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Life

Ano: 2015

Realizador: Anton Corbijn

Actores principais: Robert Pattinson, Peter Lucas, Lauren Gallagher

Duração: 111 min

Crítica: ‘Life’ é uma fotografia no tempo. Retrata um período específico e condensado num par de semanas em 1955 da vida de James Dean, o icónico actor jovem que se tornaria o símbolo de uma nova geração, e que viria a falecer pouco tempo mais tarde num desastre de automóvel antes de completar 25 anos de idade. 

Geralmente não aprecio estas biografias dos famosos do cinema. Costumam desenrolar-se como novelas, supostamente ‘realistas’ do ponto de vista emocional (a vida por detrás das câmaras), mas depois cometem o erro infantil de dar ao famoso a mesma personalidade na ‘vida real’ que tem nos filmes em que actua. É isto que acontece, por exemplo, na parada de estrelas que é ‘The Aviator’ (2004). Por outro lado, visto que quem faz o filme assume que o espectador moderno terá pouco conhecimento da história do cinema, restringe-se o argumento à lenda dos factos e não aos factos, e inserem-se enervantes mini-biografias explicativas nos diálogos como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, artificializando o conteúdo. ‘Chaplin’ (1992), por exemplo, é rico neste tipo de artifícios.

Mas o pior ocorre quando o filme é tão arrogante ao ponto de assumir que sabe verdadeiramente o que estas estrelas estavam a sentir em determinado momento, e depois descarrila num desbobinar de lições de moral sobre como eram almas transcendentais e incompreendidas, vitimas das circunstâncias e da fama, e como estavam acima de toda e qualquer moral. ‘My Week with Marilyn’ (2011) era um péssimo filme, não só por estes motivos, mas também porque não havia uma pinga de Monroe em Michelle Williams. Não me importo que o actor não seja fisicamente parecido a personagem que está a interpretar (outra obsessão clássica) mas tem que haver uma chama, uma energia, que seja minimamente identificável. Mas por vezes, como no caso de James Dean, é fácil notar como essa chama é incapturável, por mais que quem faz o filme se esforce.

Na realidade, fazer um filme destes é um processo ingrato. Ou se cai nas malhas de tudo o que descrevi em cima, ou então, se se opta por um claro espectáculo de entretenimento, chega-se a obras menores, de formato ‘televisivo’, como ‘Hitchcock’ (2012). Este é um filme que apesar das suas inúmeras incongruências é completamente inofensivo, porque se limita a satisfazer, com clara autoconsciência e sem pretensões artísticas, a ilusão do público sobre a lenda do homem. Mas por outro lado, se negarmos tudo isto como ‘Life’ o nega, e se optarmos por um retrato sincero da personagem, sem grandes embelezamentos e endeusamentos, sem piadinhas históricas, sem paradas de famosos, com pouca referência à vida profissional e amorosa dos tablóides, então o que resta?

O grande crítico Gene Siskel costumava perguntar se “este filme é melhor do que um documentário sobre os mesmos actores sentados numa mesa a comer?”. Em ‘Life’ podemos parafrasear e perguntar que interesse tem um filme sobre a vida de James Dean onde, pré-fama, passa o tempo a falar e a comer com os amigos e a família? Não sei se é exactamente por estes motivos, mas uma coisa é certa sobre ‘Life’. Na maior parte do tempo é um filme chato, e a sua história de base tem muito pouco interesse. O pouco que tem só será perceptível para quem conhece o mínimo sobre James Dean. Para o público dito ‘normal’, que se calhar nunca viu um filme dele, então pouco ou nenhum interesse haverá. Esta constatação poderá justificar a enormidade de pessoas que esta semana, na ante-estreia do filme nas salas portuguesas a que tive o privilégio de assistir, abandonaram a sala com o filme a decorrer.

