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2014 - um ano a ver, a escrever, e a sonhar sobre CINEMA

À semelhança de anos anteriores (2011 e 2013), segue-se o meu anuário cinematográfico do ano de 2014, que acabou há pouco tempo para não mais regressar (espera-se). Nos próximos parágrafos vou falar um pouco sobre os filmes que vi no último ano, dos que gostei e dos que não gostei, dos que escolhi ver e porquê, dos que fui ver ao cinema e o que se espera para o ano cinematográfico de 2015. Uma crónica deste género de um ilustre anónimo tem algum interesse? Não sei, ninguém se queixou até agora. Mas eu divirto-me, e é para isso, e para o divertir a si, caro leitor, que aqui estamos.

Pois bem, entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2014, vi nada mais nada menos que 233 filmes, a começar em ‘Public Enemies’ (2009) de Michael Mann, no primeiro dia do ano, e a acabar em ‘Frozen’ (2013) no último, que revi em casa em blu-ray 3D. Este número de 233 à primeira vista até parece interessante, mas para mim é um all-time low, desde que comecei a contabilizar. Há uns anos, quando era estudante, via mais de 350 filmes por ano (mais que um por dia portanto), mas quando ficamos mais velhos é inevitável que passamos a ter menos tempo. Dizem que é porque temos de trabalhar… Em 2013 vi 255 filmes, ou seja, este ano vi 22 filme a menos. Uma desgraça. Mesmo assim, ainda dá uns 4 ou 5 por semana. Se pensarmos bem, afinal não é assim tão mau, visto que é “apenas” um hobby.

Desses ilustres 233 apenas 97 já tinha visto uma vez anteriormente. Eu gosto de revisitar filmes, desde aqueles que só vi uma vez há muitos anos e já não me lembro absolutamente de nada, até àqueles que já vi dezenas de vezes mas não me importo nada de ver e rever mais uma. Há filmes que se virmos e não recordarmos passado um par de anos não tem importância. Mas há outros que quero ter sempre presente na minha memória; as suas cenas, as suas interpretações. E sabe sempre bem voltar a um velho conhecido. Para mim pelo menos, e se o filme for bom, é reconfortante. E como o leitor bem sabe, há filmes que nos ajudam, que falam connosco, dependendo do estado de espírito. A primeira vez que se vê um filme é uma experiência de descoberta, com ou sem prazer. A segunda, terceira, décima vez, já e totalmente por prazer.

Portanto, feitas as contas, desses 233, mais de metade, 136, vi pela primeira vez em 2014. Fui 23 vezes ao cinema (curiosamente o mesmo número de vezes que fui em 2013 – é o máximo que dá está-se a ver!), o que significa que 113 foram vistos pela primeira vez em casa, mas não só. Como nos anos anteriores vi filmes em comboios, em aviões, em aeroportos, em quartos de hotel, conveniência das novas tecnologias. 2014 foi um ano generoso a nível pessoal, visto que consegui arranjar um emprego que me permitiu ir a casa todos os dias (em vez de só ao fim de semana como em 2013), mas não me livrei de fazer duas viagens de comboio de uma hora por dia. Muito tempo para escrever críticas (quase todas as que o leitor leu este ano foram escritas no comboio!) e, claro, ver filmes. E não me livrei também de uma série de viagens de trabalho ao estrangeiro. É o momento para fazermos um minuto de reverência à invenção do tablet, para saciar ‘on the go’ o prazer do cinéfilo…

Bem, então vamos lá ver que filmes foram estes que perfizeram o meu 2014. Como o leitor já percebeu (e está escrito no subtítulo do blog) para mim o cinema é uma viagem pessoal de 12 décadas. E com isto quero dizer que vejo com tanto interesse um filme de 1910 como um de 2010. Os bons filmes podem surgir de qualquer lado, em qualquer local. Por isso vou alternando diariamente entre filmes antigos e filmes recentes, sem qualquer lógica pré-estabelecida. Simplesmente depende do meu estado de espírito e do da minha esposa, companheira indissociável das minhas aventuras cinematográficas. No final, a coisa equilibra-se, por isso acabo sempre por ver um número mais ou menos igual de cerca de 20 filmes por cada década que o cinema já leva desde 1910. Inevitavelmente, vi mais filmes da década pós-2010 do que qualquer outra (50 no total), devido à tentativa de acompanhar a produção recente. Mas as duas décadas em que mais filmes vi a seguir foram as de 1930 (35 filmes) e a de 1940 (30 filmes), porque este ano fiz vários ciclos de cinema clássico.

