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Star Wars: Episode VII - The Force Awakens

Ano: 2015

Realizador: J.J. Abrams

Actores principais:  Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac

Duração: 135 min

Crítica: A primeira coisa que eu quero fazer é assegurar o leitor que não vou revelar, repito, não vou revelar qualquer ponto da história do novo filme da ‘Guerra das Estrelas’ nesta crítica. O leitor provavelmente já terá visto o filme nos últimos três dias, ou irá ver nos próximos, mas para o caso de não ter tido ainda disponibilidade e estiver a aguardar pelo final do ano, ou por Janeiro ou por Fevereiro (e com o enorme sucesso de bilheteira que o filme já acumulou provavelmente ainda estará pelas salas por essa altura) não sou eu que lhe vou estragar as surpresas que este filme possa revelar. Embora, verdade seja dita, essas surpresas não são assim tantas quantas seriam de esperar e tornam-se cada vez mais previsíveis à medida que o filme se desenrola. Mesmo assim não é aqui que as irá ler.

Mas em segundo lugar, porque alguma crítica tem que ser feita, é preciso responder à questão fulcral, à questão que toda a gente anda a fazer desde 2012, ano em que George Lucas decidiu reformar-se e vender todos os seus direitos da saga Star Wars e da companhia LucasFilms (fonte de toda a sua vasta fortuna) à Walt Disney Company, por uns estonteantes 4.06 biliões de dólares. E a pergunta é: é este, quase quarenta anos depois do original ‘Star Wars’ de 1977, depois da patacoada espalhafatosa que foi a trilogia das prequelas (Ep. I, II e III já comentados aqui) que Lucas decidiu fazer, quase por capricho e para exibir o potencial dos efeitos especiais digitais que o próprio, no seio da sua ILM, ajudou a criar – é este, dizia eu, finalmente o digno sucessor pelo qual todos os fãs aguardavam e o melhor filme da saga?! 

Quem andou a ler a publicidade ao filme nos últimos meses (escrita por quem ainda, claro, não tinha visto o filme) e algumas das críticas de terça e quarta-feira passadas, poderá pensar que sim, que tudo isso é verdade. Mas esse pensamento é um enorme paradoxo. Podemos crer, realmente, que ‘The Force Awakens’ é o melhor ‘Guerra das Estrelas’ de sempre? Mesmo?! Ou pelo menos, o melhor a seguir ao original?! Claro que não, e claro que não é! Aliás, todo o filme é um enorme jogo de pergunta-resposta à volta deste tema. Faz a pergunta e dá ele próprio a resposta, vai-nos provocando e vai-nos tentando convencer, mas no final não estou muito seguro que o consiga. Hoje em dia vivemos numa era de remakes ou, como lhes chamam agora, re-imaginações. Ora bem, ‘The Force Awakens’ é precisamente isso. Está tão ligado estruturalmente ao filme original que não pode ser apelidado de outra coisa, o que é de certa forma uma decepção. No fundo, no fundo, o filme não faz aquilo que lhe era pedido, nomeadamente continuar a saga, honrando o passado, seguindo o legado de ‘Return of the Jedi’ (1983), mas encontrando o seu próprio caminho para o futuro e oferecendo o cunho de modernidade da era em que vivemos. No fundo, no fundo, nunca consegue ultrapassar a sua condição de re-imaginação para ter valor por mérito próprio.

Obviamente, o filme proporciona as devidas homenagens a momentos clássicos da trilogia original, num adereço de cena, num diálogo (há muitos reproduzidos, literalmente palavra a palavra), e na própria concepção das novas personagens, quer do novo triângulo de jovens, quer do próprio droide (BB-8 tem a personalidade igualzinha à de R2-D2, só que não é R2-D2, e cada plano nos recorda isso), quer de personagens secundárias que fazem sempre lembrar alguém que já conhecemos. Tudo isso será certamente (e é), uma enorme delícia para os fãs, e é aquilo que mais nos aquece o coração ao ver este filme. Quem poderá esquecer o momento em que Hans Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew) aparecem no filme pela primeira vez?! É mesmo como o reencontrar de um grande amigo há muito desaparecido e somos inundados por essa felicidade, que alguns poderão apelidar de nerd, mas que é felicidade na mesma. E quem não sorrirá perante o seu humor nostálgico, vintage Lawrence Kasdan (argumentista de ‘Empire Strikes Back’ e ‘Return of the Jedi’, de volta à saga e que divide o crédito com J.J. Abrams  e Michael Arndt)?!

