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Inside Out

Ano: 2015

Realizador: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen

Actores principais (voz): Amy Poehler, Bill Hader, Lewis Black

Duração: 94 min

Crítica: ‘Inside Out’ (em português ‘Divertida-mente’) é o 15º filme da Pixar Animation Studios (agora subsidiária da Disney), no ano em que celebra o vigésimo aniversário do lançamento do seu primeiro filme: ‘Toy Story’ (1995). É também o primeiro filme da Pixar em dois anos, após ‘Monster University’ (2013), o que não deixa de ser surpreendente num estúdio que desde 2003 tinha feito um filme por ano com excepção de 2005. Claro que sabemos o motivo. ‘The Good Dinosaur’, que estreará no final de 2015, estava originalmente planeado para 2014 mas, vítima de atrasos de produção, a sua estreia foi adiada pelo menos duas vezes. Mesmo assim eu estava esperançado que esta pausa fizesse bem à Pixar. Na minha crítica a ‘Monsters University’ tinha lamentado como a pressão de um-filme-por-Verão tinha suprimido a criatividade de um estúdio que tinha tanta, e que a Pixar precisava urgentemente de respirar fundo e dar um passo atrás.

Longe estão os tempos da inovadora criatividade técnica, mas também da paixão e inventividade na criação de histórias apelativas para crianças e adultos que caracterizavam filmes como ‘Toy Story’ (1995), ‘Monsters Inc’ (2001) ou ‘Finding Nemo’ (2003). Apesar das qualidades técnicas do estúdio serem brilhantes e terem continuamente melhorado (ainda hoje estão na vanguarda da animação CGI), a Pixar esqueceu-se, algures pelo caminho, de como é que construía um filme completo, não só do ponto de vista visual (passe a redundância), mas do ponto de vista de história fílmica. As histórias fortes, com piadas verdadeiras e com uma qualidade que ia muito além do seu design gráfico – que estava na sua alma – foram substituídas por ideias interessantes, sim, mas parcamente exploradas. Ou seja, a Pixar sentou-se à sombra da sua própria bananeira. Primeiro, depois daquele que foi para mim o último grande filme da Pixar, ‘Ratatouille’ (2007), vieram os filmes sociais, ‘Wall-E’ (2008) e ‘Up’ (2009), sucessos pela sua ‘mensagem’, mas que têm uma enorme dificuldade em conseguir completar-se para além disso (ver a minha crítica a ‘Up’). Depois vieram as preguiçosas sequelas. Nos últimos cinco anos a Pixar lançou apenas um único filme original, ‘Brave’ (2012) e mesmo assim com uma história estranhamente semelhante à de ‘Brother Bear’ da Disney. Os restantes foram sequelas (Toy Story 3’, 2010; ‘Cars 2’, 2011; e ‘Monsters University’, 2013).

Eu suspirei um pouco de alívio ao ver ‘Monsters University’ e chamei-lhe “o filme mais coeso da Pixar dos últimos anos”. Podia ser uma sequela, mas era fresco, tinha moral e conteúdos não forçados, e estava muito mais próximo daquela magia e alegria de fazer animação que existia nos primórdios da Pixar, antes de se tornar a elite dos estúdios de animação. Antes a Pixar conseguia surpreender e entreter e maravilhar com as coisas mais simples. Agora, porque acha que está no topo da pirâmide (um segredo: já não está!), sente-se na obrigação de introduzir sempre, mesmo quando não é preciso, a tal ‘mensagem socialmente relevante’. Se ‘Monsters’s University’ foi um passo bem dado no regresso à irreverência mágica do estúdio, em ‘Inside Out’ revertemos, em grande parte, à mesma lenga-lenga que tem caracterizado o espólio recente da Pixar.

