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Jurassic World

Ano: 2015

Realizador: Colin Trevorrow

Actores principais: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins

Duração: 124 min

Crítica:Dr. Grant, my dear Dr. Sattler... Welcome to Jurassic Park”. Com estas palavras mágicas, o recentemente falecido Richard Attenborough introduzia a primeira imagem de um gigantesco (e extremamente realista) dinossauro computadorizado, e com ela, Spielberg revolucionava o cinema. Em 1993, eu tinha 8 anos de idade quando ‘Jurassic Park’ invadiu o mundo. Não há palavras para descrever a loucura deste fenómeno para uma jovem criança. Literalmente todos os meus colegas de escola queriam ser paleontologistas, todos sabíamos de cor os intrincados nomes dos dinossauros e todos, sem excepção, tínhamos as t-shirts, os bonecos, os posters, os livros. E claro, todos vimos o filme uma e outra vez, primeiro no cinema, depois em VHS.´

Mas ‘Jurassic Park’ foi muito mais que uma moda, muito mais do que uma revolução de efeitos visuais. O então filme mais rentável de sempre (batendo ‘E.T.’ do próprio Spielberg), era uma mistura soberba de aventura, fantasia, ilusão, entretenimento, mas também coração. Claro que os dinossauros nos assustavam e claro que a mistura dos animatronics de Stan Winston com os efeitos especiais da ILM nos sideravam, mas tal como ‘E.T.’, o que verdadeiramente diferenciava ‘Jurassic Park’ era a sua extremamente bem escrita história de valores familiares, que nunca ocupava segundo lugar em relação à acção com dinossauros. Aliás, era esse explorar da criança existente dentro de cada um, da relação do avô com os netos, e da relação de afectividade que se desenvolvia entre os miúdos e a nova figura parental que encontravam na personagem de Sam Neil, que realmente davam alma ao filme. ‘Jurassic Park’ é um filme familiar com uma magnífica componente de entretimento, mas nunca foi um filme de acção.

Contudo, não se pode dizer o mesmo das sequelas. ‘The Lost World’ (1997), realizada por favor diz-se, e de uma forma muito adormecida pelo próprio Spielberg, e ‘Jurassic Park III’ (2001), realizada pelo antigo guru dos efeitos especiais Joe Johnston, parecem aquelas sequelas dos filmes de serial killers. Sabemos que no final o herói vai sobreviver. Até lá desfrutamos dos dinossauros a matarem as personagens secundárias de formas cada vez mais inventivas, mais ruidosas e mais sangrentas. Não se pode dizer que estes filmes tenham grande qualidade e a alma do original foi abruptamente perdendo a batalha contra os efeitos especiais e a acção esteticamente bela, mas enfadonha. O próprio Spielberg sabia-o, e após 2001 parecia que tínhamos visto o fim das sequelas. Mas nunca se pode dizer nunca nesta era cinematográfica moderna.

Catorze anos depois, um dos maiores elogios que se pode dar a ‘Jurassic World’ é que tenta recapturar essa magia do filme original. Só o consegue em parte, obviamente (a magia familiar de Spielberg dos anos 1980 e 1990 é irrecuperável), mas por essa parte o filme já se eleva bem acima de Jurassic Park II e III. Contudo é um filme de contrastes, que tanto surpreende pela sua abordagem fresca e inventiva como logo a seguir gera repulsa por reverter à fórmula batida, ao lugar-comum e à incongruência (e dessas há muitas por aqui). Spielberg tem o crédito pachorrento de ‘produtor executivo’ (ou seja, financiou e mandou uns bitaites), e o filme ostenta quatro argumentistas, incluindo aqueles que escreveram os recentes filmes do ‘Planeta dos Macacos’. A realização, essa vai estranhamente para um quase-estreante, Colin Trevorrow, que em 2012 fez o aclamado filme independente ‘Safety Not Guaranteed’. Como sabemos, Spielberg anda sempre à cata de novos talentos na televisão e nos festivais independentes. Não sei se Treverrow é a sua aposta pessoal, mas tal como o filme pode-se dizer é uma aposta apenas parcialmente bem-sucedida.

