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O Clube dos Cinéfilos Viajantes - A volta ao Mundo em salas de cinema

Eu escrevo estas páginas, e o leitor lê estas páginas, porque ambos adoramos cinema. Cinema clássico ou cinema moderno, a preto e branco ou a cores, sonoro ou mudo. Cinema de Hollywood ou de Bollywood, cinema do ‘rat pack’, do ‘brat pack’ ou do ‘frat pack’. Cinema artístico ou comercial, social ou experimental, da Nouvelle Vague ou do Dogma 95, do Golden Harvest Studios ou da MGM. Cinema americano, palestino, neo-zelandês, sueco, financiado pelo Studio Canal ou por crowdfunding. Como cada pessoa é diferente, assim também cada corrente, cada escola, cada estilo, cada género, cada filme, é diferente, mas isso não faz dele melhor ou pior por definição. É o filme que faz o filme, e não quando e como surgiu. E nós, os apaixonados, papamos tudo, ou quase tudo, desde que o filme nos dê aquele clique, deste que nos alimente a paixão, desde que nos sacie a magia, a magia intima que compartilhamos, com uma ilícita e provocadora cumplicidade, com a tela.

Mas a tela mudou. Há 60 anos os apaixonados só podiam namora-la nos grandes e escuros espaços de projecção das salas de espectáculo, dos cinemas de bairro, das cinematecas. Depois os apaixonados passaram a ter a caixa mágica, a televisão. Depois todos os sistemas de ‘home video’; o beta, o VHS, o laserdisc, o DVD, o DVD-HD e finalmente o Blu-ray. Depois os leitores de DVD portáteis. Depois os computadores portáteis com capacidade de ler DVDs mas também ficheiros; os .avi, os .mkv, os .mp4. Finalmente os apaixonados também passara a ter os iphones e os tablets, e agora o cinema pode ser visto em qualquer altura, em qualquer lugar. Eu próprio começo a escrever este texto num comboio, num pequeno tablet, segundos depois de ter acabado de ver um filme, no mesmo comboio, no mesmo tablet. Sinais dos tempos. 

Contudo apesar de toda esta evolução, apesar dos apaixonados poderem saciar o seu vício literalmente quando e onde quiserem, nada (ou quase nada) substitui aquela experiência de voltar aos grandes e escuros espaços de projecção, que já não estão, na sua maior parte infelizmente, nas salas de espectáculo, nos cinemas de bairro e nas cinematecas, mas sim nos gigantescos centros comerciais e nos espaços multiplex. Resumidamente, nada (ou quase nada) substitui aquela experiência de “ir ao cinema”, e aí recuperar a magia íntima que compartilhamos, no silêncio e no escuro, com aquela tela enorme, maior que a vida, que é a nossa vida, a vida dos apaixonados. Apesar de ver só 30 filmes por ano (ou menos) “no cinema”, num total de cerca de 300 (uns míseros 10%), essa viagem é uma pela qual anseio, que me excita, que me emociona, independentemente do filme que vá ver. Isso depois é outra conversa.

Obviamente, os apaixonados vão ao cinema perto de casa, na sua cidade, no seu país. Quando o seu cinema de bairro fechou portas, o apaixonado procurou o centro comercial mais próximo e aí criou o seu ninho. O meu ninho é agora nos centros comerciais à volta da belíssima cidade do Porto, em Portugal. Mas por seis vezes na minha vida, tive a sorte de ir ao cinema no estrangeiro. À paixão do cinema, da ida ao cinema, aliei outra paixão; a de viajar. Não estou a falar de ver um filme num portátil, ou num avião, ou na televisão de um quarto de hotel. Isso já todos o fizemos várias vezes, e agora cada vez mais com as novas tecnologias. Estou a falar em ir a uma sala de cinema e pagar um bilhete. Experiências únicas na minha vida que aconteceram mais ou menos assim…


