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Cyrano de Bergerac

Ano: 1990

Realizador: Jean-Paul Rappeneau

Actores principais: Gérard Depardieu, Anne Brochet, Vincent Perez

Duração: 137 min

Crítica: Confesso que o meu conhecimento de cinema francês pré-1970 é bastante superior ao pós-1970, e se pensarmos nas últimas duas décadas então o meu conhecimento ainda é menor. Contudo, do meu humilde ponto de vista (e baseado apenas nos filmes que vi, claro está), a adaptação de 1990 de ‘Cyrano de Bergerac’ é o melhor filme francês do último quarto de século. Artístico ou comercial, feito pelos velhos talentos da Nouvelle Vague ou por novos nomes que França, felizmente, vai sempre encontrando, a verdade é que nenhum filme que vi chega perto da perfeição visual, artística e argumental desta adaptação da famosa peça de Edmond Rostand, datada de 1897. É, muito simplesmente, um filme belíssimo, tocante e extremamente bem filmado e actuado.

Esta não é a primeira adaptação da peça ‘Cyrano de Bergerac’. Aliás, os senhores de Hollywood tinham feito a sua grande adaptação quarenta anos antes, em 1950, com enorme sucesso. Não só ganhou o Óscar de Melhor Actor (José Ferrer numa grande performance, digna de um grande papel), como é um filme que possui uma excelente tradução do texto, enorme ritmo e algumas surpresas agradáveis, como uma personagem de Christian mais autoconsciente e menos idiota. Mesmo assim é mais teatral e menos filme que outras versões (incluindo a de 1990), mais fanfarrona e menos dramática (enfatiza demasiado a artificialidade de Cyrano) e é mais dedicada aos textos do que propriamente às emoções.

A adaptação francesa de 1990, realizada por Jean-Paul Rappeneau (cuja parca obra é para mim um total mistério, com excepção deste filme) para além de dar uma qualidade mais fílmica à peça, consegue oferecer ao seu público algo que nem a adaptação americana de 1950, nem nenhuma adaptação americana até ao fim dos tempos poderá oferecer. Concretamente, os diálogos originais na língua francesa, que fazem com que todo o filme seja uma épica declamação em verso. E mesmo que o espectador não perceba francês e esteja dependente das legendas, a infinita beleza da melodia das rimas originais irá entranhar-se nele como a mais perfeita das árias. E não só é este atributo da banda sonora uma delícia para o ouvido de qualquer espectador, que fica seduzido e hipnotizado, como a poesia é declarada com tanto ardor, com tanta paixão pelos actores (principalmente Gérard Depardieu como Bergerac, que domina todas as cenas), que cada linha, cada palavra, comove.

‘Cyrano de Bergerac’ é uma das definitivas histórias de amor da literatura, como ‘Tristão e Isolda’, como ‘Romeu e Julieta’. Aliás, não parece ser por acaso que uma ou duas cenas de ‘Cyrano de Bergerac’ façam ecoar a peça de Shakespeare, sendo a “balcony scene” a referência mais óbvia. Mas ao mesmo tempo, Cyrano é um dos heróis mais invulgares destas histórias de amor. É extremamente loquaz e é extremamente valente, mas não é, nem de perto nem de longe, extremamente belo, nem um grande galã, nem o principal objecto de afecto de Roxane, a bela e delicada heroína desta história.

Pertencente ao exército de sua majestade, reputado espadachim, reconhecido poeta, brigão por excelência, Cyrano é um homem completo. Ao mesmo tempo fanfarrão e extremamente humano, tem como principal característica física um gigantesco nariz, que se torna objecto de escárnio fácil por aqueles que não o conhecem e julgam pelas aparências. Mas insultar o nariz de Cyrano é um grande erro. Logo na primeira cena, outro insuspeito fanfarrão fá-lo, o que permite que Cyrano o elucide (e ao público) dos seus brilhantes dotes de retórica e de espadachim. Perante um início tão soberbo, o público aplaude internamente, e passados cinco minutos de filme já está completamente fascinado com a personagem, com a beleza dos seus diálogos e com a masculinidade da interpretação de Depardieu. Verdade que a peça está extremamente bem escrita, por isso em teoria é muito fácil prender o espectador. Isto é, se o Cyrano for interpretado por um actor captivante e talentoso. Ferrer fê-lo com uma mão atrás das costas no filme dos anos 1950. Depardieu hipnotiza igualmente o seu público com mestria, numa das melhores performances da sua carreira.

