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Bandolero!

Ano: 1968

Realizador: Andrew V. McLaglen

Actores principais: James Stewart, Dean Martin, Raquel Welch

Duração: 106 min

Crítica: No final da década de 1960, o western americano não sabia bem para onde se havia de virar. A lenda de uma nação criada por John Ford, Howard Hawks, John Wayne ou Henry Fonda parecia agora uma miragem idílica numa década de 1960 de profundas mudanças sociais e onde a América sentiu o seu espírito heróico (esse que habitava nos clássicos westerns), a quebrar-se com a desacreditação dos seus valores. O western já havia explorado o seu lado negro anteriormente; é só ver as obras de Anthony Mann ou ‘Johnny Guitar’ (1954) ou ‘Shane’ (1953). Mas não havia realmente mudado a sua estética até praticamente Sergio Leone conceber uma nova visão do Oeste com a sua trilogia dos dólares (1964-1966), um ponto de viragem decisivo que não só alterou o foco da temática para o anti-herói e a violência estilística, como teve a infelicidade de descambar na produção em massa dos filmes menores de violência cómica do género ‘spaghetti western’ (de notar que não estou a chamar aos westerns de Leone ‘spaghetti’ – não o são!).

De certa forma, o épico ‘How the West was Won’ (1962, já criticado) constituiu, como escrevi, “a enorme e definitiva despedida do clássico western do grande ecrã”. A partir daí o western americano partiu-se em filmes que seguiriam as pisadas do ‘spaghetti’ em co-produções com companhias europeias (as obras de Bud Specer e Terrence Hill por exemplo); comédias assumidas (‘Cat Ballou’, 1965; ‘Paint Your Wagon‘, 1969); filmes nostálgicos com as velhas lendas na terceira idade a lançarem-se à aventura com um último “hurrah!” mas cientes do seu peso, da sua idade, e da sua desadequação a este novo universo (‘True Grit’, 1969; ‘The Train Robbers’, 1973; e basicamente as restantes obras tardias de John Wayne); ou então filmes de cariz mais intenso, transladando a aura desgarrada e urbana dos thrillers policiais do início do cinema dos anos 1970 para o velho Oeste. ‘The Professionals’ (1966) de Richard Brooks é um excelente preâmbulo, mas é Sam Peckinpah com filmes como ‘Wild Bunch’ (1969) e ‘Pat Garrett & Billy the Kid’ (1973) que é geralmente tido como o realizador que tomou a deixa do estilo de Leone na América mas tornou-o mais intenso, mais duro e mais adequado à decadência moral que existiria na sociedade e no cinema americano da década de 1970. Aliás, ‘The Wild Bunch’ é geralmente considerado o seminal western de viragem, ao praticamente matar os valores do western clássico usando um conjunto de actores veteranos e desembocando numa sequência final de violência exacerbada, mas ironicamente marcante. Se ver Henry Fonda a fazer de vilão em ‘Once Upon a Time in the West’ (1968) foi um choque, o que Peckinpah faz em ‘The Wild Bunch’ deixa ainda mais marcas imediatas (mesmo que não seja tão duradoiro).

Contudo, apesar de reconhecer a óbvia influência de Peckinpah, pessoalmente acho que há outro realizador que merece ser destacado (e infelizmente poucas vezes o é) em termos do papel que teve em fazer o western americano transitar para a era do cinema moderno: Andrew V. McLaglen. Do mesmo modo, creio que há um filme que, em retrospectiva, se torna ainda mais interessante quando traçamos este historial pelo simples facto de ter sido feito um ano antes de ‘The Wild Bunch’: ‘Bandolero!’.

McLaglen nunca viveu à sombra do seu pai, o actor Victor McLaglen (vencedor do Óscar de Melhor Actor em 1935 e um habitué de John Ford) e criou a sua própria lenda principalmente no final da sua carreira, como realizador das mais excitantes e intensas aventuras all star cast do final dos anos 1970, tais como ‘The Wild Geese’ (1978, já criticado), ‘North Sea Hijack’ (1979) e ‘The Sea Wolves’ (1980). Mas o início da sua carreira foi praticamente todo dedicado ao western. Realizou episódios do icónico ‘Rawhide’ com Clint Eastwood no final da década de 1950 e foi o grande responsável por ‘Gunsmoke’ (1956-1965). Quando fez o salto da televisão para as longas-metragens, realizou nada menos que oito filmes entre 1965 e 1968, a maior parte westerns, incluindo ‘Shenandoah’ (1965) e ‘The Rare Breed’ (1966), ambos com James Stewart. Stewart claro, havia sacudido a sua imagem ingénua de westerns como ‘Destry Rides Again’ (1939) quando na década de 1950 começou a trabalhar com Anthony Mann. A cena em que explode pela primeira vez em ‘Winchester '73’ (1950), por exemplo, é excelente e demonstra ambiguidade que Hitchcock tão bem saberia explorar em ‘Vertigo’ (1958). Para McLaglen, e em particular em ‘Bandolero!’, Stewart oferece uma interpretação dentro deste seu estilo ambíguo, um ser que na superfície é simpático e calmo (e até cómico – ver cena do assalto ao bando), com um nervosismo tranquilizador e plácido que Stewart tão bem demonstrou nos seus filmes dos anos 1930, mas que no interior é amargurado e, quando levado ao extremo, se torna um animal desesperado, disposto a tudo para fazer o que tem de fazer. 

