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West and Soda

Ano: 1965

Realizador: Bruno Bozzetto

Actores principais (voz): Nando Gazzolo, Vittoria Febbi, Carlo Romano

Duração: 86 min

Crítica: ‘West and Soda’ é provavelmente o melhor western de animação da história do cinema, ou pelo menos o melhor western cómico de animação da história do cinema. É um dos únicos, senão o único, o que ajuda à obtenção do título, mas isso não lhe tira a qualidade cómica e a enorme irreverência anárquica que possui.

Hoje em dia tomamos o cinema de animação como garantido. Cada vez menos surgem filmes por animação tradicional, “à mão” (os mercados japonês e francês são raras excepções), mas o cinema de animação digital, “por computador” não é apenas uma prerrogativa do cinema americano e cada vez mais vai surgindo nos mercados mais afastados da meca do cinema. Mas pré 1990 isto não era bem assim. Poucos eram aqueles que tinham a capacidade ou o poder ou até o interesse para fazer frente à Disney no que concerne longas-metragens de animação. Homens como Don Bluth ou Ralph Bashi foram os primeiros a invadir o mercado maioritariamente disneyano, mas eles próprios, tal como Miyazaki no Japão e até Spielberg (com as sementes daquilo que se tornaria a Dreamworks Animation) apenas surgiram no final da década de 1970 ou na década de 1980. Até lá, a maior parte das pessoas a trabalhar na animação, principalmente fora da América, dedicava-se quase exclusivamente aos formatos televisivos. Contam-se pelos dedos os filmes (isto para não falar dos grandes filmes) de animação anteriores a 1980 que não tenham sido feitos nas fábricas da Disney. ‘Le Planéte Sauvage’ (1973). ‘Watership Down’ (1978) talvez (nunca o vi). A extravagância dos Beatles ‘Yellow Submarine’ (1968). O fantástico ‘Animal Farm’ (1955). E se quisermos dizer mais exemplos, temos inevitavelmente de falar dos italianos. E falar dos italianos é falar de Bruno Bozzetto.

Por qualquer motivo, em Itália a indústria da animação explodiu cedo. Nas décadas do comunismo, iriam estar a par e par de outras grandes escolas de leste, como a gloriosa escola checa e a grande escola polaca, a realizar séries de animação que encheram a infância de todos nós que crescemos nos anos 1970 e 1980. O próprio Miyazaki co-produziu muitas das suas icónicas séries (como Sherlock Hound), com estúdios italianos. Mas já antes a Itália tinha marcado passo quando só praticamente Disney existia no mundo das longas-metragens de animação. Os irmãos Nino e Toni Pagot (que criariam o inconfundível Calimero nos anos 1970) fizeram ‘Los Hermanos Dinamita’ em 1949, uma das primeiras longas-metragens de animação de sempre fora dos Estados Unidos. No mesmo ano, Anton Gino Domenegini realizou ‘La Rosa di Bagdad’ (1949), um filme algo rudimentar mas, pelo menos para mim, com elementos cativantes de música, poesia e comédia. Mas, enveredando pela indústria televisiva, o cinema italiano teve que esperar dezasseis anos para ver o seu terceiro filme de animação. E esse filme foi ‘West and Soda’ (1965).

Como realizador de animação, Bruno Bozzetto surgiu no início da década de 1960 e, tal como Disney, ficou marcado por uma das suas primeiras criações. O bem-amado senhor Rossi apareceu pela primeira vez numa curta-metragem de 1960, foi um grande sucesso e tomaria conta de grande parte da carreira de Bozzetto nas décadas seguintes. Contudo, a meio da década de 1960, e após três curtas-metragens do senhor Rossi, Bozzetto decidiu dedicar-se à sua primeira longa-metragem de animação. Curiosamente, fê-lo sem Rossi, cujas três longas-metragens apenas apareceriam nos anos 1970. Após dois anos de trabalho, o resultado foi ‘West and Soda’.

