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Relatos salvajes

Ano: 2014

Realizador: Damián Szifrón

Actores principais: Ricardo Darin, Erica Rivas, Oscar Martínez

Duração: 122 min

Crítica: Ontem à noite tive a oportunidade de ir ao cinema assistir à antestreia de um dos nomeados deste ano para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o filme argentino ‘Relatos salvajes’ (em português ‘Relatos Selvagens’). O filme foi um dos nomeados para a Palma D’Ouro, ganhou tudo o que havia para ganhar nos prémios da Academia Argentina e foi o melhor filme Iberoamericano nos prémios Goya. Foi portanto com naturalidade que se tornou o representante da Argentina na corrida aos Óscares. A Argentina é um país que costuma obter essa nomeação para Melhor Filme Estrangeiro em anos recentes, e o imdb confirma que desde 2009 (ano em que o brilhante ‘El secreto de sus ojos’ venceu) já é o terceiro filme Argentino que consegue ser nomeado, e sempre com Ricardo Darin no papel principal. Isto acontecerá pela qualidade dos filmes ou porque os argentinos conhecem as pessoas certas na Academia? Bem, é um misto de ambas as coisas, e ‘Relatos salvajes’ não foge à regra.

Por um lado, a par do México e do Brasil, a Argentina é para mim o país sul-americano com a melhor produção fílmica. É raro o filme que nos chega à Europa (e o que consigo ver), mas quando o faço fico sempre surpreendido pela qualidade e profissionalismo de todos os aspectos da produção (a realização, a actuação, a fotografia) – algo que por exemplo não me acontece quando vejo um filme português contemporâneo. É uma questão do dinheiro investido, poder-me-ão dizer. Talvez, mas a indústria argentina consegue tê-lo, até porque está mais associada à famosa produção espanhola do que propriamente nós. O que nos leva ao segundo ponto. É só olhar para o póster ou ver o início do genérico de ‘Relatos salvajes’ para ler em letras garrafais ‘Pedro Almodóvar apresenta’, e assistir ao corrido de produtoras de nuestros hermanos, desde El Deseo (dos irmãos Almodóvar), à TVE, a outras instituições estatais. Assim, o filme tem por detrás o melhor da produção cinematográfica de dois continentes, ao qual se alia um contrato de distribuição americana com a Sony. 

Mas se o resultado final deste apoio produtivo está à vista nos mais variados aspectos técnicos, a verdade é que o filme do estreante Damián Szifrón (até então só havia feito séries e filmes para a televisão) tem muito mais do que isso para ser um justo nomeado e fazer as delícias de um sem número de espectadores por esse mundo fora. Tem um conceito bastante interessante e consegue ser várias coisas; engraçado, incisivo, surpreendente e, acima de tudo, acessível. Consegue conectar com o público, criar uma enorme empatia, e não é só fachada. Contudo, o equilíbrio entre todas estas coisas não é tão perfeito como provavelmente o realizador quereria, e isso constitui a maior falha visível do filme.

A inspiração para ‘Relatos salvajes’ surge do sítio mais improvável, a série americana ‘Amazing Stories’ produzida por Steven Spielberg entre 1985 e 1987, que era uma espécie de Twilight Zone da era moderna. Sou demasiado novo para me lembrar desta série (suponho que terei visto um ou outro episódio na minha infância), mas o que é certo é que neste filme Szifrón abdicou de todas as histórias sobrenaturais e centrou-se naquelas histórias de coincidências excêntricas e twists improváveis que formam retratos interessantes, quiçá profundos, da condição humana. E mais, sempre com uma achega de crítica social à sociedade argentina contemporânea.

Assim sendo o filme tem seis segmentos distintos. No primeiro, ‘Pasternak’, os passageiros de um voo começam a aperceber-se que todos conhecem a mesma pessoa: Pasternak, que nalguma altura das suas vidas trataram mal (a ex-namorada – a actriz María Marull – traiu-o, o professor chumbou-o, etc). As coisas complicam-se quando a hospedeira de voo diz que o piloto se chama Pasternak e está barricado no cockpit…

No segundo segmento, ‘Las Ratas’, uma empregada de um restaurante vazio num dia de tempestade (Julieta Zylberberg), vê o mafioso que lhe destruiu a família (César Bordón) sentar-se a uma mesa. Contado a sua história à cozinheira (Rita Cortese), esta decide envenená-lo…

Em ‘El más furte’, dois condutores (Leonardo Sbaraglia e Walter Donado) levam ao extremo a proverbial ‘discussão de estrada’, quando numa auto-estrada deserta pegam-se um com o outro com consequências primeiro hilariantes, depois desastrosas…

Em ‘El Bombita’, um especialista em demolições (Ricardo Darin, um dos melhores actores argentinos da actualidade), vê, literalmente, a sua vida a ruir à sua volta, depois do seu carro ser rebocado e chocar contra o sistema burocrático de Buenos Aires. O final desta curta é o melhor de todo o filme.

