Up

Ano: 2009

Realizador: Pete Docter, Bob Peterson

Actores principais (voz): Edward Asner, Jordan Nagai, Christopher Plummer

Duração: 96 min

Crítica: Como já escrevi mais do que uma vez nestas páginas, detesto quando os filmes são aclamados pelo seu contexto social, embora a sua qualidade fílmica deixe muito a desejar. Filmes com contextos sociais relevantes podem perfeitamente ser bons filmes, mas não é essa condição à partida que os torna, obrigatoriamente, bons. Infelizmente, parece pecado criticar um filme sobre o racismo, sobre a droga, sobre pacientes terminais. Nesse caso a opinião pública trucida o crítico. Ou ’12 Years a Slave’ ganha Óscar de Melhor Filme, ou somos todos racistas. Em verdade o filme pode ser sobre qualquer um destes temas e ser magnífico. Mas também pode, com igual facilidade, ser mau. Criticá-lo não é criticar o tema. É simplesmente criticar o filme. E há aí uma grande diferença.

No início de 2009 começou a palavra de boca sobre o próximo filme da Pixar, ‘UP’ (em português ‘Altamente’), que sairia alguns meses depois, na época de Verão. E antes de sequer alguém ver o filme, ‘UP’ já estava a ser aclamado como o melhor filme de animação alguma vez feito, e o Óscar de Melhor Filme de Animação (que eventualmente ganhou 6 meses depois), já parecia mais que garantido. Repito, antes de sequer alguém ver o filme, tirando alguns críticos em festivais. Depois apareceram as histórias cor-de-rosa. A mais famosa, aquela sobre o miúdo que estava num estado final de uma doença terminal e que escreveu uma carta a dizer que o sonho da sua vida era ver ‘UP’ antes de morrer. E, sem pudor e com excessivo mediatismo, a Pixar organizou uma sessão privada em sua casa, e ele faleceu tristemente sete horas depois de ver o filme. ‘UP’, repetia a comunicação social, era o filme de animação do século, a inspiração de uma vida.

Tudo isto, obviamente, contribuiu para que se criasse uma imagem no público antes do filme estrear, uma táctica que hoje em dia está limada ao extremo todos os Janeiros antes dos Óscares. Ninguém viu os filmes. Mas quando estreiam, a máxima é “São estes que são bons. São estes que vão ser nomeados. Ide ver”. Alguém, algures, decide pelo público. E isso está errado, a meu ver. Não há fumo sem fogo, é verdade, e muitos filmes não ganharam reputação em festivais antes de terem uma distribuição alargada por acaso, mas temos que confessar, olhando para a qualidade dos filmes nomeados e aclamados em anos recentes, que o que está por trás é na maior parte das vezes um marketing extremamente bem executado. E quando tal acontece, o público já está tão pré-condicionado, que nem nota as inconsistências que o filme tem. Para mim, o caso de ‘UP’ é um exemplo perfeito desse condicionalismo.

A Pixar tinha acabado de fazer outro aclamado filme social, ‘Wall-E’ (2008), muito baseado nesta teoria que apenas é preciso o cheiro de um tema para tornar um filme bom. Um ano antes ‘Ratatouille’ (2007) tinha sido lançado com muito menos pompa e circunstância, mas tinha magia, tinha poder por mérito próprio sem precisar do seu contexto. Ou seja, cativava por si, pelas suas personagens, pela sua história. ‘Ratatouille’ é para mim um dos melhores, senão o melhor filme da Pixar, mas não teve nem metade da atenção quer de ‘Wall-E’ quer de ‘UP’, precisamente porque não tinha o tal “tema social relevante”. 

