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127 Hours

Ano: 2010

Realizador: Danny Boyle

Actores principais: James Franco, Amber Tamblyn, Kate Mara

Duração: 94 min

Crítica: Quando se critica um filme como ‘127 Hours’ (em português ‘127 Horas’) o jovem crítico amador tem de ter extremo cuidado e calcular bem as suas palavras. Isto porque a maior parte da opinião pública têm alguma dificuldade em distinguir entre a qualidade de um filme como obra cinematográfica e a importância do seu tema. Para muito boa gente (incluindo a Academia), um filme é bom se o seu tema é relevante socialmente, algo que para mim não faz sentido nenhum. Já discuti isso em críticas anteriores como a de ‘Dallas Buyers Club’ (2013) ou ’12 Years a Slave’ (2013). No caso de ‘127 Hours’ o filme é baseado na história real de Aron Ralston, um entusiasta de desportos radicais que em 2003 foi a infeliz vítima de uma experiência traumatizante que poderia ter resultado na sua morte. Se criticarmos a história do filme ou a forma como ela está contada, há muitos que interpretam isso como se estivéssemos a atacar o próprio Ralston, as suas escolhas de vida e a sua tragédia.

Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Uma coisa são os eventos reais, outra coisa é o filme. E a realidade e tragédia dos primeiros não implicam necessariamente uma qualidade dos segundos. Porque o que está a ser julgado é o filme, que podia ser exactamente igual mas baseado numa história inventada. O facto da base ser real não funciona como pó magico que torna o filme imaculado. Aliás o público não sabe exactamente o que aconteceu, nem mesmo Danny Boyle, o realizador. Tudo o que se pode dizer é que o filme é baseado num livro escrito pelo próprio Ralston (a adaptação para argumento ficou a cargo de Simon Beaufoy e do próprio Boyle) e que este afirma que o filme é extremamente fidedigno aos eventos das tais 127 horas fatídicas. Se o senhor diz isso quem somos nós para duvidar? Mesmo assim, ao ver o filme, como podemos distinguir entre aquilo que realmente aconteceu, aquilo que Ralston disse que aconteceu para embelezar a sua própria lenda (afinal, todos fazemos isso com as pequenas coisas no dia-a-dia) e aquilo que Danny Boyle inventou para tornar a história mais apelativa cinematograficamente? A resposta é: não podemos.

Portanto quando leio “baseado numa triunfante história real” em letras garrafais no poster, acho ridículo. É uma manobra baixa para condicionar o público. Se queriam ser ‘realistas’, que fizessem um documentário. Até porque é só ver este filme com olhos de ver para notar um sem número de elementos que não parecem encaixar na linear odisseia de sobrevivência que é contada (embora o seja, diga-se, a bom ritmo). E estes elementos estão tão próximos do estilo a que Danny Boyle nos habituou ao longo de toda a sua carreira, que é difícil de acreditar que façam parte, verdadeiramente, da história ‘real’, e que não são apenas elementos que ele caiu na tentação de inserir para se manter fiel, não tanto à alma da história, mas à sua visão como cineasta. No final de contas, ao contrário do livro, este filme não é de Ralston, é de Boyle. Por isso é que, neste caso, até sou da opinião que Boyle devia ter ficado quietinho, pois assim só contribuiu para desequilibrar o filme,

Boyle, obviamente (pelo menos para mim) nunca foi assim tão fabuloso como realizador como o pintaram nos anos finais da década de 2000. Após trabalhos na televisão britânica no início dos anos 1990, Boyle teve um início extremamente auspicioso no cinema com ‘Shallow Grave’ (1994), para mim ainda o seu melhor filme até hoje. No ano seguinte, faria ‘Trainspotting’ (1995, para o resto do mundo o seu melhor filme até hoje), colocando-se definitivamente no mercado como um realizador a observar. Mas era ‘Trainspotting’ realmente bom, ou tornou-se famoso pelo motivo clássico; ter uma história glamorosa de marginais, contada com um argumento extremamente bem escrito e extremamente citável, algo que transforma todos os épicos de gangsters e drogados em filmes de culto quer eles sejam bons ou não?! Sinceramente, inclino-me mais para a segunda opção. Primeiro porque sempre gostei mais do ambiente noir de ‘Shallow Grave’ do que da intensidade visual de ‘Trainspotting’. Segundo porque a carreira de Boyle subsequente, até 2008, está pontilhada de filmes não tão bem sucedidos, quer com a crítica, quer com o público. Quantas pessoas viram (e gostaram) do seu primeiro filme em Hollywood ‘A Life Less Ordinary’ (1997)?! E de ‘Sunshine’ (2007)? ‘The Beach’ (2000) e o filme de terror ’28 Days Later’ (2002) têm os seus seguidores, mas ficaram para a posteridade?

