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#OscarsSoWhite – coincidência, tradição, racismo ou patetice?

Vou começar sem rodeios e com toda a sinceridade. Para mim, a resposta à pergunta do título é que esta história do #OscarsSoWhite é uma autêntica patetice. O leitor mais preconceituoso poderá imediatamente assumir que isso significa que eu sou racista e vai deixar de ler este pequeno devaneio. Ora bem, eu não sou racista, nem nunca fui. Se me quiser acompanhar pelos próximos parágrafos, vou tentar explicar o meu ponto de vista.

Todos os anos, os Óscares, ou os prémios da Academia, o mais popular (já não digo prestigiado, pois já não é) prémio de cinema à escala mundial, atribuído desde 1929 pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, é alvo de críticas por favorecer os brancos americanos em prol dos afro-americanos. Tendo em conta os nomeados e vencedores, não parece favorecer igualmente os latinos, os asiáticos, os índios ou os maori, mas ninguém se parece importar muito com isso. Faltam afro-americanos e isso só pode ser tido como um escândalo! O facto de, em toda a história dos prémios, apenas 15 actores afro-americanos terem levado a estatueta para casa (13 dos quais a partir dos anos 1980) é a prova mais citada, e os números ainda são inferiores nas restantes categorias.

Contudo, como podem estes números servir de prova de coisa alguma, pelo menos se considerarmos que o prémio é isento de qualquer descriminação e ‘jogo sujo’? Se os Óscares forem legítimos, se são, como supostamente pretendem ser, uma valorização de mérito, então, por definição, não podem preencher uma quota. Se preencherem então isso é descriminação positiva, o que não deixa de ser uma forma de descriminação. Se acreditarmos na total isenção dos Óscares (se acreditarmos, repito) então não se pode protestar pela falta de afro-americanos (ou latinos ou chineses ou quem for) nos nomeados, pela falta em si. A protestar, devia ser, quanto muito, pela falta de um afro-americano (ou latino ou chinês ou quem for) específico, e basear o protesto no magnífico trabalho realizado que ficou por reconhecer.


Tomando como exemplo o instigador do #OscarsSoWhite este ano, o grande Spike Lee (que ironicamente recebeu este ano um merecidíssimo Óscar Honorário) eu sempre fui um acérrimo defensor de que foi injustamente privado de uma nomeação (e de uma estatueta) em 2002 pelo seu trabalho a realizar ‘25th Hour’, para mim o melhor filme da década de 2000. Mas eu defendo isso não por Spike Lee ser afro-americano. Defendo-o porque acho que o filme é extraordinário, com uma realização imaculada, e muito melhor que o grande vencedor desse ano, ‘Chicago’. Da mesma forma, para mim Spike Lee realizou o maior filme anti-racismo de sempre em Hollywood: ‘Do the Right Thing’ (1989). Mais uma vez, considero isso não por Spike Lee ser afro-americano. Considero-o por causa do filme em si. Não vejo a falha da sua nomeação por ‘25th Hour’ ou ‘Do the Right Thing’ para a categoria de Melhor Realizador como um acto de racismo. Vejo-o como a habitual relutância da Academia em reconhecer grandes obras de arte em prol do comercialismo. Hitchcock nunca ganhou um Óscar de Melhor Realizador e era branco. Kubrick nunca ganhou um Óscar de Melhor Realizador e era branco. Nem Orson Welles. Nem Nolan. Nem Ridley Scott. Nem Kurosawa ou Fellini. Será a Academia racista para com asiáticos ou italianos? Se é, nunca ninguém o disse. São uns parvalhões que não reconhecem talento, mas isso não faz deles necessariamente racistas. Devemos considerar que Spike Lee se junta, honrosamente, a este cânone de grandes realizadores injustiçados, ou devemos considerar que ele não ganhou o Óscar porque a Academia é racista? A escolha é do leitor.

