Home » , , , » Interstellar

Interstellar

Ano: 2014

Realizador: Christopher Nolan

Actores principais: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain

Duração: 169 min

Crítica: Quando começo a escrever estas linhas, já passaram quase 48 horas desde que vi ‘Intersteller’, o mais recente filme de Christopher Nolan, no cinema. Tive pouco tempo para começar a escrever esta crítica, é verdade, mas também, sendo sincero, não tive muita vontade. Não por o filme ser mau, mas precisamente pelo oposto, por ser tão bom. Já não sei há quantos anos é que vi um filme pela primeira vez no cinema que mexeu tanto comigo emocionalmente. A meio do filme, a minha mulher sussurrou-me que eu tinha as mãos todas suadas. Eu respondi-lhe que o filme me estava a deixar nervoso, incomodado. Estava realmente a afectar-me as emoções, a forçar-me a pensar sobre coisas que geralmente não gosto de pensar (o significado da vida, o nosso lugar no universo, a morte), e ao mesmo tempo estava a prender-me. Por um lado estava a ficar tão debilitado emocionalmente que estava constantemente a olhar para o relógio, para saber quanto das quase três horas de duração do filme já tinham passado. Mas por outro, no meu intimo sabia que estava a assistir a um evento cinematográfico único, um filme magnifico, uma obra-prima, o melhor filme espacial desde ‘2001: A Space Odysssey’ (1968), e que aliás é, ou vai ser mais que certamente, o ‘2001’ do século XXI. Estava a assistir a um filme que se recusa constantemente a ser épico (seria tão fácil sê-lo) mas que é um monumento à arte cinematográfica, com uma profundidade gigantesca e com implicações muito além daquelas que são mostradas no ecrã. Um filme que será falado por gerações e gerações de cinéfilos, mas não só. Um filme que é o pico da carreira de Nolan, e que este só muito dificilmente poderá alguma vez superar. Um filme que não é para todos os estômagos, nem certamente para todos os públicos, mas que é um legado gigantesco à sétima arte.

Todos sabemos que Christopher Nolan é especial. Poucos foram os visionários realizadores americanos a surgir no século XXI, mas Nolan está acima deles todos. Tal como muitos mestres antes dele (Eastwood, Spielberg), Nolan conseguiu manter-se dentro do sistema de estúdios (no seu caso a Warner Brothers), conseguiu manter uma veia de comercialismo e acessibilidade nas suas produções, conseguiu ter inúmeros sucessos de bilheteira, mas manteve sempre a sua integridade artística, desafiando sempre o seu público e a si próprio, e superando-se de filme para filme com ideias originais que estimularam os limites da imaginação, quer a do público, quer a da indústria. A trilogia do Cavaleiro das Trevas (2005, 2008, 2012) obrigou a uma mudança radical de todos os filmes de super-heróis desde então. Quando ‘Inception’ foi lançado em 2010, chamei-lhe o filme americano com a ideia mais original dos últimos 20 anos.

Todos estamos fartos de filmes com as mesmas fórmulas e com as mesmas histórias. Com filmes como ‘Memento’ (2000) ou ‘Inception’ (2010), Nolan ofereceu ao público histórias que nunca tinham visto, em formatos que nunca tinham visto, e isso é a marca de um mestre. De vez em quando surge nos media um ‘novo Kubrick’. Disseram-no de Duncan Jones quando lançou ‘Moon’ (2009). Disseram-no ainda este ano de Jonathan Glazer quando lançou ‘Under the Skin’. Mas com ‘Interstellar’, se havia dúvidas, Nolan prova que é mais do que o novo Kubrick. É Nolan, um estilo e um visionário por direito próprio.

Um dos grandes trunfos de Nolan é o seu irmão, Jonathan Nolan, escritor de profissão e que desde cedo contribuiu para os argumentos do seu irmão realizador. E Jonathan Nolan parece ser obcecado por questões do tempo e do espaço, dos paradoxos da existência e da relatividade. Vimo-lo em ‘Memento’ e em ‘The Prestige’. Vimo-lo (achávamos nos) na sua forma mais perfeita e insuperável, em ‘Inception’. Mas com ‘Interstellar’ estas questões são dadas de uma forma ainda mais perfeita, ainda mais profunda, ainda mais insuperável. A pecar por alguma coisa, ‘Interstellar’ peca por ser, apesar de tudo, acessível, por ter eventos difíceis de compreender talvez, mas inequívocos (para não perder o seu público mundial), não atingindo assim o patamar artístico, emocional, mas ao mesmo tempo mais incompreensível de um ‘Solaris’ (1972) ou de um ‘2001’. Mas a ser o que é, para uma produção americana de estúdio, é difícil de arranjar um filme recente mais completo.

