realizador: Christopher Nolan

Actores principais: Christian Bale, Michael Caine, Gary Oldman

Num parágrafo: Em 2005 lembro-me de ter saído da sala de cinema a pensar que finalmente (finalmente!) tinha visto um filme de super-heróis em que acreditava na origem do herói. Ajuda o facto de Batman ser apenas um homem com uma máscara e não ter super-poderes, mas mesmo assim é incrível como Nolan, uns míseros sete anos após a aberração chamada 'Batman & Robin', conseguiu injectar uma nova vida no homem morcego, e ao fazê-lo regenerar para sempre todo o género. A partir daqui todos os filmes de super-heróis tornaram-se (muitas vezes forçadamente) mais negros, mais intensos, supostamente 'mais realistas'. Mas em 'Batman Begins', e principalmente em 'The Dark Knight', estas características surgem naturalmente: a normal fantasia do cinema de super-heróis misturada com o excelente thriller psicológico (irrepetível o Joker de Heath Ledger), misturada com o melhor cinema de acção (as cenas de perseguição de 'The Dark Knight' chutam para um canto as de um 'Die Hard'). E se 'The Dark Knight Rises' já cai na tentação de ser artificialmente épico só porque é suposto, não há dúvidas nenhumas: esta é a melhor trilogia de sempre de um super-herói. Tensão, intensidade, fantasia, acção, tudo junto num pacote de actuações memoráveis e uma realização de mestre.


9. Trilogia dos Dólares 

Filmes constituintes: 'Per un pugno di dollari' (1964), 'Per qualche dollaro in più' (1965), 'Il buono, il brutto, il cattivo' (1966)

Realizador: Sergio Leone

Actores principais: Clint Eastwood, Lee Van Cleef (2º e 3º filme), Eli Wallach (3º filme)

Num parágrafo: Era uma vez o Oeste clássico americano. Depois um realizador japonês, Kurosawa, fez uma série de épicos de samurais inspirados nesse género. Depois um italiano fez o remake de um desses épicos ('Yojimbo', 1961) de volta para o western, e ao fazê-lo deu uma volta de 180º ao género, pegou nele e sacudiu-o pelos tornozelos até caírem todas as suas convenções e teias de aranha. Com a trilogia dos Dólares, também chamada a trilogia do Homem sem Nome (a personagem de Clint Eastwood) Leone inventou um novo género de western que se tornaria norma (e que infelizmente seria distorcido pelos 'spaghetti westerns') ao mesmo tempo que criou fascinantes obras em que um estilo cinematográfico intrusivo (os famosos close ups), se alia a uma maravilhosa gestão da tensão, não só da acção, mas (e muitos se esquecem disto ao analisar as obras de Leone) da emoção humana. E nesta trilogia vê-se como o seu estilo se constrói lentamente. O primeiro filme é mais contido, decalcando 'Yojimbo'. No segundo Leone já tem a rédia mais livre e cria um fantástico mini-épico de acção através da luta entre dois homens: Clint e Van Cleef. Mas é em 'The Good, the Bad and the Ugly' que Leone parte a loiça toda, uma gigantesca tour de force de cinema, geniais one liners, e coolness de acção, ao som do melhor Ennio Morricone. Mas é preciso destacar que Leone faria ainda melhor, na sua trilogia seguinte, a da América (ver nº 4).


8. Trilogia 'Before'

Filmes constituintes: 'Before Sunrise' (1995), 'Before Sunset' (2004), 'Before Midnight' (2013)

Realizador: Richard Linklater

Actores principais: Ethan Hawke, Julie Delpy

Num parágrafo: A trilogia 'Before' é uma daquelas trilogias não planeadas que surgiu naturalmente mas que se tornou de culto pela força da sua beleza intrínseca. 'Before Sunrise' era apenas um simples filme independente, uma história de amor entre Jesse (Hawke) e Celine (Delpy), dois jovens que se encontram num comboio para Viena e passam o resto do dia (antes do nascer do Sol do dia seguinte) a conversar pelas ruas da cidade; sobre a vida, as relações e tudo o resto. Mas a química entre os dois actores e um argumento belíssimo e incisivo, cheio de vida, naturalidade e credibilidade, tornaram este filme numa obra muito especial. A paixão de Linklater pela evolução de uma vida (veja-se o seu 'Boyhood') levou a que voltasse a unir o par mais duas vezes, com intervalos de 9 anos. A estrutura dos filmes pode ser sempre a mesma, mas como escrevi na minha crítica a 'Before Midnight' "no primeiro filme as personagens estavam na casa dos 20 e portanto tinham conversas de uma vida por descobrir e de um amor por encontrar, e no segundo filme estavam na casa dos 30, a começar a assumir responsabilidades e a ponderar em assentar, agora, na casa dos 40 anos, e com duas filhas, as personagens, e inevitavelmente as conversas, são diferentes". Essa é a glória desta saga; envelhece como os seus actores envelhecem e vai encarando a vida de outras perspectivas. Como escrevi na mesma crítica "Que Ethan Hawk e Julie Delpy vivam até aos 100 anos, para que Jesse e Celine possam viver igualmente até aos 100. O 'Before Twilight' de 2070, com ambos os actores num lar de terceira idade, será igualmente magnífico, estou certo".