Tal como mencionei na crónica do ano passado, gosto de fazer ciclos de realizadores ou actores, vendo mais ou menos um filme por semana, por ordem cronológica, passando por aqueles que já vi e pelos que não vi das suas carreiras. Assim papo tudo, sei tudo. Comecei o ano a terminar o ciclo do glorioso Frank Borzage, que havia começado no ano anterior, um génio e o último grande realizador que descobri. Depois dos seus fabulosos filmes mudos (ver crónica do ano passado), em Janeiro de 2014 fiquei a conhecer grandes obras em ‘Bad Girl’ (1931) ou ‘A Man’s Castle’ (1933), histórias de amor simples, eficazes e belíssimas. Completei o meu conhecimento de Fred & Ginger, ao ver todos os seus filmes para a RKO (ver crítica de ‘Carefree’, 1938), e mais uma vez apaixonei-me por Fred Astaire, o melhor dançarino de todos os tempos. Complementei o meu Renoir, com filmes menos famosos como ‘Boudu sauvé des eaux’ (1932, excelente performance de Michel Simon), ‘Une Partie de Campagne’ (1936, ge-ni-al) ou ‘La petite marchande d'allumettes’ (1928, pungente), ao mesmo tempo que revi obras-primas como ‘La Grand Ilusion’ (1936).

Revisitei Douglas Sirk, cujos filmes havia visto há muitos, muitos anos, e agora, mais velho, consegui ver para lá da telenovela para descobrir o mestre da técnica. Destaco ‘Tarnished Angels’ (1957) menos estilizado que, digamos, 'Magnificent Obsession' (1954), o que o torna num filme nu e cru emocionalmente, muito mais impactante. Continuei a minha busca pelo génio cómico de Louis de Funés (ver crítica de ‘Oscar’, 1967), com ‘Les aventures de Rabbi Jacob’ (1973) ou ‘Le petit baigneur’ (1968) – o homem vale o filme, qualquer filme, independentemente da qualidade do filme! Acabei o meu Clint, vendo os poucos filmes do início dos anos 1970 que me faltavam, e descobri nada menos que duas obras primas: The Beguiled (1971, realizado por Don Siegel) e o intenso ‘Play Misty for Me’ (1971, que critiquei). Revisitei a belíssima Ann-Margret (ver crítica de ‘Viva Las Vegas’, 1964), ao ver filmes como ‘Train Robbers’ (1973, um western da velha guarda até com os seus picos de interesse), ou o sublime ‘Carnal Knowledge’ (1971), realizado por Mike Nichols e que contém a melhor performance da vida desta actriz sueca. Com um arrepio na espinha recebi a notícia que Mike Nichols tinha falecido, poucos dias depois de ter visto ‘Carnal Knowledge’. Coincidências macabras...

Mas também revi filmografias já bastante conhecidas, só porque sim, só por causa do prazer que falei em cima. Revi os irmãos Marx (ver crítica de ‘A Night at the Opera’, 1935) depois de ter lido a autobiografia de Groucho Marx (recomenda-se, uma piada por linha…). Revi Kubrick, desta vez em blu-ray, o que o salienta ainda mais o seu génio para a composição (Nota: ainda não critiquei nenhum filme de Kubrick… tenho de o fazer). Revi Tarantino, que completei com o filme que me faltava, ‘Four Rooms’ (1995), que não me convenceu muito como um todo, mas que valeu a pena precisamente pelo segmento que Tarantino realiza. Revi a trilogia de Daniel Craig como James Bond, para voltar a ficar enjoado com Skyfall (2012) por não se soltar da temática negra que tão bem resultou em ‘Casino Royale’ mas que agora já está completamente batida.

