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A Canção de Lisboa

Ano: 1933

Realizador: José Cottinelli Telmo

Actores principais: Vasco Santana, Beatriz Costa, António Silva

Duração: 85 min

Crítica: O Vasquinho (Vasco Santana) está com um problema. Acabou de chumbar no exame final de medicina, apesar de ter dado umas respostas bastante hilariantes. Não é que ele se pareça importar muito com isto. Afinal, em vez de estudar, prefere viver a boa vida pelos bairros tradicionais de Lisboa, ouvindo o fado em cafés e namoriscando com a sua vizinha do lado, muito embora esteja noivo de Alice (Beatriz Costa), filha do fanfarrão alfaiate da rua, Caetano (o impagável António Silva). O seu grande problema reside no facto de viver às custas da mesada que recebe das suas duas tias ricas do Norte (interpretadas por Teresa Gomes e Sofia Santos), que o financiam na esperança de o ver tornar-se doutor. Em vez de lhes dizer que chumbou no exame, o Vasquinho diz-lhes que já montou consultório, mas leva a sua mentira longe demais porque as suas tias decidem fazer uma visita a Lisboa. Ups...

É aqui que as coisas começam a correr mal. Expulso da sua casa por não pagar a renda, o Vasquinho pede ajuda ao futuro sogro para ludibriar as tias durante a sua estadia. Mas este, vendo uma possibilidade de desviar o dinheiro das tias para si, vai trair o Vasquinho. Contudo, por entre a clássica comédia de enganos, e passando pelas festas tradicionais bairristas da cidade onde muita marcha e muito fado se canta, o Vasquinho vai encontrar o seu próprio rumo quando menos se esperava. Uma cantiga improvisada na casa de fados leva ao seu sucesso instantâneo como fadista, tornando-se o famoso Vasquinho da Anatomia. Mais tarde, e redimido perante as tias e perante Alice, que entretanto havia ganho um concurso viciado de Miss do bairro dos Castelinhos organizado pelo seu pai, o Vasquinho vai finalmente enfrentar de novo o painel de avaliadores de medicina, onde lhe farão a famosa pergunta sobre os músculos do pescoço que originará a ainda mais famosa resposta “É o esternocleidomastóideo…”.

Todos nós, portugueses, conhecemos esta história, de trás para a frente, da frente para trás. Está marcada nos nossos corações, cinéfilos e não cinéfilos, e faz parte da nossa cultura. Só um bom filme, claro, consegue essa longevidade, mas ‘A Canção de Lisboa’ é muito mais do que um bom filme. É um marco porque, tal como os posteres originais referem, é o “primeiro filme português feito por portugueses”. Realizado pelo arquitecto José Continelli Telmo (o seu único trabalho cinematográfico) ‘A Canção de Lisboa’ é a primeira longa metragem sonora inteiramente filmada num estúdio português, nesta caso o da icónica produtora Tobis, que se estabeleceu nesse mesmo ano com o lançamento de várias curtas metragens, documentários e claro, deste filme, e que faria história nas décadas seguintes ao ser o quartel general de todo o grande espólio do cinema clássico português. O que para muitos, ou pelo menos para mim, é o mesmo que dizer do melhor cinema português de sempre.

Assim sendo, para filme de estreia de um país e de uma produtora a arrancar e a experimentar com um novo meio (o cinema sonoro), é incrível como ‘A Canção de Lisboa’ consegue ser ainda, após tantas décadas, uma das obras mais memoráveis do cinema português. Claro que é notório o tom quasi-experimental de algumas sequências, e que muitos aspectos técnicos, como a qualidade do som, a escolha dos enquadramentos, a realização e algumas actuações, entre o amador e o estilo teatral clássico, revelam alguma ingenuidade e possuem claras falhas, apesar de serem sempre bem-intencionados. Mas isso não impede que o filme tenha um grande fascínio e uma grande alma, elementos esses que garantiram a sua longevidade.

‘A Canção de Lisboa’ acaba por ser uma transladação bem-sucedida do modelo 'comédia de enganos musical' que tão popular era por esta altura no cinema americano e, em menor escala, no mais próximo cinema francês. Aliás, o título do filme é mais do que elucidativo. A Canção de Lisboa: The Lisbon Melody, uma clara reminiscência dos filmes da saga ‘Broadway Melody’ que começou em 1929. Mas ao contrário destes, restringidos a cenários de estúdios e a uma história de bastidores de um espectáculo, ‘A Canção de Lisboa’ é um filme muito mais aberto, que junta à fórmula na qual se inspira dois elementos importantíssimos, e que nenhum filme de Hollywood poderia ter.

