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Copacabana

Ano: 1947

Realizador: Alfred E. Green

Actores principais: Groucho Marx, Carmen Miranda, Steve Cochran

Duração: 92 min

Crítica: ‘Copacabana’ é um musical de entretenimento ligeiro e doses recatadas de comédia passado nos bastidores do mundo do espectáculo. Em 1947, não havia absolutamente nada de novo nesta fórmula, que aliás estava até a cair em desuso, depois de um começo extremamente auspicioso no início do cinema sonoro. ‘The Brodway Melody of 1929’, já criticado em EU SOU CINEMA, ganhou o Óscar de Melhor Filme na segunda cerimónia dos Óscares (foi o primeiro filme sonoro a receber o prémio), e teve várias sequelas (1936, 1938 e 1940). Outras sagas como as ‘Golddiggers’ (1929, 1933, 1935, 1936, 1938), filmes icónicos como ‘42nd Street’ (1933) ou os filmes de Fred & Ginger afinaram este então popular género cinematográfico até à perfeição e a moda manteve-se praticamente até ao início da década de 1940.

Aqui, a história era sempre o menos importante; as atribulações de vida de um conjunto de cantores, dançarinos e empresários nos dias antes da estreia de uma grande peça, incluindo romances de trazer por casa, mal entendidos, peripécias cómicas e afins. Mas o que dava riqueza a estes filmes eram os números musicais, justificados, muito convenientemente, pelo contexto da trama. Todas as audições, todos os ensaios e claro, o espectáculo final em si, eram desculpa mais que suficiente para a entrada de cenas de dança e canto. E não nos importávamos, porque das magníficas coreografias de Bugsy Berkley aos soberbos passos de dança de Fred Astaire, este mundo escapista (nunca totalmente credível) satisfazia a nossa sede de entretenimento. Visto com a distância de quase nove décadas, é raro o filme deste género que é uma obra-prima, mas se alguma vez o cinema captou a magia da dança como forma suprema de espectáculo, foi aqui, nestas breves geniais cenas, mesmo que envoltas de tramas repetidas e batidas.

‘Copacabana’ é um reciclar tardio desta fórmula, mas tem dois elementos distintivos que garantem a sua imortalidade, na pele dos dois actores principais: Groucho Marx e a portuguesa (chamemos-lhe assim) Carmen Miranda. Este é o primeiro filme que Groucho alguma vez fez sem os seus famosos irmãos. ‘A Night in Casablanca’ do ano anterior tinha sido a sua despedida comum da sétima arte, num mundo cinematográfico, pós guerra, que já não se adequava ao estilo anárquico cinematográfico dos mais famosos irmãos da história do cinema. Claro que iriam fazer ainda mais um filme juntos, o desapontante ‘Love Happy’ em 1951, justificado, como se afirma, pela necessidade de Chico pagar as suas dívidas de jogo. Mas Groucho nunca gostou de ter sido ‘forçado’ a fazer ‘Love Happy’ nem do resultado final. Tanto que, na sua autobiografia ‘Groucho & Me’ (fantástico livro, já agora), nem se refere a ele. Está lá escrito preto no branco que o seu último filme com os seus irmãos é ‘A Night in Casablanca’ (wishful thinking…). ‘Copacabana’ é portanto o seu primeiro filme da sua carreira a solo, a única, dos quatro irmãos, a ter o mínimo de expressão. Contudo, é de notar que, como Lionel Q. Deveraux, Groucho está a fazer exactamente o mesmo papel que fazia nos filmes com os seus irmãos (até o nome com a inicial a meio é imitado). O que muda são as piadas (de menor qualidade) e o vazio que às vezes se sente. A meio de uma cena de ‘Copacabana’ de repente pensamos “o que iria agora bem seria um escape cómico com Harpo". Como nunca aparece, é o filme que perde.

Já Carmen Miranda, a ‘brasileira’ nascida em Portugal, siderou o público americano com o seu estilo particular de música e dança (com várias peças de fruta no topo da cabeça!), desde a sua primeira aparição em ‘Down Argentine Way’ (1940). Após uma década a fazer vários papeis de sul-americana em musicais, ‘Copacabana’ surgiu já numa fase final e em declínio da sua carreira cinematográfica; faria apenas mais três filmes até à sua morte prematura em 1955. Mas não se nota isso em ‘Copacabana’. Não é que fosse a actriz mais talentosa ou a mais bela. Mas quando a colocam num palco, quando ela encarna a sua personagem chave com a sua indumentária característica e começa a cantar e a dançar (como o clássico ‘Tico Tico no Fuba’), há muito pouco que se lhe equipare.