Como se faz uma nova sequela de ‘Jurassic Park’? Como se dá ao público algo de novo, que nunca tenha visto? Neste sentido o filme tenta imitar a sua própria história. Ou vice-versa. Temos um novo parque, chamado ‘Jurassic World’, já em funcionamento. Temos novas atracções e novas formas de interacção com os dinossauros, que estão maiores e mais assustadores. É isso que os clientes do Parque querem. Mas é isso também que o público real por esse mundo fora, que adora ir ao cinema ver extravagâncias cheias de efeitos especiais, quer ver. Portanto de uma cartada se resolve um duplo problema. Mas se para o mundo real a questão fica resolvida, até porque muitos jovens nunca viram um Parque Jurássico no cinema e portanto o reciclar de ideias não lhes fará mossa, no mundo ilusório há uma questão pertinente que se põe e que ninguém no filme se lembra de perguntar. Tentou-se criar um parque temático uma vez, em ‘Jurassic Park’. Deu para o torto. Os dinossauros comeram quase toda a gente e o parque nunca chegou a abrir. Tentou-se segunda vez em ‘Jurassic Park II’. De novo não se conseguiu inaugurar o novo parque temático programado para San Diego. Mais pânico. Mais mortes. Então porque raio é que agora meteram na cabeça que iriam ser bem-sucedidos? Como é que acharam que era desta que iam conseguir controlar os dinossauros? E os clientes, depois de verem as notícias na televisão de mortes e horrores nas ilhas do Pacífico, anos depois decidem que ir para uma ilha cheia de dinossauros é boa ideia?! 

Claro que sem estes elementos não havia filme, portanto somos acomodados a uma realidade em que o parque Jurassic World é uma espécie de Disneylândia (as semelhanças são inequívocas e poderão constituir uma pequeníssima crítica social) aonde milhares de pessoas confluem por ano. Assistimos ao descobrir do parque pelos olhos de dois irmãos, Zach (o actor Nick Robinson), o clássico adolescente em fase de puberdade e amuo rebelde, e Gray (Ty Simpkins) mais novo e fanático por dinossauros, que chegam para passar umas férias sem os pais, ao cuidado da tia que trabalha aqui. As várias semelhanças destes dois miúdos com os do filme original serão, certamente, pura coincidência. A diferença é que os seus papéis não estão tão bem escritos (aqueles diálogos sobre o possível divórcio dos pais… ai Jesus!), e a sua inclusão na história do filme é demasiado forçada, não se gerando qualquer pingo da universalidade familiar tão típica do cinema de Spielberg dos anos 1980 e que o filme original tanto tinha.

A tia dos miúdos é Claire (Bryce Dallas Howard, que aprecio há vários anos desde ‘The Village’, 2004), a relações públicas/gestora do Parque, viciada no trabalho e cuja principal função neste momento parece ser arranjar patrocinadores para as novas atracções. Para satisfazer a procura, os cientistas (onde se inclui o actor BD Wong, do filme original e que há muito estava afastado das grandes produções) criaram um novo dinossauro em laboratório, maior que o T-Rex; o Indominus Rex. Porque é que isto não soa a boa ideia? Lá está, porque não é. Mas ninguém parece aperceber-se disso. Entretanto Claire não tem tempo para cuidar dos miúdos (um pequeno drama familiar) e deixa-os a cargo da sua enfadonha assistente. Estes vão explorando o parque e as suas atracções e nós exploramos com eles, sendo brindados com várias exibições de efeitos especiais. Stan Winston faleceu em 2008. Talvez por isso não se use um único dinossauro “real” (ou seja, motorizado) neste filme. É tudo feito por computador. E deixem-me sussurrar um segredo: nota-se! Por melhor que seja a animação, deixa de haver aquele peso e aquela química na interacção com o actor. Só num único plano, mesmo no final, é que fiquei de boca aberta. A corrida de um velociraptor é tão realista que parecia que tinha sido filmada por uma equipa da BBC Vida Selvagem. Nos restantes planos não há dúvidas; a preguiça de criar estes efeitos em gabinete venceu a batalha contra os animatronics, o que é de lamentar.