1. The House of the Spirits – Brasil, 1994

A primeira vez que fui ao Brasil foi no Verão de 1994, com 9 anos de idade. O meu pai, português de nascença mas, por qualquer razão, brasileiro de coração, queria mostrar aos filhos o seu Brasil. Por isso não me perguntem em que cidade é que esta ida ao cinema aconteceu. Foi há tanto tempo e estivemos em tantas cidades que não me consigo lembrar. Vêm-me à cabeça Curitiba, mas pode ter sido outra. O que sei, o que me lembro perfeitamente, é que o cinema era a paredes meias com o hotel. Talvez tenha sido por essa proximidade. Talvez tenha sido por eu e os meus irmãos, crianças, termos insistido e chateado, sem saber bem o que dizíamos, ao passar todos os dias pelas portas do cinema. Talvez tenha sido o interesse dos meus pais, já que ambos eram professores de literatura e o filme em exibição era o muito badalado, na altura, ‘Casa dos Espíritos’, adaptação do romance de Isabel Allende. Ou talvez tenha sido para tentar sossegar as crianças e ter uns minutos de paz. Independentemente da razão, embora o mais provável foi ter sido um pouco de todas, a verdade é que certa tarde deslocamo-nos os dois metros que separavam a entrada do hotel da entrada do cinema, e abraçamos esta experiência em família.

Agora, a ‘Casa dos Espíritos’ não é propriamente o filme onde se leve um rapaz de 11 anos, um de 9 e uma rapariga de 6 anos. Suponho que por essa razão as minhas memórias desta ida ao cinema, e do filme em si, são poucas. Deve ter havido muita galhofa, silenciada pela minha mãe. Mas também houve muita solenidade pois o material era pesado. Não compreendi muita coisa, mas tenho a sensação que fiquei vidrado em várias cenas (já era o bichinho do cinema a surgir com certeza). Contudo crianças serão sempre crianças, e que os leitores brasileiros me perdoem, mas o facto de o filme ser dobrado em português do Brasil foi o maior motivo de interesse para mim e para os meus irmãos.

O único instante que recordo como se fosse hoje de ver este filme nesse dia é o momento em que Winona Ryder pronuncia a frase "Preciso ir no banheiro". Estou a vê-la distintamente no olho da minha memória, estou a ver o ângulo em que estava em relação à tela, estou a ver os seus lábios a mexerem-se dessincronizadamente em relação ao que estava a dizer. Eu e os meus irmãos rimos bastante, porque uma frase dessas soa engraçada a uma criança portuguesa que está habituada a dizer "Preciso de ir à casa de banho", e repetimo-la várias vezes, com os nossos fingidos sotaques brasileiros, nesse dia e ao longo de meses subsequentes, sempre que precisávamos de ir à casinha. Anos mais tarde revi o filme e apercebi-me que Ryder diz isso após uma longa cena em que é torturada. Ups. A memória selectiva da infância é mesmo uma coisa engraçada...


2. Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life – Las Vegas, USA, 2003

Quase 10 anos depois, no Verão de 2003, tinha 18 anos e tinha acabado de completar o meu primeiro ano de faculdade. Numa das últimas férias que fiz com os meus pais, visitei os Estados Unidos. A minha relação com o cinema por esta altura já era outra, e estar na terra onde o cinema como indústria nasceu era excitante. Os gigantescos cartazes nas fachadas dos arranha-céus, as inúmeras salas multiplex ‘na rua’ (ao invés de nos shoppings como em Portugal) começaram a chamar por mim em Nova Iorque e continuaram a provocar-me Estados Unidos fora.

Admitamos que em Las Vegas, após se ter visitado o Grand Canon e a Hoover Dam nos arredores, após se ter percorrido a Strip, após se ter entrado num ou noutro hotel/casino grandioso e espampanante, pouco mais há para fazer, a não ser que se queira gastar dinheiro num casino. Ora um jovem de férias com os seus pais e sem dinheiro não vai poder fazer isso, portanto tinha umas horas para matar nessa cidade, onde por esses dias estavam quase 40 graus de temperatura. Em vez de ir à piscina do hotel ou ficar a olhar para os outros a jogar num casino, decidi que queria ir ao cinema. Agora tentem convencer os vossos pais da anormalidade que é estar em férias no estrangeiro e querer ir ao cinema, ainda por cima para ver um filme que bem podiam ver em Portugal, quando lá regressassem! Não é, admitamos, tarefa fácil. Explicar uma prazer aos outros nunca é.