Realizado por Alfred E. Green, um pouco recordado mas prolífero realizador que dominava este tipo de género musical (acabara de fazer ‘The Jolson Story’, 1946, por exemplo), ‘Copacabana’ começa como poderia começar qualquer outro filme dos irmãos Marx. Goucho, encarnando Lionel Q. Deveraux, entra no Copacabana, o clube nocturno mais chique e mais popular da cidade, e tenta impingir o seu dueto com Carmen (cuja personagem, surpresa, se chama Carmen!) aos produtores. Algumas tentativas de engate falhadas às empregadas e alguns one-liners aos seguranças que o tentam pôr fora do clube depois, nada feito. Tudo isto é vintage Groucho, mas o início fraco quase dá a sensação de que o filme foi filmado em sequência. Isto porque as suas piadas e os seus mini monólogos surreais vão melhorando ao longo do filme, como se ele próprio ganhasse mais confiança. Propositado ou não, funciona.

Cedo descobrimos que Carmen e Groucho têm um dueto que supostamente é tão mau que ninguém os contrata. Precisamente o quão mau é nunca o saberemos, porque o filme se recusa a mostrá-lo, apenas o menciona (provavelmente porque estes dois artistas nunca conseguiriam ser maus credivelmente!). Estão nas suas últimas poupanças, o seu jantar é um mísero ovo (que dividem!) e têm de brincar às escondidas com o porteiro do hotel onde estão hospedados. Tudo isto, claro, dá direito a piadas leves. Mas o problema é que descobrimos também que a sua rotina é má unicamente por causa de Groucho; Carmen, todos concordam, é fabulosa. Confrontado mais uma vez com isto, Groucho decide abandonar o mundo do espectáculo como performer e voltar a entrar nele como empresário. A sua única cliente: Carmen. Regressados ao Copacabana para audições, Carmen rapidamente cativa o dono do clube Steve (protagonizado por Steve Cochran), mas ele está interessado em ver mais cantoras que Groucho eventualmente lhe terá para oferecer. Como Groucho não tem mais nenhuma começa a inventar. A francesa Mademoiselle Fifi é inventada bem de mais, e Steve fica curioso para a ver. Sem escolha, Carmen mascara-se então de Fifi, com um véu a tapar-lhe a cara, e a sua audição é um sucesso ainda maior. Ambas (Carmen e Fifi) são contratadas. Estão criadas aqui as bases para uma clássica comédia de enganos.

O filme entra então no seu melhor pedaço com alegre euforia, enquanto a desgraçada da Carmen anda a correr de cima para baixo e de um lado para o outro, constantemente alterar entre ser Carmen e ser Fifi (que nunca tira o seu véu), para fazer vários números musicais em sucessão. Entretanto Groucho continua a pavonear-se da sua maneira costumeira pelo clube. Curioso que ninguém se pergunta porque é que Carmen e Fifi nunca são vistas juntas. Mais curioso como é que toda a gente dentro do universo fílmico acha que Fifi é muito mais talentosa e fascinante do que Carmen, já que o espectador não fica com essa sensação (pelo menos eu não fico!). É um artifício necessário para que a comédia de enganos continue, é certo, mas não é muito credível. Ao mesmo tempo nota-se que o filme começa a estagnar e a ficar sem ideias. Aos 40 minutos fiz a mim próprio a pergunta “e agora como é que vão suster isto por mais 45 minutos?”. A resposta é simples: não vão. 

O filme claramente se apercebe que a história já não tem muito sítio para onde se virar, e portanto começa a recorrer a muitos dos artifícios ‘para encher’ que caracterizam, por exemplo, os próprios filmes dos irmãos Marx. Nomeadamente, o filme deixa a sua história principal em suspenso, enquanto se dedica a algumas tramas secundárias, a algumas sequências de piadas elaboradas mas que podiam estar em qualquer contexto, e a muitos números de canto e de dança, de interesse mediano, que vão representando o dia-a-dia no Copacabana. Perdemos algum tempo com a secretária de Steve (a bonita Gloria Jean) que está apaixonada por ele e portanto sofre com as atenções que este dá a Fifi. Depois um rol de celebridades de outrora do mundo do espectáculo, como o cantor Andy Russell (uma figura entre o pascôncio e o rapaz de bom coração, mas que é irrelevante como personagem), ou os jornalistas de celebridades Abel Green, Louis Sobol e Earl Wilson, fazem cameos bem intencionados, mas inevitavelmente passageiros. Neste sentido, a jóia da coroa é mesmo o cameo do próprio Groucho, como um performer convidado do clube (é mesmo o ele real, já que o Groucho que faz de Deveraux está na assistência a desfrutar do espectáculo!). Como ele próprio e num twist de surrealismo característico, Groucho dá-nos um número de canto absolutamente anárquico que é do melhor que este filme contém, mas que, embora seja um throwback para os seus tempos de vaudeville nas décadas de 1910 e 1920, infelizmente não consegue estar ao nível dos seus melhores momentos cinematográficos da década de 1930. O esforço contudo, não é em vão, e o espectador agradece, com nostalgia, esta injecção de magia cinematográfica, mesmo não tendo absolutamente nada a ver com a história.

