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Robin Hood

Ano: 2010

Realizador: Ridley Scott

Actores principais: Russell Crowe, Cate Blanchett, Matthew Macfadyen

Duração: 140 min

Crítica: Eu gosto de Ridley Scott. O antigo, quero dizer. Aquele que realizou ‘ Alien’ (1979), ‘Blade Runner’ (1982), ‘Legend’ (1995) e até, porque não, ‘1942: Conquest of Paradise’ (1992) e ‘Gladiator’ (2000). Mas de ‘Hannibal’ (2001) – um filme que não gostei nada – para a frente, Scott tem estado demasiado inconstante, sendo difícil de enumerar um dos seus “épicos” realmente bons (‘Prometheus’, 2012) numa longa lista de filmes desapontantes (‘American Gangster’, 2007; ‘The Counselor’, 2013). E digo isto sem sequer ainda ter visto o seu fiasco crítico e comercial mais recente: ‘Exodus: Gods and Kings’ (2014). A sua carreira tem do melhor e do pior, mas numa coisa, ao menos, é coerente: os seus filmes possuem uma incrível mestria visual; obras de arte cinematográfica em termos de planos, estética de cena, design de produção e atenção ao detalhe, mesmo que o argumento não esteja à altura. A triste verdade é que em filmes recentes de Scott o argumento, simplesmente, não está.

‘Robin Hood’, lançado em 2010 entre ‘Body of Lies’ (2008) e ‘Prometheus’ (2012), desenrola-se muito como a carreira recente de Scott. Tem do melhor e do pior, mas o seu visual é sempre brilhante. Este filme tem um gigantesco ponto a seu favor, na minha perspectiva, e um enorme problema. Do ponto a favor falarei no último parágrafo desta crítica. Em relação ao problema ataco já agora, visto que condiciona todo o filme. Simplesmente O ARGUMENTO NÃO PRESTA!

Durante as várias fases da produção, que foi adiada por mais que uma vez, o cinéfilo mais atento às notícias soube que houveram grandes alterações de última hora na estrutura produtiva e na direcção da história do filme, mas mesmo assim… É um argumento mau de mais para ser verdade, mesmo que tenha sido escrito e re-escrito, mesmo que cada produtor tenha mandado o seu bitaite, mesmo que os actores tenham contestado esta ou aquela cena. Com tanto par de olhos a olhar para aquilo, é incrível que ninguém tenha reparado na manifesta falta de qualidade do material. Olhando para a carreira de Brian Helgeland, o argumentista do filme, vemos que também ele oscila entre o supremo (‘LA Confidential’, 1997; ‘Mystic River’, 2003) e o degredo (‘Assassins’, 1995; ‘The Postman’, 1997). Sendo que a maior parte dos filmes que escreveu são baseados em romances, talvez o grande problema deste ‘Robin Hood’ seja ser um argumento original…

Hollywood já teve o seu quinhão de Robin Hoods, mas talvez seja preciso remontar a 1922, ao filme com Douglas Fairbanks, para visualizar um ‘Robin Hood’ feito como um espectáculo apenas pelo espectáculo. A versão de 1938, ‘The Adventures of Robin Hood’ era muito mais que uma extravagância em Technicolor, um fenomenal filme de aventuras; era uma brilhante alegoria à ascensão Nazi que estava a ocorrer na Europa. ‘Robin and Marion’ (1976) com Sean Conney e Audrey Hepburn abordava, como muito cinema inglês da altura, as implicações da perda da chama da juventude, do vazio da velhice e da vida. ‘Robin Hood: Prince of Thieves’ (1991), gostemos ou não gostemos de Kevin Costner como Robin, tinha mais que se lhe diga para além do seu claro objectivo: um blockbuster de fácil digestão. E ‘Robin Hood: Man in Tights’ (1996) de Mel Brooks era imensamente divertido. Agora ‘Robin Hood’, versão de 2010, parece ter apenas um único propósito: ser um remake de ‘Gladiator’ (o filme de Ridley Scott que venceu 5 Óscares em 2000, incluindo Melhor Filme e Actor para Russell Crowe) mas passado na Idade Média. 