Infelizmente para si, Cyrano está apaixonado pela sua prima (nunca é explicado em quantos graus é prima, mas esperemos que sejam muitos), a belíssima Roxane, interpretada por Anne Brochet. Na minha opinião, Brochet não inicia o filme propriamente bela, nem propriamente cativante, mas à medida que o filme progride, e talvez seduzidos pela paixão das palavras de Cyrano, ela também progride em beleza e fascínio. Um dia, Roxane pede para desabafar com Cyrano, pois ama alguém e não é correspondida. Na sua habitual impetuosidade e interpretando-a mal, Cyrano pensa que a prima está a falar dele próprio. Mas na belíssima e engraçada cena na padaria, Cyrano engole os seus sentimentos ao descobrir que a prima ama um jovem soldado do seu regimento, Christian (interpretado por Vincent Perez). Pior, esta é uma daquelas paixões ‘de novela’. Roxane nunca na vida falou com Christian, mas ama-o, ou diz que o ama, só pelo seu aspecto físico. Cyrano fica devastado e só não trocida Christian na primeira oportunidade pois o seu amor por Roxane, e o seu desejo para que ela seja feliz, é mais forte. Por isso mesmo, contra o seu melhor julgamento, e contra a sua natureza (o que surpreende quem bem o conhece), Cyrano começa a proteger o rapaz. E quando descobre que Christian é extremamente fútil, e muito pouco inteligente (nesta adaptação é-o muito mais do que na dos anos 1950), e temendo que isso quebre o coração da sua amada, Cyrano começa a escrever cartas em nome de Christian. Christian aceita de bom grado a substituição, cativado pela perspectiva de seduzir Roxane, e esta, inspirada pelas cartas que lhe vão chegando, fica cada vez mais apaixonada por este amor idílico.

Na famoso cena da varanda, homenageando ‘Romeu e Julieta’, Christian, num dos poucos momentos em que demonstra personalidade própria, quer cortejar Roxane por si. Mas quando a sua serenata, por baixo da varanda de Roxane e escondido pelo arvoredo e pela noite, corre mal pois ele não é propriamente o melhor orador, Cyrano surge e, imitando a voz de Christian, faz uma das maiores declarações de amor que o cinema já viu. Isto faz com que Roxane capitule completamente a Christian, incluindo deixá-lo subir para uma noite de paixão. Mas antes que essa paixão seja consumada, ocorrem uma série de eventos, despoletados pela declaração da guerra. Nessa mesma noite, sob a protecção de Cyrano, e sem praticamente terem trocado uma palavra entre si, Christian e Roxane tornam-se marido e mulher. Antes de partirem para a guerra Roxane faz Cyrano prometer que irá proteger Christian e que o forçará a escrever uma carta todos os dias. É uma promessa que Cyrano sabe que poderá cumprir.

Quando a guerra se adensa, e mesmo nas condições mais difíceis, Cyrano continua a escrever, em nome de Christian, uma carta todos os dias, cada vez mais belas, cada vez mais apaixonadas, mantendo a ilusão, aconteça o que acontecer. E tudo o que pode acontecer, neste filme acontece. Loucamente apaixonada, Roxane vai até ao campo de batalha com o intuito de declarar a Christian que o ama agora, não pelo seu aspecto físico, mas, total e completamente, pela sua alma poética. Já Christian, que já se convenceu que Roxane ama na realidade as palavras de Cyrano, aceita uma missão suicida. E Cyrano, cujo engodo escalou a proporções incontroláveis, ainda tenta gerir os eventos, procurando segurar tudo por um fio, sem quebrar nem o coração nem a ilusão de Roxane, e tentando que Christian não tome nenhuma decisão trágica. Literalmente no epicentro da guerra, estas três personagens vão colidir no clímax do filme, que irá deixar cicatrizes profundas em todos eles, durante vários anos (a última parte do filme ocorre 14 anos depois da batalha).