7. Trilogia 'High School'

Filmes constituintes: 'Sixteen Candles' (1984), 'The Breakfast Club' (1985), 'Weird Science' (1985)

Realizador: John Hughes

Actores principais: Anthony Michael Hall, Molly Ringwald (1º e 2º filme), Emilio Estevez (2º filme)

Num parágrafo: Os anos 1980 foram a grande era do filme de adolescentes. Mas se já tinham havido filmes de adolescentes anteriormente (ex. 'Fast Times at Ridgmont High'), nada se compara ao que se passou quando John Hughes tomou a cadeira de realizador.  O seu primeiro filme, 'Sixteen Candles' é "apenas" um dos melhores filmes de adolescentes de sempre, não só porque é uma tour de force incrível de comédia high-school (Anthony Michael Hall fa-bu-lo-so!), mas porque pela primeira vez trata os adolescentes de forma realista e altamente identificável, ao contrário da maior parte dos filmes que estereotipam os adolescentes da perspectiva dos adultos. Seguiu-se logo de seguida 'The Breakfast Club', o expoente do brat-pack, a bíblia dos adolescentes, o hino ao high-school e à liberdade de ser aquilo que se quer ser quando se é jovem. Opiniões dividem-se quanto ao filme que deve completar a trilogia. Supostamente é o terceiro e último filme com Anthony Michael Hall; 'Weird Science', uma mescla de estilos menos conseguida (podemos chamá-la de 'comédia surreal high-school sci-fi comming-of-age'). Mas há quem considere em alternativa o terceiro filme com Molly Ringwald: 'Pretty in Pink' (1986), um romance de adolescentes por excelência, que Hughes escreveu mas não realizou, por estar ele próprio a realizar outra bíblia que também podia encaixar nesta trilogia: 'Ferris Bueller's Day Off'.


6. Trilogia 'Indiana Jones' 

Filmes constituintes: 'Raiders of the Lost Ark' (1981), 'Indiana Jones and the Temple of Doom' (1984), 'Indiana Jones and the Last Crusade' (1989)

Realizador: Steven Spielberg

Actores principais: Harrison Ford, Kate Capshaw (2º filme), Sean Connery (3º filme)

Num parágrafo: Spielberg queria realizar um filme de James Bond mas foi recusado. Então o seu amigo George Lucas ofereceu-lhe a oportunidade de materializar um tipo completamente diferente de acção-aventura; uma homenagem às aventuras fantasiosas de heróis exploradores que eram transmitidas na televisão aos sábados de manhã e com as quais os jovens americanos dos anos 1950, incluindo Lucas e Spielberg, aprenderam a crescer. O génio produtivo de Lucas, o génio de realização de Spielberg e o génio de Harrison Ford (ainda bem que Tom Selleck recusou o papel) conceberam tal aventura e conceberam-na da única forma possível: genialmente. 'Raiders' é um expoente do cinema aventureiro, uma delícia para miúdos e graúdos, que não se assenta na acção (que tem), nos fantásticos vilões (que possui), mas sim, principalmente, na nossa capacidade de imaginar, ter fé e de encarnar a pele do próprio Indiana, de vivermos nós próprios a aventura. E se 'Temple of Doom' é mais obscuro nas suas homenagens (a 'Gunga Din', 1939 por exemplo) e portanto foi menos compreendido pelo público e pela crítica, 'Last Cruzade' é a obra prima da saga, e suplanta 'Raiders' para se tornar a melhor aventura alguma vez concebida na sétima arte. As localizações são soberbas, os vilões excelentes, os diálogos altamente citáveis, cada cena é uma ode ao cinema, o final perfeito e o próprio James Bond (Sean Connery) é o pai de Indiana, o que faz todo o sentido. Melhor é impossível.


