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Death Takes a Holiday

Ano: 1934

Realizador: Mitchell Leisen

Actores principais: Fredric March, Evelyn Venable, Guy Standing

Duração: 79 min

Crítica: Hollywood sempre adorou os seus remakes, e por vezes é muito preguiçosa a fazê-los, mas nas duas últimas décadas do século XX, devido a uma moda de revivalismo dos clássicos, surgiu um punhado de remakes muito interessante. Os realizadores, argumentistas e produtores que desabrocharam nas décadas de 1970/1980 foram crianças nos anos 1950, cresceram a ver na televisão os filmes das duas décadas anteriores, e por isso não se importaram nada de impregnar os seus filmes com essa cultura, com uma nostalgia simpática e respeitosa. As bandas sonoras encheram-se dos standards (Unchained Melody em ‘Ghost’, por exemplo), muitos filmes passaram-se, não nos anos 1980, mas nos anos 1950 (‘Stand by Me’, ‘Back to the Future’, ‘Peggy Sue Got Married’), e uma panóplia de filmes menos recordados das décadas de ouro de Hollywood foram refeitos. 

Se os clássicos se estavam a perder, a geração de Spielberg, de Scorsese, de Allen, trouxe-os de volta. Ninguém se atreve a refazer ‘Gone with the Wind’ ou ‘The Wizard of Oz’ ou ‘Casablanca’ (ou melhor, quase ninguém… ver ‘Havana’ ou ‘Barb Wire’), mas outros filmes menos famosos não são tratados com tanta reverência. Felizmente, se alguma vez os remakes foram tratados com respeito foi nesta altura. As adaptações não se limitaram a aumentar a qualidade de produção, a exagerar na emoção, e a triturar o argumento para melhor compreensão do público moderno. Não. Foram remakes mais sérios, mais dignos, inspirados no filme original, sim, mas com uma qualidade própria que os tornou diferentes e únicos (como o ‘Ben-Hur de 1959 está para o de 1925). Já em 1978 Warren Beatty tinha refeito ‘Here Comes Mr. Jordan’ (1941) como ‘Heaven can Wait’. Spielberg converteu ‘A Guy Named Joe’ (1943) em ‘Always’ (1989). E em plenos anos noventa, Martin Brest fez o espectacular ‘Meet Joe Black’, inspirado no filme de 1934, ‘Death Takes a Holiday’. 

Hoje ‘Death Takes a Holiday’ é praticamente um filme desconhecido. Não fosse o seu famoso e épico remake, seria pouco mais que uma estatística do estúdio em que foi feito (Paramount), do seu ilustre desconhecido realizador (Mitchell Leisen), e do seu famoso actor principal (Fredric March). No início da década de 1930, a Paramount era um dos cinco grandes estúdios de Hollywood e tinha grandes produções, mas sinceramente não sei se esta era uma dessas. ‘Death Takes a Holiday’ tem apenas 79 minutos e é um filme quase rotineiro em termos de cenários, actores secundários e mecânica argumental e visual. Aliás, acho que nem o estúdio parece ter dado grande importância à posteridade do filme, já que pertence ao famoso pacote de filmes cujos direitos venderam à Universal durante os anos 1950, pois este estúdio precisava de stock para alimentar o seu próprio canal de televisão. Hoje em dia portanto, ‘Death Takes a Holiday’ nem sequer pertence ao estúdio em que foi feito.