Claro que podemos suspeitar fortemente que a Academia descrimina. Poderemos até ter razão nessa suspeição. Mas eu sou uma pessoa justa. E como pessoa justa acho que toda a argumentação cai por terra quando é baseada no argumento da quantidade e não da qualidade. Uma coisa seria dizer “Acho que foi uma injustiça Will Smith não ter sido nomeado este ano para Melhor Actor por ‘Concussion!” ou “É um escândalo Spike Lee não ter sido nomeado este ano por ‘Chi-Raq'!" ou “Como é possível não terem nomeado Idris Elba pela sua interpretação em ‘Beasts of No Nation'?!”, e atribuir estas falhas a actos propositados de rejeição pelos visados serem afro-americanos. Isso seria uma crítica completamente justa pois cada um tem o seu direito de julgar talento e, provando-se verdadeira, constituiria sem sombra de dúvidas um acto de racismo por parte da Academia. Mas este argumento não existe e é substituído pelo muito mais vago “Os Óscares são racistas porque não há um único afro-americano nos 20 nomeados nas categorias de actuação”. Faz-me lembrar aqueles treinadores que questionam o árbitro e não a sua própria táctica quando perdem. Até porque em teoria (repito, em teoria) pelas leias de probabilidade condicionada (condicionada à qualidade de uma dada actuação, neste caso), era completamente possível tal acontecer, mesmo acreditando que a Academia é completamente isenta. É assim tão incredível que as 20 melhores interpretações do ano venham da parte de brancos? Especialmente se nos recordarmos que na América a percentagem de população afro-americana é de ‘apenas’ 15%?! Leu bem, quinze! Mesmo assim podia acontecer, com igual facilidade, os 20 nomeados serem todos afro-americanos. O leitor está-se a rir e a pensar “nunca na vida”. Concordo. Mas provavelmente por outros motivos.

Para mim, parece-me inevitável que os Óscares sejam ‘SoWhite’. Mas isso advém da sua própria definição, da definição dos filmes que suporta e promove, e não de uma questão de racismo. Pense comigo, caro leitor, o que é o filme-Óscar de hoje em dia. Não é certamente uma comédia, quer ela seja dos irmãos Farrelly (brancos) ou dos irmãos Wayans (afro-americanos). O que é, isso sim, é um filme comercial (e que portanto nunca pode ser muito crítico ou controverso), 90% dos casos baseado numa história verídica e com quase tanta probabilidade de ser um filme de época. Decompúnhamos isto ponto a ponto.


Primeiro, o filme-Óscar é uma produção comercial, apoiada pelos grandes estúdios, os estúdios que têm o poder de mover favores, mover votos, e que com o estalar de um dedo podem abrir um filme simultaneamente em 10 mil salas na China mal saiam as nomeações. Tudo, em prol de um bom negócio. Sejamos sinceros, neste momento (e isso pode ser onde está o foco da descriminação) este não é, nem de perto nem de longe, o cenário dos grandes autores do cinema afro-americano de topo, cujos filmes geralmente carecem de uma distribuição alargada. Mas isto acontece a inúmeros autores independentes, qualquer que seja a sua cor de pele. Não são os melhores filmes que vão aos Óscares, todos sabemos isso. São os melhores filmes dos grandes estúdios e com maior capacidade de venda e internacionalização. Quantos filmes recentes de Spike Lee ou Tyler Perry, pergunto eu, passaram nas salas europeias nos últimos tempos? Tantas quantas terá passado o último vencedor de Sundance, o que em Portugal é o mesmo que dizer que não passou. E não são os filmes desses grandes produtores afro-americanos feitos (por escolha própria note-se) à margem dos estúdios ‘brancos’ (os que se auto-celebram nos Óscares), com actores e técnicos 100% afro-americanos? São. Mas foi alguma vez Tyler Perry acusado de racismo, porque não há um único branco nos filmes da sua saga Madea? Patetice. Claro que não. E não são estes filmes distribuídos quase exclusivamente na América, já à partida negando os mercados internacionais maioritariamente ‘brancos’ (como a Europa) e assumindo assim que ninguém aqui está interessado em vê-los? São. A procura gera a oferta, mas neste mundo moderno de shoppings e multiplexes, também sabemos que a oferta gera a procura, desde que haja a coragem de dar essa oferta…