Só passado isto tudo é que o filme regressa subitamente à sua história principal. Exausta de viver uma dupla vida, e dos avanços incessantes de Steve em relação a Fifi, Carmen e Groucho decidem finalmente “matá-la”. O problema é que primeiro Fifi estava prestes a ser oferecida um contrato milionário em Hollywood, e segundo Groucho passa a ser o principal suspeito do seu rapto e possível homicídio, o que ajuda a dar um novo sabor (inesperado, diga-se) à comédia de enganos no último terço do filme…

Admitamos que ninguém vai ver ‘Copacabana’ pela sua história. Como muitas comédias musicais dos anos 1930 e 1940, esta só existe para dar um contexto para as personagens se moverem, as piadas fluírem e os números musicais terem uma justificação para existir. No geral, nunca sentimos grande interesse pela história que inevitavelmente fica previsível, as personagens secundárias são fracas e muitas delas viram a casaca emocionalmente para coincidir com os propósitos do filme cena a cena (Andy Russell é o exemplo mais notório, apaixonado pela secretária numa cena, a fazer de cupido entre ela e Steve na outra), e algumas ‘desculpas’ para encher o filme (e fazê-lo chegar, certinho, à marca dos 90 minutos) são bastante datadas. De novo dando o exemplo de Andy Russell, este podia ser um cantor de matinés famoso nos anos 1940, mas não há grande pachorra para as suas enfadonhas baladas românticas hoje em dia. Se ainda fosse alguém com carisma, como Fred Astaire… Mas nenhum destes elementos são propriamente muito diferentes daqueles que caracterizavam os miolos das melhores obras dos irmãos Marx para a MGM (ou seja, de ‘A Night at the Opera’, já criticado, em diante). O que distinguia estes filmes eram os momentos em que os irmãos injectavam a sua veia cómica anárquica no filme. ‘Copacabana’ tenta fazer o mesmo, mas sente-se que Groucho está despernado.

Não há dúvidas para ninguém (suponho) que Groucho é o mais brilhante dos irmãos Marx. Embora esteja um pouco mais contido e cansado como Deveraux, o seu momento mais genial é quando se encarna a si próprio em palco. Mas falta-lhe, ao longo do resto do filme, apoio. Chico e Harpo não são comparáveis a Carmen Miranda, obviamente, são estilos completamente diferentes, mas toda a química que Groucho possa ter com Carmen (e em determinados momentos essa química até não é nada má – Carmen é uma mulher à altura de Groucho), está a anos-luz da química que Groucho tinha com os seus irmãos, nas cenas que faziam os seus filmes valer a pena. Aqui não sentimos que as cenas de Groucho com Carmen façam ‘Copacabana’ valer totalmente a pena, ou pelo menos que o salvem completamente do marasmo banal da restante película. Cada um faz o seu papel e fá-lo bem; Groucho o pinga-amor falhado com um one-liner por segundo, responsável pela parte cómica do filme, e Carmen Miranda num papel dual de cantora, responsável pela parte musical do filme. Mas da soma das partes surge um todo que não é necessariamente maior.

Como escrevi no início, ‘Copacabana’ é um musical de entretenimento ligeiro e doses recatadas de comédia. Nem mais, nem menos. Podia ser exactamente igual com Harpo e Chico atirados ao barulho (como dois empregados do ‘Copacabana’ por exemplo), e então poderia ser um dos melhores filmes tardios dos irmãos Marx. Como está é um pedaço de entretenimento despreocupado e levemente divertido que se distingue de vários filmes tirados a papel químico da mesma época pelo facto de juntar duas estrelas cintilantes do mundo do espectáculo e dar-lhes a oportunidade de darem um último “Hurrah!” nas fases tardias das suas respectivas carreiras. Quer Groucho quer Carmen Miranda aproveitam essa oportunidade com classe e daqui se retira todo o prazer de ver este filme. Aliás, enquanto os filmes dos irmãos Marx são famosos e hoje são continuamente revisitados, os de Carmen Miranda nem tanto, portanto é uma belíssima oportunidade de ver ou rever todo o seu talento no grande ecrã. 

Por estes motivos, não posso deixar de recomendar ‘Copacabana’. Mas ciente de que, na realidade, o filme tem pouco de especial; nem momentos musicais para a posteridade, nem dos melhores one-liners citáveis de Groucho, nem momentos épicos de partir o coco a rir. Mas, mesmo no seu estilo morno e pachorrento, consegue, numa cena ou outra, andar lá perto. E, no final de contas, entretém. Se esta é a grande despedida da comédia musical de enganos passada no ‘mundo do espectáculo’ do cinema a preto e branco dos anos 1930 e 1940, se este é um dos filmes que marca o final de uma era que nos deu os ‘Brodway Melodys’ os ‘Golddiggers’ ou os filmes de Fred & Ginger então, na verdade, não é uma despedida inteiramente mal servida. Afinal de contas tem Groucho Marx. Afinal de contas tem Carmen Miranda. E são eles e só eles, com as suas presenças características, que conseguem transformar ‘Copacabana’ de um filme banal para um filme que quase 70 anos depois ainda temos o prazer de ver, desfrutar relaxadamente sem esforço, e discutir.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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