Mas não me interprete mal leitor. ‘UP’ é bom. É até muito bom (principalmente em termos de animação). Mas enerva-me, e não o posso considerar uma grande obra, pois manteve a tradição preguiçosa que a Pixar iniciou há dez anos e ainda não conseguiu largar. Nomeadamente trabalharem só o conceito em termos gerais, aplicarem-no no filme apenas o suficiente para este ter o mínimo de história e o público a entender, e depois, literalmente, encheram chouriços no resto do tempo. ‘Toy Story 3’ (2010), por exemplo, é um filme fantástico nos seus segundos 45 minutos. Já os primeiros 45 minutos são enfadonhos até mais não, e extremamente preguiçosos, limitando-se a repetir as temáticas e a linha argumental dos dois primeiros ‘Toy Story’. As cenas de enquadramento andam em loop, ganhando tempo só para se chegar à metade do filme, e ao ponto clássico definido pela escola de escrita de argumentos em que a construção termina e a acção do filme pode finalmente começar.

Já em ‘UP’ passa-se precisamente o contrário (tal como mais tarde em ‘Brave’). A primeira parte de ‘UP’, o enquadramento, é absolutamente fantástica. Mas depois, com falta de imaginação e seguindo à risca os lugares comuns da estrutura que um argumento (supostamente) deve ter (principalmente a necessidade extremamente forçada de haver um vilão), o filme estagna, não sabe para onde deve ir, e anda à deriva apoiado na boia de salvação que foi o seu soberbo inicio, arrastando-se até ao final e fazendo os possíveis para que ninguém do público se aperceba deste esforço desesperado. Imediatamente me vem à cabeça ‘Tonari no Totoro’ (1988), de Miyazaki; um filme sem vilões, sem uma ‘missão’, um ‘objectivo’ inserido na linha argumental, sem grandes dramas ou dilemas emocionais, sem aquelas cenas de ‘tudo está perdido’ antes do último acto e do grande final climático. E mesmo assim é um filme extraordinário, de imagens belíssimas, sobre a emoção de ser criança e estar vivo e abrir-se para a vida e para a natureza. Mas os americanos nunca compreenderão isso. Talvez porque quem faz filmes não os trata com inteligência…

Mas até chegar a estas falhas enervantes, ‘UP’ revela o melhor que o cinema de animação pode oferecer, ao abrir de uma forma extraordinária, de tirar o fôlego. Arrisco-me a dizer, aliás, que possui o melhor desenvolvimento de personagem que alguma vez fez parte de uma obra de cinema; sucinto mas profundo, guiado por imagens, por emoções e não por palavras. O cinema como linguagem visual na sua forma mais pura. Durante os primeiros 10 minutos de filme, assistimos à vida inteira do Sr. Carl Fredricksen (voz do veterano Ed Asner), desde a sua infância até à terceira idade. Embalados pelo belíssimo tema de Michael Giacchino (não tenho dúvidas nenhumas que venceu o Óscar só devido a esta cena, já que o resto da banda sonora é absolutamente rotineira), percebemos quem é o Sr. Fredricksen, percebemos a sua humanidade, as suas emoções e o desenrolar da sua vida. Seguimo-lo desde um rapaz cheio de sonhos de exploração, até ao seu afogamento na rotina do trabalho e do ganha-pão, até à sua vida a dois com o amor de infância, a energética Ellie, que acaba infelizmente por falecer de velhice. Em suma, conhecemos o Sr. Fredricksen por dentro e por fora, e o mais incrível é que ele nem sequer fala uma única vez. O seu olhar e as expressões do seu rosto, brilhantemente animado, quando a montagem o translada de lugar em lugar e ele vai envelhecendo lentamente, dizem tudo. FA-BU-LO-SO. 

Ao fim de dez minutos, naquele Verão de 2009 numa sala de cinema, estava a deitar uma lágrima e a pensar “Uau, este vai mesmo ser um dos melhores filme animados de sempre. Lasseter finalmente percebeu o seu ídolo, Miyazaki”. Hoje em dia ainda me escorre uma lágrima, mas já não penso a mesma coisa, pois sei que o que está para vir não vai fazer jus a este início. Mesmo assim, a cena é intocável e inatacável. Se o espectador não ficar comovido é porque tem um coração de pedra. Não há palavras para a descrever, e rivaliza qualquer cena emotiva que o leitor possa recordar-se, de "Casablanca" a "It's a Wonderful Life". É o legado de ‘UP’, e da Pixar, à história do cinema. E se por mais nada, quando a relevância do tema deixar de fazer sentido, ‘UP’ será recordado por isto.