O realizador do filme era também praticamente um estreante. Mitchell Leisen, actor falhado do cinema mudo mas que ganhou notoriedade nos departamentos de guarda-roupa e direcção artística antes de se tornar realizador, estreara-se na realização apenas um ano antes (Cradle Song, 1933), e a sua carreira de duas décadas incluiu muitos filmes, mas poucos ou nenhuns que passaram à posteridade. Talvez o seu pico tenha sido ter dirigido Olivia de Havilland na sua performance vencedora de Óscar em ‘To Each His Own’ (1946). Já à frente do elenco estava Fredric March. Ainda longe do seu período mais memorável, March já era contudo um nome reconhecível, dividindo-se entre ser o galã romântico e o character actor. Aliás, já tinha vencido o primeiro dos seus dois Óscares em 1931, ao interpretar o papel duplo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde no filme do mesmo nome de Rouben Mamoulian. March já se estava a afirmar como um trunfo do estúdio, e se talvez alguns dos filmes em que entrou por esta altura não estavam propriamente ao seu nível, depois do Óscar as personagens mais ‘fora’ e mais exigentes naturalmente pediam a sua interpretação. E a Morte, a própria Morte, caía direitinha nesse tipo de personagens que podiam capitalizar na dualidade extraordinária que March já tinha demonstrado que conseguia atingir na sua interpretação.

‘Death Takes a Holiday’, tal como o próprio nome indica, conta a história do fim-de-semana em que a Morte decidiu tirar uma férias e viver junto dos humanos. Mas se a premissa é muito interessante (e em ‘Meet Joe Black’ é brilhantemente explorada), em ‘Death Takes a Holiday’ nem tanto. Como muitos filmes no despertar do sonoro, no início da década de 1930, o filme baseia-se numa peça de teatro (a escrita de argumentos de diálogos ainda não estava completamente limada). Neste caso, a peça original é italiana, intitulada "La Morte in vacanza" e escrita por Alberto Casella. O filme mantém o mesmo enquadramento, passando-se em Itália, no mundo despreocupado da nobreza e da realeza, onde todos têm um título pomposo, onde a riqueza abunda e os dias são passados nos casinos, nas corridas de cavalos e em festas. Porque a Morte decide aparecer precisamente a estas pessoas é para mim um completo mistério, já que as personagens deste filme são praticamente todas desinteressantes, pouco profundas e fúteis.

O filme começa por nos mostrar um destes grupos de pessoas a regressar a casa depois de uma noite de festa, em dois carros a alta velocidade. O grupo inclui o patriarca, o Duque Lambert (interpretado por Guy Standing), os seus filhos, os seus amigos (onde se incluem ilustres secundários de estúdio como o grande Henry Travers – o anjo de ‘It’s a Wonderful Life’, 1946), e um conjunto de jovens socialites. Destas a que tem mais cabeça (e interesse) é Grazia, interpretada por Evelyn Venable, que debita algumas frases existencialistas algo lamechas durante a viagem de carro e é a primeira que se apercebe de uma “sombra na noite”, que os segue. Mas os outros pouco se importam, e a sua despreocupação é tão grande que a alta velocidade quase matam um pobre camponês (o único "não rico" que aparece no filme) que se atravessa no seu caminho.

Chegados a casa todos se retiram para dormir, tendo ainda mais umas conversas pouco interessantes sobre a vida e sobra a “sombra fria” que todos sentem. O dono de casa fica a fechar as janelas e é aí que a Morte lhe aparece, revelando o seu plano. Quer viver três dias na Terra, entre eles, para perceber as emoções dos humanos e porque tanto o temem. Neste momento só ouvimos a voz de March, já que a morte está caracterizada como uma grande sombra transparente, um ser de mais de dois metros de manto e o clássico capuz. O efeito visual é belo e constitui o pormenor de realização mais interessante de todo o filme; o único que não é chapa 5. Pela negativa, surpreendem também dois elementos nesta cena. Primeiro a total falta de ligação entre a Morte e o sujeito que escolhe para a sua experiência. Nada a liga ao Duque cuja casa visita. E, ao contrário do que acontece com Anthony Hopkins em ‘Meet Joe Black’, este nem sequer está a morrer. É simplesmente um italiano rico a quem a morte decidiu aparecer. Sinceramente, tira um pouco da piada à coisa, pois perde-se o motivo. E segundo a falta de surpresa do próprio Duque. Depois do choque inicial, aceita placidamente o estratagema da Morte e nem sequer se questiona se não estará a sonhar. Esta falta de emoção é transversal a todas as personagens neste filme, quando descobrem, de uma forma ou de outra, o segredo de March.