Mas infelizmente, cedo nos apercebemos que todas estas homenagens são feitas pouco naturalmente, ou seja, são dirigidas propositadamente ao espectador (e só para que ele perceba, por vezes até com insistência) e portanto não têm um papel adequado na trama, a não ser precisamente a de copiar ou recordar os elementos originais. Ou seja, o que eu quero dizer é que as frases podem copiar-se, os planos de câmara também, e os velhos actores e os velhos adereços podem fazer as suas devidas aparições, reverentemente filmadas (J.J. Abrams  é um assumido fã), e tudo isso será delicioso. Mas para uma nova obra se poder suster tem que haver mais, muito mais, e J.J. provavelmente estava tão feliz por dirigir esta fantasia, por poder exibir as suas brincadeiras de criança na tela (como quando Peter Jackson filmou ‘King Kong’) que parece ter-se esquecido precisamente disso. Aliás, não considero J.J. Abrams o novo Spielberg, como muitos lhe chamam. É um realizador moderno com um gosto pelo clássico, mas isso não é suficiente. Precisa de trilhar muito caminho para ser o Spielberg de ‘E.T.’ ou ‘Indiana Jones’. Este ano tivemos um excelente filme revivalista, ‘Spectre’, que conseguia quer homenagear os 50 anos de Bond, quer ser original por mérito próprio. Já ‘The Force Awakens’ debata-se à tona da água para conseguir respirar nesse departamento, pois não parece haver (e digo isto com um enorme grau de tristeza, acreditem-me) a essência, nem a magia que tão naturalmente, tão casualmente, ‘Star Wars’ tinha. Em vez disso temos um filme que se esforça demasiado para ter essa naturalidade e esse low profile. Demasiado.

Um amigo meu que viu o filme nas primeiras sessões de quarta-feira à meia-noite já me tinha avisado que o filme era pouco ambicioso e que jogava pelo seguro. Não creio que percebi muito bem o que ele queria dizer com isso até eu próprio ter visto ontem o filme, mas agora percebo-o perfeitamente. É precisamente isso. Podemos detestar os maus diálogos das prequelas (e alguns são mesmo muito maus!), a história pastosa e o uso exageradíssimo de efeitos especiais. Mas como reforcei nas minhas críticas do mês passado, nunca poderemos criticar a sua alma ‘starwars’, ou seja, a forma como, apesar de tudo, nos transportam para aquela galáxia far, far away através da exuberância da sua aventura e da fantasia do seu entretenimento que, no global, os três filmes das prequelas possuem. Já ‘The Force Awakens’ parece funcionar precisamente no reverso da medalha. 

Não podemos negar que é, e bem, tal como prometido, um back to basics, em vários sentidos. Primeiro num sentido argumental. Como referi em cima, a contratação de Kasdan foi uma ideia inspirada para dar um pouco da química screwball na interacção entre as personagens, que por vezes chegam a faiscar, constituindo assim os melhores momentos do filme. E segundo num sentido estético. Desde o primeiríssimo plano (depois do clássico texto) percebemos que vamos entrar num mundo cinematográfico bem diferente daquele das prequelas. Sentimos que o planeta tem um peso e uma relação com a nave que se aproxima dele. São maquetes, não efeitos digitais. E essa sensação repercute-se por todo o filme. O CGI exagerado que caracterizou os anos 2000 é de novo substituído (como tem sido a ser noutros filmes fantasiosos recentes) por localizações reais e truques de fotografia, deixando-se o bluscreen apenas para o fundo dos cenários e algumas criaturas mais extravagantes. Aliás, nota-se do mesmo modo que muitas das criaturas são de novo homens dentro de fatos (excepção de Maz Kanata – voz de Lupita Nyong'o). Tudo isto é excelente, e propicia a nossa cumplicidade com a aventura, mas o terceiro elemento da santíssima trindade do segredo de Star Wars falta. No meio de toda esta alegria do back to basics, esqueceram-se que a alma do filme original não estava propriamente na superfície, nos diálogos, nos cenários, nos homens dentro dos fatos. Estava aí também, claro, mas o verdadeiro ponto de conexão era a universalidade da aventura, e dos sonhos de fantasia. Escrevi na minha crítica a ‘Star Wars’ (1977):