Apesar de ser baseado numa história completamente original (graças a Deus!), o que lhe dá imediatamente mais pontos, apesar de chegar a ser divertido, e apesar de se basear num conceito de base extremamente interessante (na Pixar têm-se sempre boas ideias), a verdade é que ‘Inside Out’ choca contra a mesma barreira que já havia descarrilado anteriores filmes do estúdio. ‘Up’ tinha um início magnífico e depois não sabia como prosseguir. A solução? Introduzir uma aventura forçada. ‘Toy Story 3’ tinha um final magnífico mas não sabia como encher a primeira metade do filme até lá chegar. A solução? Introduzir uma aventura forçada. ‘Inside Out’ tem um início com um gigantesco potencial, mas depois não sabe como é que se há de desenvolver. A solução? Lá está, o leitor já adivinhou. A aventura forçada do costume. Se havia um filme que não precisava de aventura, pelo menos nestes moldes, era este (idem para 'Up').

‘Inside Out’ é co-realizado por Pete Docter, um dos lendários membros-base do estúdio e que teve a seu cargo ‘Monsters Inc.’ e ‘Up’ (pelo qual ganhou um Óscar), e pelo estreante Ronaldo Del Carmen, que foi subindo nas fileiras da Pixar como animador e que tem aqui a sua primeira grande oportunidade. A história de base é simples de explicar. Cada pessoa tem cinco pequenos seres dentro do cérebro que (supostamente) representam as suas emoções: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Repulsa e a Raiva. Logo isto causa estranheza. Pode ler-se na internet que a Pixar inicialmente tinha mais de 20 emoções, mas que foram cortando e cortando até ficarem apenas com 5 personagens, muito mais geríveis no universo fílmico. Contudo, destas 5 emoções apenas uma é positiva (a Alegria), o que é incrível. Estarão os senhores da Pixar a insinuar que as pessoas são constituídas por quatro coisas más contra uma boa?! Então e o Amor, por exemplo?! Talvez por isso, o Medo, a Repulsa e a Raiva não são propriamente maus, antes escapes cómicos que pouco ‘controlam’, e o filme basicamente centra-se numa dicotomia muito mais simples entre a Alegria e a Tristeza. A primeira é a líder do cérebro e põe tudo a trabalhar com afinco numa sala de controlo semelhante a muitas que já vimos pelo cinema cómico fora. A segunda é um envergonhado ser que, sempre sem querer ofender e com boas intenções, acaba por fazer asneira e destruir as boas memórias.

Estes seres vivem dentro da pequena Riley, e no princípio vemos como iniciam a sua relação com ela, ‘de dentro para fora’, nos primeiros anos do seu crescimento. A inventividade desta parte, embora talvez extremamente próxima dos conceitos por detrás de ‘Monsters Inc.’, é de salientar, bem como as cores da animação, as formas redondas e apelativas e a simplicidade alegre dos seres (da Alegria e não só), que nos vão embalando na história. Estavam aqui as bases para uma espécie de ‘Boyhood’ de animação, e por um breve momento pensei que iríamos crescer com Riley e com as suas emoções, serpenteando pelos pequenos dramas por que todos nós passamos na infância. Qual o problema de um filme destes? Nem ‘Boyhood’ nem os estúdios Ghibli perderam dinheiro quando enveredaram por este caminho. Mas isso seria demasiado simples, demasiado poético para um estúdio cheio da sua superioridade como é a Pixar. Três minutos depois do filme começar, Riley já tem 11 anos de idade. A minha reacção foi “Oh não!”. Pete Docter ia fazer o mesmo que fez em ‘Up’. Depois de um brilhante set up, iria largar tudo em prol de uma aventurazinha qualquer. E, para mal dos meus pecados, é precisamente isso que acontece.