Se este facto tira ao filme a maior parte do seu potencial, o ser uma prequela poderia compensar. Uma prequela muitas vezes é preguiçosa, pois aninha-se nos factos já conhecidos e simplesmente leva o público até eles sem grande esforço. Mas também pode ser, com um pouco de talento, um espaço para uma inventiva invenção. Se se inventar bem é mais que satisfatório, pois aí o filme tem um cunho de originalidade que a sua premissa não permitia, e novas dimensões podem ser dadas às personagens. Ridley Scott conseguiu fazer exactamente isso com sucesso em ‘Prometheus’, a prequela de ‘Alien’ (talvez porque ambos os filmes são seus), mas não foi tão feliz na prequela de ‘Robin Hood’. Mais uma vez, a falha parece ser o argumento, muito simplesmente, não estar à altura de um filme que pretende ter o mínimo de qualidade. Cada vez que os actores abrem a boca para falar, um espectador fica sem saber se há-de rir ou de coçar a cabeça incrédulo. A primeira hora de filme é um enorme desafio para o espectador mais versado. Parece ter sido escrita por um caloiro num curso de ‘escrita de argumentos’. Ora bem, e aqui está a cena em que temos que estabelecer que o Robin é um rapaz muito sagaz. Ok, e aqui temos que provar que ele é forte e sabe lutar. Ah, e precisamos de uma cena em que a Maid Marion tem de mostrar que também é cheia de genica. E não nos podemos esquecer da cena em que o King John faz uma coisa muito mazinha, para que o público saiba que ele é o vilão…. RRRRR. É uma coisa que realmente me enerva neste filme…

Neste ritmo insultuoso para a inteligência do espectador, assentamos na história que é bem diferente de tudo aquilo que sabíamos desta lenda. Esqueçamos tudo o que já foi dito sobre Robin, Marion, Little John ou o Sheriff de Nottingham. A lenda aqui é mais gutural (o que não deixa de ser mais realista) e cada personagem transfigura-se numa nova personalidade desconhecida do público. Por isso mesmo, não quero demorar-me muito na história, já que esse é dos pouco pontos que serão uma surpresa, às vezes agradável, às vezes não, para o espectador. De dizer que Robin não é um Locksley, é apenas um arqueiro que ao regressar das cruzadas encontra um moribundo cavaleiro, esse sim filho de Sir Locksley, assassinado pelos vilões que pretendem eliminar todos aqueles que tentam resistir a uma secreta invasão francesa de Inglaterra. Robin faz a promessa que irá devolver a espada deste cavaleiro ao seu pai, em Nottingham (que nas outras adaptações todas é o pai do próprio Robin). Portanto, esta é a desculpa para ele poder estar no epicentro de uma intriga política que tem consequências imediatas para o povo através da colecta de impostos e da tirania, mas que terá consequências muito mais nefastas para a própria Inglaterra. E assim, está o cenário estabelecido para regressarmos ao enquadramento que tão bem conhecemos (um Robin líder de um bando de guerreiros contra a opressão das forças de uma corte corrupta) com um twist; também tem que os liderar contra o desembarque das tropas francesas na costa inglesa…

Quando, passado a primeira hora, a história e as personagens são desta forma estabelecidas (graças a Deus!), e Robin se instala em Nottingham na casa de Sir Locksley (Max Von Sydow, brilhante, dominando todas as cenas em que entra com carisma e magnetismo), o filme fica muito melhor. Robin não rouba os ricos e dá aos pobres só porque é um herói feito à medida do grande ecrã. É realmente um homem que tenta sobreviver em tempos de crise, e as suas atitudes constroem-se aos poucos a partir dessa condição. Isso Ridley Scott consegue captar bem e até, de certa forma, fazer o paralelismo para o mundo moderno. Entretanto vamos assistindo em paralelo à sua relação com Maid Marion, às conspirações do exército francês e às maquinâncias de King John que, na ausência do irmão Richard, prepara o caminho para se tornar o tirano que conhecemos da lenda do Robin dos Bosques. 

Infelizmente, apesar deste miolo mais bem conseguido, quando nos aproximamos do clímax, que envolve o desembarque das tropas francesas e a batalha final, o filme viaja de novo para a terra do cliché, com enorme falta de inspiração e diálogos a condizer. Para começar, o exército francês parece um monte de retardados. De todos os locais onde poderiam ter desembarcado para a sua invasão a Inglaterra, escolhem precisamente uma praia minúscula, rodeada por enormes penhascos. Mesmo que não tivessem oposição iria ser bem complicado chegar lá acima com todo o equipamento e os cavalos. Com a oposição do bando de Robin, ficam obviamente cercados, presos na praia com o mar de um lado e os penhascos e os ingleses do outro. Pior, porque os franceses que desembarcaram na praia estão a perder a batalha, as centenas de embarcações, com MILHARES de soldados franceses dentro, que ainda estão no mar (e que pela lógica numérica venceriam certamente o parco exército inglês), dão meia volta e batem em retirada. Ridículo.

