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Get Out and Get Under

Ano: 1920

Realizador: Hal Roach

Actores principais: Harold Lloyd, Mildred Davis, Fred McPherson

Duração: 25 min

Crítica: Olhando para os grandes génios da comédia muda de Hollywood, eu costumo dizer que Chaplin fazia comédia pela arte, Buster Keaton fazia comédia pela técnica, mas que Harold Lloyd fazia comédia pela comédia. Dos três, o trabalho de Lloyd é o menos vezes citado, o menos vezes recordado, o que menos passa em festivais de sétima arte e na televisão. Keaton tem um enorme conjunto de seguidores nos críticos mais puristas, que apreciam o formalismo técnico, as composições bem orquestradas, o humor inteligente e mecânico. Já Chaplin dispensa qualquer apresentação; uma comédia pura que brotava do coração e de uma enorme dedicação, com uma universalidade jamais alcançada nos meandros do cinema. Já Lloyd… Lloyd é quase um mistério nos dias de hoje. Eu próprio só aprofundei Lloyd há cerca de três anos, quando dei a mim próprio uma caixa com 9 DVDs repletos das melhores curtas e dos melhores filmes deste cómico – a caixa definitiva lançada pelo Studio Canal. Quando critiquei o filme ‘Óscar’ (1967) recentemente, escrevi que “O cinema de Louis de Funés é, nos dias de hoje, como uma espécie de ilha do tesouro. Só poucos sabem como lá chegar, mas aqueles que lá chegam são saciados por infinitas riquezas”. Ao pensar no cinema de Lloyd, a mesma metáfora é aplicável, e parece incrível que as suas comédias tenham caído no esquecimento, salvo de alguns dedicados cinéfilos.

Lloyd era diferente de Keaton e Chaplin. Lloyd era um homem comum, bem mais comum que Keaton, que em vários filmes era um desastrado pau de toda a obra, mesmo que no fim levasse a melhor. Lloyd era o americano vulgar, de cara simpática que enfrentava problemas do rotineiro dia-a-dia. Nas suas primeiras curtas para Hal Roach, que se tornaria um célebre produtor e realizador da comédia muda, Lloyd alcançou uma relativa fama com a personagem de Lonesome Luke, com a qual fez dezenas de curtas, mas é consensual que estava demasiado perto da fórmula de Chaplin. No final da década de 1910, Lloyd abandonou Lonesome Luke, adoptou os óculos (que não precisava, eram apenas um adereço que se tornou uma imagem de marca) e criou uma personalidade cinematográfica ainda mais “all-american”; uma personagem alta e magra, um eterno romântico com um sorriso aberto, ar de nerd e uma inocência e ingenuidade enganadoras, cujas aventuras encontravam a comédia nas coisas mais triviais. Não era preciso um pathos trágico como nas curtas de Chaplin. Nem era preciso uma grande set piece como nas de Keaton. Lloyd encontrava a sua comédia pelo caminho. No caminho para casa da sua namorada, por exemplo.

Para mim, a curta que define mais explicitamente a transição de Lloyd de um cómico acima do vulgar, mas não transcendental, da década de 1910, para um dos maiores cómicos do cinema mudo da década de 1920 (por vezes acredito que gosto mais de Lloyd do que de Keaton – sacrilégio!), é ‘Get Out and Get Under’, datada de 1920 e realizada por Hal Roach. Lloyd encontra a sua comédia praticamente com o recurso a um único elemento: um Ford T.

Os primeiros 5 segundos da curta apresentam dois intertítulos, praticamente os únicos de toda a curta (o que é óptimo em termos de interesse visual e fluidez da comédia). E são intertítulos que definem perfeitamente a comédia alegre de Lloyd. No primeiro lemos o resumo da história “The boy is in love with the girl… and the rest just happens”. Delicioso. No segundo lemos “There are six reasons why a young man has his picture taken. One is a girl. The other five don’t count”. Depois disto, é difícil entrar na curta sem um sorriso.

Na sequência inicial, Lloyd está a tentar tirar o seu retrato num fotógrafo. Torna-se difícil ficar quieto, e a coisa ainda se torna pior quando um rato lhe sobe pelas calças acima. Depois Lloyd mostra o retrato da mulher que ama ao fotógrafo. É o retrato da actriz Mildred Davis, que entrou nas mais importantes curtas de Lloyd e que, nada por acaso, foi casada com ele na vida real durante quase 50 anos, até à sua morte em 1969 (Lloyd faleceu dois anos depois, em 1971). O fotógrafo reconhece a mulher. Nessa manhã tirou-lhe uma foto pois ia-se casar! Lloyd desata a correr para a igreja e vê a mulher da sua vida a casar com outro homem. Triste, senta-se nos degraus da igreja e começa a arrancar pétalas de um malmequer. A imagem corta para o seu quarto e ele está a arrancar as penas da almofada… Estava a sonhar!