E por fim, o ciclo mais relevante que fiz este ano foi o do príncipe de Hollywood, ou seja, o de Cary Grant. No Natal de 2013 a minha mulher ofereceu-me a caixa definitiva deste senhor, que a juntar aos filmes que já tinha deu para praticamente formar toda a sua filmografia em DVD. Foi com ele, desde os anos 1930 (‘Blond Venus’, 1932, com Marlene Dietrich) até à década de 1960, que passamos o ano, religiosamente uma vez por semana, revisitando velhos clássicos já bem conhecidos como ‘His Girl Friday’ (1940), ‘Gunga Din’ (1939) ou ‘Mr. Blandings Builds His Dream House’ (1948), mas descobrindo igualmente obras espectaculares que só conhecida de título. ‘Holiday’ (1938), o único filme que Grant fez com Katherine Hepburn que eu ainda não tinha visto, provou ser um dos melhores, senão o melhor filme que eu vi este ano (dos que nunca tinha visto, isto é). Mas que dizer de ‘Mr. Lucky' (1943) ou ‘The Bishop’s Wife’ (1947), ambos que critiquei em Eu Sou Cinema?! Surpreendentes estudos de personagem, longe do estereótipo de Grant. Tal como ‘Penny Serenade’ (1941), tal como ‘None But the Lonely Heart’ (1944). Mais que carismático, mais que génio cómico, mais que galã romântico, Grant nestes filmes é o que sempre foi, no íntimo: um grande Actor.

Todos os anos fico espantado com a quantidade de grandes filmes que descubro, que nunca tinha visto anteriormente. Não devia, mas fico, e é por isso que nunca termino a minha busca por filmes que nunca vi. No filme que vou ver amanhã pode estar a próxima obra-prima, o próximo filme de uma vida. Para além dos citados nos parágrafos acima (onde estão realmente os melhores filmes que vi este ano), ainda vi filmes bastante surpreendentes como ‘Vampyr’ (1932) o filme de Dryer que me faltava ver (aviso já, Dryer não tem filmes maus); os originais ‘Perfumo di Dona’ (1970), ‘Huchback of Notre Dame’ (1939), e ‘Cyrano de Bergerac’ (1950), cujos remakes dos anos 1990 bem conhecia e que, diga-se, não ficam atrás dos originais (e vice-versa!); a fantástica série do cinema mudo ‘Les Vampires’ (1915/1916), que critiquei; ‘The Little Norse Prince’ (1968), o primeiro filme de Isao Takahata, um marco da animação; ‘Cat Ballou’ (1965, gostei bastante da comédia e de Jane Fonda); ‘The Fountainhead’ (1949, o filme definitivo dos arquitectos); ‘Show People’ (1928, uma das primeiras vezes que Hollywood parodia Hollywood), ‘National Velvet’ (1944, a Liz Taylor com 10 anos é tãaaaao fofa), ‘Foolosh Wifes (1922, planos memoráveis) ou ‘Taming of the Shrew’ (1967, Liz Taylor crescida já não é tão fofa!). E acredita o leitor que eu nunca tinha visto ‘The Goonies’ (1985)?! Pois bem, vi. E gostei, e tive imensa pena de nunca mo terem mostrado quando era criança.

E ainda achei interessantes filmes como ‘Leaving Normal’ (1992, um drama com more than meets the eye), os filmes de terror ‘The Ring’ (2002) e ‘Evil Dead’ (1981); ‘Lucía y el sexo (2001, mais a parte da Lucia e menos a do sexo), o original filme de animação ‘Lord of the Rings’ (1978, onde se descobre que Peter Jackson é um ladrão de enquadramentos), e coisas mais levezinhas com ‘Mystic Pizza’ (1988, boas actuações), e 'Road To Morocco' (1942). O filme não vale muito, mas foi o primeiro dos filmes ‘Road..’ com Bing Crosby e Bob Hope que vi, o que é sempre uma experiência interessante. 