E então encontraremos um filme dinâmico, humilde e puro. Uma aventura fantasiosa de excelência sem ambições pretensiosas; nas personagens, na mitologia, na acção. Uma peça cinematográfica que não quer ser arte, quer ser entretenimento. Do bom. (…) E é por isso que é imortal. É por isso é que toca todas as pessoas, de todas as classes, de todos os países, de todas as idades. Porque todos nós tivemos sonhos de aventura quando éramos criança. E ‘Star Wars’ materializa todos esses sonhos em duas horas. Somos todos inseguros como C3PO, irrequietos como Luke, convencidos como Hans, atrevidos como a Princesa, mas ao mesmo tempo temos o nosso ‘lado negro’ e amamos detestar um bom vilão. O poder de identificação de ‘Star Wars’ é absoluto”.

Com enorme pesar sinto que nada disto está a ocorrer em ‘The Force Awakens’, ou seja, que a aventura, que as personagens, nunca me irão cativar por si, e só funcionam por eu ser já um fã incondicional do universo. Portanto, como funcionará para as novas gerações? Certamente ficarão extasiadas se não tiverem termo de comparação. Afinal, há aqui naves, e sabres de luz e perseguições e bastantes momentos de humor. Mas tendo já visto mais e melhor, para quem tem termo de comparação, já creio que a capacidade de satisfação de ‘The Force Awakens’ é bastante mais pequena. Apesar do argumento solto e natural, e da química entre algumas das personagens, a verdade é que até mesmo Kasdan está bem longe do seu apogeu e nota-se que muitas das cenas deste filme são como as desculpas do incorrigível Hans Solo; velhas, cansadas e usadas. E esse marasmo, com um misto de nostalgia e auto-reconhecimento de que, sendo isto uma re-imaginação, nunca será melhor que o original, transmite-se por todo o filme.

Realmente, as novas personagens não têm assim tanta força (talvez apenas só Rey) e sinto que as novas gerações não se vão ligar muito a elas. Por isso é que o filme realmente só explode quando Harrison Ford aparece. E o vilão, peça fulcral do xadrez de Star Wars, é inexplicavelmente fraco (mesmo!). A velha máxima de Hitchcock era que quanto melhor o vilão, melhor o filme. Não há palavras para descrever a imponência de Darth Vader, um dos melhores vilões de sempre do Cinema. E nas prequelas, Ian McDiarmid foi absolutamente extraordinário como o Imperador. Aqui Kylo Ren (o actor Adam Driver) é, permitam-me a expressão, patético, um tipo sem absolutamente força nenhuma. Se no início ainda nos intimida, a partir do momento em que a sua personagem é revelada torna-se inacreditavelmente xôxa e faz lembrar aqueles príncipes mimados da Disney; aqueles que perdem a princesa para o herói. E é tanto assim que, vá lá, até acreditamos que seja o digno sucessor de Hayden Christensen (isto não é um elogio), embora, sinceramente, Christensen até conseguia ser melhor (isto também não!). E já agora, como é possível um Sith (ou um cavaleiro de Ren como lhes chamam agora) não ganhar uma batalha de sabres de luz em menos de dois segundos contra um tipo comum, sem qualquer treino Jedi?! Devia ser “um, dois, três, estás morto”. E não é. Inexplicável.