‘Bandolero!’ abre com um assalto a um banco por um bando liderado por Dee Bishop (um mais agastado Dean Martin mas que ainda dá o ar da sua graça). Mas o assalto corre mal e o bando é capturado, para deleite do duro sheriff da cidade, ansioso por ajustar velhas contas (o recentemente falecido George Kennedy, no mesmo ano em que ganhou o Óscar de Melhor Secundário por ‘Cool Hand Luke’). O bando é condenado ao enforcamento, um evento que atrai muita gente à cidade e que o sheriff trata de se certificar de que será memorável e um exemplo para outros malfeitores. Para tal, manda vir um experiente carrasco do Este para gerir o enforcamento. Paralelamente, começamos a seguir um solitário cowboy viajante, Mace (James Stewart), ex-soldado que agora percorre o Oeste sem grande rumo e à procura de trabalho. Na estalagem onde passa a noite conhece precisamente o carrasco que se dirige à cidade para o enforcamento. Mas a partir do momento em que ouve o nome dos condenados, a atitude de Mace altera-se e, pouco depois (numa cena típica do universo western pós-Leone) rouba-lhe as roupas e dirige-se para a cidade assumindo a sua identidade. 

O filme tenta esticar o mais que pode o mistério de Mace, alongando-se na noite anterior aos enforcamentos, e aproveitando para introduzir a personagem de Maria (Rachel Welch), uma ex-prostituta mexicana que havia casado com um homem rico que agora faleceu. Contra tudo e contra todos, Maria deseja manter o seu rancho, e recusa propostas de casamento de outros homens, incluindo do próprio sheriff que há muito a deseja. Nessa noite Maria também tem uma conversa no hotel com Mace e ambos parecem compartilhar uma cumplicidade compreensiva.

Mas logo no dia seguinte o filme revela o seu segredo e mergulha no seu grande propósito. Mace é na realidade irmão de Dee e embora condene a forma como este ganha a vida, salva-o e ao seu bando da forca porque os laços de sangue são mais fortes. Isto origina uma gigantesca perseguição que dura até ao final do filme. Em fuga estão Mace, Dee e o seu gangue, mas também Maria, que, nem de propósito, é levada por Dee como refém. No seu encalço está o sheriff e o seu grupo de homens, sedentos por apanhar os bandidos em fuga, salvar Maria, mas também recuperar o dinheiro roubado do banco da sua cidade. Isto porque aproveitando o rebuliço gerado pela fuga de Dee, Mace rouba placidamente o banco, sem dúvida a cena mais engraçada de todo o filme. A perseguição prossegue até Sul e passa a fronteira até ao México, onde os homens em fuga irão procurar refúgio numa pequena aldeola. Mas o deserto mexicano é um local inóspito e perigoso, quer para quem é perseguido, quer para quem persegue. Assim sendo ao barulho vão entrar também os bandidos mexicanos – os bandoleros que dão o título ao filme – sedentos por matar e roubar estes gringos fora do seu meio. Também eles irão convergir para a pequena aldeola, onde se dá o showdown e o clímax do filme entre os três grupos…

Para mim, ‘Bandolero!’ não é certamente uma obra-prima do Oeste, mas está no patamar logo a seguir. É um filme que consegue condensar na sua estrutura visual e narrativa todos os grandes marcos deste género cinematográfico, ao ter a força das personagens e a aura de um filme clássico, os novos valores do género no vigor da sua história, no seu olhar por vezes nostálgico e na intensidade do seu showdown (de novo se recorda, um ano antes de ‘The Wild Bunch’) e até ao possuir uma pontinha de ‘spaghetti’, quer nalgum tom jocoso que algumas cenas possuem, quer na banda sonora totalmente Morricone-esca da autoria de Jerry Goldsmith.

O aspecto mais surpreendente de ‘Bandolero!’ é sem dúvida este; a forma como retira deste híbrido um filme coerente, cheio de ritmo e interesse, e que portanto se vê muito bem porque agarra o espectador desde o início. A sequência inicial, em redor do enforcamento de Dee e do seu bando, dura mais de meia hora (um quarto do filme, portanto), e, embora não podendo propriamente ser apelidada de uma set piece (não consegue ser tão épica) vai exercendo a sua influência sobre o espectador, ao introduzir muito inteligentemente cada personagem e criando antecipação para o que está para vir, mesmo que o seu twist principal (a identidade de Mace) seja algo previsível. E quando finalmente esta sequência acaba, o filme transforma-se quase exclusivamente numa intensa perseguição non-stop (ou tão intensa quanto era possível num filme do final da década de 1960) pelas icónicas paisagens do velho Oeste e do México, que é incrivelmente fluída pois é toda filmada em sequência (as personagens não abrandam e portanto o filme também não… nem o espectador!), o que mais ajuda na criação do seu ambiente de tensão constante.