Em ‘La propuesta’ um filho de pais ricos (Alan Daicz) após uma noite na discoteca, atropela e mata uma grávida. Na manhã seguinte, o seu pai (Oscar Martínez) e o advogado da família (Osmar Núñez) tentam convencer o jardineiro (Germán de Silva) a aceitar uma larga quantia de dinheiro para ficar com as culpas. Mas nesse momento um inspector (Diego Velázquez) bate à porta…

Por fim, em ‘Hasta que la muerte nos separe’, um casamento épico torna-se ainda mais épico (num sentido totalmente devastador) quando a noiva (Erica Rivas, genial!) descobre que o noivo (Diego Gentile) a traiu com uma das convidadas…

Estou a ser breve pois não me quero adiantar muito relativamente ao resumo das histórias. Ao contrário dos filmes modernos que são feitos de várias curtas-metragens (geralmente comédias românticas, mas também filmes mais artísticos como ‘Chacun son Cinema’, 2007), o segredo de ‘Relatos salvajes’ não está no desenlace das curtas, no seu twist final, mas sim na sua construção. Neste filme, tal como em comédias de outrora como ‘Vedo Nudo’ (1969) ou ‘Everything You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask’ (1972) de Woody Allen, a construção é o cerne da curta, é o que vale a pena assistir. O que capta o espectador é a situação incómoda em que as personagens se encontram, o que fazem para a tentar superar, e as consequências totalmente inesperadas. Nesse sentido, ‘Relatos salvajes’ tem notas máximas, ao ter actores naturais e talentosos, ser bastante inteligente na construção da bola de neve, antes de a deixar cair montanha abaixo, e fazê-lo com carradas de humor. A sala onde me encontrava ontem encheu-se de risadas, e é sempre bom quando isso acontece e sabemos, para além disso, que estamos a rir com substância. 

Contudo, lamentei notar que, apesar do filme ser extremamente inteligente no seu humor, não parecia estar assim tão interessado nisso como estava o espectador. O motivo? Porque está muito mais preocupado com outra coisa; a crítica social. Sim, as curtas têm histórias bastante interessantes (ficamos agarrados para saber o desfecho) e sim, as curtas têm momentos engraçadíssimos, que advêm naturalmente das situações. Mas na realidade isto apenas esconde, ou atenua, o golpe do realizador ao sistema da sociedade argentina. A máfia argentina, a arrogância da classe alta, os esquemas fraudulentos da companhia de reboques de Buenos Aires, a corrupção no sistema judicial, tudo é atacado neste filme, sob a máscara da ‘comédia’. E o filme anda a balançar-se de um lado para o outro, entrelaçando a comédia com a crítica. Fá-lo com tanto à vontade que estou seguro que muitos daqueles espectadores que se riram e riram ontem nem o notaram. Mas para quem nota fica um saborzinho um pouco amargo (não muito), porque se há subtileza na comédia, não o há na crítica social, e deveria haver. Para além disso não sei se me caiu bem o tom demasiado mórbido da maior parte das curtas. Em quase todas elas há sempre alguém que morre. Estamos assim tão insensíveis como espectadores, que uma sátira como esta, que prima pelo humor, possa ter morte atrás de morte sem que ninguém pestaneje? É certo que ‘Relatos salvajes’ poderá ser intitulada de comédia negra, mas não é o número de mortes deste filme um exagero bastante grande, mesmo para uma comédia negra? Também faz parte da crítica social?

Talvez por o realizador estar consciente desse facto, a última curta-metragem ‘Hasta que la muerte nos separe’, no casamento, não tem nem mortes nem crítica social visível. E ainda bem. É comédia negra da antiga, em que um único evento vai gerando um efeito bola de neve até que o caos impera e as personagens já percorreram um caminho sem retorno. Fez-me lembrar o último segmento de um filme de curtas não muito bem conseguido dos anos 1970: ‘Plaza Suite’ (1971). Neste filme, no último e melhor segmento, Walther Mathau é o pai de uma noiva que se recusa a sair do quarto de hotel para casar, e os eventos vão escalando até que ambas as personagens se (re)descobrem. O mesmo se passa em ‘Relatos salvajes’, e também com a temática do casamento. A curta é construída de uma forma brilhante, com grande humor mas também com uma pontinha de algo que ainda faltava ao filme até este ponto: esperança.