Mas depois surgiu ‘Slumdog Millionaire’ em 2008 e de repente Boyle já era de novo aclamado como um mestre realizador, um título que nunca inteiramente mereceu. ‘Slumdog Millionaire’ tinha todos os trejeitos visuais comuns ao cinema de Boyle, mas quem viu este filme achou que isso era uma novidade. Não era. Mas nem sequer foi isto que garantiu o sucesso desta película. Foi mais o seu tema de escapismo esperançoso, de drama para chocar comodamente, de filme feel-good num mundo a mergulhar na crise económica. Até aqui tudo bem. Mas 8 Óscares (8?!), incluindo Filme e Realizador (o primeiro e provavelmente o único da carreira de Boyle), foi na minha opinião inteiramente descabido. Como muitos realizadores de estatuto de culto, Boyle atingiu muito mais fama quando enveredou pelo comercialismo, e não se importou. Tanto que prosseguiu nessa veia no seu filme seguinte, ‘127 Hours’ (2010), ciente de que quando se faz um filme vencedor de Óscares, o filme seguinte é sempre nomeado, quer seja bom quer não. Entrou-se no clube, caiu-se nas boas graças da Academia. As 6 nomeações de ‘127 Hours’ (nenhuma ganha) são prova disso. É prova disso também a atenção nula que foi dada a ‘Trance’ (2013), o seu filme seguinte. A moda Boyle, pós ‘Slumdog Millionaire’, já tinha passado.

Adicionando à história inspiracional o tal epíteto de “baseado numa triunfante história real” que ‘Slumdog Millionaire’ não tinha, ‘127 Hours’ abre desde o início no mesmo estilo que caracteriza Boyle e que ele universalizou no seu anterior filme oscarizado. Ou seja, no estilo de montagem frenética, muitas vezes com ecrã divido, cor garrida e luminosa, recurso a fast-forward, filmagem com handy-cam (neste caso intercruzada com câmaras de desportos radicais; no capacete, na bicicleta) e uma banda sonora ruidosa de músicas source. Desta forma é apresentado Ralston, um jovem entusiasta de escalada que na sexta-feira em que o conhecemos se prepara para uma viagem, sozinho, aos desfiladeiros perto de Moab, no Utah. A sua experiência na preparação da sua mochila e bicicleta leva a crer que não é a primeira vez que faz isto. E aliás, pouco depois, já o estamos a acompanhar quando ele percorre, livre e despreocupado, as belezas naturais destes parques americanos, alternando entre a bicicleta radical e a escalada. Ralston é interpretado por James Franco, aqui no pico da sua popularidade (entrou em cinco filmes em 2010) e que me divide: por um lado esta pode ser uma das melhores performances da sua carreira, uma autêntica tour de force de energia e emotividade, por outro, chego a desconfiar que está apenas a ser igual à sua própria personalidade, como é em muitos dos seus filmes. Mas neste caso, o papel adequa-se.