De acordo com o próprio Bozzetto, ‘West and Soda’ é inspirado em ‘Shane’ (1953), o extraordinário western de George Stevens. O próprio declararia “Eu era um apaixonado pelo western clássico, que conhecia de cor. Adoptei o western porque era uma fábula por excelência: temos o bom e temos o mau”. Se pensarmos que, por esta altura, os estúdios italianos estavam a começar a produzir em massa o género que viria a ficar conhecido por ‘spaghetti western’, então ainda mais se vê a lógica de uma assumida paródia, como ‘West and Soda’ é, a este género neste momento no tempo e neste país.

Restaurado em 2003 pela Fondazione Cineteca Italiana, a versão que hoje podemos ver de ‘West and Soda’ revela-o simplesmente como um filme engraçado, bem-disposto e apelativo, mas com um travo de autoconsciência irreverente e uma bem saliente veia anárquica. No epicentro dos ‘spaghetti westerns’, ‘West and Soda’ está anos à frente do seu tempo, tendo o tom de mistura de seriedade, paródia e apelo familiar que teriam filmes como por exemplo ‘Lo chiamavano Trinità...’ (1971). Ou seja, é um filme que pega em todas as convenções do género (que estavam a ser totalmente esmiuçadas e reinventadas por esta altura) e as desconstrói num processo suficientemente (embora não extremamente) divertido, cheio de pequenos apartes deliciosos, sempre a roçar o surreal (que só a animação pode proporcionar), e envoltos numa história que toda a gente conhece.

Em ‘West and Soda’ estamos longíssimo do tipo de animação, colorida e bem definida, com que a Disney havia habituado o público mundial. Estamos muito mais perto do estilo televisivo europeu, de backgrounds que não são mais que pinceladas vagas, cores pálidas, personagens definidas por traços simples e curvos, de movimentos rígidos e repetitivos, e falta de fluidez e definição nos grandes planos e nas transições. É um estilo que advém inevitavelmente da falta de orçamento, mas que estas escolas europeias conseguiram capitalizar na perfeição. E Bozzetto, como já provara com o seu Sr. Rossi e provaria nas décadas seguintes (nunca tão bem como em ‘Allegro non Troppo’, 1976, a sua obra prima que já critiquei em Eu Sou Cinema), foi um dos artistas que mais bem utilizou este tipo de animação estilizada, usando os parcos meios dos seus produtores como uma vantagem, criando um ambiente entre o desenho animado de sábado de manhã e a obra de arte.

Portanto quando ‘West and Soda’ começa, e vemos a clássica paisagem das pradarias desertas americanas ao estilo de Monument Valley com ossos de cabeças de gado espalhadas pela terra, e depois vemos um cowboy a tocar harmónica em cima dos ossos de um cavalo com uma placa a dizer ‘British Museum’, sabemos que estamos a entrar num filme pouco convencional. A sequência de abertura com um índio a dizer adeus ao espectador antes de assaltar a diligência, seguida do genérico de abertura com a música ennio-morriconesca (da autoria de Giampiero Boneschi), ainda mais contribuem para definir o universo particular onde este filme se situa. Depois desenrola-se a história clássica, por vezes tirada a papel químico de ‘Shane’. Numa terriola no meio do nada, um poderoso senhor ‘desprezível’ Il Cattivissimo (voz de Carlo Romano) detém todas as terras menos uma pequena quinta fértil (o único local fértil de todo o condado), propriedade da querida Clementina (‘darling Clementine’! – voz de Vittoria Febbi) que lá vive com os seus animais. Il Cativissimo deseja ao fim da força deter aquele pedaço de terra por isso tenta casar com Clementina. Quando isso não resulta (ela manda-lhe uma bota à cara que o mete KO, originando um dos diálogos mais engraçados do filme), Il Cativissimo manda os seus dois capangas, Ursos (voz de Luigi Pavese) e Smilzo (voz de Willy Moser) ameaçarem-na. Clementina está por um fio, e nenhum dos cobardes da terra (incluindo o sheriff) a quer ajudar. É então que aparece um misterioso cowboy solitário, Johnny (voz de Nando Gazzolo), que tomará o seu lado. Todo o resto do filme gira à volta da luta entre bons e maus, Johnny contra Il Cativissimo e os seus capangas, até ao duelo de pistolas climático (e também surrealmente hilariante) na rua principal da cidade, e o final, inevitavelmente feliz, rumo ao pôr-do-sol.