Com muita facilidade, ‘Life’ poderia ser um filme-Óscares, se tivesse um actor famoso a interpretar James Dean e se tivesse a força dos grandes estúdios por trás. Mas ‘Life’ é um filme de origens humildes, uma co-produção internacional liderada pelo Canadá, que ostenta duas dezenas de produtoras/distribuidoras. Ao seu leme está Anton Corbijn, que nos anos 1990 realizou videoclips dos Metallica, Depeche Mode e U2, e que teve no seu primeiro filme, ‘Control’ (2007), um inesperado sucesso, ao ser subtil e realista (evitando a maior parte dos clichés que descrevi em cima) no seu retrato de Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division que faleceu aos 23 anos de idade. Seguiram-se dois thrillers de Hollywood, ‘The American’ (2010) e ‘A Most Wanted Man’ (2014), ambos que não vi, mas com ‘Life’ (2015) Corbijn como que regressa às origens, de novo através do retrato de um jovem artista que desapareceu cedo de mais. Mas uma das vantagens de ‘Control’ era que víamos a arte de Curtis reflectida no ecrã. As sequências musicais davam uma enorme energia, para não falar de alma, ao filme. Quem era Curtis se não fosse a sua música? Por isso é que essas sequências eram importantes. A sua vida girava à volta, e justificava-se, por esses momentos de interpretação musical. Mas em ‘Life’ tudo isso é negado ao não se mostrar Dean a actuar uma única vez, e portanto a força do filme começa logo a perder-se por aí.

‘Life’ é (supostamente) contado na perspectiva do fotógrafo Dennis Stock, interpretado pelo allumini de Twilight Robert Pattinson que, tal como nas suas interpretações "sérias" para Cronenberg, continua sem me convencer muito. Dennis é um fotógrafo freelancer, que vai fazendo trabalhos menores tirando fotos de estrelas de Hollywood nas passerelles, mas que sonha com trabalhos mais artísticos. Está em Los Angeles, negligenciado a sua mulher e filho em Nova Iorque, e quando o filme começa vemo-lo a entrar em casa de Nicholas Ray (interpretado por Peter Lucas). O filme ‘East of Eden’ acabou de ser filmado e Ray, o realizador, está a dar uma grande festa. Tímido e fora do seu meio, Dennis acaba por conhecer no bar outro inadaptado e ambos têm uma conversa desajeitada, um tom que se manterá entre os dois durante todo o filme. Dennis fica logo fascinado por esta personalidade e quando se despedem, o outro jovem revela chamar-se James Dean (interpretado por Dane DeHaan, o Harry Osborn do último ‘Spider Man’) e convida Dennis para a ante-estreia privada do filme no dia seguinte, dizendo que tem nele um pequeno papel.

Logo a primeira coisa que salta à vista é que DeHaan não é um bom James Dean. É fisicamente parecido, o seu sorriso trágico, principalmente no final, é uma cópia a papel químico, e esforça-se (sem grande sucesso) em reproduzir a voz arrastada e balbuciada de Dean. Mas isso não é suficiente. Dean era mais um poço de energia e raiva contida, misturada com uma inocência e uma infantilidade trágica, do que propriamente um bom actor. Havia qualquer coisa nele de transcendental, quando a câmara o captava, e é isso que DeHaan não tem. Recordei-me várias vezes do jovem Leonardo DiCaprio. Nos anos 1990, daria um excelente James Dean, porque tinha aquele carisma, independentemente da parecença física. Mas carisma é o que não sai dos poros de DeHaan. É simplesmente um tipo parecido com Dean e com uma voz arrastada que leva o espectador ao desespero. O seu monólogo de quase cinco minutos no comboio é a cena mais exasperante do filme. Nunca mais termina e não há nada na sua actuação que nos capte e nos leve a suster o fôlego, tal com quando Dean entrava em cena. Este é o ponto número dois contra este filme.

Quando Dennis vai à sessão privada de ‘East of Eden’ descobre que Dean afinal é o actor principal e mais fascinado fica. Mas Dean é neste momento um virtual desconhecido do grande público já que o filme, o seu primeiro, ainda não estreou, e poucos o viram nas peças de teatro que fez em Nova Iorque e nas suas pequenas aparições televisivas. Dennis vê em Dean uma chama que nunca antes tinha visto e deseja, com um misto de voyeurismo e ambição artística, captá-la em fotografia. De preferência, antes que os outros fotógrafos de celebridades descubram este novo actor. O filme passa-se então nas poucas semanas entre o final das filmagens de ‘East of Eden’ e a sua estreia, quando Dean vive os seus últimos momentos de anonimato e Dennis literalmente o persegue para fazerem um trabalho fotográfico juntos. Inevitavelmente, gera-se uma relação de amizade, ou pelo menos de entendimento mútuo, entre os dois homens, que encontram pontes comuns nas suas filosofias de vida, por mais disfuncionais e desfocadas que sejam.