Mas caramba, estava determinado. Para além do mais tinha uns 20 dólares no bolso, oferta de um tio de Nova Jersey, por onde tínhamos passado uns dias antes. Insisti no meu plano e, ninguém querendo ir comigo, fui sozinho. Percorri a Strip e entrei num gigantesco multiplex com dezenas de salas, que me apareceu pouco depois. Pesquisando agora na Internet, e pensando no meu caminho, creio que terá sido o United Artist Showcase Theater. Escolhi a sequela de ‘Tomb Raider’, porque era jovem, a Angelina era sexy, e um blockbuster de aventuras passado na Grécia, na China e em África parecia ser o escape ideal para um dia quente de Agosto na Sin City. Nestas condições, não ia certamente ver um drama de fazer chorar as pedras da calçada. Assim sendo, comprei um hot dog e um refrigerante e entrei na sala.

Foi a experiência americana completa. Um espaço massivo e com excelente qualidade visual e sonora, dezenas de trailers, uma audiência reactiva e extrovertida em relação ao que se estava a passar no ecrã, um filme totalmente americanizado, sem pinga de profundidade, a transbordar de entretenimento e acção, e o meu hot dog a transbordar de ketchup. Delicioso. 


3. Quantum of Solace – Londres, UK, 2008

Em 2008 acabei o meu mestrado e comecei a trabalhar. Não preciso de dizer a ninguém a sensação que é receber o primeiro ordenado e começar a ter dinheiro próprio. Nesse Verão não tive direito a férias, mas foi-me dado a possibilidade de fazê-la mais tarde, em Novembro. Foi aí que decidi fazer as minhas primeiras férias no estrangeiro sozinho. Com pouco dinheiro para gastar, fui em voos low cost a sítios onde tinha amigos a morar, para lhes cravar guarita. Um desses sítios foi Londres, e acho que até hoje ainda não agradeci o suficiente ao meu amigo Simão por me ter dado uma cama para dormir.

Ora foi precisamente esse meu amigo que num desses dias me perguntou se eu queria ir ver o ‘Quantum of Solace’ com ele e com os seus amigos. Respondi logo que sim. O filme tinha tido, poucos dias antes, a sua estreia mundial em Londres, no Odeon Theater da Leicester Square, e ainda não havia estreado em nenhuma outra parte do Mundo. Combinamos encontrar-nos precisamente à porta do Odeon e fiquei logo excitado. Iria ver o filme nem uma semana depois, no mesmo sítio onde até a própria Rainha tinha estado, juntamente com as estrelas do filme, para a festa de estreia.

À hora marcada o meu amigo apareceu, mas quando fiz menção de entrar ele disse que o Odeon era muito caro, e que tinha combinado com os seus amigos noutro cinema. Muito surpreendido fiquei quando nos começamos a dirigir, em passo rápido, para o metro. “É longe?” perguntei. “Não muito, são um par de estações” respondeu-me, “mas temos que nos despachar”. Aparentemente, já tinham passado uns minutos da hora da sessão, mas o meu amigo estava confiante. “Eles aqui têm meia hora de trailers” disse-me. Eu não estava assim tão confiante e quando aceleramos mais o passo comecei a ter aquele nervosinho de que ia perder o início do filme. E depois aconteceu o momento cinematográfico do dia.

Estávamos a descer as escadas rolantes da estação quando se ouviu o ruído do metro a chegar. O meu amigo começou a correr e gritou-me para o seguir. Eu corri atrás dele, descendo as escadas e atravessando a plataforma, serpenteando por entre as pessoas. As portas do metro estavam a fechar-se. Ele, que ia meio metro à minha frente, conseguiu entrar por uma unha negra. Eu, por se me atravessar uma pessoa à frente, não. Ficamos a olhar um para o outro, com caras de parvo e com o vidro pelo meio, enquanto o metro começava a andar…

Ora eu não fazia a mínima ideia em que estação ele ia sair, nem onde era o cinema. Na plataforma não tinha rede, por isso subi para a rua. Aguardei uns 10 minutos e tentei ligar-lhe, mas ele também devia estar sem rede e por isso não consegui fazer a ligação. Vi que já ia perder o filme e mandei-lhe uma mensagem a dizer que fosse sem mim e que se divertisse. Voltei desanimado à Leicester Square e, num banquinho à beira da estátua de Chaplin, olhei para o Odeon, que ostentava um gigantesco poster do filme.