Primeiro, todo o filme é uma gigantesca carta de amor a Lisboa, como começa por provar o genérico inicial; uma sequência de filmagens dos locais mais icónicos e mais belos da cidade. O filme terá claro mais cenas de interiores, mas não se importa de passear por Lisboa quando é preciso, mesmo que isso resulte nas tais cenas de pior qualidade técnica a que já me aludi em cima. É uma contrariedade a que o espectador, principalmente o português (mesmo que não seja de Lisboa, como é o meu caso) não se irá importar muito de assistir.

Segundo, o filme procura também promover, ou pelo menos homenagear com a mesma paixão, o ex-libris musical da cidade e do país: o fado. Os números musicais vão acabar por consumir uma grande parte deste filme de 90 minutos e ganhar uma importância superior à da própria história. Aliás, esta, à medida que os minutos passam, estagna completamente e nunca nos envolve a 100%, especialmente no segundo acto depois do Vasquinho se ‘desgraçar’ perante as Tias e Alice. Ou seja, o filme parece estar muito mais preocupado em mostrar ao espectador (mundial?) a alegria de viver em Lisboa, o êxtase de experienciar Lisboa, e a magia dos seus bairros tradicionais, das suas casas de fados, das suas festas populares, do que com a sua história e as suas personagens, o que de novo é, de certa forma, uma sentida pena.

Contudo, apesar disso e num toque de génio, irão ser precisamente o fado e os restantes números musicais que irão fazer a história avançar, quer como catalisadores da redenção do Vasquinho, quer na descrição das personagens secundárias e da concepção dos momentos de humor. Com uma enorme simplicidade aparente, o filme vai ter números musicais épicos e memoráveis, como o fado da anatomia cantado por Vasco Santana, a noite das marchas populares (um excelente postal promocional de Portugal numa altura em que provavelmente seriam desconhecidas do mundo) e claro, o inesquecível “Ai chega chega a minha agulha” que Beatriz Costa canta no concurso das Miss do Bairro para satisfazer o ego do seu pai.

Outra icónica e incontornável sequência que merece ser destacada é a da ida ao zoo (“Chapéus há muitos, seu palerma!”). É uma sequência fantástica por um motivo muito simples. Transforma uma banal ida ao zoo, um artifício aparentemente para ganhar tempo quer da parte do Vasquinho em relação às Tias, quer do realizador em relação ao espectador, numa das sequências mais memoráveis do cinema português, pela forma como Vasco Santana estica a piada dos chapéus. A cena pode ser um total aparte em relação à trama do filme e que pouco a influência mas não é, note-se bem, um aparte em relação à personagem do Vasquinho. E é por isso que a cena não se esquece e as personagens também não. Sequências como esta apenas tornam as personagens mais fortes e credíveis, e dão um impulso extra ao filme (que ele tanto precisava, admita-se) para se tornar uma obra cujo percurso argumental até se pode esquecer, mas nunca as personagens, nem as mini set pieces onde elas oferecem o melhor de si, dando alma ao filme.

Aliás, se a viagem musical por Lisboa é o centro da trama, sem as personagens ficaria extremamente despida. São as personagens que se repetiriam pela década de 1940 fora em filmes como ‘O Pátio das Cantigas’ (1943) ou ‘O Leão da Estrela’ (1947), é certo, mas por isso mesmo aqui aparecem com uma ponta de frescura que a repetição posterior obrigaria a perder. Quem pode esquecer Beatriz Costa, com a sua inocência fogosa e o seu cabelo à Louise Brooks (aqui em Portugal chamamos carinhosamente 'o cabelo à Beatriz Costa')? Quem pode esquecer a forma como António Silva condiciona o júri do concurso para a sua filha ganhar ou enrola os clientes na sua alfaiataria? E quem pode esquecer Vasco Santana, com quilos a mais, mas gerindo-os bem com a energia da sua juventude (afinal estamos uma década antes de ‘O Pai Tirano’); um misto de ‘fofura’ infantil com uma ponta de trapaceiro e ordinarice simpática que lhe dá uma enorme naturalidade e uma enorme capacidade de identificação. É principalmente o seu humor, juntamente com o de António Silva, que mais apimenta o filme, mas é preciso salientar que este humor de duplo significado, tão típico deste país, é o original com piada (na minha perspectiva, claro está), que marcou uma era no cinema português, e não o deturpado, desprovido de graça e, digamos, mais ‘baixo’ e ordinário, que se tornaria moda na revista e na comédia “à portuguesa” até aos dias de hoje e que eu, sinceramente, abomino. Pode haver muitos trocadilhos neste filme, mas não há um único forçado, e todos têm piada. E isso é fantástico.