Lloyd acorda com o telefone a tocar. É a sua amada (quem mais, Mildred Davis de novo) que está à sua espera na companhia de teatro a que ambos pertencem. Lloyd está atrasado e a peça está quase a começar. Se não chegar a tempo, o seu rival (interpretado por Fred McPherson) irá ficar com o papel, e provavelmente com a miúda… O que se segue é uma incrível odisseia, em que Lloyd começa na garagem de sua casa, onde tenta arrancar o seu Ford T, e terminará, 20 minutos de comédia pura depois, no teatro. Pelo caminho acontece tudo e mais alguma coisa que poderia acontecer a uma pessoa que está com pressa e que tenta chegar o mais depressa possível ao seu destino. Quanto mais depressa, mais devagar. Na verdade, Lloyd não anda devagar, e a curta também não. Mas não há maneira de conseguir chegar ao teatro.

Os momentos de comédia são de topo. Nenhum está na curta para a encher. Todos eles são cuidadosamente construídos mas dados com uma naturalidade nata (e inata de Lloyd) que se tornam ainda mais engraçados. Lloyd não era o ‘stone face’ que era Buster Keaton, ou seja, não recebia tudo o que lhe acontecia com a mesma expressão desprovida de emoções, mas também é incrédulo a maior parte das vezes, e ingénuo em quase todas. De vez em quando, também desata a ‘mandar vir’, mas nunca o faz de forma malcriada, apenas humana, o que lhe dá ainda mais fascínio e capacidade de identificação do público com a personagem. Logo o momento em que quer tirar o carro da garagem provoca gargalhadas, e está rico em pormenores deliciosos (o sítio onde tem a chave da garagem escondida, por exemplo). Primeiro há as altercações com o desgraçado do vizinho, que só quer plantar as suas couves em paz no terreno ao lado. Depois há todas as nuances do carro, que se iniciam aqui e se vão esticando ao longo de toda a curta. O facto de o carro ir constantemente abaixo é uma delas. E recordemo-nos que este carro precisava que lhe dessem à manivela na parte da frente para poder arrancar. Perdi a conta à quantidade de vezes que Lloyd salta entre o lugar do condutor e a frente do carro (e muitas vezes com o próprio carro em andamento!).

Aliás, travar o carro não parece ser definitivamente com ele. A determinada altura, Lloyd deixa cair a mala com o seu guarda-roupa para a peça. Mas não pára o carro para a ir buscar. O carro mantém-se em andamento, e Lloyd salta para a rua, corre para trás, apanha a mala, e volta a correr para a frente, perseguindo o carro que por esta altura está a andar aos ‘esses’ sem condutor. Genial. Tal como é genial toda a interacção de Lloyd com um miudinho negro que o procura ajudar (ou desajudar como as crianças fazem) quando o carro vai outra vez a baixo. O melhor momento é quando o miúdo começa a saltar em cima do carro, abanando-o, e Lloyd, vendo o carro a balouçar, acha que este finalmente pegou…

Ao mesmo tempo, esta é também uma curta ousada. O Ford T era o meio de transporte mais popular na América, o carro por excelência, e não creio que alguma vez anteriormente alguém tenha gozado com ele desta maneira, e com as suas especificidades e excentricidades mecânicas. E que dizer da cena em que aparece um drogado a injectar-se numa esquina (estávamos em 1920 recorde-se)?! Pior ainda é Lloyd ir lá, roubar-lhe a seringa, e usá-la para resolver o problema no motor de “injecção”! Mesmo nas curtas subsequentes, e melhores, de Lloyd, não se viu esta ousadia social no seu humor, e isso torna ‘Get Out and Get Under’ bastante especial.

E rumo ao teatro segue Lloyd, em várias sequências em que o carro corre desenfreado, com Lloyd atrás, em cima, dos lados, estrada acima, estrada abaixo e até em cima de um vagão de um comboio! E quase no final, perseguido por motas da polícia por excesso de velocidade, ainda somos brindados com os fantásticos artifícios que Lloyd utiliza para ludibriar os agentes da autoridade. O melhor, quando Lloyd cobre o carro com uma tenda, o que não o impede de continuar a conduzir. Esta cena de perseguição trás à memória o mais belo estilo das curtas da Keystone e dos seus famosos Keystone Cops. E depois de isto tudo, e apesar de chegar ao teatro só no final da peça, Lloyd ainda fica com os créditos da performance e com a miúda. O último toque de classe (ou devo dizer, de comédia) desta curta. Como? Terá que ver a curta, caro leitor, para descobrir.