Esta decisão de tornar a história acessível tem a sua demonstração logo na primeira cena. O filme abre num estilo documental, com uns senhores idosos a descrever como era a Terra "na altura". Com esta decisão o público fica a saber uma das questões chave logo no início: a humanidade vai sobreviver. Agora se no Planeta Terra se noutro lugar qualquer não sabemos. Só vamos descobrir no final do filme, mas mostrar logo assim o ouro ao bandido foi um pequeno turn off. No entanto, com o desenrolar do filme e do seu material pesado, compreendi que termos esta garantia no início não é assim tão mau quanto parece. Permite termos um ‘pensamento seguro’ quando os eventos se começam a adensar. Impede também que o público saia da sala antes das 2h45min de duração. Se não houvesse esta garantia no início, não sei se não haveria muitas desistências a meio. De novo, não por o filme ser mau, lento ou insuportável, mas simplesmente por ser uma montanha russa emocional extremamente difícil de gerir. Uma montanha russa real demora dois ou três minutos. Temos o final em vista mal começamos. Já este filme são 3 horas de montanha russa, no pico da emoção, com os sentimentos sempre à flor da pele. É complicado de gerir pois é demasiado tempo à beira do precipício. Mas quando chegamos ao final descobrimos que foi extremamente compensador, e não nos importamos de repetir, um dia mais tarde.

Na primeira hora somos introduzidos ao planeta Terra do futuro próximo e à personagem de Cooper (Matthew McConaughey com a intensidade simpática de sempre). De uma forma inteligente e subtil (sem voz off, sem diálogos forçados) percebemos que as alterações climáticas estão a envolver a Terra cada vez mais numa cortina de fumo. A tecnologia tornou-se um bem desnecessário e a falta de comida fez com que a maior parte das pessoas se tornasse agricultor. Mesmo assim, muitos dos produtos já não crescem. Cooper é um ex-piloto da NASA que agora é um desses agricultores. Viúvo, a sua mulher vitima da falta de equipamentos médicos, vive com os seus dois filhos e o sogro (John Lithgow) numa pequena quinta, lutando para sobreviver. Cooper ainda se agarra à tecnologia, à esperança da sobrevivência pela invenção, ao contrário dos ‘poderes institucionais’ que estão a reescrever a História, negando as descobertas científicas, e empurrando as crianças para os cursos de agricultura. Mas como as coisas estão, a geração dos filhos de Cooper não tem muito futuro, e ele sabe disso. A única coisa que destoa nesta visão extremamente realista são os fenómenos aparentemente paranormais no quarto da sua inconformada filha. Ela insiste que tem um fantasma no quarto, que lhe está a enviar mensagens através da estante dos livros. Um dia, por acaso, Cooper detecta um padrão nessa estante. São umas coordenadas. Com a filha vai investigar. Descobre, nessa localização, o ultimo reduto da NASA.

Aí, liderados por Michael Caine, os americanos descobriram à beira de Saturno um buraco negro que permite o acesso a outras galáxias. Enviaram umas missões suicidas, as Lazarus, para explorar os planetas do outro lado desse buraco negro. Não se sabe se esses astronautas sobreviveram ou não, mas alguns ainda enviam sinais a sinalizar que alguns planetas que descobriram poderão ser habitáveis para suster os humanos. Sem esperança, Caine quer enviar uma última missão, para seguir as pisadas desses astronautas e confirmar se algum desses três planetas promissores poderá ser o novo lar da Humanidade. A Cooper é oferecido o papel de piloto e líder da expedição, ciente de que, pelas leis da relatividade, poderá encontrar os seus filhos idosos (mais velhos do que ele próprio) quando regressar. Mas é o único piloto disponível, e pelo bem da humanidade aceita ir, liderando uma tripulação que conta também com Brand, a filha da personagem de Caine, interpretada por Anne Hathaway na forma excessivamente dramática para a qual agora anda sempre a resvalar.