Mas também vi, verdade seja dita, muita porcaria. Peter Bogdanovich continua sem me convencer. Dei-lhe mais uma chance com ‘What’s up Doc?’ (1972). Mais valia não ter dado. E  Scorsese segue o mesmo caminho. Vi ‘Mean Streets’ (1973) e não gostei, só vale pelo monólogo de 5 minutos de deNiro. E revi ‘Age of Inocence’ (1993) e mais não digo… Vi cinco filmes do ano de 2013 que não tinha ido ver ao cinema e ainda bem que assim foi. ‘Die Hard 5’ é péssimo; ‘Les Miserábles’ é ainda pior, se tal é possível; ‘The Counsellor’ tem diálogos caros mas substância barata, ‘The Croods’ foi um esforço batido da Dreamworks e ‘Hitchcock’ é tão patético que não ofende ninguém. Detestei rever ‘Nine’ (já criticado), achei que 'Le père de mes enfants' (2009) não tinha razão nenhuma de existir, e ‘Cinderella II: Dreams Come True' (2002) é um dos piores straight-to-DVD da história das sequelas de animação. E que dizer da série ‘A Bíblia’ com Diogo Morgado?! Aparentemente, a ‘Bíblia’ é um monte de tipos a matarem-se uns aos outros (quanto mais sangue melhor), os anjos do Senhor são uns ninjas assassinos, e os cristãos são uns seres mimados: “ou és cristão ou eu mato-te”, “eu vou ganhar porque Deus me vai ajudar a chegar-te a roupa ao pêlo”, “Deus é meu amigo e teu não, ehehehehe, por isso eu sou mais forte, agora embrulha”. Nunca vi série tão má…

Mas também há filmes antigos que não gostei. Essa é que é essa! Revi ‘The Letter’ (1940), com Betty Davis, após talvez uma década, e voltei a não gostar do seu novelo emocional que não se desenrola. ‘Murder by Death’ (1976) podia ter sido uma paródia brilhante mas espalhou-se ao comprido. ‘Murder my Sweet’ (1944) prova que, sem Bogart, Marlowe não é a mesma coisa. Mas até ter Bogart não é garantia: veja-se a péssima opção na construção de ‘Knock on Any Door’ (1949) que só o carisma de Bogart consegue salvar. ‘Places in the Heart’ (1984) é uma telenovela sem sabor. ‘Death Takes a Holliday’ (1934, já criticado), prova que por vezes os remakes são melhores que os filmes originais. E por fim, apanhei uma das maiores decepções da minha vida com 'Trois places pour le 26' (1988). Adoro Jacques Demy, toda a gente sabe isso (ver crítica de ‘Les Demoiselles de Rochefort'). E só havia três filmes dele que ainda não tinha visto, simplesmente porque não os conseguia encontrar. Um deles era este. Finalmente vi (foi lançado em DVD/Blu-ray numa edição restaurada), mas apesar de nostálgico, era morno, e tinha pouca magia...

Portanto, para contrariar estas decepções, é sempre confortante revisitar aqueles filmes que sabemos que são bons. Um dia acordo e penso, eh pá apetecia-me mesmo era ver este filme. E uns dias depois lá o vejo, o que é óptimo. Alguns porque já não os vejo há décadas e quero certificar-me que a minha memória da sua qualidade é credível, e se sim, volto a tê-los na ponta da língua. Outros porque olho para eles na estante todos os dias e há um dia em que não aguento mais e tenho que os rever. Ou outros porque os comprei em DVD ou Blu-ray e tenho que testar o disco… só mesmo para ver se está a funcionar bem!

