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Astérix: Le domaine des dieux

Ano: 2014

Realizador: Louis Clichy, Alexandre Astier

Actores principais (voz): Roger Carel, Lorànt Deutsch, Laurent Lafitte

Duração: 85 min

Crítica: Como muita gente por esse mundo fora, tenho a colecção inteira dos livros de Astérix na estante da sala de estar. Desde criança que li e reli estes álbuns, tal como li e reli os de Tintim ou de Lucky Luck. Todos conhecemos estes gauleses irredutíveis que graças à poção mágica do seu druida Panoramix, à inocência infantil do gigante Obélix e ao engenho de Astérix conseguiram sempre escapar à ocupação romana da sua pequena aldeia. Todos conhecemos as suas aventuras, as suas peripécias no Egipto, nos Jogos Olímpicos (o meu álbum preferido em criança), na Suíça, enfim. E, tal como acontece com outros heróis da banda desenhada, também todos conhecemos as suas aventuras no grande e no pequeno ecrã.

Em criança, os meus avós ofereceram a mim e aos meus irmãos o VHS de ‘Astérix et Cléopâtre’ datado de 1968 (falado em brasileiro, claro está!), um filme que sempre achei uma obra-prima. Pudera, é realizado precisamente por René Goscinny e Albert Uderzo, respectivamente o argumentista e o desenhador dos álbuns de Astérix. O que eles fizeram foi “simplesmente” (aspas propositadas) dar movimento às suas próprias tiras, mantendo-se estritamente fieis à história, aos diálogos, às cores, aos desenhos e ao humor. E fizeram-no porque no ano anterior ‘Astérix le Gaulois’ (1967), a estreia de Astérix e Obélix no cinema, tinha sido feito sem a sua aprovação. O resultado final de ‘Astérix et Cléopâtre’ é tão magnífico como é o álbum que lhe dá origem, e ainda hoje o considero o melhor filme animado alguma vez feito sobre estes gauleses. Não oferece nada de novo relativamente ao álbum é certo, mas porque haveríamos de querer ver algo de novo? Porque haveríamos de querer mostrar às nossas crianças um produto adulterado (quiçá pior) quando o original é tão bom? Se é para isso, então mais vale fazer um filme com uma história completamente original, como fizeram os próprios Goscinny e Uderzo com ‘Les douze travaux d'Astérix’ (1976). Mas isso, certamente, dá muito trabalho. É preciso pensar.

Contudo, paradoxalmente, adaptar fielmente uma BD também parece dar muito trabalho aos estúdios. Digo isto porque constantemente decidem que sabem escrever melhor que Goscinny ou desenhar melhor que Uderzo, pegando nas suas personagens (ou na lenda das suas personagens) e adulterando as histórias, misturando álbuns e inventando linhas argumentais ou personagens que nunca existiram. Liberdade dramática? Adulterações perdoáveis por motivos de equilíbrio fílmico? Adaptação aos requisitos do público moderno? Parece impossível pensar que sim, porque é só ver ‘Astérix et Cléopâtre’ (1968) para provar como uma adaptação fiel pode resultar tão bem, ter tanta energia, tanto humor, tanto ritmo e tanta qualidade para miúdos e graúdos, mesmo quase meio século depois. Deste mal pecam muitos (não todos) os filmes animados de Astérix subsequentes como ‘Astérix et la surprise de César’ (1985), ‘Astérix chez les Bretons’ (1986) ou ‘Asterix in America’ (1994). E claro, o sucesso dos recentes filmes aparvalhados de imagem real (‘Astérix & Obélix Contre César’, 1999; ‘Mission Cléopâtre’, 2002; ‘Aux jeux olympiques’, 2008; ‘Au service de sa Majesté, 2012) ainda mais contribuiu para deturpar a BD, o humor e as personagens.

Infelizmente, este novo filme, ‘Astérix: Le domaine des dieux’ (2014), apesar de se basear única e exclusivamente no álbum do mesmo nome, herda desta forma de fazer cinema e é vítima de muitos destes clichés deturpados da lenda de Astérix, o que lhe retira qualidade e interesse. Realizado pelos franceses Louis Clichy (que tem no currículo ter feito parte do departamento de animação de ‘Up’ e ‘Wall-E’) e Alexandre Astier, o filme começa extremamente fiel aos enquadramentos e aos diálogos do álbum (esticando uma ou outra cena, e bem, porque a realidade fílmica assim o exige), mas depois começa a falhar precisamente quando se começa a afastar da linha que Gosciny e Uderzo definiram. Como um bom crítico, li o álbum há uns dias, antes de ver o filme, e a minha pergunta constante na tarde de ontem foi “porquê?!”. Porquê deturpar? Porquê alterar? Porquê inventar? Se ao menos resultasse (como a adaptação de Spielberg de ‘Tintim’) ainda poderíamos desculpar e apreciar o ‘novo’ produto, mas se o filme, graças a estas decisões, fica moroso e definitivamente pior que o álbum, então não há desculpa que valha uma ousadia (para não lhe chamar uma patetice) destas…