Toda a história de amor é magnífica. Sim, já vimos várias vezes a linha argumental do homem que ama uma mulher sem ela saber, e que até a ajuda a conquistar outro homem. Mas Cyrano é o símbolo de todos esses homens, é o pai de todas essas histórias. Nesta peça, brilhantemente transposta para o grande ecrã, sentimos fortemente todas essas emoções; sentimos a tragédia, a ironia, a beleza, e tudo envolto nas poesias mais delicadas e mais apaixonadas que alguma vez fizeram parte de um filme. Ver este filme é uma maravilha. Ouvir este filme é uma delícia. E sem nunca ser excessivamente dramático (pode ter argumento de telenovela, mas não o é), consegue inspirar e afectar as emoções do espectador como poucas histórias de amor por esse cinema fora. E sem querer revelar o final, há que dizer que é igualmente terno, igualmente sentido, igualmente delicado, como foi todo o resto do filme, e é com um nó na garganta que percebemos como a história vai acabar, e com emoção que percebemos se Cyrano vai ou não alguma vez revelar o seu amor a Roxane.

Contudo, tenho que criticar o desfecho, que é das coisas menos conseguidas que este filme tem. Não por causa do contexto emocional, não por causa das palavras, mas por causa de uma decisão do argumento e/ou do realizador de criar uma série de falsos fins até ao final definitivo. Sem exagero, há uns 6 ou 7 momentos em que o espectador pensa “é agora que o filme vai acabar”, mas depois ainda há mais qualquer coisinha. Depardieu faz um discurso, termina com palavras perfeitas para encerrar o filme numa nota elevada… depois hesita… depois olha… depois leva a mão ao peito… depois começa a falar outra vez… e outra vez… e de novo… ao longo de dez minutos. Emocionalmente estamos colados ao filme. O nosso coração está com todos os segundos, com todas as frases de diálogo. Mas o nosso cérebro já está a gritar para acabarem com a coisa de vez.

Tirando esta picuisse final, algo enervante, o restante filme é incrivelmente imaculado. Difícil de criticar, difícil de não gostar, difícil de não sentir-se inundado pela paixão, difícil de não sentir-se envolto na história. O filme vai certamente comover todas as pessoas que alguma vez amaram nas sombras sem serem correspondidos, que alguma vez perderam um amor, que procuram o amor verdadeiro, que buscam a essência do amor na vida, que se sentem inspirados por ela, e que a gostam de ver retratada em filme, mas que não suportam o cliché do filme de Hollywood. Basicamente, estou a falar de quase toda a gente. E para quase toda a gente, ‘Cyrano de Bergerac’, versão de 1990, poderá ser uma inspiração, um filme para amar e ver com a pessoa amada. Aqui está qualidade, aqui está beleza, aqui está poesia. O design de produção é soberbo, o guarda-roupa igualmente (venceu o único Óscar do filme), e a realização dá espaço pleno para os actores e as palavras (ambos magníficos) brilharem. Depardieu é um Cyrano absolutamente extraordinário, não me canso de escrever. Já na sua fase inicial de ganhar peso, e imediatamente antes de iniciar o seu período americano mais famoso, Depardieu prova aqui que nasceu para interpretar este Cyrano. Pode não ser o mais fiel Cyrano, mas Depardieu torna-o seu. E é tudo o que se quer de um actor. O Óscar escapou-lhe, mas não a justíssima Palma de Cannes para Melhor Actor.

O sucesso nacional e internacional do filme, plenamente justificado, refletiu-se nas suas cinco nomeações para os Óscares; Melhor Guarda Roupa (o único prémio ganho), Melhor Actor Principal (Depardieu, na única nomeação da sua carreira, perdeu para Jeremy Irons), Melhor Direção Artística, Melhor Maquilhagem e Melhor Filme Estrangeiro (quem venceu foi um hoje menos recordado filme suíço 'Reise der Hoffnung'). Apesar de ser um filme sustento quase praticamente em palavras (como a maior parte das adaptações shakespearianas), o realizador Jean-Paul Rappeneau fez com que esta adaptação da peça fosse um filme na verdadeira essência da palavra, tornando cada cena apelativa, cheia de ritmo, e com a dose certa dos tons preponderantes da peça: a paixão, a tragi-comédia, a crítica aos costumes, e principalmente o amor, puro e poético. Arrisco-me a dizer que a maior parte das pessoas já tiveram um ‘momento Cyrano’ nas suas vidas, portanto a maior parte das pessoas irá comover-se com a magia que este filme tem para oferecer. É impossível ficar indiferente, a não ser que se tenha um coração de pedra. ‘Cyrano de Bergerac’ já era uma grande peça. Depois de 1990, tornou-se também um grande filme.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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