Momentos depois desta cena a dois, March, agora perfeitamente visível, chega a casa do Duque no papel de um príncipe de Leste, o Príncipe Sirki, munido de sotaque eslavo, monóculo e tudo o resto. Seguem-se três dias em que ele interage com os membros da casa, partilhando a sua vida despreocupada e procurando descobrir os prazeres da vida e do amor. Quanto ao amor, primeiro busca-o na futilidade das socialites, mas depois, desde que vê Grazia, finalmente percebe a paixão dos humanos, e procura abraçar o amor verdadeiro e misterioso.

Em termos de argumento, quer relativamente aos diálogos, quer relativamente às emoções, o filme é pouco interessante. As conversas filosóficas que o Príncipe Sirki vai tendo com as outras personagens sobre a vida e a morte são demasiado ocas e pouco se afastam do cliché. E inúmeras vezes só falta dizer abertamente quem é. As suas constantes analogias e pouco mascarados trocadilhos relativamente aos mistérios da morte e ao objectivo da vida só escapam às personagens do filme pois elas não sabem, como o público sabe, que Sirki é na realidade a Morte. A vida destas personagens é frívola e pouco imaginativa, portanto provando vinho em festas, experimentando jogar roleta no casino, apostando num cavalo, ou sentando-se num banco de jardim com uma socialite que quer seduzi-lo pois acha que ele é um príncipe rico, a Morte vai ter igualmente experiências frívolas e pouco imaginativas, que tornam o filme frívolo e pouco imaginativo.

Os alicerces do filme procuram estar menos na forma como a Morte passa o dia, mas mais como ela vai aprendendo novas sensações e experimentando a emoção da descoberta. Mas que emoções aprende ele realmente? Poucas, a não ser que contemos as emoções do casino ou do namorico com mulheres interesseiras. Óbvio que pouco tempo depois isto o enfada. Óbvio. Pois a vida da maior parte dos mortais não é isto! Talvez na peça original houvesse alguma crítica social ao estilo de vida desta aristocracia italiana. Talvez. Mas neste filme tudo isso se perde. E não é com surpresa que a Morte afasta todas estas frivolidades e fica seduzido apenas por Grazia, mais delicada, menos fútil. Se não fosse ela, a única hipótese era apaixonar-se pela personagem de Henry Travers! Não há mais ninguém de jeito neste filme! Ao mesmo tempo, de uma forma estranha desde cedo se demarca que Grazia também está atraída por Sirki, e que, para além disso, parece compreendê-lo e saber quem ele na realidade é. Como? Não se percebe. Talvez o filme nos queira dizer que é esse o poder do amor verdadeiro. É um pouco rebuscado mas até se pode aceitar. Vale que da interacção entre os dois surjam os momentos mais memoráveis do filme, embora mantenham-se impregnados de demasiado embelezamento argumental, transcendentes diálogos poéticos que soam ocos, artificiais e a maior parte completamente descabidos.

Quando a hora para terminar os três dias de férias da Morte se aproximam, e Grazia sente que quer "partir com ele para o seu reino", não sabendo que isso significa ter que morrer, o filme chega ao seu principal dilema emocional. O Duque, numa das cenas mais patéticas do filme, conta aos outros que “ele é a Morte!”, e após o choque imediato, nenhum deles pestaneja, e nenhum deles acusa o Duque de estar maluquinho. Em vez disso, querem todos convencer Grazia a não ir com a Morte para o seu “reino”. A escolha que quer ela, quer a Morte terão de fazer: preservar o seu amor (o que significa um deles fazer um sacrifício supremo), ou separarem-se para sempre, constitui o clímax do filme. Acaba por ser, a meu ver, uma escolha, e um desfecho, surpreendentes, outro momento agradável num filme que não o é assim tanto, levando-o a um final interessante e que até apreciei.