Quem viu o trailer antes de ver o filme não ficará a saber absolutamente nada de novo nos primeiros 20 minutos. O próprio trailer de 3 minutos teria chegado, mas se assim fosse o filme pouco mais teria que uma hora. Depois de nos brindar com imagens ao estilo videoclip, e nos inundar com a banda sonora, Boyle finalmente mostra o encontro de Ralston com duas miúdas, também elas a explorar os desfiladeiros (Kate Mara e Amber Tamblyn). Alguma química, algum engate e ele mostra-lhes um lago secreto onde se divertem e vivem a vida ao máximo durante alguns minutos. Sem ele ver, elas até lhe deixam uma mensagem gravada na câmara para se encontrarem mais tarde. Depois disto, ele despede-se e prossegue sozinho a sua exploração e escalada. Foi isto desenvolvimento de personagem? Não. Ou se foi, foi muito fraquinho. Foi apenas um debitar de filmagens bonitas e radicais, como se pode ver agora sem grande diferença em inúmeros programas e vídeos do youtube, com miúdas giras à mistura. De novo, bem que podemos estar a constituir eventos reais (Ralston pode realmente ter encontrado as miúdas), mas isto não contribui em nada para preparar o filme, o espectador e a personagem para o que está para vir. Se a personalidade de Ralston só vem ao de cima depois da sua tragédia, o filme bem que podia ter começado com ela. Deste modo tivemos 20 minutos de acomodação, mas que não construíram, apenas reconstituíram.

Mas então, pela meia hora, o filme fica finalmente interessante. Pouco depois de se despedir das miúdas, Ralston escala um rochedo mas escorrega, ficando com o braço preso entre duas rochas. Por mais que tente não se consegue libertar. Está preso. E não há absolutamente ninguém num raio de quilómetros que consiga ouvir os seus pedidos de socorro. Antes de assistir ao filme no cinema, uma coisa que me intrigava era como é que Boyle iria conseguir suster uma hora de filme basicamente mostrando uma única coisa: Ralston preso no mesmo sítio. Um filme anterior de sobrevivência em condições extremas que me recordava, ‘Touching the Void’ (2003), sobre dois montanhistas presos numa caverna numa tempestade de neve, tinha acção, movimento e contínuos acontecimentos que nunca deixavam a história abrandar. Aqui não. Ralston está preso e assim permanece. Ou morrerá ali, ou será salvo, ou terá de conseguir libertar-se de alguma forma inimaginável. Portanto, neste aspecto há que dar crédito a Boyle. A sua gestão de tempo neste espaço confinado é brilhante, dando atenção a cada detalhe particular à vez, sem se perder, nem perder o fio condutor do filme. O calor do Sol, a escassez da água, as várias tentativas de libertação, a gestão da comida, os primeiros pensamentos de que a única forma de se libertar é cortar o seu próprio braço, tudo isto é cuidadosamente filmado e agarra o espectador como agarrava a meticulosidade do prisioneiro a preparar a fuga no clássico de Bresson ‘Un condamné à mort s'est échappé’ (1956).

Estas misturas sensoriais vão-se continuamente sobrepondo em tempo real, à medida que Ralston vai ficando cada vez mais fraco e perdendo a razão, e são entrepostas pelos seus pensamentos, verbalizados para a sua câmara cuja bateria parece ser infinita. Muito embora estas gravações tenham supostamente sido feitas pelo verdadeiro Ralston, ao recorrer a este artifício o filme fica com um ar de reality show que não lhe assenta bem. Ao mesmo tempo, há ainda uma série de rápidos flashbacks ou sequências ilusórias (a manobra clássica para suster este tipo de filmes comerciais, não vá o público enfadar-se de ver sempre o mesmo actor no mesmo sítio – como em ‘Gravity’), mas que mais uma vez são inseridos na trama de uma forma inteligente. Funcionam como injecções visuais de tempo reduzido (30 segundos), em vez das usuais reminiscências melodramáticas para queimar tempo, e portanto são pensamentos credíveis da personagem.

Contudo, muito embora tenha apreciado estes artifícios para dar uma maior dimensão à história, tenho que confessar que fui derrotado e confundido, tal como em filmes anteriores, pelo estilo de Boyle. Não consigo entender se é mesmo um estilo, se se está a imitar a si próprio, ou se estes elementos artificiais surgem no filme sem qualquer tipo de coerência só porque Boyle assume que é isso que se espera dele. Num segundo temos um momento reflexivo com música pungente e um James Franco a actuar no pico do puro desespero. No segundo a seguir temos uma montagem frenética com música da pesada, como quando Ralston fica cheio de sede, e o filme nos mostra uma série de anúncios a bebidas que ele imagina ao som de Techno. Faz sentido? Para mim, estes momentos desumanizam-no, e tornam-no um produto da cultura pop, um herói das redes sociais e dos livros inspiracionais a vender o seu peixe, ao mesmo tempo que transformam o filme num drama artificial ao estilo Baz Lurhman, desesperadamente tentando chamar à atenção. Mas de repente, voltamos de novo à cena íntima e intensa, imbuída de realismo. De repente, o filme torna-se muito mais honesto, pois deixa de explorar o homem que está a sofrer e de usar o seu sofrimento para condicionar os sentimentos do espectador.