Concomitantemente, o filme esquece-se que está a contar a história do ponto de vista de Dennis e vai mostrando cenas de Dean sozinho, para delinear melhor o seu caminho aos olhos do público de hoje. O seu casting para ‘Rebel Without a Cause’ por exemplo, cujas filmagens começarão em breve, é constantemente referido, e aqui entra em cena alguma da fantasia Hollywoodesca, com Ben Kingsley a fazer de Jack Warner (interessante, mas com a consciência da caricatura), John Blackwood interpretando Raymond Massey, etc. Felizmente, esta tecla nunca é exagerada. Em vez disso, o filme vai pairando sobre a forma como fotógrafo e artista se vão encontrando e se começam a apoiar um no outro para a resolução dos seus dilemas. Dennis está amargurado com uma existência mesquinha e desprovida de sentido, dividido entre a ambição da arte e os trabalhos certos mas pouco dignos. Dean está no limiar da fama mas sem saber bem se a quer ter, porque com ela perderá a sensação de liberdade e preguiça que o caracterizam. Mas ao mesmo tempo deseja, acima de tudo, expressar-se através da actuação.

Com uma vagarosidade extrema, mas adequada às duas personagens pachorrentas, tímidas, introvertidas e (tenta-se) profundas que quer retratar, o filme finalmente chega ao seu propósito. Actor e fotógrafo, com a naturalidade do acaso, encontram um ponto comum, quase relutantemente, e da mesma forma intuitiva o primeiro começa a tirar as fotos ao segundo que anos depois se tornariam famosas. Primeiro em Nova Iorque e depois na terra natal de Dean em Indiana onde ambos vão passar uns dias, o filme passa a sua segunda metade a dar uma de ‘Flags of Our Fathers’ (2006), ou seja, a revelar-nos a cadeia de eventos, num misto de realidade e lenda, que levaram a cada uma das fotografias famosas. O filme é, como comecei por dizer, uma fotografia no tempo, um enquadramento emocional, que liga foto a foto, arrastando-se entre cliques, até que os homens dos lados opostos da lente se despedem e seguem os seus respectivos percursos de vida.

Quando o filme termina e vemos as fotos verdadeiras no genérico final, não deixa de ser muito interessante, pois recordamos as cenas do filme e o clique discreto da câmara de Dennis/Patterson. Por isso para quem já viu estas fotos muitas vezes, para quem conhece o trabalho de James Dean, não deixa de ser fascinante (mesmo que em doses reduzidas), esta ‘visão dos bastidores’, seja ou não realista. Mas serão estas cenas que antecedem cada enquadramento de cada fotografia tão profundas como a própria fotografia? É um paradoxo inexplicável do filme quando notamos, por exemplo, que a icónica fotografia de Dean em Times Square, com um cigarro no canto da boca e a gola levantada, é mais eloquente sobre a profundidade e ambiguidade desta alma do que são os 10 minutos que no filme constroem esse enquadramento. É verdade! Porque a mística das coisas, como todos sabemos, está no seu mistério, no seu segredo, na sua chama intrínseca que cada um pode interpretar a seu bel-prazer. O filme esforça-se por ter essa ambiguidade, e uma das suas maiores vantagens é ser discreto e nunca, ao contrário da maior parte dos filmes de celebridades, querer ensinarmos o que Dean está a sentir. Na maior parte do tempo Corbijn deixa as imagens falarem por si, mas infelizmente elas não dizem muito e não têm interesse nem profundidade suficiente para que o espectador preencha por si as lacunas emocionais. As fotos de Dennis, como vemos no genérico final, são carregadas de energia e de mistério. As cenas equivalente do filme não.