Quando a casa onde vive sozinho desde a morte da esposa está sob constante pressão de ser comprada para a construção de um arranha céus, o Sr. Fredricksen decide que chegou finalmente a altura de fazer a viagem que ele e a sua mulher sempre planearam fazer, mas que nunca conseguiram: ir as Cataratas Paraíso, na América do Sul. O Sr. Fredricksen amarra então centenas de balões ao telhado da sua casa e vai viver a sua aventura. O momento da partida é uma fantasia que tocará quer crianças, quer adultos. Mas há um pequeno problema neste plano. Um jovem escuteiro, Russell (voz de Jordan Nagai), que tinha ido vender umas bolachas a casa do Sr. Fredricksen, ainda estava no alpendre quando a casa levantou voo. Não é ‘UP’. É ups! E se o espectador se apercebe logo que vai haver um arco clássico entre os dois, de animosidade que se vai transformar em afecto ao longo do filme, não se importa muito. Até este ponto o filme é belo, é delicado, comove, e a animação mantém-se extraordinária. Podiam ter tido uma aventura juntos, aprendido valores familiares porreiros pelo caminho, e tudo ficaria bem. Mas não.

A Pixar estragou tudo aquilo que ‘UP’ poderia ter sido porque se sentiu forçada a seguir a estrutura estereotipada que os grandes estúdios ainda assumem que o público quer ver, e porque seguiu à risca as regrinhas estúpidas daqueles cursos foleiros de ‘escrita de argumentos’. O erro mais crasso foi a criação de um vilão. Se havia filme que NÃO PRECISAVA de um vilão, bem, era este. Mas torna-se óbvio porque o inseriram. Uma vez nas Cataratas Paraíso, vemos claramente que os animadores chegaram a um beco sem saída, e ficaram sem ideias sobre o que fazer com Russell e o Sr. Fredricksen. Durante quase 10 minutos os diálogos são repetidos em espiral, não acrescentando nada à história. O filme está a empatar, a ganhar tempo. A forma de contornar isto? Pois claro, um vilão, e um forçado (forçadíssimo) drama.

Já na cena inaugural tínhamos sido apresentados ao explorador Charles Muntz (voz de Christopher Plummer). Os seus feitos tinham inspirado um jovem Carl, e foi o amor comum pela aventura que primeiro o ligou a Ellie. Mas Muntz desapareceu sem deixar rasto há muitos anos, depois de ter jurado a pé juntos que tinha descoberto um pássaro raro. Mas como não tinha provas foi ridicularizado. Depois disso mais ninguém ouviu falar dele. E surpresa, surpresa, onde é que ele está? Obviamente, nas Cataratas Paraíso, ainda à procura do pássaro. Porreiro. Só de ouvir este preâmbulo, o leitor acha que Muntz é um vilão? Óbvio que não. Ninguém no seu perfeito juízo achará. Mas o filme precisa de um vilão, portanto força que seja este contra toda a lógica.

Tanto quanto eu consigo perceber, Muntz continua a sua busca pelo pássaro, como tem feito nos últimos 50 anos. Ok, emprega uns cães assustadores, cujas coleiras de alta tecnologia verbalizam os seus pensamentos (Doug, o único cão bonzinho, é das melhores coisas que este filme tem após os primeiros 10 minutos). Mas ter estes cães não faz necessariamente de Muntz um vilão. Tudo o que ele quer é provar que o pássaro existe, nada mais, nada menos. Para isso propõe-se a encontrá-lo, levá-lo para os EUA, mostrá-lo à sociedade, e depois… e depois o quê? O filme não diz. A dedução mais óbvia é que, depois de provar a sua existência, ou o libertará de novo na natureza, ou então vai enfiá-lo num jardim zoológico. Em ponto algum o filme se refere ao assassínio do pássaro, nem a personalidade de Muntz aponta nesse sentido. Mas o filme assume a premissa inicial “Muntz quer apanhar o pássaro” como uma ameaça. Como uma enorme ameaça. E nunca lhe dá o benefício da dúvida. Muntz é o vilão porque quer apanhar o pássaro para o fotografar e o mostrar ao Mundo. Isto faz algum sentido? Nenhum. Ele é um vilão porque eventualmente fechará o pássaro numa jaula?! Estará a Pixar a fazer uma crítica a todos os zoos, parques naturais e outras áreas protegidas sob a jurisdição humana?