E o Indominus Rex, por onde anda, pergunta o leitor? Bem, está a ficar irrequieto na sua jaula e a coisa não é auspiciosa. Por isso mesmo, o director do parque (uma performance interessante de Irrfan Khan), manda Claire contactar um especialista em dinossauros. Este é nenhum outro senão o Indiana Jones cá do sítio, Owen, interpretado de forma cool e engraçada, à la Harrison Ford, por Chris Pratt. Pratt nunca poderá ter estofo para ser um actor dramático, mas pelo que faz aqui e pelo que fez o ano passado em ‘Guardians of the Galaxy’ tem o caminho aberto para ser o actor de acção/entretenimento da nossa geração. Como Owen, trabalha num programa de relacionamento homem-dinossauro, e até já consegue (mais ou menos) controlar uma matilha de raptors. Os seus serviços são contratados para ir verificar a segurança do Indominus e como não podia deixar de ser, há uma química entre ele e Claire. Numa cena com maus diálogos descobrimos que já tiveram um relacionamento anterior que não resultou. É a história clássica do herói despreocupado e da empertigada workaholic que se irá derreter ao longo do filme. Depois da aventura que estão prestes a ter, nunca há dúvidas que mais cedo ou mais tarde o cupido vai voltar a atingir.

Tal como isto, o resto é previsível. Owen chega ao Parque no mesmo dia em que o Indominus Rex foge da jaula e lança o pânico em 20.000 mil visitantes. Pior, os miúdos estavam num veículo safari e ficam perdidos no meio da floresta. Ups. Conseguirão Owen e Claire encontrar e salvar os miúdos? E já agora sair vivos do Parque? É que este dinossauro é grande, feio e bem mauzinho! Ainda por cima, a clássica agência governamental não especificada (liderada por Vincent D'Onofrio) está no terreno para tentar obter aquilo que todas as agências governamentais não especificadas querem neste tipo de filmes desde ‘Aliens’: o controlo das experiências genéticas que podem ser usadas/vendidas como armas.

No global, o filme pode ser comparado à sua banda sonora. As composições originais são de Michael Giacchino (vencedor do Óscar por ‘Up’), mas nos momentos chave surgem os temas icónicos que John Williams compôs para o filme original. Giacchino pode compor em redor do material de Williams tanto quanto quiser, mas nunca soará tão bem. Do mesmo modo, o filme pode revisitar temas clássicos; os dois miúdos, a química on/off do casal principal, a aparição final do T-Rex, e até uma ida às ruínas do anterior parque, mas nunca irá conseguir recuperar a chama.

Como disse este é um filme de contrastes. Por um lado é de louvar que este filme não esteja inteiramente focado no espectáculo visual que os dinossauros proporcionam, e no prazer macabro que o público sente quando eles comem alguma personagem secundária. É também surpreendente a introdução (mesmo que lamechas, mesmo que batida) da história mais íntima, reminiscente do primeiro filme. O filme consegue sempre ter ritmo, evita destramente manobras artificiais para satisfazer o público, tem visuais extremamente interessantes e tem um leque de personagens magnífico. Embora no papel sejam os lugares comuns do costume, o trabalho no plateau (mesmo que seja bluescreen) do realizador e dos actores encheu-os de química e vitalidade. Veja-se os momentos verdadeiramente engraçados que proporcionam o casal de nerds na sala de controlo. Veja-se a energia sentida e verdadeira que emana Irrfan Khan como o director do parque, homenageando a paz de espírito e a alegria infantil que brotava de Attenborough. Veja-se a forma como o gelo vai derretendo entre o casal de heróis, cativando o espectador aos poucos. São elementos que um computador não consegue gerar e que devem ser destacados e elogiados num filme como este. A palavra chave aqui é ‘verdadeiro’. O filme consegue sê-lo em quase tudo. Com isto não estou a falar de realismo de efeitos visuais. Estou a falar de realismo de emoções, pelo menos as suficientes para suster um produto cujo único objectivo é entreter. E o filme entretém? Com certeza.

Contudo isto tem um preço. A história dos miúdos e a história Owen-Claire são completamente distintas e nem parecem estar na mesma realidade fílmica. Os miúdos são sempre um aparte forçado que não encaixam na linha argumental nem contribuem muito para ela, a não ser dar uma desculpa para Owen e Claire percorrerem o Parque de lés a lés (ele com apenas uma caçadeira, ela de saltos altos… nada credível!). Felizmente, só são atacados por dinossauros quando estão com mais pessoas e utensílios por perto. Os dinossauros são é seres extremamente sensíveis – não querem estragar as piadinhas e a química romântica destas cenas.