Lançado em França em Novembro do ano passado, mas apenas esta semana chegado a Portugal, ‘Astérix: Le domaine des dieux’ apresenta uma grande novidade. É o primeiro filme de Asterix animado por computador (até surpreende ter-se esperado tanto tempo!). Por incrível que possa parecer, mesmo assim, a animação vai-se entranhando no espectador. A tridimensionalidade inevitavelmente leva a alterações no desenho das personagens, mas estas são tão imperceptíveis que nos sentimos imediatamente transportados para o universo gaulês. Obviamente, a animação está uns anos atrás daquela que hoje a Disney ou a Pixar conseguem executar, mas confesso que, apesar de ser um acérrimo defensor da animação tradicional para estas adaptações (afinal, a banda desenhada original é bidimensional, certo?!), no final já nem me lembrava que o filme era em CGI. Suponho que isso seja uma coisa a elogiar.

A história centra-se em mais um plano de César para conquistar a aldeia irredutível dos gauleses. Se pela força não a conseguiu conquistar, então tenta-se pelo engenho. Roma irá até à Gália. Ou melhor, uma nova Roma. César contrata um manhoso arquitecto, Anglaigus, para construir um novo condomínio romano nas florestas em redor da aldeia de Astérix; O Domínio dos Deuses. Isto inicialmente dá azo a momentos divertidos quando os escravos deitam abaixo uma série de árvores durante o dia que Panoramix, graças à sua magia, volta a plantar durante a noite. Mas depois as coisas começam a correr mal. Astérix dá a poção aos escravos para que eles fujam, mas em vez disso eles usam-na para trabalhar melhor. E no momento em que os gauleses se preparam para dar um enxerto de porrada aos romanos, chegam os novos moradores. Os gauleses não batem em civis romanos por isso ficam num empasse. De repente, têm de coexistir com estes ‘invasores pacíficos’ que estimulam a economia local, comprando peixe e antiguidades na aldeia. Todos menos Astérix, Obélix, Panoramix e o Bardo ficam seduzidos pelo estilo de vida romano, e até começam a pensar mudar-se para o ‘Domínio dos Deuses’. O plano de César parece finalmente estar a resultar, e a aldeia deserta é alvo fácil para que as legiões romanas a aniquilem de vez. Mas é aí que o engenho de Asterix e a força de Obélix, com uma ou outra ajuda pelo caminho, entram em cena. O problema é que, raptado o Druida, não há poção mágica e Óbelix, sem os seus javalis para comer (que desapareceram com o desaparecer da floresta), começa a perder a força…

À primeira vista, não se encontra nada de muito errado em ‘Astérix: Le domaine des dieux’ para o público mais jovem. A animação é colorida e fluída, é dada a um ritmo interessante e quase sempre com uma enorme ligeireza, ou seja, através de piadas simples de digerir e sem se preocupar muito em desenvolver personagens ou explicar pontos argumentais. Contudo, isto é um pau de dois bicos, já que produtos de qualidade para as crianças não têm apenas que ser simples. Têm também que as estimular. E ‘estimulo’ não é a palavra que melhor caracteriza este filme.

Para começar, há mais um inexplicável paradoxo. Se por um lado, a partir do primeiro terço, se começa a inventar personagens e histórias secundárias (que valem o que valem mas sinceramente não oferecem nada de novo), por outro há o inexplicável corte de momentos com piada e de elementos que ajudam a explicar melhor as razões das personagens, que existem no álbum mas não no filme. Como é que isto é possível? Que se ‘invente’ coisas ainda se pode justificar, porque o filme quer encher 90 minutos e quer dar maior dimensão às situações. Agora que se corte elementos fulcrais da história já parece dúbio. A magnífica piada que Obélix faz sobre o crescimento das árvores não aparece no filme, por exemplo. No filme não se percebe bem porque motivos os escravos preferem permanecer escravos em vez de fugir, e não se percebe bem porque é que os legionários entram em greve, elementos estes que são muito bem explicados no álbum e que portanto provocam risadas. Ter lido o álbum, nestas cenas, parece ser fundamental para seguir esta história que é dada preguiçosamente.  Estarão os realizadores a assumir que toda a gente leu o álbum?!

Por outro lado, elementos conscientemente planeados são substituídos por coincidências ou momentos vagos de tensão. No álbum Astérix vai morar para o Domínio dos Deuses como parte de um plano. No filme vai porque é ‘expulso’ da aldeia; o tal momento clássico de tensão entre os heróis no final do segundo acto que tem sempre que existir (acham eles) nos filmes para crianças. Em vez disso, o engenho de Astérix é provado na cena engraçada em que ele tem que convencer os romanos que tem a poção mágica consigo quando na realidade não a tem. Engraçada sim, mas inevitavelmente batida. Tal como é batido o retrato da aldeia gaulesa, que não é mais que o lugar-comum de si própria. Nos álbuns a aldeia é propícia ao exagero (a eterna rivalidade entre o peixeiro e o ferreiro por exemplo) mas nada bate a constante insistência do filme neste ponto, nas discórdias que acabam sempre em algazarra e na rivalidade amigável entre Astérix e Obélix. O filme dá-nos aquilo que acha que nós estamos à espera. Até os álbuns não são assim tão exagerados. Por fim, a inclusão na trama da família romana e do seu filho (que cria uma relação de amizade com Obélix) é feita com o único objectivo de fazer o visto em mais um ponto da checklist dos filmes de animação infantis: ‘moral familiar’. Contribuem para a história? Pouco. São interessantes? Não muito. Têm piada? Não tanto como as piadas que foram retiradas para arranjar espaço para estes elementos…