A história de ‘West and Soda’ é extremamente simples, e aliás, chega a enervar um pouco o facto do filme não ter grandes desenvolvimentos nem qualquer tipo de ramificações, mesmo tendo em conta os seus parcos 80 minutos de duração. Mas toda a riqueza deste filme não está, obviamente, na sua história, previsível e que nunca provocará grande interesse ou sentido de antecipação ou aventura. Bozzetto nunca se mostrou muito interessado, na sua carreira, no humor pelo humor ou na beleza da animação pela beleza em si. Se em obras subsequentes usou a sua irreverência como arma de crítica social (‘Allegro non Troppo’ o exemplo mais notório) aqui, no seu primeiro filme, a sátira anárquica parece ser o seu objectivo principal, um brincar com os estereótipos e o quebrar de convenções. São imensos, muitos mais do que aqueles que posso referenciar aqui ou até recordar, os momentos em que o filme extravasa o seu tempo, inserindo elementos de modernidade, ou quebra as leias da natureza, simplesmente para nos proporcionar um humor assente numa espécie de insanidade surreal mas que, no fundo, faz todo o sentido, no contexto da paródia e no contexto do tipo de entretenimento que o filme quer proporcionar. O que é preciso é ser ousado, e poucos querem ou conseguem sê-lo. Livre das amarras dos sistemas de estúdios de Hollywood, Bozzetto consegue sê-lo naturalmente, numa altura em que a animação precisava disso. Os Looney Toons, as curtas de Tex Avery, já tinham desaparecido há mais de uma década e é com Bozzetto que este género consegue passar para o cinema de animação moderno.

Portanto quando surge do nada uma máquina de raio-X para nos mostrar as cartas escondidas num jogador do saloon; quando Clementina vai ordenhar a vaca e abre uma gaveta no seu torso para tirar uma garrafa de leite como se fosse um frigorífico; quando Il Cativissimo faz um discurso inspiracional aos seus capangas do topo de um penhasco e em cada plano o penhasco vai ficando cada vez mais alto, em consonância com o tom do discurso; ou quando esses capangas se vestem com as roupas de Clementina e dançam na sala dela, supostamente para a assustar e ameaçar, sentimos que há aqui muito mais do que o tal humor pelo humor; há propósitos claros de arte e crítica que cada um pode interpretar como entender. E depois há as várias, inúmeras homenagens aos velhos westerns, como quando Johnny se encosta na cadeira no alpendre como Henry Fonda em ‘My Darling Clementine’ (1946) ou o cão sempre bêbado de Clementina (a paródia à clássica personagem secundária inútil de muitos westerns). Só Bozzetto podia juntar uma carta de amor ao western com uma aventura surrealista.