A partir dai, o filme entra numa gigantesca fase de exploração espacial. O espaço é negro, denso, vazio, e demora muito tempo a ser percorrido. A exploração espacial é uma ciência de enorme paciência e os astronautas têm de demonstrar uma enorme força e uma enorme resiliência. Assistimos a tudo isso, genialmente, como só ‘2001' o havia demonstrado anteriormente no cinema. Ultrapassado o buraco negro, com falta de combustível e com os anos na Terra a passar (pelas leis da relatividade cada dia deles corresponde a vários na Terra), os nossos heróis têm que decidir que planeta alcançar primeiro, antes que seja tarde de mais, para eles próprios e para os habitantes do planeta Terra. E nós, espectadores, sentimos o peso desse dever, o peso dessa passagem do tempo, principalmente quando o filme mostra as mensagens vídeo que vão recebendo da Terra com alguns anos de atraso. Para eles, apenas um par de anos passou. Mas através dos vídeos Cooper vê os seus filhos a crescer, a sua filha a tornar-se adulta (Jessica Chastain), os seus netos a nascer, os seus conhecidos a morrer, a Terra a abafar-se numa cortina de fumo… E até os próprios tripulantes da nave envelhecem a tempos diferentes, quando se separam no espaço, o que é outra visão assombrosa do filme.

Contra o tempo, contra o vazio do espaço, e contra eles próprios e as suas emoções, difíceis de lidar, têm ainda de tentar encontrar um planeta habitável, para salvar a raça humana. Em cada planeta há surpresas e revelações, há sacrifícios que têm de ser feitos, à medida que lutam para cumprir a sua missão e poder regressar a casa…. E nas profundezas do espaço, McConaughey ainda vai ter o seu momento '2001', em que alguns segredos da existência, do cosmos, poderão ser revelados. E há ainda o mistério da estante, que despoletou tudo…

Circulam agora pelas internets inúmeros artigos que se referem à pouca validade cientifica do filme de Nolan. Nunca acreditei por um momento que o debitar cientifico do filme fosse verdadeiro, mas sabendo com certeza que não o é não me incomoda muito. Já critiquei aqui muitos filmes, de 'Transcendence' a 'Pacific Rim', acusando-os de ter jargão cientifico patético e pouco credível. Se os filmes se apoiarem nesse jargão, nessas teorias, para existirem e subsistirem, então isso é mau. Da mesma forma como uma biografia dos famosos é má se se basear na fofoca e nos mitos sobre a pessoa e não na pessoa em si, e nas suas emoções (Hithcock, 2012, por exemplo).  No caso de 'Intersteller', o jargão cientifico é apenas um aparte, e pouco influencia o denso estudo das personagens e do significado da vida. Se as teorias sobre a relatividade e os buracos negros estão erradas, então paciência. Em 'Star Trek' as coisas também não fazem muito sentido, mas o que é relevante é o que os nossos heróis fazem quando chegam às galáxias distantes. E nesse sentido, 'Intersteller' é imaculado.

Precisamente por este motivo, para mim o pior do filme ocorre quando, após uma hora no espaço, o filme decide começar a dar paralelamente os eventos na Terra, onde a filha de Cooper, agora adulta, trabalha na NASA, dedicando-se a tentar resolver a equação da gravidade que Caine, apesar de uma vida inteira, nunca conseguiu. Esta é a pior ideia do filme, cientifica e não só. É uma tensãozinha que empalidece completamente, quando comparada com os fortes dramas que estão a ser vividos pelos astronautas a anos-luz de distância. Do mesmo modo, o clímax emocional e existencialista, em que alguns pormenores mais estranhos da trama são esclarecidos, é demasiado limpinho para um filme destes, ao qual se pedia maior ambiguidade. Daí também não ter apreciado quer a introdução de um vilão misterioso (um dos segredos mais bem guardados do filme, inclusive o actor que o interpreta) - um filme destes não precisava disso - como, meia hora mais tarde, o seu final, digamos, mais Hollywoodesco. Ou melhor, apreciei, mas acho que Nolan podia ter sido mais ambicioso. Mas aí provavelmente perderia publico. Já tinha sido suficientemente ambicioso nas duas horas anteriores para os padrões americanos, e nos dias de hoje, um filme de topo não pode acabar como acabou '2001', se pretende fazer um bilião de dólares na bilheteira.