Realmente, a história está muito, mas mesmo muito mal explicada, cheia até ao tutano de incongruências e coisas sem sentido. No original ‘Star Wars’ acreditamos na contextualização (o Império, os rebeldes, etc) porque tudo era novo e funcionava apenas como enquadramento para a aventura. Aqui procuram fazer o mesmo, mas esquecem-se que há seis filmes para trás, e que portanto não podem simplesmente inventar um contexto novo. Como é que se formou esta nova Ordem?! E quem é este novo Líder Supremo Snoke (será revelado num próximo filme)?! Ao menos que fizessem uma ligação ao Império. Que dissessem que era o secreto número dois do Imperador, que após os eventos de ‘Return of the Jedi’ tomou o poder. Mas não. E se o Império (a velha República) está agora de novo nas mãos dos bons, os soldados dela (os stormtroopers) não deviam estar também do lado dos bons?! Em vez disso estão inexplicavelmente do lado da Nova Ordem. Como?! Enfim… satisfaçam os nerds faz favor. E todo o ponto argumental principal sobre o qual assenta a história está muito, muito mal contado (exemplo, a personagem de Max von Sydow), mas sobre isso discutirei noutra crítica, daqui a uns anos, para não revelar nada…

E por fim, realmente, não há um grande sentido de êxtase ao longo do filme, nem de emoção fantasiosa. Mecanicamente, vamos seguindo os trâmites do filme de 1977, mas é apenas isso, mecânica. Até o assalto final é estranhamente adormecido, quase por favor, como a cena na sala de guerra que o antecede. Confesso que ‘The Force Awakens’ é muito melhor filme que qualquer uma das prequelas (Ep. III inclusive) – outra coisa não seria de esperar – mas paradoxalmente é muito menos starwars que qualquer uma delas (Ep. II inclusive). Com um pouquinho de imaginação podia funcionar como qualquer uma destas distopias futuristas que agora inundam o mercado jovem, como ‘Hunger Games’. Não será por acaso que Michael Arndt foi precisamente argumentista de um dos filmes dessa saga. E será também por acaso que o Líder Supremo Snoke tem um nome muito parecido com o Líder Snow de Hunger Games?! Portanto, parecem haver opções que se tomaram que aproximam ‘The Force Awakens’ dos filmes contemporâneos de fantasia, mas que o afastam, perigosamente, de Star Wars. E isso não é nada bom.

A trilogia original focava-se em jovens e usava a aventura como metáfora para o proverbial comming of age, mas apesar de ‘The Force Awakens’ também ser centrado em jovens (quer do lado dos bons, quer do lado dos maus), estes jovens já não transmitem os mesmos valores. Rey (a fascinante Daisy Ridley) podia ser a Katniss de Jennifer Lawrence. E vice-versa. Aqui, o jovem que acompanhamos, o paralelo de Luke na trilogia original, já não é um jovem à descoberta das suas potencialidades e do seu lugar no universo. Veja-se como Luke no primeiro filme não faz absolutamente nenhum truque Jedi a não ser ter uns sentimentos avulso. E em ‘Empire’, o máximo que faz até ter o treino Jedi de Yoda é apanhar um sabre de luz enterrado na neve na caverna do Yeti. Ele cresceu e evoluiu, credivelmente. Já em ‘The Force Awakens’ não é assim, porque no imaginário cinematográfico contemporâneo as coisas já não funcionam desta forma. Os jovens heróis têm que ser heróis à cabeça. Têm que ser tudo, já, agora. E por isso é que aqui, sem qualquer treino, só porque é ‘o escolhido’, vai tudo parar ao colo do nosso herói. É a síndrome Harry Potter, Avatar, Hunger Games, Kung Fu Panda, a deturpação do ideal que Lucas concebeu em ‘Star Wars’. Aqui o escolhido é o escolhido, e portanto sem esforço nenhum, sem crescimento, sem introspecção, já consegue fazer tudo e mais alguma coisa. Porquê?! Porque é o escolhido. É uma preguiçosa pescadinha de rabo na boca. Que moral do caneco!  