Segundo, o filme-Óscar é geralmente um ‘filme de época’. Neste caso, ou o cinema americano começa a filmar todas as suas histórias em África ('Hotel Rwanda', 'Last King of Scotland') ou então, se é para fazer um filme centrado em actores afro-americanos, só há duas hipóteses temporais; um filme de escravos ou um filme dos confrontos sociais dos anos 1960. Pôr afro-americanos no contexto de ‘The Revenant, por exemplo, seria uma séria deturpação histórica. Portanto restam apenas esses dois períodos, que obviamente não podem ser objecto de filmes todos os anos. Mesmo assim já se fizeram e refizeram filmes americanos de topo destas duas épocas, com enorme destaque nos Óscares. No primeiro caso podemos citar ‘Amistad’, ‘The Color Purple’ ou ’12 Years a Slave’, todos nomeados note-se, com inclusive este último a ganhar o Óscar de Melhor Filme. No segundo caso podemos citar ‘Selma’, ‘Mississsipi Burning’, ou uma carrada de filmes com Sidney Poitier, de novo todos nomeados e com ‘In the Heat of the Night’ a vencer o Óscar de Melhor Filme em 1967, algo que poderá estar esquecido de muita, muita gente. E é irónico como ninguém se lembra de perguntar agora se ‘In the Heat of the Night’ ou ’12 Years a Slave’ foram justos vencedores do Óscar de Melhor Filme. Claro que não, pois é um debate que ninguém se sente confortável a ter. Porque há sempre o medo, o medo de ser acusado de racismo se se criticar o filme. Um medo que constitui mais uma forma de descriminação positiva. Nas palavras de Ellen na cerimónia dos Óscares de 2013: “Ou ‘12 Anos Escravo’ ganha o Óscar de Melhor Filme, ou somos todos racistas…

E terceiro, o filme-Óscar é geralmente um filme centrado numa figura histórica, inspiradora e totalmente madura para uma adaptação telenoveleira da sua vida. Nos últimos dez anos, por exemplo, apenas dois vencedores do Óscar de Melhor Actor estavam a interpretar uma personagem fictícia. Nesse caso, como podemos acusar, seriamente, a Academia de racismo? A 'Danish Girl' é branca, por isso não pode ser interpretada por um actor afro-americano. O tipo do ‘Bridge of Spies’ é branco, por isso não pode ser interpretado por um actor afro-americano. Os tipos do ‘Big Short’ ou do caso 'Spotlight' eram brancos, por isso não podem ser interpretados por actores afro-americanos. O Trumbo e o Steve Jobs eram brancos, portanto não podem ser interpretados por actores afro-americanos... O máximo que podemos acusar Hollywood é de que faz poucos filmes sobre personalidades afro-americanas. Mas o que é pouco? É quantificável? É um toma-lá-dá-cá? Por cada filme sobre uma figura história branca é preciso fazer um filme sobre uma figura histórica afro-americana para equilibrar a balança, mesmo existindo 80% de brancos na América e apenas 15% de origem africana? Ali, Martin Luther King, Malcom X, Solomon, Ray Charles, o tipo do 'Hotel Rwanda', o ”Último rei da Escócia”, todos tiveram os seus filmes, e todos tiveram os seus actores nomeados para o Óscar de Melhor Actor, só para citar alguns exemplos. A Academia é racista porque prefere figuras histórias brancas a figuras históricas afro-americanas?! Se é esse o argumento, há que dizer que é bastante ambíguo. Vale mais a 'Danish Girl' de Redmayne do que o médico de Will Smith em ‘Concussion’, só porque a 'Danish Girl' é branca? É isso? Ou terá alguma coisa a ver com a qualidade da interpretação ou o poder do papel? Admitamos sinceramente; entre um médico de futebol americano e um travesti, qual deles é mais glamoroso no perfil interpretação-Óscar?!


Na realidade, o #OscarsSoWhite não parece estar tanto a condenar a Academia, mas mais a própria História Mundial de racismo, que devido ao tratamento injusto e degradante que deu às pessoas de raça negra até quase à metade do século XX (e que infelizmente em muitos sítios ainda se mantém) não nos permitiu ter suficientes personalidades de origem africana dignas de uma adaptação cinematográfica, ou pelo menos não tantas quanto as personalidades brancas. Se o argumento é esse, então OK, estou 100% de acordo. Mas o argumento não é esse! E mesmo que seja, é algo de que, sinceramente, a Academia ou Hollywood não têm qualquer culpa. Se se faz um grande filme sobre astronautas (e.g. ‘The Right Stuff’) não há actores afro-americanos porque nenhum dos astronautas reais era afro-americano. A culpa é da História, da sociedade talvez, e da intolerância que ultrapassou décadas. Não é do realizador! Não é dos votantes da Academia! Alias, este é um dos pontos que acho mais patético em muitas destas argumentações de ‘Hollywood é racista’ e que fazem perder toda a razão de quem, em teoria, até a poderia ter (o leitor ainda não me ouviu dizer que não). Um exemplo crasso é a questão do James Bond negro. Todos os anos há grandes campanhas para que se escolha um actor de origem africana para interpretar Bond. Eu posso ser muito casmurro, mas se nos livros Bond é descrito como um escocês branco, então porque há-de ser interpretado por um actor afro-americano? Faz algum sentido? Faria tanto sentido como Tom Hanks interpretar Martin Luther King ou Christian Bale interpretar Muhamed Ali….