‘Death Takes a Holliday’ acaba por ser um filme pouco profundo e não muito trabalhado. Tirando a sequência inicial, na estrada, e a sequência da Morte a percorrer a boa vida nos casinos e no hipódromo (uma montagem a meio do filme), todo o resto do filme se passa em três divisões da mansão do Duque; a sala de estar, a sala de jantar e o jardim, claramente um cenário de estúdio (divisões estas onde provavelmente se passa toda a acção da peça). Não só é isto muito redutor, como o elevado número de personagens (os convidados do fim de semana) com quem a Morte interage na sua estadia, não oferecem nada de novo. Inúmeras são repetidas em termos de perfil, e as conversas entre elas e a Morte andam maioritariamente em círculo. Nem o dono da casa, o Duque, é assim tão relevante, nem no início nem no final, e as poucas notas diferenciadoras são oferecidas ou por Henry Travers ou pela Grazia de Evelyn Venable. Esta é das poucas personagens fascinantes da película, embora a sua voz arrastada e adormecida, auxiliada pelos seus diálogos existencialistas e sonhadores, dão-lhe uma qualidade sedada e indecisa que não abona muito em favor da personagem. (E já agora, se alguma vez fizerem um filme sobre ela, Jennifer Lawrence é a escolha ideal. As semelhanças entre ambas saltam à vista em inúmeros planos deste filme). Já March está melhor como a Morte do que propriamente como o Príncipe. Como este último, poucas vezes consegue mostrar a sua dualidade, a não ser perto do final. O seu sotaque primeiro estranha depois entranha e o seu sorriso de descoberta é cativante. Contudo ele também está preso não só numa casa e num conjunto de personagens convencionais, como num argumento convencional.

O filme parte de um conceito bastante interessante, mas as escolhas de enquadramento da acção não são as melhores, e a própria aventura da Morte nos seus três dias na Terra também não, mais uma vez devido ao contexto em que decidiu descer à Terra (a morte verdadeira nunca tomaria essa escolha, arrisco-me a dizer). Contudo, a moral final do filme, e o seu desenlace (o último plano é visualmente brilhante), salvam um pouco a cara de um produto arrastado e repetitivo, e com uma realização muito pouco dinâmica. Este é um produto típico do início dos anos 1930, com muita conversa e pouco sumo, uma ideia que germinou mas não cresceu, um filme sustento em personagens e diálogos, mas que nem uns nem outros são interessantes ou cativantes. 

Por definição não aprecio muito o remake. Mas por vezes há remakes tão bons que eclipsam completamente o filme original, ou que pelo menos ficam taco-a-taco com ele. A cópia nunca é bem-vinda. A venda aos valores comerciais da época contemporânea também não. Mas a inspiração para criar um produto brilhante por mérito próprio já merece ser reconhecida. Ambos os Ben-Hurs (1925 e 1959) são filmes magníficos, e cada um vale por si sem dever nada ao outro. Já as diferenças entre ‘Meet Joe Black’ e ‘Death Takes a Holliday’ são abismais, mesmo tendo em conta as mudanças em termos de forma de fazer cinema nos 60 anos que os separam. As lacunas emocionais e argumentais de ‘Death Takes a Holliday’ são todas colmatadas no seu remake. Enquanto o filme dos anos 1930 é uma rotineira adaptação de uma peça de teatro, com um argumento intelectualmente ambicioso, mas na realidade com pouca imaginação e emocionalmente infantil, já o filme dos anos 1990 pode ser descrito com uma única palavra: “arte”. ‘Meet Joe Black’ é uma obra-prima. ‘Death Takes a Holliday’ é um esquecido filme de estúdio da época de ouro de Hollywood, uma obra menor de um estúdio que deu muito melhor, e com um actor principal que brilhou muito mais noutros papéis. Filme e actor conseguem brilhar aqui apenas esporadicamente, e é apenas nesses momentos que ‘Death Takes a Holiday’ vale a pena.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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