Do mesmo modo, não deixa de ser um anti-clímax quase chocante o facto de as fotografias pouco terem causado furor na altura do seu lançamento. O número da revista Life saiu dois dias antes da estreia de ‘East of Eaden’ e a foto-reportagem de James Dean ocupava apenas quatro páginas, para lá da página 100 da revista. Portanto as fotos não eram icónicas, poucos ligaram a elas, e só depois da fama inusitada de Dean, principalmente após a sua morte, é que as fotografias foram re-descobertas. Portanto não se fez grande história nestes eventos que o filme retrata, o que mais contribui para a timidez desajeitada com que tudo se desenrola. E há ainda mais uma coisa importante que o filme nunca menciona. Só ‘East of Eaden’ foi lançado enquanto James Dean era vivo. Os seus outros dois filmes; ‘Rebel Without a Cause’ (1955) e ‘Giant’ (1956) foram lançados após a sua morte. Truffaut escreve no seu livro ‘Filmes da Minha Vida’, por exemplo, que quando Dean morreu nenhum crítico em França, ele incluído, pensou muito no assunto, pelo simples facto de que nenhum filme de Dean tinha estreado ainda no velho continente.

Portanto ‘Life’ desenrola-se todo em anti-clímax; é uma biografia de uma celebridade antes da celebridade, é uma fotografia de um actor de cinema antes de ser actor de cinema. Assim sendo, o filme é exactamente sobre quê? Os bastidores de umas sessões fotográficas que só fizeram furor anos depois, e nunca seriam recordadas se Dean não tivesse ficado famoso nem falecido jovem? Uns dias na vida de um homem que não faz nada de especial a não ser ter umas conversas semi-filosóficas, comer, dormir e temer a fama em prol da liberdade de tocar os seus bongos e ir tomar uns copos com os amigos? Sinceramente, eu não achei isso muito interessante, porque podia ser a história de qualquer aspirante a actor. O filme só ganha dimensão porque sabemos (ou pelo menos alguns espectadores saberão) quem é James Dean e porque já fomos electrocutados pela gigantesca energia que ele fazia faiscar no ecrã. Mas como o actor Dane DeHaan não consegue transmitir isso, muito se perde. E para além do mais, Dean divide o protagonismo do filme com o fotógrafo Dennis, alguém que nem o cinéfilo mais dedicado conhecerá e que é mais uma personagem que não consegue suscitar grande interesse no espectador, porque também não faz nada de transcendental e até acaba por tirar a maior parte das fotos relutantemente. Achei curioso ter tido a sensação que o próprio filme estava a reconhecer isso.

No final, ‘Life’ é um filme contraditório, em si e para o espectador. Não nego que é um filme bem filmado, que gere as suas personagens com simplicidade e delicadeza, e lhes dá vidas e sentimentos realistas, e diálogos de incertezas comuns, longe do tragicismo clássico inerente às biografias de Hollywood. Para além do mais tem a enorme vantagem de ser discreto e subtil no retrato da época (por exemplo Dean visita o Actor’s Studio e ouve Lee Strasberg a falar sem que ambos os nomes sejam mencionados – só o cinéfilo perceberá!). Mas como todos sabemos a vida ‘normal’ é um assunto enfadonho para um filme, por isso ao ser terra-a-terra nos eventos e nos diálogos não está a fazer nada para captar ou dinamizar o interesse do espectador. Quando assim é, os grandes filmes artísticos captam-nos pela força do seu estilo cinematográfico. Tal força não se vislumbra em ‘Life’ e a lentidão com que DeHann se arrasta por todo o filme é contagiosa e difícil de sacudir quando os minutos passam e o tom moroso se mantém.

Com pesar nota-se que o grande feito do filme não é nada positivo. Estraga a mística das icónicas e belíssimas fotos de James Dean ao revelar a forma banal e praticamente fortuita com que foram obtidas. E quando nos estragam a ilusão, é o próprio filme que tem de pagar a conta. ‘Life’ parte de boas decisões produtivas sobre a forma como a história devia ser abordada, e esse é o seu maior crédito e a fonte de todo o interesse cinematográfico que tem. Agora o interesse da história em si, e o momento temporal que decide apanhar, é que deixa muito a desejar, e perante isso não há qualidade de realização ou a memória de uma velha lenda de Hollywood que lhe valha.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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