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Chaplin na First National (1918-1923) - Introdução para um ciclo de críticas

No início de 1918, Charles Chaplin, com 29 anos de idade (mais novo do que sou agora, ai ai!) estava no topo do Mundo do entretenimento; era o mais bem pago e o mais conhecido artista de todos os tempos, e era adorado por milhões que aguardavam impacientemente pela sua próxima produção. Ao longo de 1916 e 1917, Chaplin trabalhara para a Mutual, para a qual fizera doze curtas-metragens (as famosas Mutual-twelve), um período que correspondeu ao pico da sua criatividade neste formato. As curtas da Mutual não só são as suas melhores do período da década de 1910, como foram cruciais para a viragem da psicologia da sua bem-amada criação – o Vagabundo – desde um por vezes mesquinho, por vezes interesseiro pobretanas das curtas iniciais de 1914, para o ser trágico e pungente, com enorme universalidade que se acabaria por tornar. Vê-se essa transição perfeitamente em curtas como ‘The Vagabond’ (1916) ou ‘Easy Street’ (1917, sujeita já a uma longa reflexão em EU SOU CINEMA).

Findo este período áureo e o contrato com a Mutual, o sempre diligente irmão de Chaplin, Sydney, começou a sondar o mercado pela próxima grande oferta milionária. Todas as produtoras queriam Chaplin e estavam dispostas a pagar por isso. A vencedora de uma enorme guerra de licitações acabou por ser a distribuidora independente First National. O contrato era ainda melhor do que aquele que Chaplin assinara com a Mutual. De acordo com a obra-prima ‘Chaplin: His Life and Art’ de David Robinson (uma massiva jóia de 800 paginas) o contrato duraria um ano, no qual Chaplin teria de entregar oito curtas-metragens. Para tal, Chaplin recebeu 125.000 dólares por filme (que podia usar livremente para pagar o seu salário e os custos de produção), mais um bónus de 15 mil dólares por bobina, caso o filme fosse maior que 2 bobinas (cerca dos tradicionais 20 minutos), mais 15 mil dólares pela assinatura do contrato, mais metade dos lucros depois dos custos de distribuição serem cobertos. Ou seja, Chaplin produziria, a First National distribuiria. Sem interferências. Isto para Chaplin significava a independência, a independência que nunca tinha tido e que em breve consumaria com a criação da United Artists. Imbuído por esta vontade criativa e pelos milhões que chegaram da First National, Chaplin finalmente construiu o seu próprio estúdio na LaBrea Avenue, o seu quartel-general definitivo em Hollywood, onde rodaria todos os seus filmes até ‘Limelight’ (1952) e a sua forçada saída da América.

"O contrato duraria um ano, no qual Chaplin teria de entregar oito curtas-metragens. Para tal, Chaplin recebeu 125.000 dólares por filme (...), mais um bónus de 15 mil dólares por bobina (...), mais 15 mil dólares pela assinatura do contrato, mais metade dos lucros (...) Mas apesar das idílicas condições, (...) o seu período com a First National foi um dos mais conturbados da sua jovem carreira (...) O resultado destes revezes pessoais e profissionais foi que Chaplin demorou cinco anos para cumprir o seu contrato "

Mas apesar das idílicas condições, financeiras e de trabalho, com que Chaplin se rodeou (aliada ao seu staff de habitues como a leading lady Edna Purviance), o seu período com a First National foi um dos mais conturbados da sua jovem carreira. Após quatro anos em Hollywood, em que havia realizado mais de 50 curtas-metragens em ritmo praticamente non-stop, Chaplin mostrava os primeiros sinais de cansaço. Ao mesmo tempo, dono de si mesmo e chefe do seu próprio estúdio, a veia perfeccionista de Chaplin atingiu o zénite, levando muitas vezes os seus colaboradores ao desespero e alongando o tempo das produções indefinidamente. Em 1919, juntamente com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D.W. Griffith, Chaplin criou a United Artists, a sua tão desejada produtora independente, mas até isto foi motivo de constrangimento, pois sofreu as pressões dos seus pares para começar a contribuir para a nova produtora, algo que não podia fazer até terminar as oito curtas prometidas à First National. Esta pressão adicional pareceu diminuir em vez de acelerar o seu ritmo de produção.