Ao ver o poster o que devia fazer tornou-se claro. Dirigi-me à bilheteira. Estava precisamente a começar uma sessão. Porque não? Era o destino. One ticket, please. Foi realmente caro, o bilhete custou 17 libras, o preço mais elevado que alguma vez paguei para ir ao cinema, mas valeu a pena. A sala era divinal; enorme, opulenta, mas confortável, e saber que estava no mesmo local onde os filmes Bond estreiam em Inglaterra há décadas, e onde uma semana antes tinha estado a família real, os actores, e a equipa técnica, fez-me sorrir o tempo todo. E se a meio pensei que talvez me tivesse enganado, e entrado num filme do Jason Borne em vez de um do James Bond, bem, não houve azar. Vivi a experiência Bond, em Londres, e no seu cinema por excelência. Que mais pode querer um apaixonado? 

4. Crazy Heart – Dublin, Irlanda, 2010

Em Fevereiro de 2010, com 25 anos, fiz as últimas e melhores férias da minha vida de solteiro. Só eu, uma mochila às costas, um monte de hostels, e as belas paisagens da Irlanda e da Escócia.

No segundo dia em Dublin, deambulava pelo Temple Bar quando, completamente por acaso, os meus olhos se fixaram numa placa; ‘Irish Film Institute’. Espreitei e em seguida entrei. Um longo e estreito corredor, com uma loja de DVDs e outros produtos cinematográficos à direita, desaguava num enorme pátio interior, onde existia um café, muitas mesas e bancos, espaços de exposição, uma bilheteira e várias entradas para meia dúzia de pequenas salas de cinema. Fui à loja e depois sentei-me, e estive um pouco a sorver aquela atmosfera agradável e aconchegante, antes de prosseguir o meu passeio por Dublin.

Mais tarde, cansado das caminhadas do dia, decidi regressar ao IFI. No dia anterior tinha passado o serão num pub desportivo, a ver o FC Porto jogar contra, se não me falha a memória, o Arsenal, para a Liga dos Campeões – um português no meio de um pub cheio de ingleses e irlandeses! Nesse dia pensei então que ir ao cinema no IFI constituiria um serão não menos agradável mas bastante mais calmo. E não estava enganado.

Uma ou duas semanas antes, Jeff Bridges tinha finalmente ganho um Óscar, pelo seu retrato de um cantor country em ‘Crazy Heart’, um filme que eu ainda não tinha visto. Pareceu-me a escolha ideal para esta atmosfera. A partir do pátio interior, subi um lanço de escadas e entrei numa sala pequena, com cerca de 10 filas de cadeiras, bastante confortáveis, dispostas em arco em frente de um ecrã consideravelmente grande, tendo em conta a dimensão da sala. Os outros ocupantes da sala eram maioritariamente senhores e senhoras de meia-idade e idosos. Inclusive, umas senhoras idosas meteram conversa comigo no final, perguntando-me o que tinha achado do filme. Isso nunca me aconteceu em Portugal!

Foi um serão tranquilo e bem passado, uma ida ao cinema num espaço a transbordar de paixão pela sétima arte, bem cuidado, apelativo, de preço acessível, com variedade de filmes em exibição (do comercial ao independente ao artístico, dos clássicos às mais recentes estreias), apesar da pouca capacidade das salas, e com uma loja muito bem apetrechada de itens cinematográficos. O espaço ideal para dois dedos de conversa sobre cinema enquanto se sorve uma bebida quente. O que uma cinemateca ou um instituto de cinema deve ser; feito para o público em geral, aberto a todos, onde qualquer um é bem-vindo, e não apenas um espaço elitista para um conjunto de iluminados. Voltarei, se algum dia regressar a Dublin.