Realmente a única coisa que não se adequa a esta hilariante comédia de gozo puro ao Ford T é a tal sequência inicial sonhada. Nos padrões de agora, não se percebe muito a existência desta sequência, mas na altura era natural encher as curtas com vários arcos de comédia desgarrados. Aqui, infelizmente, o contraste é bastante grande, já que são 5 minutos comparados com os 20 minutos da aventura do Ford T. Mas eu gosto de pensar nisto como aquelas sequências iniciais dos filmes do James Bond, uma mini-aventura antes da aventura principal. A cena do fotógrafo é engraçadíssima, mas não gosto da forma triste como Lloyd observa os noivos a partir. É mais própria de Keaton ou Chaplin e não está no mesmo comprimento de onda da aventura que se seguirá, nem do seu desfecho alegre e engraçado. É uma leve nota de drama que surge cedo de mais e que no final da curta já ninguém se recordará, pois o que se segue é cheio de energia, ritmo, humor físico extremamente bem conseguido, e que mantém um nível bastante alto de piadas com qualidade por minuto.

Dizem que Keaton é que era o cómico das tecnologias da modernidade. E Chaplin arrecadaria esse galardão depois de ‘Modern Times’ (1936). Mas o que Lloyd faz em ‘Get Out and Get Under’ (1920) mais de uma década antes do filme de Chaplin ou de ‘A Nous la Liberte’ (1931) de René Clair, é pegar num elemento de modernidade, o primeiro grande carro, e sacar daí todas as possibilidades cómicas possíveis. Sim, tem alguns clichés da comédia, é certo. É uma curta em que Lloyd escorrega numa casca de banana (deixada pelo miúdo), em que muda o sinal de ‘rua fechada para obras’ para que os polícias sigam o caminho errado, e em que uma boca-de-incêndio começa a jorrar água. Mas também tem tudo o resto, de irreverente e original, necessário para criar uma grande curta-metragem do cinema mudo. Estes produtos não eram feitos para durar (um mês depois Lloyd já estaria a lançar uma nova curta) portanto é incrivelmente fascinante quando não só estas curtas, quer sejam de Lloyd ou Chaplin ou Keaton ou Stan Laurell, perduram até aos dias de hoje (e já passaram quase cem anos!), como se mantêm engraçadas e nada datadas, com uma quase inexplicável universalidade. A resposta na realidade é simples: a arte não tem época. E a boa comédia também não.

Depois desta curta, a carreira de Lloyd consolidou-se e são dos anos seguintes as suas obras mais memoráveis, tais como ‘Dr. Jack’ (1922), o seu filme mais famoso ‘Safety Last’ (1923), que inclui a espectacular escalada de um arranha-céus, ‘Girl Shy’ (1924), ‘Hot Water’ (1924), ‘The Freshman’ (1925), ‘For Heaven’s Sake’ (1926) ou o clássico ‘Speedy’ (1928) com a aparição de Babe Ruth, todos eles especiais à sua própria maneira e grandes obras de comédias. E ao contrário de Keaton, e da maior parte dos cómicos do mudo (incluindo numa fase inicial o próprio Chaplin, que só fez um filme realmente sonoro em 1940), Lloyd fez uma transição fantástica para o som. Antes da sua carreira estagnar e eventualmente terminar no final da década de 1930, Lloyd ainda nos brindou com fantásticas comédias sonoras, como ‘Movie Crazy’ (1932) ou ‘The Milky Way’ (1936).

‘Get Out and Get Under’ para mim é o início claro de um génio, de um génio injustamente poucas vezes reconhecido da comédia cinematográfica. Partilhar o pódio com Chaplin e Keaton é obra. Mas suplantá-los por vezes, numa cena, numa piada, é obra ainda maior. E arrumar Chaplin e Keaton a um canto no início do cinema sonoro é inaudito. Um verdadeiro mestre da comédia, que raramente escreveu ou realizou os filmes em que entrava, mas tinha uma enorme presença, apesar de ser algo tímido e extremamente nerd. Uma grande personagem e um grande cómico, que só queria fazer rir, mas que nunca se rebaixou para o poder fazer. E nós agradecemos e recordamos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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