E assim sendo revi 'Thief' (1971, já criticado) o fantástico filme de Michael Mann sobre o ‘one last job’. Revi o fabuloso ‘Five Graves to Cairo’ (1943, cativante micro-cosmos da guerra) de Billy Wilder. Revi 'Winchester 73' (1950, Jimmy Stewart torna-se duro) e ‘Man of the West’ (1958, falei dele na crónica de 2011, como um grande filme que tinha descoberto) ambos de Anthony Mann. Revi ‘The Narrow Margin’ (1952, já criticado) e ‘The Train’ (1964), ambos que já não via há anos, ambos que confirmaram ser espectaculares, e ambos que me inspiraram a escrever uma crónica sobre o cinema e o comboio. Revi ‘Singin' in the Rain’ (1952) como o faço quase todos os anos, e nunca deixa de pôr um sorriso na minha cara laroca. Revi ‘Home Alone’ (1990) pelo Natal, pois o que seria o natal sem 'Home Alone'?! Voltei-me a rir com Austin Powers (critiquei a trilogia), a sorrir com os cameos de ‘Around the World in 80 Days’ (1956, já criticado), regressei à infância com ‘E.T.’ (1982, obrigado Sir Stevie, usando a designação de Austin), e voltei a ser inspirado pelo primeiro filme que vi na minha vida que me fez olhar para o cinema como uma forma de arte: ‘The Mission’ (1985). É um filme que vou revisitando de uns 4 em 4 ou 5 em 5 anos.

Votei a ser surpreendido pelo poder de ‘If’ (1968, uma obra prima), e com a delicadeza de ‘Way Down East’ (1920, perfeitamente estruturado) ou ‘Interiors’ (1978, um Woody Allen esquecido). Regressei aos génios de  Jarmush com ‘Down by Law’ (1986, it's a sad and beautiful world), Fellini com ‘8 ½’ (1963, imaculado visualmente), Dryer com ‘Vredens Dag’ (1943, cinema puro e verdadeiro), Polanski com ‘The Pianist’ (2001, delicado e dedicado) e Michael Powell com ‘Thief of Bagdad’ (1940, um marco do cinema de aventura e de efeitos visuais). E ainda arranjei tempo para me deliciar com clássicos magníficos como ‘Big Sleep’ (1946, só há um Marlowe, e é Bogart), ‘Whatever Happened to Baby Jane’ (1962, gótico, macabro, brutal) e ‘Darling’ (1965, swinging-London exposta por dentro). E revisitei ainda clássicos instantâneos modernos como ‘In Bruges’ (2008) e ‘Django Unchained’ (2012, já criticado) que ainda só havia visto uma vez. Há filmes que, só pelo facto de serem modernos e terem poucos anos de vida, estão muito atrasados em termos de numero de visualizações na minha lista. Uma descriminação que só o tempo pode curar e que uma pessoa tenta remediar como pode…

E não seria eu se não arranjasse o espacinho para a Disney. Revi ‘The Nightmare Before Christmas’, (1993) em versão Blu-ray 3D pelo Halloween (confesso que o 3D não convenceu). Revi o fabuloso ‘Home on the Range’ (2004, já criticado), um dos melhores filmes da Disney da última década. E recordei um filme há muito esquecido ‘Basil, The Great Mouse Detective’ (1987), entre outros.

E porque a vida não é só feita de cinema e porque por vezes não é possível, com todos os afazeres da vida, despender duas horas a ver um filme, os senhores de Hollywood, na sua infinita misericórdia, inventaram as séries. Verdade que as séries hoje em dia vivem um gigantesco surto de popularidade, mas praticamente tirando 'The Big Bang Theory' não acompanho nenhuma contemporânea. Chamem-me nerd, chamem-me o que quiserem, mas o meu 2014 teve carradas de 'Seinfeld', de 'Mad About You', de 'Miami Vice' (Don Johnson!), de 'Son of the Beach' (Notch Johnson!), de 'McGyver' e das séries seminais dos anos 1960: 'The Avengers' e 'The Saint'. Sim, não vi nada de 'A Guerra dos Tronos' nem de 'Breaking Bad'. Mas vi isto. São escolhas! Vi ainda a já referida 'Les Vampires' tal como uma mini série muito interessante, mas um pouco mal construída, sobre os primórdios de Hollywood chamada 'Moguls and Movie Stars'. Vi a péssima 'A Bíblia' (já falei disso em cima), bem como imensas curtas de Chaplin (como todos os anos) e da Disney (Patetas, Mickeys, Donald Ducks, Silly Symphonies, disponíveis ao público nos packs DVD Walt Disney Treasures).