Apesar das cinco primeiras curtas, relatos críticos e negros, que o realizador apelidou, com uma enorme autoconsciência, de ‘selvagens’, esta última curta mostra que nas relações humanas e na sociedade argentina (tal como em todas as sociedades) por tão más que as coisas fiquem, há sempre lugar para a esperança, para o raio de luz. Porque está tão bem filmada e construída, é uma mensagem que passa para o espectador sem ser de uma forma lamechas, e, depois de tudo o que se passou, o espectador sai do filme com um sorriso, que de novo, é um sorriso com substância. Talvez seja esse o motivo último por detrás de todo o filme, e talvez por isso Szifrón tenha esticado a corda até praticamente ao limite surreal nas curtas anteriores (principalmente em ‘El más furte’). Somente para chegar a este último momento final, o que perdura no espectador enquanto ele sai da sala, e atingir esse entendimento, essa ligação com ele. O mundo tem corrupção e crime e mortes, mas por entre estes aspectos negativos está o humor, e mais do que isso, o amor. Quando respondemos na mesma moeda as coisas não se resolvem. Mas há sempre outras alternativas. O filme vai de uma ponta do espectro à outra, mostrando as várias opções de resolução dos diferentes ‘males da sociedade’, até que encontra a melhor. É um arco bastante subtil, mas que estou seguro que existe. E que adorei ver. 

No final, tenho a dizer que gostei de ‘Relatos salvajes’. Certamente não irá ganhar o Óscar (há filmes ‘sérios’ como ‘Ida’ que, pelos trâmites habituais do ‘sistema’, têm muitas mais hipóteses de obter o prémio) mas é um filme que com uma enorme facilidade conquistará o seu público. Poderá ser visto como uma espécie de ‘Buenos Aires I Love You’, mas com a parte do romance praticamente inexistente, a parte da crítica social aguçada (mas na minha opinião não muito interessante), e a parte do humor na muche, brilhantemente construída, mas que podia ter ido ainda mais além. Não o foi porque colidiu com a parte da crítica social. Obteve-se um compromisso de equilíbrio, mesmo assim suficientemente saudável para não estragar a aura do filme nem a sua ligação de intimidade com o espectador. E como disse, para mim pelo menos, na curta final tudo se encaixa conceptualmente, e o filme ganha uma outra dimensão, revelando a sua alma.

Mas mesmo que o espectador não se sinta tocado por esta mensagem, ou agradado pela crítica social, a, chamemos-lhe, ‘fachada’ de ‘Relatos salvajes’ é suficiente para convencer. Fará rir tanto como qualquer outra comédia deste ano, e o seu humor tem muita mais inteligência do que têm as habituais comédias. Isto para não falar do facto de ser muito melhor filme que algumas coisas que estão para aí nomeadas para Óscar de Melhor Filme, como ‘The Imitation Game’. ‘Relatos salvajes’ é uma interessantíssima entrada de um género que eu já nem sabia que existia, o de comédia negra em formato curta-metragem. E porque tem uns pozinhos a mais disto e daquilo, excelentes actuações, punchlines bem temperadas e uma enorme empatia com o público, ganha uma dimensão universal. Quantos filmes podem dizer isso? Álmodovar apostou no realizador certo, e o filme existe no seu universo humorístico. Agora é esperar para ver o que Damián Szifrón poderá fazer a seguir.

1 comentários:

  1. Mike, vi ontem. Gostei bastante.
    Este filme era cabeça de cartaz na Mostra de Cinema da America Latina de 2014 mas não consegui ver fiquei-me pelo La jaula de oro (Guatemala, 2013) e pelo Azul y no tan rosa (Venezuela, 2014). Subscrevo a tua critica nomeadamente quando referes "O que capta o espectador é a situação incómoda em que as personagens se encontram, o que fazem para a tentar superar, e as consequências totalmente inesperadas".

    O sentido do humor e o sarcasmo argentino são geniais e encaixam neste formato... Acrescento apenas uma palavra para Gustavo Santolalla que brilhantemente, como sempre, desta vez me deu a conhecer a versão do Fly me to the moon pelo Bobby Womack.
    Abraço

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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