Mas pior do que isso, para mim, fã eterno de Star Wars, é a agressiva intensidade negra e dramática que o filme, quase sem se aperceber disso, possui, e que contrasta com a colorida alegria que caracterizava a saga (recordemos o final extasiante de Ep. IV ou Ep. I). Eu sei que este é o tom da era em que nos encontramos, mas se eu quiser ver dramatismo negro exacerbado, então vou ver os ‘Avengers’ ou o novo ‘Batman vs. Superman’ cujo trailer não tem um único raio de luz. Mas sinceramente, não quero nada disso no universo de Star Wars que apenas, e justificadamente, enveredou por esse caminho em ‘The Empire Strikes Back’, mas mesmo assim tudo era mais recatado. Veja-se por exemplo que a única grande morte experienciada é a do Imperador em ‘Return of the Jedi’ (o vilão), a morte de Obi-Wan não é dramática (porque ele perdura etereamente, oferecendo esperança) e a destruição de Alderan é feita à distância e não tem peso por si, mas apenas na ameaça que constitui às personagens. Em ‘The Force Awakens’ revisitamos todos estes conceitos, mas tudo é intensificado (para quem? não certamente para as crianças?!) e há sempre aquela aura do ‘fim de mundo’ / ‘tudo está perdido’ que caracteriza o cinema moderno. Sinceramente, isso não me apela. E se os outros filmes podem-na ter, quando isso chega a Star Wars já fico mais indignado.

No final o que posso dizer?! De ler esta crítica o leitor certamente achará que não gostei do filme. Confesso que ao reler o que escrevi fico com a sensação de que afinal gostei ainda menos do que achava. A verdade é que adorei toda a experiência de antecipação, ida ao cinema e até da visualização do filme em si (nasci em 1984 e portanto este é o meu quarto Star Wars no cinema) mas nunca me senti inteiramente à vontade. Uma parte de mim, a mais adolescente, adorou o filme, especialmente a primeira metade, quando mergulhamos na familiaridade e na espectacularidade do universo, quando reencontramos os elementos clássicos e partimos para uma nova aventura que infelizmente prova ser a mesma, e com rostos novos que infelizmente provam ser os mesmos, mas menos memoráveis. E é precisamente por isso que a outra parte de mim, a mais racional, ficou reticente e foi ficando cada vez mais desapontada à medida que o filme foi avançando. O filme não correspondeu às minhas expectativas porque nunca se transcendeu, porque se preocupou em demasia com a repetição da fórmula para tentar seduzir as novas gerações como as antigas haviam sido seduzidas, e achou que o cunho de modernidade necessário para captar o interesse dos jovens na era da internet e dos telemóveis era fazer um upgrade da alma aventureira da saga para um dramatismo mais épico e mais exagerado, centrado no pós-adolescente-herói do cinema moderno.

Eu sou um fã da Guerra das Estrelas desde sempre e portanto não posso medir se esta manobra tem ou não impacto nas novas gerações. Provavelmente terá. Mas isso não será ‘apenas’ pela sugestão de que o filme faz parte do universo Star Wars e por isso tem que ser necessariamente bom? Se este fosse um produto original, como o de 1977 o foi, captaria o interesse?! Mas agora é tudo mais fácil. Até Ep. II, aquele filme mau, foi um gigantesco sucesso de bilheteira e não impediu que se fizesse Ep. III. E, do mesmo modo, os Ep. VIII e IX já estão em produção, bem como pelo menos dois spin-offs. Se este filme ainda tem grande interesse por ser o primeiro de uma nova geração, olharemos para ele com carinho em 2020 quando já tivermos visto mais quatro filmes da nova saga?! Não me parece. É demasiado igual ao que já foi feito. E funciona tal como a música de John Williams. É soberbo ouvir de novo as suas composições para Star Wars na tela. Mas paradoxalmente, elas não perduram, porque não tinham espaço para vibrar no filme. Recordo sempre a cena de ‘Star Wars’ onde Luke e Leia saltam de um lado para o outro do corredor agarrados a uma corda. Os sons dos blasters são abafados e a música sinfónica soa em força, heroicamente. Igual quando Ben morre. Em ‘The Force Awakens’ momento semelhante nunca ocorre. Fez-se tudo e mais alguma coisa para contratar John Williams, mas a sua música está sempre abafada pelos efeitos sonoros. Da mesma forma todos os elementos para criar um excelente Star Wars estão aqui, e se formos tendenciosos, ou se quisermos desesperadamente gostar do filme, então podemo-nos agarrar a esses elementos e dizer: “sim, este filme é brutal, é um Star Wars excelente e vai perdurar, é um back to basics cheio de energia e aventura e espectacularidade e emoção e todos os elementos que adoramos”. Mas se tentarmos absorver o filme como um todo, se esmiuçarmos a sua história, se pensarmos na sua estrutura, na sua moral e nas suas personagens,  e até no seu final, claramente a apontar para Ep. VIII, vamos ter que abanar a cabeça…