5. Shutter Island – Edimburgo, Escócia, 2010

Uns dias depois já estava na Escócia. Edimburgo tornou-se, sem grande esforço, a minha cidade preferida de todas as que já visitei. Durante dois dias percorri-a, da Royal Mile a Holyrood (não confundir com a meca do cinema, isto é um parque natural), do Castelo ao Canhão Português! Mas Edimburgo não é assim tão grande quanto isso, e no final do segundo dia já tinha ido a todos os sítios onde queria ir. No dia seguinte, o meu comboio para Glasgow era apenas a meio da tarde. Tinha decidido que queria regressar a Holyrood para mais um passeio, mas mesmo assim ainda tinha umas horas para matar.

Nessas férias tinha ido sem portátil para andar mais leve (e também para tirar umas férias dele!), e ainda não existiam tablets. Ou seja, já não via um filme desde o 'Crazy Heart' em Dublin, meia dúzia de dias antes. O vício já estava a dar conta de si, e ao mesmo tempo estava a ficar apaixonado por estas descobertas cinematografias no estrangeiro.

No dia seguinte acordei, dei uma voltinha pelo centro e depois perguntei a alguém se havia uma sala de cinema ali perto. Apontaram-me um multiplex, o Omni Center, não muito longe da estação de comboios. Fui lá. Incrivelmente tinha sessões de manhã. ‘Shutter Island’, de Scorsese, às 11h da manhã. Parecia perfeito. Via o filme, almoçava, dava uma volta por Holyrood e depois apanhava o comboio. E foi isto que fiz, mas com uma grande aceleração na parte final porque o filme não começou às 11h.

Não havia nada de especial neste multiplex de Edimburgo, a não ser ser um massivo espaço de cinema, com uma dúzia de salas, praticamente no centro histórico da cidade. Ou seja, acessível a pé (o turista que queira ir ao cinema no Porto tem que apanhar um autocarro ou ir de carro até um shopping da periferia). Comprei o meu bilhete, instalei-me sala, uma enorme sala em tudo semelhante às dos nossos centos comerciais, e depois começaram os trailers e a publicidade... E depois continuaram os trailers e a publicidade. O meu amigo Simão afinal tinha razão. Trailers, publicidade. Publicidade, trailers. Espera… não. Ainda não é desta. Trailers, publicidade. Publicidade, trailers. Durante 45 minutos, fui bombardeado com vídeos promocionais de tudo e mais alguma coisa. Estava praticamente sozinho na sala, mas olhando para as outras pessoas não via muitos sinais de impaciência. Seria normal? O filme, literalmente, nunca mais começava. Estive para desistir. Parecia uma tortura ao estilo de ‘Laranja Mecânica’, para ver quem aguentava mais tempo na sala sem sair ou começar aos berros…

Por fim, quase ao meio dia, o filme lá começou. E ao menos valeu a pena a espera, mesmo para mim que por regra não gosto muito de Scorsese. Estava a morrer de fome aquando dos twists finais por isso ainda bem que o filme era bom, senão ainda tinha saído da sala com vontade de esmurrar alguém. Em vez disso (porque, afinal, sou uma pessoa pacífica) fui comer no primeiro sítio que encontrei. Ainda voltei a Holyrood e não perdi o meu comboio! Foi uma experiência que valeu pelo filme, não pelo espaço. Só não era dentro de um shopping e saindo à rua estávamos numa das mais belas cidades do mundo. De resto, dentro da sala, bem que podia estar num shopping português, que a experiência de visualização teria sido a mesma… embora com muito menos trailers!


6. Le Weekend – Atenas, Grécia, 2014

Finalmente, há pouco mais de três semanas, eu e a minha mulher passamos umas férias extraordinárias na Grécia. Já tínhamos lido no guia que havia uma longa tradição neste país de cinemas ao ar livre, no telhado de edifícios, a que eles chamam, usando um estrangeirismo, ‘Open Air’. Talvez seja devido ao clima quente. Talvez seja devido ao facto de os gregos fumarem o dobro da média europeia. Qualquer que seja o motivo, a criação destes belíssimos espaços é tão generalizado que até os cinemas multiplex, ou os centros comerciais, os possuem.

Nas nossas deambulações por Atenas começamos a ver anunciados, aqui e ali, alguns destes espaços. Fervorosos amantes da sétima arte e de experiências fora dos clássicos pacotes turísticos, começamos a prestar mais atenção e uma ideia começou a formar-se. Creio que foi no bairro Plaka, quando passamos pelo cinema Paris, um dos mais famosos Open Air de Atenas, que ambos decidimos, quase sem precisar de dizer um ao outro (as vantagens de encontrar a cara metade), que uma dessas noites gostaríamos de ir um Open Air. Fomos espreitar o cinema Paris, mas estava a exibir um filme francês com legendas em grego. Seria, não impossível, mas bastante complicado seguir a história.