E por fim chegamos aos filmes de 2014. Nunca costumo despender muito tempo nestes anuários a comentar os filmes do próprio ano. Porquê? Porque como disse no início fui umas míseras 23 vezes ao cinema, e apenas vi mais dois filmes de 2014 em casa; ‘Sin City: a Dame to Kill For’ e ‘Jack Ryan: Shadow Recruit’, já criticado (note-se que detestei ambos). Portanto comentar um ano com base em 25 filmes não é boa politica. Como sempre, vou precisar de um bom par de anos para me pôr a par (passe o trocadilho) da produção de 2014, principalmente a não americana, e nessa altura, se houver interessados, comentarei! Mas de dizer que, como sempre, começo o ano céptico (porque vejo as porcarias nomeadas para o Óscar), mas fico sempre feliz por descobrir grandes obras onde menos esperava. Dos que vi este ano destaco ‘The Lego Movie’ (fantástico filme de animação), ‘The Grand Budapest Hotel’ (devia ganhar os Óscares em vez de 'Boyhood'), ‘Guardians of the Galaxy’ (é assim que se faz um blockbuster), 'Jersey Boys' (Clint, palavras para quê) e 'Interstellar' (massivo). Pela negativa destaco ‘Transcendence’ e ‘Maleficent’. Nunca mais quero ver estes filmes na minha vida. De salientar também, não pelo filme, mas pela experiência, ‘Le Week-End’, que vi numa sessão ao ar livre nada mais nada menos que em Atenas, e que me inspirou a escrever a crónica do Clube dos Cinéfilos Viajantes.

Segue-se o meu top costumeiro dos filmes datados de 2014, incluindo os filmes que vi no cinema ao longo do ano, os dois que vi em casa, e os três filmes que já vi em 2015 no cinema: ‘Birdman’, ‘The Imitation Game’ e ‘American Sniper’. Assinalo a itálico os filmes que são de 2013, mas que vi no cinema em Janeiro de 2014.


E porque o fiz na crónica do ano passado, destaco ainda a cena do ano. Bem, neste caso são duas. Escolhi estas porque são ambas genéricos, uma arte que está a morrer no cinema americano. É sempre bom quando surge, principalmente no inicio do filme como em 'Guardiões da Galáxia'. É, como se diz na gíria, outra louça. Não se pode deixar essa arte morrer.






E agora? Esta crónica já vai longa e resta fazer os habituais prognósticos para 2015. Para isso, é melhor esperar pelo “fim do jogo”, ou seja, a crónica do próximo ano! Mas o que posso dizer é que, como de costume, estou a gostar mais dos filmes que vi em casa, nestas quatro semanas que o ano já leva, do que os que vi no cinema. As revistas ditas da especialidade (que detesto) como a Empire ou a Total Film andam a antecipar este ano como o melhor de sempre, só porque vai ter coisas como os Vingadores 2, a Missão Impossível 5 e a Guerra das Estrelas (quer ler uma revista de cinema de jeito leitor, leia a Sight & Sound). OK, admito que a perspectiva do novo Star Wars deixa água na boca e pode levar a incontinência, mas não será por um monte de sequelas de blockbusters que este ano será memorável. Será memorável pelos filmes que ninguém está à espera (e que se calhar nem serão falados), que eu por acaso descobrirei no cinema, como este ano 'Jersey Boys' e o ano passado 'La migliore offerta'. Será memorável porque na minha busca insaciável da História do cinema vou ver um filme em casa que nunca tinha visto que vai mudar a minha vida. Vai ser memorável porque vou continuar a buscar novas experiências, cá dentro, lá fora, lá fora cá dentro, em casa, no cinema, num comboio, num quarto de hotel. Não fosse eu cinéfilo viajante. Não fosse eu cinema.

E tudo o que me acontecer em 2015, cinematograficamente falando, partilharei consigo, fiel e dedicado leitor (tem de ser dedicado para ler crónicas tão grandes!), porque se está aqui é porque também é Cinema. É essa a arte que nos une. A sétima arte, que para nós, viciados, é a primeira. Caro leitor, desejo-lhe um brilhante 2015, com muitos sucessos, mas principalmente bons filmes. Porque os sucessos vêm e vão, mas os bons filmes ficam para sempre.

(digam lá agora se esta não foi bonita…)

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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