O meu problema principal é precisamente este. Não é o facto em si de os realizadores terem sido fiéis ou não ao álbum que me causa consternação. Os meios são diferentes por isso também exigem abordagens diferentes. O meu problema está nas suas escolhas para o filme. O meu problema é que retiraram piadas boas para introduzirem umas piores. O meu problema é terem acrescentado elementos novos com um interesse limitado quando os elementos mais fortes e que davam consistência à história foram retirados. O meu problema é que adulterado ou não adulterado, o filme é morno e não tem chama. A sua energia perde-se antes da metade e o filme arrasta-se num ritmo mecânico até ao final, sem grande dinamismo, emoção ou espectacularidade. De quando em quando soltamos uma gargalhadinha. Mau era se não o fosse. Mas não é suficiente.

Percebe-se perfeitamente porque motivo os realizadores escolheram precisamente adaptar este álbum nos tempos que correm. Há uma metáfora inerente ao estímulo tentador da economia que os romanos introduzem na aldeia dos gauleses para os fazer perder de vista as coisas que são realmente importante. Quando muitos gauleses se sentem tentados e pressionados a viver como romanos, vendo isso como um sinal de progresso, modernidade e aceitação social, os realizadores não estão a ser nada subtis na sua mensagem. Mas não conseguiram equilibrar tudo; mensagem, moral, alegria, entretenimento e humor num produto convincente, pelo menos do meu ponto de vista. Todos gostamos de Astérix, é certo, gostamos das situações, das personagens. Nós já sabemos que elas têm piada e portanto rimo-nos com elas. Mas sabemos isso porque vimos outros filmes e porque lemos a BD. Não porque assistimos a este filme. Neste filme as personagens são desinspiradas, mornas e assentam num conjunto de lugares comuns e piadas que, embora tenham realmente piada, não são devidamente construídas, porque o filme andou preocupado com outras coisas. O filme é algo simplório, mas ao mesmo tempo arrogante. Não teve pudor em cortar piadas e introduzir novas personagens. Mas depois usa uma piada da BD isoladamente e parte do princípio que ela irá funcionar. Contudo só funcionará se for construída e se for cuidadosamente preparada. Não o é. Todo o filme é um reflexo deste olhar individual cena a cena, sem pensar no todo.

No final, tenho a dizer que não fiquei muito satisfeito com este Astérix. A história de base escolhida não é das mais ‘filmáveis’ (é demasiado simples e geograficamente contida) o que constituiu um problema que os realizadores nunca conseguiram ultrapassar. Para além disso, nunca lhe achei tanta piada nem nunca lhe consegui descortinar o interesse. O filme avançou, com a sua animada moleza e a sua artificial alegria, seguindo os trâmites usuais para suster a atenção das crianças, mas sem nunca seduzir, fascinar ou envolver completamente um espectador mais maduro e mais exigente. ‘Astérix: Le domaine des dieux’ é inconstante e apenas poucas vezes inventivo. Acima de tudo, é rotineiro e pouco memorável. Neste momento, nem 24 horas depois, já praticamente o esqueci. Isso, aliado à sua animação colorida e à sua banda sonora sinfónica de Philippe Rombi, fá-lo ser talvez um produto adequado para agarrar a atenção fugaz dos mais pequenos, mas perde-se, inevitavelmente, no gigantesco mar dos filmes de animação modernos. É apenas mais um no mercado actual (mesmo se apenas considerarmos o mercado de animação francês), e está a anos-luz dos filmes animados de Astérix que se fizeram nos anos 1960, 1970 e 1980. Se eu quiser mostrar o cinema de Astérix a um miúdo, não irei certamente começar por aqui. Não vou dizer que desonra a memória de Goscinny e Uderzo, porque não o faz, mas vê passar ao lado uma enorme oportunidade de homenagear Astérix, de o introduzir convenientemente a uma nova geração, e de o fazer entrar com pompa e circunstância na nova era da animação tridimensional computadorizada.

Mas para os fãs do Astérix original, há pelo menos um incontornável ponto de interesse. O grande Roger Carel continua a fazer a voz do herói. Hoje com 88 anos de idade, este homem é uma instituição em França. Era dele a voz de Astérix no original filme de 1967, e foi dele a voz de Astérix em quase todos os filmes animados que se fizeram desde então. Se vir o filme em francês (como eu vi) vai ter este privilégio. Se vir em português, vai apanhar com Manuel Marques. Acho que é uma escolha que não se põe.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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