Portanto a minha questão é: porquê este contraste? Porque Boyle tinha ao fim da força de pôr a sua marca no filme? Porque era preciso tornar este produto o mais próximo possível de ‘Slumdog Millionaire’ para os produtores ficarem contentes? Porque acharam que o espectador não iria aguentar 90 minutos de realismo confinado e precisava de escapes? Não sei. Só sei que não faz sentido e estraga o equilíbrio do filme. No final, Ralston tem que recorrer a medidas totalmente desesperadas para conseguir sobreviver e as imagens podem chocar o espectador mais sensível. Por esta altura, estava tão afectado com os fortes contrastes visuais e emocionais do filme, que não me senti convenientemente preparado para o choque, no sentido em que teve muito menos impacto em mim do que seria de esperar. Para além do mais, já muitos espectadores sabiam quando foram ver o filme exactamente o que Ralston teve que fazer para sobreviver, e talvez seja por isso que o evento chocante não é mostrado como um clímax, mas apenas como mais um elemento do drama, o que de novo faz com que o filme perca força.

Tudo somado, em termos de filmes inspiracionais de sobrevivência, está aqui mais um daqueles produtos chapa 5 para os Óscares, que não é melhor nem pior do que muitas histórias que o cinema nos conta anualmente durante a época dos prémios. Tem uma linha argumental bem conseguida (é difícil de errar com este género de filmes), tem uma interpretação bastante forte de Franco no seu cerne, mas peca (e muito) por ter um estilo visual demasiado repetitivo (e praticamente gasto) do seu realizador. Se este estilo até se justifica na parte inicial do filme (a despreocupada aventura radical de fim-de-semana, o encontro com as miúdas), incarnando o espírito jovem, moderno e social da sua personagem principal, fica completamente descabido nos momentos mais críticos e mais dramáticos, inserindo artificialidade em alturas em que se pedia humanidade. Por isso, por mais que se diga "baseado na triunfante história verídica" não consigo olhar para este filme como uma história de apelo universal. Está mais próximo de um thriller, porque ficamos presos aos eventos, não à personagem. Não é o seu drama que nos toca, é o que lhe está a acontecer. E esta subtil diferença constitui um dos grandes falhanços deste filme. Dá factos e está convencido que o que está a contar é suficiente para ser inspirador.

Regressamos ao meu ponto inicial. Por mais força que tenha o seu tema, o filme em si, a forma como está filmado, o arco da sua personagem, tem que nos convencer. E não é isso que acontece neste caso. Na sua busca por realismo e focando-se no seu actor solitário, o filme acaba por ser, paradoxalmente, impessoal. A personagem de James Franco, fruto do estilo visual e comercial de Boyle, é desumanizada mais do que uma vez. São os eventos que têm poder, não as cenas, não a personagem. Apesar da meticulosidade com que a história real de Ralston é contada, a sua humanidade só surge nas cenas que não são reais, ou seja, nos seus delírios sonhados. E isto é, no mínimo, estranho. Mas apesar de tudo, o filme consegue redimir-se no final, onde Boyle tem uma decisão que faz toda a diferença. Mesmo após tudo o que lhe aconteceu, Ralston não é glorificado como um herói. Quando se aproxima do seu fecho, o filme consegue mostrar Ralson como um homem comum, e torná-lo credível como tal. E isso é raríssimo de ver neste tipo de filmes inspiracionais. Para quem gosta destes casos de vida, o pacote que o filme oferece é mais que auto-suficiente. Mas para quem procura algo mais, ao menos este final surpreende, e torna-se a melhor coisa que um filme como este, linearmente previsível e de moral pré-estabelecida, pode oferecer.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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