Passamos a estar mais atentos e começamos a estudar os Open Air e os seus cartazes. Os Open Air mais comerciais estavam a exibir filmes como o novo ‘Hercules’, não exactamente o tipo de filme que tínhamos em mente para uma experiência destas. Outros, estavam a exibir filmes locais, ou estrangeiros numa língua que não inglês… Finalmente, descobrimos na internet que havia um cinema multiplex, o Aello Cinemax, num bairro relativamente perto do nosso Hotel, que estava a exibir o filme britânico ‘Le Week-End’, um “romance em Paris da terceira idade”. Supúnhamos que em inglês e com legendas em grego, mas não tínhamos a certeza. No dia seguinte, demos lá um salto antes de começar mais um dia de turismo, mas estava fechado; só abriria ao final da tarde. Fomos aos nossos afazeres turísticos e regressamos horas depois, então finalmente comprando o nosso bilhete, assegurados que a sessão era em inglês.

Valeu bastante a pena toda a experiência. Num bairro residencial, longe dos bairros turísticos, descobrimos um outro lado de Atenas. Jantamos num sítio fabuloso, com vistas para toda a cidade, num local só frequentado pelos próprios gregos, sem uma pinga de turistas. E depois atravessamos a rua para entrar no Cinemax e subimos os três lanços de escadas até atingirmos o telhado.

O espaço era fantástico. No topo deste multiplex, que possuía mais 5 salas ‘normais’ nos andares inferiores, envolvido pelas traseiras de três edifícios residenciais que formavam um enquadramento visual acolhedor, estava um espaço pequeno mas confortável, cheio de sofás, mesas e cadeiras, servido por um pequeno bar. Sob a luz da Lua e respirando o ar quente e a leve brisa da noite ateniense, instalados num sofá, e rodeados de outros casais gregos, novos e velhos, e pequenos grupos de amigos adultos (não havia nenhum grupo de jovens; estavam todos à mesma hora a ver o ’22 Jump Street’ nos andares de baixo), acomodamo-nos confortavelmente para ver o filme. Nunca tinha estado tão bem instalado a ver um filme fora de casa, e nunca tinha ido ao cinema num contexto tão belo e tão romântico. Foi divinal.

Só o filme em si é que não esteve completamente à altura de uma experiência perfeita em todos os outros aspectos (pode ler uma descrição mais detalhada desta experiência e a crítica ao filme neste link). Ao mesmo tempo, o som por vezes era tão baixo (provavelmente para não incomodar os vizinhos) que era difícil perceber alguns diálogos, já que, como é óbvio, não conseguíamos ler as legendas em grego.

Independentemente disso recomendo a ida a um Open Air (há muitos por esse mundo fora, desde que o tempo o permita) a todos os amantes da sétima arte. O filme em si é importantíssimo, mas se as condições não forem as ideais, sempre podemos revê-lo, em casa ou noutro cinema. Mas experiências de visualização fora da rotina são tão raras que, se forem tão perfeitas como esta, ganham um lugar na nossa memória e no nosso coração, mesmo que o filme não seja tão bom. E quem diz um Open Air, diz todas as experiências que aqui relatei, e todas as outras que desconheço e que estão nesse mundo à minha espera, à nossa espera, de nós os apaixonados.


Tenho 29 anos e já fui ao cinema em 6 países diferentes. Será algum tipo de recorde? Duvido, mas o céu é o limite. Se puder viajar é óptimo. Se puder viajar e ter aventuras como estas, momentos de descoberta cinematográfica, de outros espaços, de outras culturas, então é ouro sobre azul, a cereja em cima do bolo. Eu sonho um sonho de cinema acordado e quando desperto estou às escuras, numa sala de projecção. E então, se tudo se conjugar, dá-se o tal clique.

Pode ser que um dia forme um Clube dos Cinéfilos Viajantes. Não me parece má ideia.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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