Mas as justificações mais usuais para a sua quebra neste período estão na sua vida pessoal, cujo status quo foi seriamente afectado. Depois de um escandaloso romance com Mildred Harris de 17 anos, Chaplin acabou por casar com ela em 1918 (o seu primeiro), um casamento condenado desde o começo e que terminaria com um azedo processo de tribunal em 1921. Pelo meio, em 1919, Mildred dera à luz o primeiro filho de Chaplin, mas que acabaria por falecer três dias depois do nascimento. Apesar de ter tido dez filhos das suas mulheres subsequentes, esta morte do seu primogénito deixou uma enorme marca em Chaplin. Após o divórcio e aproveitando a estreia de 'The Kid' (1921) em Londres, Chaplin fugiu de Hollywood, fazendo uma longa viagem pela Europa (a primeira vez que regressou desde que chegara à América em 1914), retratada na interessante autobiografia ‘My Trip Abroad’ de 1922, cuja versão portuguesa é editada pelas Edições Matéria Prima. Esta viagem culminou com a trazida (finalmente) da sua mãe doente de Londres para a Califórnia, algo que também parece ter afectado muito Chaplin psicologicamente.

"Algumas das curtas são claramente menos inspiradas (...) e muitas vezes parece andar para trás, revisitando temas e situações clássicas do seu repertório (...) e sem a pungência que caracterizaria o seu Vagabundo daí em diante. Mas isto não é necessariamente mau, e nas curtas da First National o passado e o futuro de Chaplin cruzam-se de uma forma intensa (...) As suas viagens ao seu eu passado podem ser vistas mais como nostalgia do que propriamente falta de inspiração (...) e noutras curtas o Vagabundo dá dois passos em frente, ganhando a sua forma definitiva"

O resultado destes revezes pessoais e profissionais foi que Chaplin demorou cinco anos (até 1923) para cumprir o seu contrato de supostamente um ano com a First National. Algumas das suas curtas são claramente menos inspiradas do que aquelas do seu período na Mutual e muitas vezes parece andar para trás, revisitando temas e situações clássicas do seu repertório mais antigo (a aparição do bêbado por exemplo) e fazendo algumas curtas “apenas” cómicas, ou seja, sem a pungência que caracterizaria o seu Vagabundo daí em diante. Mas isto não é necessariamente mau, e nas curtas da First National o passado e o futuro de Chaplin cruzam-se de uma forma intensa. Por um lado, as suas viagens ao seu eu passado podem ser vistas mais como nostalgia do que propriamente falta de inspiração, ou melhor, como uma necessidade de inspiração mais pueril assente nos valores da sua infância e dos seus primeiros passos como cómico que, na sua vida de super-estrela, poderia sentir estar a perder. Por outro, apesar de por vezes dar um passo para trás, noutras curtas o Vagabundo dá dois passos em frente, ganhando a sua forma definitiva, a forma que passaria a ter nos filmes das duas décadas seguintes e aquela que hoje recordamos com infinito amor e que nunca será esquecida, por mais séculos que passem. Em nenhuma curta deste período está esta transição tão patente como em 'The Kid' (1921) que, com 5 bobinas (pouco menos de uma hora) poderá ser considerado, realmente, o seu primeiro filme e claro, a sua primeira grande, grande, obra-prima.

Acompanhe-me leitor por esta viagem pelas oito obras (mais os dois filmes promocionais – ‘How to Make Movies’ e ‘The Bond’) que Chaplin fez nesse período na First National. Durante os próximos dias publicarei pequenas críticas sobre cada uma das curtas. Pequenas porque quero que sirvam apenas de acompanhamento, acompanhamento para uma visualização que espero que o leitor tenha oportunidade para fazer (ou refazer) em breve. A melhor maneira de as ver todas é no DVD ‘The Chaplin Revue’ (excepto 'The Kid' que foi lançado à parte) que faz parte da série ‘The Chaplin Colection’ da editora MK2, e que contém as edições definitivas e restauradas pelo próprio Chaplin deste espólio. Mas claro, o leitor tem sempre o youtube. Chaplin só há um e foi um prazer nestas últimas semanas revisitar estas curtas-metragens, um prazer que, neste início de 2016, quero partilhar com todos vocês. Acreditem. Não há nada que se lhe equipare. E bom ano a todos!


Pode ler cada uma das dez críticas seguindo os links em baixo:



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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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