E se esta cena de batalha poderá ter um enorme apelo, pois Scott dá-lhe o seu cunho característico e transforma-a numa sequência visualmente brilhante, é estragada constantemente pelos berros clássicos como “Nãaaaaaaao” ou “Esta é pelo meu pai... pelo meu irmão... pelo cão do meu vizinho...”. Neste enquadramento, só faltava mesmo que Russel Crowe se enganasse e começasse a debitar o seu famoso discurso de ‘Gladiator’: “I am gladiator, father to a murdered son, husband to a murdered wife, I will have my vengeance, this life or the next". Mas não se enganou e infelizmente não o disse. Digo infelizmente porque se o fizesse talvez as minhas entranhas não se contorcessem de dor com cada má (péssima) frase de diálogo que este filme contém. Se o fizesse, pelo menos essa frase far-me-ia sorrir…

De dizer que o filme contém, apesar de tudo, muito boas interpretações, que penosamente se perdem numa história pobre. Já mencionei Von Sydow. Cate Blanchett encarna bem a sua Maid Marion, e se esquecermos que quer ela quer Crowe são demasiado velhos para interpretar estes papéis numa prequela, a sua performance é fascinante, apesar de tender a ficar monótona pelo final do filme (será de novo culpa do argumento?). William Hurt tem pouco tempo para provar o bom actor que é (uma tragédia de todos os seus papéis modernos), e não é certamente este o papel revelação do hoje mais famoso Oscar Isaac. Como King John, está preso numa má história e não tem grande margem de manobra, algo que se torna ainda pior com o twist final, que tenta encaixar estes eventos fantasiosos na história que bem conhecemos (não fosse o fiasco de bilheteira deste filme, não me admirava nada que daqui a uns aninhos pensassem fazer um Robin Hood 2!). O casting do cómico Mark Addy como Frei Tuck é a escolha mais esquisita do filme, mas quem mais brilha no meio disto tudo é Mark Strong, o grande vilão da peça. O Sheriff de Nottingham poderá o leitor pensar. Nada disso. O Sheriff só aparece num par de cenas e é completamente irrelevante para a história. Strong é um vilão inventado, de nome Godfrey, e mais não digo. 

E Russel Crowe? Bem, Crowe é Crowe, como se fosse Maximus mas na Idade Média, lutando não propriamente contra os maus mas sim contra o sotaque inglês. Felizmente, a maior parte do tempo, consegue ganhar ambas as lutas. Crowe faz o que lhe é pedido: luta, é heróico, consegue ser íntimo e simpático quando é preciso, e quando dizem “acção” consegue ainda pronunciar o discurso inspiracional pré-batalha. Ao menos, não é tão patético como o de Orlando Bloom em ‘Kingdom of Heaven’ (2005), também de Scott, que por acaso (ou não) até partilha muitas semelhanças conceptuais com este ‘Robin Hood’.

Tudo somado, Ridley Scott, no meio de toda esta amálgama, consegue conferir uma coerência e um interesse visual a um material claramente pobre. Os efeitos visuais são poucos e praticamente imperceptíveis (o que num filme desta natureza é óptimo), as cenas de batalhas são sangrentas e realistas (têm uma urbanidade moderna e gutural que Scott já havia introduzido em ‘Gladiator’), e há contrapontos delicados na vida idílica de campo que, tal Braveheart, Robin tenta ainda levar antes das circunstâncias o levarem para a batalha. Nestas cenas contudo, um reparo. A banda sonora de Marc Streitenfeld, um dos alumini da escola Hans Zimmer e que compõe para Scott desde ‘A Good Year’ (2006), é extremamente monótona. Não entendo como ninguém reparou nisso. Tal como não entendo, como disse no início, como ninguém reparou na panóplia de lugares comuns do argumento.

O filme merece um gasto de 2h15min numa noite de sábado? Bem, se a companhia for apelativa, se tivermos alguém ao nosso lado a quem possamos sussurrar uns comentários gozões sobre as parvoíces que surgem (e se ouvem) no ecrã, e se quisermos disfrutar de um filme com boa acção, com o selo de aprovação visual de Scott, e com um argumento que não faz muitas exigências ao cérebro do espectador, então siga. Se o objectivo é um bocadinho de substância então é melhor procurar outra coisa para ver. ‘Gladiator’ tem o mesmo estilo visual, o mesmo magnetismo das cenas de acção, mas a história oferece muito mais e as personagens são muito mais cativantes, e por isso é que se tornou o filme de culto que é hoje. E até o desinspirado ‘Kingdom of Heaven’ consegue ser melhor do que este ‘Robin Hood’ em quase todas as vertentes, o que não abona muito a favor deste filme.

Aliás, para mim, só há uma coisa que realmente abona a favor desta obra. Chegamos ao último parágrafo, e visto que o caro leitor deve certamente estar à espera que eu diga qual é o grande ponto a favor deste filme, está na altura de o revelar. Pois bem, foi o primeiro filme que vi no cinema com a rapariga que se iria tornar, alguns anos mais tarde, a minha esposa! Eu bem avisei que era um ponto a favor da minha exclusiva perspectiva! Se o leitor não tem semelhante experiência romântica então azar. Eu tenho, e ainda bem. Senão não me iria recordar deste filme. Assim, e apesar de nunca mais o ter revisto desde esse dia (esta crítica é o transcrever das notas que escrevinhei nessa altura), terá um lugar especialíssimo no meu coração. Nunca irei esquecer essa ida ao cinema e só por isso, estou muito contente que Ridley Scott tenha feito esta prequela da lenda do príncipe dos ladrões. Muchas gracias!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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