Outro aspecto que achei deveras interessante foi, talvez surpreendentemente, a personalidade de Johnny. Se Il Cativissimo é o cliché de todos os landlords maléficos dos westerns e Clementina altera entra a mulher forte e a mulher indefesa como convém ao filme, já Johnny, do qual nunca vemos os olhos (o chapéu está sempre baixado) é misteriosamente complexo e multifacetado. Ele próprio diz que tem complexos e que o único homem que matou foi o seu analista (parece uma piada à Woody Allen), e até vai ao saloon pedir um calmante depois do showdown final. Quando surge no início do filme, está tão exausto que é Clementina que o tem de arrastar para dentro de casa. A cantora do saloon, a soldo de Il Cativissimo, tenta seduzi-lo e ele fica extremamente embaraçado. E da primeira vez que os capangas o apanham dão-lhe um enxerto de porrada, numa cena interessante animada só com sombras num fundo laranja. Mas mantém sempre a calma e a postura e portanto nunca sabemos se ele está simplesmente a representar um papel. Mas depois da engraçadíssima cena de tortura com as formigas, e depois de Clementina ser raptada, Johnny acaba por se tornar o herói de que ela precisa. Muito facilmente Johnny poderia ser um herói invulnerável do início ao fim, tal Lucky Luck, como em muitos westerns. Mas ao ser assim, tal como o próprio Shane, tal como muitas personagens de Clint Eastwood nas duas décadas seguintes, fica com uma ambiguidade que só lhe cai bem e dá mais força à sua personagem bem como, sem dúvida, um necessário incremento à tensão do filme.

Com deliciosos apartes, quer visuais, quer nos diálogos, ‘West and Soda’ é uma enorme paródia aventureira ao género do western, que pode ser visto perfeitamente por crianças (principalmente porque se ficarão pela superfície e não perceberão a maior parte dos inuendos), mas que será muito melhor desfrutado pelos adultos, aqueles que conhecem bem o género do western mas não só, porque a sua anarquia e irreverência é universal. E é incrível, para um filme deste género, como não está datado um único segundo. Todos os elementos ‘fora’ resultam hoje tão bem como provavelmente resultaram em 1965, e tirando a forma mais, digamos, arcaica como está desenhado, o filme bem que poderia ter sido feito hoje em dia, facilmente pondo num bolso o espólio recente da animação hollywoodesca.

Depois de ‘West and Soda’, Bozzeto fez ‘Vip, mio fratello superuomo’ (1968) e depois atingiu o pico entre 1976 e 1977 com os três filmes do Sr. Rossi; ‘Il signor Rossi cerca la felicità’ (1976), ‘Le vacanze del signor Rossi’ (1977) e ‘I sogni del signor Rossi’ (1977) e a sua obra-prima ‘Allegro non Troppo’ (1976). Mas o seu enfoque foi sempre as curtas de animação e as séries que continuou a produzir até meados da década de 2000, sendo que foi finalmente reconhecido na América com uma nomeação para o Óscar em 1990 pela curta ‘Cavallette’ (perdeu para ‘Creature Comforts’ de Nick Park). Um deus da animação em Itália e de certa forma na Europa, é incrível o quão pouca gente ouviu falar de Bozzetto por esse mundo fora. ‘Allegro non Troppo’ é a sua obra obrigatória, mas ‘West and Soda’, que eu nunca tinha visto até esta segunda-feira, também tem que se lhe diga e não é por acaso que em certos círculos é um filme de culto. Como escrevi em cima, este é simplesmente um filme engraçado, uma grande paródia/sátira ao western, mas não é preciso ver o filme com muita atenção para perceber que é muito mais que isso. Pode não ter a crítica social tão bem aguçada como obras subsequentes de Bozzetto, mas é extremamente ousado na sua despreocupada anarquia, e delicioso na sua alegre irreverência. Quando a cavalaria passa por Johnny, este volta-se e fica a abanar uma pequena bandeirinha americana. Não é preciso dizer mais nada.

Termino como começo, a dizer que este é, provavelmente, o melhor western de animação original da história do cinema (excluindo-se portanto grandes obras inspiradas nos álbuns de Lucky Luck - 'La ballade des Dalton', 1978, é genial!). Só consigo recordar o retomar desta chama cómica num filme americano em ‘An American Tail: Fievel Goes West’ (1991), mas este filme não tem um milésimo da qualidade surreal da sátira/homenagem que ‘West and Soda’ possui.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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