E para reforçar o seu ponto, a Pixar faz com que Muntz, a meio do filme, comece a fazer coisas incríveis, completamente fora de carácter. Como Russel e o Sr. Fredricksen o impedem de apanhar o pássaro quando finalmente o encontra, vemos Muntz a ir atrás de toda a gente de caçadeira em punho e a tentar, agora sim, assassinar todos os outros que querem apanhar o pássaro. Mas isso de novo não faz sentido, pois se alguém o apanhasse, era a prova de que o pássaro existia, portanto Muntz só tinha que agradecer!

Tudo somado, e com uma conclusão argumental e emocional mais que óbvia, ‘UP’ é na minha perspectiva um triste falhanço da Pixar, porque em vez de seguir o rumo do seu conceito naturalmente, com delicadeza e beleza (um estúdio tão famoso e tão rico não precisa de se baixar ao consumismo), optou por usar lugar-comum atrás de lugar-comum. Pior ainda, são lugares-comuns banalíssimos, seguindo estruturas estereotipadas de ‘como se deve escrever um argumento’. Se não fosse por esta escolha infeliz, e pela necessidade estúpida de ter um vilão completamente desnecessário, ‘Up’ seria um filme brilhante. O desenvolvimento da personagem principal é absolutamente fantástico. A interação entre a animação (estupenda) e a banda sonora (que tem os seus momentos) é de primeira água. A história de base é tocante, e tinha tudo, em teoria, para dar certo. Mas depois… depois vai tudo pelo cano abaixo. Devia haver uma opção de blu-ray para ver o filme sem as parte do vilão. Aí sim teríamos qualquer coisa. Ai sim teríamos um filme que poderia rivalizar com ‘Tonari no Totoro’. Aí sim teríamos um dos melhores filmes de animação alguma vez feitos.

São filmes como ‘UP’, estragados de uma forma tão infantil, que me enervam no cinema americano moderno. Agora faz-se um filme com marketing e a sombra de um bom conceito. O resto é enchimento. E assim se chega às comerciais cerimónias de prémios. Eu nunca tinha ouvido a banda sonora de ‘UP’, por exemplo, até começar a ver o filme. Ao fim dos famosos dez minutos, por entre as lágrimas, estava a pensar, “Giacchino vai ganhar o Óscar”. E ganhou. Da mesma forma que Gustavo Santaolalla ganhou dois Óscares seguidos de banda sonora em filmes, literalmente, sem banda sonora. Da mesma forma que Mychael Danna ganhou o Óscar por ‘Life of Pi’ e Steven Price por ‘Gravity’ nos últimos dois anos. É só preciso fazer uma cena que tenha uma bela imagem, sem diálogos (se for em slow motion ainda melhor), e com a música tão alta que force o público a ouvi-la, que o prémio está garantido. Não é a música que está a receber o prémio. É a cena! Bandas sonoras excelentes, mas abafadas pelos diálogos ou por cenas de acção nunca ganham prémios. Do mesmo modo, filmes com o seu tema ligado no máximo ganham muito mais prémios que filmes muito mais poderosos, mas cujo tema está subtilmente inserido no filme. ‘UP’ é um desses filmes.

Dois Óscares ganhos, um enorme sucesso de bilheteira e falado até mais não, ‘UP’ é mais do que um bom filme. É um gigantesco feito de marketing, e uma grande lição para todos os cineastas por esse mundo fora; “que cenas colocar no meu filme para que ele seja um sucesso, independentemente de todas as restantes cenas que contenha”. No caso de ‘UP’, essas cenas chave são (mesmo!) um sucesso, e estão incrivelmente bem feitas, independentemente de todas as restantes cenas que contém, que são, sinceramente, bastante desinspiradas.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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