Depois este é daqueles filmes que tenta ser épico ao gerir milhares de pessoas e eventos mas que, obviamente, só se consegue focar nas suas personagens principais, criando claras incongruências. Perdi a conta das vezes em que nos mostram o ataque dos dinossauros aos 20.000 mil visitantes do parque, em planos longos soterrados de efeitos especiais, enquanto estes tentam fugir para os locais de abrigo. Mas depois, o filme fica meia hora a mostrar-nos os dois miúdos ou Claire e Owen, e esquece-se constantemente que há mais 19.996 visitantes no parque também em perigo. Do mesmo modo, quando os quatro conseguem fugir de jipe, o filme faz crer que tudo ficou bem. E os restantes hospedes? Que se lixem?! Pois claro, não são os heróis desta história! E o mesmo acontece com os dinossauros. Por exemplo, o Indominus Rex destrói as protecções do aviário, e portanto milhares de pássaros-dinossauro invadem o parque. Após o ataque inicial, largamente explorado, nunca mais aparecem. Que aconteceu aos pássaros no restante filme?! Boa pergunta. Depois do showdown as coisas também não ficam propriamente resolvidas, pois ainda há dinossauros à solta. Mas então como é que os restantes visitantes escapam? Um fade out e um fade in para um local seguro, e o beijo entre os heróis, esconde a preguiça de contar muita coisa…

Nos anos 1950, para combater a televisão, o cinema ficou maior, mais épico, mais ambicioso. Hoje em dia o fenómeno inverso está-se a passar. A televisão está cada vez mais próxima do cinema, em termos de qualidade de imagem, efeitos especiais, histórias e actores, e é o cinema que está a reverter para um formato televisivo. As sequelas transformaram-se em episódios preguiçosos de uma série; se esta semana não resultar, o público sabe que terá outro para a semana. ‘Jurassic World’ já não é um filme. É um episódio da série ‘Jurassic Park’. “No episódio desta semana o Indominus Rex fugiu da sua jaula. Vejam como os heróis vão resolver este problema. E não percam o episódio da próxima semana”. Basicamente é isto. E por isso o filme não consegue evitar a displicência noutras vertentes. É assim realmente tão diferente o Indominus Rex do T-Rex? Se calhar é um bocadinho mais alto e tem mais dentes, mas este ‘vilão’ não é propriamente uma novidade. Idem para os raptors, mesmo com o twist interessante da sua relação com Owen. Não há mais tipos de dinossauros mauzinhos? Têm de ser sempre os raptors? Idem para o 3D. Como é possível lançar o filme em 3D e não ter um único plano em que parece que o dinossauro vai comer o espectador?! Tenho melhor serviço na ride do Parque Jurássico no Universal Studios…

‘Jurassic World’ tornou-se já no filme mais rentável no fim-de-semana de estreia da história do cinema. Ajuda, claro, a estreia simultânea mundial que a maior parte dos filmes não tem, mas prova que primeiro, o ‘episódio da próxima semana’ chegará em breve, e segundo que há sempre mercado para reavivar boas memórias. ‘Jurassic World’ reaviva boas memórias do filme original, mas nunca o poderá substituir. Ajusta-se aos novos públicos e tem o entretenimento da espectacularidade e a espectacularidade do entretenimento. Admitamos que já não há nada absolutamente de novo que um filme de ‘Jurassic Park’ possa dar ao espectador. Nesse sentido, e não podendo estar continuamente a lançar o filme de 1993 nos cinemas (poder-se-ia, mas não iria ser rentável…), este ‘Jurassic World’ bem que poderá ser a next best thing. Se têm mesmo, mesmo que fazer uma sequela, então que seja uma assim tão descontraída e animada como esta, que não inova muito, é certo, mas que ao menos (valha-nos isso) está assente em valores clássicos e verdadeiros da indústria do entretenimento, como aqueles que se viam, precisamente, nos anos 1990. E se fizerem isso, não vão estar a ganhar prémios, mas pelo menos conseguirão manter viva esta serialização de ‘Jurrassic Park’ com o mínimo de gosto e inteligência.

Por fim, queria apenas dar os parabéns a Bryce Dallas Howard. Não só é uma boa actriz, como conseguiu usar saltos altos o filme todo, mesmo quando estava a ser perseguida pelo T-Rex! Magnífico.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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