O pai de Riley arranja um novo emprego em São Francisco e ela tem de se mudar, abandonando a casa que sempre conheceu, a sua escola, os seus amigos e a sua equipa de hóquei, a sua grande paixão. Há ainda alguma energia fílmica nos primeiros dias em S. Francisco, onde Riley se sente negligenciada pelo pai e tem dificuldade em adaptar-se à nova cidade e à nova escola. Dentro do cérebro, após mais uma discussão entre a Alegria e a Tristeza, ambas são sugadas pelo tubo errado e vão parar, juntamente com as ‘memórias essenciais’, ao subconsciente de Riley. Aí, num mundo paralelo pontilhado de várias criaturas e lugares estranhos (a sala do pensamento abstracto, a ilha da fantasia…), a Alegria e a Tristeza têm de conseguir regressar à central de comandos. O filme estabelece, e bem, que o amuo e a apatia de Riley (típico da pré-adolescência) é consequência do seu cérebro ter deixado de ter Alegria e boas memórias, e ter ficado ao controle do Medo, da Repulsa e da Raiva. Mas essa é a última ponte credível que faz entre a Riley interior e exterior. A partir daí o filme perde a química, pois esquece a miúda e a aventura que proporciona é a interior, a que a Alegria e a Tristeza têm nos meandros do subconsciente para conseguir reencontrar o seu caminho de volta. A partir daí, o filme só se recorda de mostrar os eventos do mundo real quando é conveniente, para catalisar um momento de tensão da aventura interior. E é quase escandaloso a forma preguiçosa como o faz. Note-se, por exemplo, que as pontes emocionais de Riley desabam precisamente pela mesma ordem geográfica do caminho que a Alegria e a Tristeza estão percorrer. Quando estão prestes a atravessar a ponte mais próxima, a da amizade, o filme mostra-nos Riley a discutir com a amiga. A ponte desaba. É preciso tentar a ponte seguinte, a da família. Quando chegam lá, o filme mostra-nos Riley a discutir com os pais. A ponte desaba. Têm de tentar a ponte seguinte, e por aí fora. É tudo demasiado conveniente.

Conseguirão a Alegria e a Tristeza chegar à central de comando antes que os restantes sentimentos empurrem Riley para uma importante, mas errada, decisão de vida? Aprenderão a Alegria e a Tristeza a co-existir nesta sua odisseia que, obviamente, também é uma de auto-descoberta? E conseguirá Riley abrir-se com os pais e contar-lhes os seus problemas? Certamente o público já saberá a resposta, mas ao menos o filme, se é previsível no seu desfecho, não o é tanto no seu percurso, que é rico em detalhes e pormenores engraçados (por exemplo a aparição de Bing Bong, o agora esquecido amigo imaginário de Riley, ou a explicação de como se criam os sonhos). Contudo, será isto suficiente? Tendo em conta o enorme potencial do conceito do filme a resposta é não. Mais uma vez, a Pixar produz um filme que se perde na sua mensagem e que se esquece dos pequenos pormenores que enchiam o seu cinema de magia.

O filme centra-se num único evento da vida de uma menina de 11 anos e descartou completamente a magia inerente à descoberta do crescimento. Quando fala disso, é sempre de uma forma indirecta, através das memórias que a Alegria e a Tristeza vão encontrando no subconsciente, o que parece ser um desperdício. Outro desperdício grande, provavelmente intencional, foi não chegar à adolescência, onde as emoções, como todos sabemos, ficam completamente descontroladas. Não parece haver dúvida de que isso vai ser o material da inevitável sequela… E já agora, como é que se explica que as memórias vistas pelas emoções na central do pensamento sejam sempre captadas “de fora”? Como conseguem ver Riley a andar na rua de mão dada com os pais, ou a correr pela casa quando era pequena?! Como é possível terem obtido essas perspectivas? Não deveriam ter sempre acesso ao “filme” das memórias pela perspectiva dos olhos de Riley?! É uma falha inexplicável do filme.

Por outro lado, como o filme quer ser sério nos seus sentimentos, perde o tom de comédia despreocupada que tinha um ‘Monsters University’, substituindo-o por um travozinho irónico que não cai bem. Por exemplo, de vez em quando temos uns flashes dos cérebros de outras pessoas. Enquanto o cérebro de Riley é liderado pela Alegria, o da sua mãe é liderado pelo Medo e o do pai pela Raiva. A sério?! Isto é suposto ser uma piada? Se é, é uma de mau gosto. Felizmente o filme compensa com outros momentos de relaxe cómico. Ri-me a bom rir uma ou duas vezes, mas lamento dizer que por mais que tente não me consigo recordar quais eram as situações. Das duas uma; ou estou a ficar velho ou então eram piadas de circunstância, não muito memoráveis.