5. Trilogia 'Lord of the Rings'

Filmes constituintes: 'The Fellowship of the Ring' (2001), 'The Two Towers' (2002), 'The Return of the King' (2003)

Realizador: Peter Jackson

Actores principais: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen

Num parágrafo: Há décadas que se dizia que adaptar 'Lord of the Rings' ao cinema seria impossível. John Boorman havia-o tentado nos anos 1980 mas o projecto ruiu na pré-produção. Então eis que surgiu a força e a perseverança de Peter Jackson. Na realidade, embora nunca o tenha admitido, Jackson teve uma ajuda. Quem conhece o filme de animação de Ralph Bakshi de 1978, percebe que Jackson 'roubou' alguma da estrutura argumental que permite transformar o livro no filme. Mas isso foi só um impulso. Tudo o resto é mérito seu. A magnífica mistura de efeitos especiais (os melhores que se viram no cinema até então, e hoje ainda resistem ao teste do tempo), com um absolutamente fabuloso design de produção (do guarda-roupa às gloriosas localizações na Nova Zelândia), as magistrais actuações e uma fantástica realização (que imbui a longa história de ritmo, intensidade e uma surpreendente humanidade) tornam esta saga muito, muito especial. O seu sucesso não se deve apenas a uma 'moda'. 'Fellowship', para mim o melhor filme, é (ainda) o mais extraordinário filme de aventuras do século XXI. E se nas duas partes seguintes Jackson por vezes resvala para o sentimentalismo exacerbado, e se 'Return of the King' parece que nunca mais acaba com os seus três ou quatro finais, o completo produto final é um marco do cinema do fantástico, um hino à magia do cinema e uma carta de amor a Tolkien. Não era possível fazer uma melhor adaptação, e provavelmente nunca se fará.


4. Trilogia das cidades médias francesas

Filmes constituintes: 'Lola' (1961), 'Les parapluies de Cherbourg' (1964), 'Les demoiselles de Rochefort' (1967)

Realizador: Jacques Demy

Actores principais: Anouk Aimée (1º filme), Catherine Deneuve (2º e 3º filme), Françoise Dorléac (3º filme)

Num parágrafo: Adoro Jacques Demy. Surgindo em plena Nouvelle Vague, Demy criou épicos melodramas musicais sobre sonhadores inadaptados buscando um ideal num mundo descompensado e num mar de encontros e desencontros. Com fabulosas bandas sonoras de Michel Legrand, e com pontadas de crítica social e alguma subtil perversidade, Demy afastou-se da Paris que todos filmavam para cantar as odes das cidades médias francesas. O seu primeiro filme, 'Lola', que já critiquei, passa-se em Nantes e nele, como escrevi "Demy vai à essência da sua filosofia cinematográfica, e produz uma simpática e pitoresca história de amor com uma enganadora simplicidade, mas um gigantesco significado. Como muitos filmes do início da década de 1960, representa na perfeição o espírito da década com uma incrível, e por vezes desconcertante, sensação de realidade". 'Les Parapluis de Cherbourg', vencedor da Palma D'Ouro eleva a fasquia do melodrama trágico aos píncaros do suportável, ao ser um Romeu e Julieta moderno desenrolado ao estilo operático (todos os diálogos são cantados). Mas o melhor é mesmo o terceiro filme. 'Les demoiselles de Rocheford', que também já critiquei é, digo-o a alto e bom som, o meu filme preferido; uma explosão de cor (muita cor!), música, dança e boa disposição, com excelentes actores e uma brilhante técnica cinematográfica. É o maior filme 'feel good' de todos os tempos, mas é também, para mim, aquilo que significa a palavra 'CINEMA'. Toda a gente devia ver este filme, e esta trilogia, pelo menos uma vez.


3. Trilogia da América

Filmes constituintes: 'C'era una volta il West' (1968), 'Giù la testa' (1971), Once Upon a Time in America (1984)

Realizador: Sergio Leone

Actores principais: Charles Bronson (1º filme), James Coburn (2º filme), Robert De Niro (3º filme)

Num parágrafo: Toda a gente cita a trilogia dos dólares de Sergio Leone (ver nº 9), mas muitos se esquecem que os seus três filmes seguintes também constituem uma trilogia temática, a da América (como pode ver, não há um único poster comum que se consiga encontrar). Em três filmes com o preâmbulo de 'Era uma vez' (um dos títulos alternativos de 'Giú la testa' é 'Once Upon a Time in the Revolution'), Leone entrecruza, como só ele sabia fazer, o épico e o íntimo, em três tempos: a conquista do Oeste (num western operático absolutamente incrível); a revolução mexicana (no mais underrated filme de Leone); e a era dos gangsters do início do século XX, naquele que é definitivamente um dos melhores filmes alguma vez feitos e a brilhante despedida do cinema deste mestre realizador. A trilogia da América não tem a coolness da trilogia dos Dólares, mas é constituída de filmes tecnicamente perfeitos (qual 'The Godfather' qual quê) e incríveis retratos de homens e mulheres inadaptados a tentarem sobreviver num mundo em mudança. Passsa-se aqui o oposto dos filmes de Scorsese ou Coppola, onde o íntimo é supostamente dado pelo enfoque na fachada e no glamour de um mundo de violência "real". Nestes épicos de Leone, a violência é estilizada e constitui apenas uma metáfora para os valores humanos que são o verdadeiro cerne do filme; a amizade, a inveja, a vingança. E por isso mesmo, na minha óptica, são muito mais poderosos.