Espero que o tempo me prove errado. Espero ver o blu-ray em casa daqui a uns meses e engolir as minhas palavras de agora. Espero que tanto filme de Star Wars que se avizinha não estrague a saga e não sirva apenas para encher os cofres da Disney. Espero tudo isto e mais. Mas hoje penso com tristeza no ‘The Force Awakens’ que vi na passada sexta-feira. Tem a pirotecnia necessária para cativar as novas gerações. Tem o tom e as homenagens para cativar os fãs. Tem um pacote de entretenimento apelativo, embora repetitivo, durante duas horas para o colocar no topo dos melhores filmes de aventura do ano. Mas a sua alma mais pura, aquela alma que era a essência de Star Wars, de valores honestos e verdadeiros (não estes de plástico que satisfazem as distopias futuristas das novas gerações), não está presente. Pode-se reproduzir os faróis, mas tem que se acender as chamas. ‘The Force Awakens’ constrói todos os faróis, muito melhor que as prequelas. Mas não acendeu a chama. Lá está, porque só há um homem que a sabe acender, e não fez parte da produção: George Lucas, que está a desfrutar dos seus 4.06 biliões de dólares, enquanto assiste à sua saga a ser reproduzida por quem a reverencia (e não nos enganemos, J.J. faz uma excelente homenagem), mas nunca conseguirá descobrir o segredo para fazer click. Nem ele, nem ninguém. Só George o sabe. E esse não volta. 

4 comentários:

  1. Concordo em gênero, número e grau! Gostaria de saber se os críticos norte-americanos também estão fazendo críticas honestas como esta, ou se estão com medo de perderem o emprego ou de serem odiadas pelos fãs e pela sociedade cinematográfica local...

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    1. Afinal a Disney e J.J. Abrams têm tanta moral com a crítica e fãs, que qualquer um de lá que disser qualquer coisa negativa contra esse trabalho deles iria destoar, e parecer estar errada e o mundo desabaria na cabeça deles...acho q nenhum crítico norte-americano será louco de falar qualquer coisa contra esse filme...e como a maioria dos críticos dos grandes meios de comunicação do mundo todo sempre copiam o que dizem os colegas norte-americanos, então a Disney e J.J. Abrams estão bem protegidos, creio eu.

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    2. Creio, portanto que críticas honestas sobre o que o filme realmente é só pode vir de pessoas independentes como vc. Parabéns pela crítica!

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    3. Obrigado. É como diz, muita da crítica é como a publicidade (ou melhor é uma forma de publicidade) e portanto é "comprada". Por outro lado, há por aí muito crítico de conveniência, porque fica de bom tom dizer bem do filme ("ou 12 Anos Escravo ganha Óscar de Melhor Filme, ou somos todos racistas") e isso vende revistas ou jornais ou dá cliques no blogue. Mas por outro lado toda a crítica é subjectiva, portanto quem adorou este novo Star Wars não está necessariamente a dizer barbaridades (esperemos!). Da sua perspectiva, o filme é bom, e se assim é, óptimo; tiveram uma experiência bem melhor que você e eu, tiveram a experiência que nós queríamos ter tido... Pelo meu lado, eu aqui não procuro cliques (como vê, não há publicidade), apenas partilhar a minha opinião (que é apenas a minha opinião e portanto é tão certa e errada como qualquer outra), e as minhas visões, pessoais, sobre os filmes. Mas é como diz, se já são dois a pensar o mesmo, pode estar aí alguma verdade...

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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