Mesmo assim, seria injusto dizer que tudo é mau em ‘Inside Out’. Eu já não sou criança, e por isso há coisas que me chamam à atenção pela negativa que não posso evitar partilhar com o leitor. Talvez seja amargura da minha parte por já não conseguir ver este filme com uma mente livre e aberta à fantasia como quando era criança. Mas as crianças, porque o podem fazer, provavelmente terão em ‘Inside Out’ uma experiência extremamente recompensadora. Creio que conseguirá captar a sua imaginação com o fluido e inventivo espectáculo visual que proporciona, ao mesmo tempo que oferece pequenas lições de vida sobre valores familiares e a compreensão, não só dos sentimentos dos outros, como dos próprios. Claro que está muito mais focado na experiência da família americana, mas tem o potencial para ser universal, porque todas as crianças têm os seus momentos de incompreensão no crescimento e na sua relação com os pais. Para além disso, os senhores da Pixar são mestres na criação de finais emocionalmente comoventes. Recordemos o de ‘Up’. Recordemos o de ‘Toy Story 3’. O de ‘Inside Out’ junta-se a esse cânone, e mergulha-nos nessa memória da infância e do amor familiar, para terminar numa nota elevada. Considero-me culpado no departamento ‘largar uma lagriminha’. Sei que fui manipulado para o fazer, mas não me importei.

E talvez esteja aí o segredo de ‘Inside Out’. É mais um filme da Pixar que se balanceia entre o entretenimento e a moral familiar, sem conseguir ser bem-sucedido em nenhuma das vertentes, mas em que o todo consegue ser um bocadinho melhor do que as partes. É um ‘Up’ de trazer por casa com um enquadramento fantasioso que recorda inevitavelmente ‘Monsters Inc.’, contudo consegue ser mais coerente e até mais divertido que os filmes mais recentes da Pixar. Mas não passa disso. Tem uma boa ideia, uma boa execução técnica e uma ou duas personagens bastante apelativas (a Alegria e Bing Bong principalmente), mas a meio perde o gás e não sabe para onde se virar. Tem uma moral nobre em vista mas faz trinta por uma linha para lá chegar, não importa como. É um filme que se nota, e bem, que foi feito mais com o coração do que com a imaginação, mas por mais coração que tenha nunca nos ficará na memória como ficam ‘Toy Story’, ‘Finding Nemo’ ou ‘Ratatouille’. Essa Pixar, temo, já se foi. A Pixar neste momento já não parece querer ser um estúdio de entretenimento. Para isso temos a Illumination ou até, de novo, a própria Disney. Agora a Pixar é um estúdio de causas. Aqui aborda a causa da incompreensão dos problemas dos pré-adolescentes. Fá-lo com sucesso? Algum, e isso é o seu maior trunfo. Dos 7 aos 12 anos este filme é provavelmente uma obra prima, explorando temas que nenhum filme animado abordou até hoje. Mas conseguiu entreter e divertir e inspirar para o fazer? Pobremente. Não se pode ter tudo. Outrora a Pixar já soube ter o melhor de dois mundos. Agora ou não consegue escolher entre eles ou não os consegue conciliar. Independentemente da razão, quem perde é o filme. Veremos o que nos espera em ‘The Good Dinosaur’.

Por fim de dizer que, mais uma vez, fui obrigado a assistir ao filme em português. Malditas distribuidoras que se recusam a exibir as versões legendadas, mesmo em sessões nocturnas! É vergonhoso e fica aqui o meu protesto veemente. Contudo, se Nuno Markl dá uma lição de como se faz uma boa dobragem, já ver a clássica curta-metragem que acompanha o filme, a não muito bem conseguida ‘Lava’, é um suplício. É que em inglês a curta subsiste por causa do trocadilho entre “love” e “lava”. Imaginem o que é ver esta curta em português. Visto que não há trocadilho possível entre “amor” e “lava”, metade da curta não faz sentido nenhum. Uma parvoíce.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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