Surpreendente também, o que o permite destacar-se de outros westerns mais assentes em acção, é a forma como o filme consegue pausar quando é preciso (muito em redor de fogueiras à noite) e ser muito inteligente na forma como o faz, revelando-nos as personalidades complexas de todas as personagens principais, mesmo que por vezes recorra a algumas frases bem lamechas. A ameaça dos bandoleros ou as picardias dentro do bando de Dee (quererem violar Maria, só não o conseguindo porque Dee e Mace a protegem, por exemplo, ou a questão do dinheiro roubado) são menos importantes, numa história centrada no desenrolar do triângulo amoroso em si, onde todos procuram a sua forma de redenção. Mace há muito se redimiu da má vida mas sente que deve à sua mãe tentar fazer o mesmo pelo seu irmão, mesmo que isso implique sacrificar-se. Já Dee pode ser um pistoleiro ‘mau’, mas é assim porque não conheceu outra forma de vida e no fundo tem um bom coração, que vem ao de cima ao longo da aventura à medida que se aproxima cada vez mais de Maria (um romance não totalmente credível já que Welch acaba por ter muito mais química com James Stewart). Por seu lado, e apesar de um sotaque mexicano extremamente forçado, Welch é muito mais que uma cara bonita que fica bem de calças apertadas e camisa meia aberta. Sinceramente, está incrível, demonstrando uma complexidade bastante superior ao habitual molde das personagens que interpretou nas décadas de 1960 e 1970. De volta ao meio pobre mexicano de onde saiu, Maria poderá encontrar em Dee, o seu raptor, a compreensão que nunca teve, e a força do amor para recomeçar uma nova vida.

No seu encalço destaca-se também a força motriz de George Kennedy como o sheriff, obcecado pelo sentido de dever, mas também pela paixão por Maria que o consome, e que o impele a avançar e a avançar por território inóspito quando a maior parte dos seus companheiros voltam para trás. Há aqui alguns tímidos acordes da profundidade emocional de um ‘The Searchers’ (1956), o que constitui mais uma peça do mosaico surpreendente que é este filme. E toda esta exploração emocional permite que o espectador sinta com maior intensidade a perseguição e o desenlace. Se o clima enérgico de tensão constante que o filme consegue suster pode ser considerado o seu maior trunfo, é inegável que realmente esse clima só é forte porque o filme é extremamente bem-sucedido em envolver-nos nos dramas pessoais de cada uma das personagens.

Os eventos que constituem a grande cena de acção na deserta aldeia mexicana onde filme termina (quando o três grupos se encontram e cada um pretende pela força obter aquilo que deseja) são talvez excessivamente forçados e, arrisco-me a dizer, de um melodramatismo exagerado. Mas por um lado este final tem incríveis paralelismos com o de ‘The Wild Bunch’, com uma pungência acutilante mas ao mesmo tempo uma sensação de vazio que o cinema americano herdou do europeu (a onda italiana e a vaga francesa) e do japonês (principalmente dos épicos de Kurosawa) e que transportaria para a década de 1970. Por outro lado temos de constatar forçosamente que apesar de tudo, o filme valeu por si, pela sua aventura.

Um marco da carreira de McLaglen (um dos seus filmes de maior profundidade e intensidade, embora não tenha a espectacularidade das suas aventuras da década de 1970), uma das obras tardias de maior interesse de Jimmy Stewart e Dean Martin (ambos em fase descendente das suas carreiras cinematográficas), e uma das interpretações sérias de maior relevo de Rachel Welch, ‘Bandolero!’ é um western simpático e dinâmico que ostenta precisamente estes elementos como o seu cartão-de-visita; uma excelente realização, uma história bem contada e boas interpretações assentes em personagens a quem é dado tanto relevo quanto o ambiente da própria história, ou melhor, são elas que claramente influenciam esse ambiente.

‘Bandolero!’ não é propriamente um excelente estudo da psicologia destas personagens (constrói melhor o seu ambiente do que os seus diálogos), nem é uma obra-prima da estética artística do cinema de acção (não é, nem pretende ser, ‘arte’ cinematográfica). Mas é um excelente compromisso entre estes dois estados, cativando-nos do primeiro ao último segundo, envolvendo-nos na sua força motriz. É um filme sobre personagens que são lendas do Oeste. Mas é também um filme de acção intenso. E é também um filme que tem algo a dizer, mais ou menos bem dito, sobre a redenção e as consequências das nossas escolhas. Porque transita entre estes estados, e de uma forma geral transita bem, ‘Bandolero!’ é no fundo um excelente compromisso entre o Velho e o Novo Oeste cinematográfico, o que faz dele um western de charneira tão, ou bem mais relevante que ‘The Wild Bunch’. A sua posição de charneira pode não o tornar completamente convincente, mas o que apresenta é mais do que suficiente para nos recordarmos dele.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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