Na sua primeira hora 'Interestellar' aborda de uma forma densa e realista o que poderá ser o futuro da Terra daqui a 30 anos, o que é assustador e que mexe com qualquer um. Não há cá tecnologias de ponta, nem regimes totalitários, nem o espectro oposto, estilo 'Planeta dos Macacos' ou o final de 'Transcendence'. O retrato é tão forte por ser tão simples, e tão, quase, inevitável, e por isso é que o filme me começou por afectar tanto. Na sua segunda hora, 'Interestellar' é um soberbo filme sobre a exploração espacial, gerindo tensão e emoção, sensação de perigo e esperança, tendo cenas para agradar às massas mas mantendo a sua integridade artística, e tornando-se, muito subtilmente, um hino à humanidade. Na terceira hora, a sua tentativa de emular os grandes filmes espaciais, principalmente '2001', mas da perspectiva americana, de criar tensões desnecessárias (como o vilão), e de ter um final inequívoco, poderão ser as suas maiores falhas estruturais, mas não são falhas muito significativas quando olhamos para o todo.

Em retrospectiva, parece agora patético a importância que se deu a 'Gravity' no ano passado. Esteve a uma nesga de ganhar Óscar de Melhor Filme (como é possível?!) e ganhou Melhor Realizador. Ora Nolan nunca foi nomeado sequer para Melhor Realizador, e 'Inception' perdeu Melhor Filme para, imagine-se 'King's Speech'. Se alguma vez Nolan mereceu o Óscar, então este é o ano. Não se fez na América em 2014 um filme melhor que 'Interestellar', contam-se pelos dedos os filmes melhores que se fizeram na última década, e a forma como está realizado é soberba. Não tem aqueles planos bonitos de 'Gravidade', mas a aposta aqui não está na fotografia nem nos efeitos especiais. A aposta está nas actuações íntimas, nas emoções, na mensagem grandiosa. Como disse, 'Interestellar' nunca é épico, nem deixa que seja o espaço, os seus mistérios e a sua beleza, a dominar o filme. Mas é grandioso. É monumental. É aquilo que o cinema americano raramente foi no século XXI; uma mistura de arte com engenho com blockbuster com mestria técnica. O foco não é o espaço nem a ficção científica. São, sempre, os humanos, as personagens. E por todos estes motivos fica com o espectador longos dias depois ter sido visto.

Quando sai da sala de cinema estava satisfeito por vários motivos. Primeiro porque consegui ir lá fora respirar ar fresco e desanuviar um bocado. Segundo porque o filme é fabuloso, e apesar de criticar o final, a verdade é que dá uma sensação de alívio e esperança que equilibra o início intenso. Terceiro porque Nolan conseguiu ir ainda mais além, o que parecia impossível. A partir de agora, a ficção científica vai passar a ser julgada por 'Intersteller', como foi um dia revolucionada por '2001'. Quarto porque o cinema americano provou que ainda pode estar vivo e que ainda tem criadores originais, mesmo que inseridos nos estúdios. Quinto porque, se 'Interestellar' ganhar Óscar de Melhor Filme, pela primeira vez em anos será completamente justificado. E sexto, porque agora tenho a desculpa ideal para encher-me, durante os próximos quinze dias, de comédias ligeiras. Sem brincadeira, depois de 'Interestellar' não me quero aproximar de um drama durante uns tempos. Mexeu tanto comigo a esse ponto. É esse o poder do bom cinema e é esse o poder de 'Interstellar'. Posto isto, Jerry Lewis, irmãos Marx e Austin Powers, aqui vou eu.

1 comentários:

  1. Os disparates e fantasias a nível científico presentes neste filme são tantos que foi com sacrifício que o vi até ao fim.

    ResponderEliminar

Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

Vídeo do dia

Citação do dia

Top 10 Posts mais lidos de sempre

Com tecnologia do Blogger.

Read in your language

No facebook

Mais lido da semana

The Boss Baby

Ano: 2017 Realizador:  Tom McGrath Actores principais (voz): Alec Baldwin, Steve Buscemi, Jimmy Kimmel Duração: 97 min Crític...

Quem escreve

Quem escreve
Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

Visualizações

Seguidores Blogger

Seguidores Google+

 
Copyright © 2015 Eu Sou Cinema. Blogger Templates