2. Trilogia 'Star Wars'

Filmes constituintes: 'Star Wars' (1977), 'The Empire Strikes Back' (1980), 'Return of the Jedi(1983)

Realizador: George Lucas (1º filme), Irvin Kershner (2º filme), Richard Marquand (3º filme)

Actores principais: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher

Num parágrafo: A saga. A trilogia. O que é que se pode dizer sobre a mais bem-amada saga da história do cinema, que toda a gente viu, inúmeros adoram incondicionalmente, e outros tantos têm memorizado, cena a cena, frame a frame? Podia dizer muito, mas não iria dizer nada de novo ao leitor. Por isso esqueçamos a mitologia que se criou, quase sem querer, pelo caminho. Esqueçamos os efeitos especiais revolucionários que marcaram o cinema para sempre. Esqueçamos a gloriosa banda sonora sinfónica de John Williams que salvou uma arte em extinção. Esqueçamos a revolução no cinema de aventura dos anos 1980. Esqueçamos o universo expandido, as prequelas, os livros, as convenções, os milhares de fãs mundiais. E o que sobra são três filmes dinâmicos e puros; aventuras fantasiosas sem ambições pretenciosas. Peças que não querem ser arte (excepção de 'Empire', cortesia de Kershner), mas entretenimento, que querem oferecer ao espectador os valores clássicos do bem e do mal num pacote de aventura espacial de cortar a respiração como nunca se viu, nem antes nem depois. E é por isso que esta saga é imortal. É por isso é que toca todas as pessoas, de todas as classes, de todos os países, de todas as idades. Porque todos nós tivemos sonhos de aventura quando éramos criança. E ‘Star Wars’ materializa esses sonhos. Somos todos inseguros como C3PO, irrequietos como Luke, convencidos como Hans, atrevidos como a Princesa, mas ao mesmo tempo temos o nosso ‘lado negro’ e amamos detestar um bom vilão. O poder de identificação de ‘Star Wars’ é absoluto.  E, como se viu ao longo das últimas quatro décadas, não dá mostras de abrandar. Quando tudo o resto falha podemos sempre voltar a esta trilogia e reviver a aventura. E ela estará sempre lá, à nossa espera, para mais uma viagem.


1. Trilogia 'Back to the Future'

Filmes constituintes: 'Back to the Future' (1985), 'Back to the Future Part II' (1989), 'Back to the Future Part III' (1990)

Realizador: Robert Zemeckis

Actores principais: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson

Num parágrafo: Para mim esta é a melhor trilogia de sempre. Claro que sei que não é a melhor cinematograficamente, mas é a melhor naquilo que realmente importa: na forma como a sinto, a vivo, a vejo e faz parte da minha vida. Os filmes de 'Back to the Future' foram a minha primeira paixão cinematográfica. Eu tinha cinco anos quando o último filme estreou, portanto tinha a idade ideal quando uns anos depois os VHS saíram e foi transmitido na televisão. Durante a minha infância até ao final da adolescência devo ter visto a trilogia, e principalmente a segunda parte, umas trinta ou quarenta vezes. Foi a trilogia que me ensinou a imaginar, que me mostrou a magia do cinema, que fomentou as minhas brincadeiras e os meus sonhos e que me deu o meu primeiro herói: Michael J. Fox. E se agora só vejo a trilogia talvez de cinco em cinco anos, descubro de cada vez que ainda sei praticamente todos os diálogos de cor, cena a cena! Ainda hoje, ver este filme é ver um obra excitante, com um ritmo incrível, onde tudo tem um propósito, todos os pormenores se encaixam  brilhantemente e a história é conduzida com uma enganadora economia e uma enorme paixão que os actores (destaques para Fox, Lloyd e F. Wilson, extraordinário como Biff, principalmente na segunda parte), transmitem nas suas portentosas actuações. Claro que a saga tem bastantes incongruências espacio-temporais, mas isso é rapidamente esquecido, porque nunca foi feita para ser interpretada dessa forma. Da excitante primeira parte, à ousadia da segunda (o descaramento de voltar ao tempo do primeiro filme é a marca do génio), à mais pausada terceira, uma sentida homenagem ao western, esta trilogia gira à volta de três coisas fundamentais: aventura pura, imaginação suprema, infância eterna. Quantos filmes podem dizer o mesmo?

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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