No final, qualquer amante e conhecedor do cinema em geral e do cinema clássico português em particula,r olhará para ‘A Canção de Lisboa’ com um misto de respeito, condescendência, afecto e nostalgia. Respeito porque aqui está o Big Bang de todo o cinema clássico do nosso país, o filme onde todos os grandes se estrearam (Vasco Santana, António Silva, mas não, note-se, Beatriz Costa, que só faria mais dois filmes), o manual que estabeleceu as regras cénicas e argumentais para uma catrefada de fantásticos filmes subsequentes que ainda hoje recordamos com amor. Mas condescendência, contudo, porque na realidade, cinematograficamente falando, o filme não é uma grande obra (é demasiado desconexo na sua estrutura para tal), e revela algum amadorismo que ainda demoraria quase uma década a ser superado. 

Mesmo assim o filme comanda o nosso respeito e o nosso afecto. Pode não ser um grande filme mas é uma grande comédia musical que não deve absolutamente nada aos Broadway Melodys onde se inspira. Este Lisbon Melody é um orgulho para o cinema português então a desabrochar, mas também o é visto na perspectiva de hoje, mais de 80 anos depois. Se os americanos têm ‘The Jazz Singer’ como primeiro filme sonoro e os ingleses têm ‘Blackmail’ de Hitchcock, nós temos ‘A Canção de Lisboa’; um filme que não empalidece nada nesta lista. É um filme que encontra o seu encanto naturalmente, um filme alegre, simpático e despreocupado, com uma ponta de magia e ilusão nas personagens que transpiram joie de vivre pelas suas atitudes, pelas suas piadas e pelas musicas que cantam. E no fim tudo está bem quando acaba bem, porque o cinema é a ilusão suprema e Lisboa a cidade, neste caso, de todas as fantasias.

O filme pode não ser artístico, pode ter sido descartado, juntamente com a maior parte do espólio de comédia clássica da Tobis, pela flor fina da elite intelectual cinematográfica portuguesa como uma obra menor, e existe num pólo completamente oposto àquilo que viria ser catalogado, pela mesma flor fina, como grande cinema. E depois? Digam o que disserem, esta é uma obra verdadeira, com imenso coração. Pode não fazer partir o coco a rir, mas não é brejeira. Pode não ter a mestria da técnica e algum amadorismo, mas sustenta-se brilhantemente nas suas personagens, diverte-nos com elas e diverte-se com a excitação da descoberta do novo meio. Este sempre foi o segredo do bom entretenimento. E se é nosso, então ainda melhor.

Daqui a poucas semanas estreia o remake de ‘A Canção de Lisboa’ nos cinemas portugueses, o último filme da trilogia de Lionel Vieira. E mais uma vez olho para o filme original com nostalgia, não tanto por ser contra o remake por norma (há remakes bons e continuará a haver), mas porque não sinto que seja esta a forma de homenagear mais correctamente estas obras tão importantes e tão bem amadas do cinema português. É muito mais do que reproduzir cenas e modernizar as piadas. É muito mais do que filmar em alta definição, encher o elenco de estrelas e optar pelo sabor comercial. Há algo na honestidade e na alegria com que se fizeram estas obras que dificilmente será reproduzido e que estes remakes não entendem. ‘A Canção de Lisboa’ versão de 1933, é uma carta de amor a Lisboa, às suas gentes e aos seus costumes, num pacote delicioso de comédia musical. Poder-se-á dizer o mesmo do seu remake? Na minha óptica só será bem sucedido se a resposta for sim, mas, tal como os filmes que o antecederam, a resposta provavelmente é não, e é isso que mais dói ao cinéfilo dedicado...

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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