Os Óscares são ‘SoWhite’. São. É impossível refutar isso. Mas na minha modesta opinião, é a definição dos filmes que se celebram nos Óscares que os fazem assim e não uma questão de racismo. Racismo seria querer todos os anos preencher uma cota de afro-americanos nos nomeados, quer merecessem quer não. Racismo seria obrigar a Academia a nomear afro-americanos, independentemente dos filmes e das interpretações. Racismo seria nomear filmes abaixo do patamar da qualidade só porque falam de temas importantes da emancipação afro-americana (‘Selma’ teve duas nomeações; Melhor Música e… Melhor Filme!), e deixar de fora filmes de melhor qualidade, mas com brancos. Racismo seria dar o prémio a um nomeado, não pela qualidade da actuação, mas ‘apenas’ porque é afro-americano (recordo que as últimas três nomeadas afro-americanas para Melhor Actriz Secundária levaram todas o prémio para casa). Racismo seria nem dar o honorário a Spike Lee, que bem o merece, nem contratar um apresentador negro (Chris Rock), nem ter como presidente da Academia uma afro-americana, como é agora o caso. Quem sabe, por exemplo, que o mais jovem realizador nomeado de sempre é precisamente um afro-americano? Foi John Singleton em 1991.

Claro que os mais cépticos poderão dizer que isto é só fachada, que é só “para inglês ver”. Mas a mim isso não me preocupa. Pode ser, pode não ser, mas a verdade é que, devido a todas as circunstâncias que enumerei nesta crónica, as probabilidades reais de um afro-americano ser nomeado, mesmo que a Academia seja totalmente isenta e acima de qualquer suspeita são muito menores do que um branco ser nomeado. E é apenas essa mensagem que quero transmitir. A mim preocupa-me, isso sim, que por causa destas contestações os melhores filmes ou actuações não sejam nomeados para os Óscares (sejam eles feitos por quem sejam, brancos ou negros). Achei a vitória de Jennifer Hudson vergonhosa, por exemplo, mas já achei extremamente injusto não terem sequer nomeado o jovem Quinton Aaron em 'The Blind Side' (2009). Tem tudo a ver com a interpretação e não com a cor de pele.... Se assumirmos que só os sucessos de bilheteira, baseados em histórias verídicas, com figuras históricas inspiradores e actores famosos podem estar nomeados, então devemos acusar a História mundial, o público pagante e o planeta Terra em geral de racismo, bem como criticar os afro-americanos por serem uma percentagem tão diminuta da população e tão diminuta da indústria cinematográfica. Agora não podemos criticar a Academia, que se limita a fazer o seu negócio e o seu marketing.


Acreditem, se há aí algum filme com afro-americanos com as condições ideais para os estúdios venderem por esse mundo fora, e que a Academia possa capitalizar para ter audiências, então vão “impingi-lo” pelas nossas goelas abaixo, como fizeram com ’12 Years a Slave’. Acreditem, se há interpretações de afro-americanos que sejam de destacar, neste universo super contido de temáticas cinematográficas que são os Óscares hoje em dia, então serão nomeadas, não vá a Academia ser alvo de críticas e perder audiências. Denzel Washington tem mais nomeações que Leonardo DiCaprio, por exemplo. Se não há, então simplesmente não houve filmes ou interpretações afro-americanas de destaque este ano. Nada mais. Não é descriminação. Não é racismo. Isso é outra coisa. Como quando a cor de pele é mais valorizada que o talento. Como quando se põem a contar, ano a ano, quantos brancos e quantos afro-americanos há nas listas de nomeados e depois vão para as notícias debitar esses valores. Se somos todos iguais, então isso não importa. Não importa nada. Preocupem-se, em vez disso, em fazer bons filmes. Preocupem-se em vez disso, em ter boas interpretações. A nós cinéfilos, é só isso que importa.

Este ano há só brancos nos vinte nomeados para as categorias de actuação? Who cares. Há vinte seres humanos, e sempre haverá. Há vinte actores e sempre haverá, independentemente da distribuição étnica. Ninguém, neste mundo moderno, devia julgar a qualidade de uma actuação pela cor de pele. Quem o faz só pode então ser, realmente, racista.


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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