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Jersey Boys

Ano: 2014

Realizador: Clint Eastwood

Actores principais: John Lloyd Young, Erich Bergen, Michael Lomenda

Duração: 134 min

Crítica: Antes de começar com a minha contextualização habitual tenho de dizer uma coisa. ‘Jersey Boys’, o novo filme de Clint Eastwood, é absolutamente extraordinário. É das melhores, senão a melhor, biografia sobre um músico alguma vez feita. É sem dúvida a melhor biografia sobre um músico feita na América nas últimas duas décadas, e compará-lo com filmes como ‘Dreamgirls’ (2006), ‘Ray’ (2004) ou ‘Beyond the Sea’ (2004) é como comparar ‘Scary Movie V’ a ‘Gone with the Wind’. Está a ziliões de quilómetros de distância.

Apesar de ter uma estrutura em tudo igual; a ascensão e queda do músico, no contexto da América dos anos 1950 e 1960 – das suas humildes origens até à incontrolável fama e à forma como tem que lidar com ela, o filme faz contudo uma escolha fundamental: foca-se na música. Estilizado? Sim. Teatral? Sim (não fosse baseado numa peça da Broadway de grande sucesso). Mas é muito mais honesto, e muito mais realista, pois não pretende dar lições de moral, nem presumir que sabe o que ia na alma destes talentos. Todos os elementos habituais que acabam geralmente por consumir este tipo de filmes (a dependência do álcool, as traições, os divórcios e todas as restantes “tragédias”), oferecidas com a desculpa de que estão a contextualizar “o músico” e o seu “drama de vida”, mas que na realidade são estratégias baixas para tentar dar substância a um produto que não a tem (veja-se o caso de ‘Dreamgirls’), em ‘Jersey Boys’ constituem apenas um discreto pano de fundo, muito mais eficaz. A personalidade e a essência das personagens brilha através da música e do que a envolve, e o resultado final é um monumento ao entretenimento, uma tour de force de realização, mas também um filme com uma substância invulgar, cativante do início ao fim, e que me deu vontade, pela primeira vez em anos a assistir cinema americano moderno numa sala de cinema, de o rever quanto antes.

Quando em 2011, após ‘J. Edgar’, foi anunciado que o próximo filme de Clint Eastwood seria o terceiro remake de ‘A Star is Borne’ (1937), e que Beyoncé iria interpretar o papel que já foi de Judy Garland e Barbara Streisand, o comum dos cinéfilos deu um risinho nervoso. Não que houvesse alguma dúvida que Eastwood pudesse levar a sua avante. O velho mestre faz obras primas há 40 anos, em todos os géneros possíveis, do western, à comédia, ao drama e ao blockbuster de acção, mas sempre houve uma particular ligação à música. Directamente, isto ocorreu em filmes como ‘Honkytonk Man’ (1982) ou ‘Bird’ (1988), mas indirectamente a música sempre esteve presente na subcorrente da maior parte dos seus filmes; o amor ao jazz e aos standards da idade de ouro da música americana do século XX. E há ainda os seus contributos pessoais para as bandas sonoras – o famoso ‘Claudia’s Theme’ do filme ‘Unforgiven’ (1992), por exemplo, é da sua autoria, e quem consegue esquecer-se da sua voz nos genéricos de ‘Gran Torino’ (2008) ou ‘Any Which Way You Can’ (1980)?!

Não, a dúvida não estava em Clint. Simplesmente havia uma enorme artificialidade no emparelhamento, uma manobra comercial mais do que artística, e uma séria descrença na capacidade de Beyoncé dar profundidade a um papel tão exigente. Isto para não gritar simplesmente: “Outra vez?!”. Quando meses depois o projecto foi cancelado, acho que houve uma enorme sensação de alívio. Os fãs fieis ficaram pacientemente a aguardar o próximo anúncio, mas tirando uma surpreendente aparição como actor em ‘Trouble with the Curve’ em 2012 (surpreendente porque Eastwood tinha, achava-se, pendurado as chuteiras da actuação com ‘Gran Torino’, após matar a sua icónica imagem cinematográfica), foi preciso esperar 3 anos para o ver regressar à cadeira de realizador.

Mesmo assim, eu estava hesitante. Como Woody Allen, como Manuel de Oliveira, Eastwood encontrou na sua terceira idade uma enorme energia, e se ainda havia alguma dúvida que era um autor antes, essas foram desfeitas quando nos brindou na década de 2000 com filmes como ‘Mystic River’ (2003), ‘Million Dollar Baby’ (2004) ou ‘Sands of Iwo Jima’ (2006). O homem sem nome demorou 40 anos, mas tornou-se o melhor realizador americano contemporâneo. Mas com o virar do ano 2010, senti que a sua chama se estava a apagar. Perfeitamente normal, depois de um espólio tão extenso e tão bom. Achei os seus últimos dois filmes, ‘Hereafter’ (2010) e ‘J. Edgar’ (2011), mais arrastados, mais reflexivos, a tentar ponderar questões ‘sérias’ mas esforçando-se em demasia e possuindo uma boa dose de artificialidade, para serem ostensivamente artísticos. O velho mestre não precisa de nada disso. Variadas vezes atingiu o poético e o artístico sem precisar de o anunciar em plenos pulmões. Aliás, até à década de 1990, poucos críticos lhe prestavam atenção. Mas a construção de filmes como ‘Changeling’ (2008) ou ‘J. Edgar’ é tão artificial que por vezes não parece provir da alma de Eastwood, parece moldada às estrelas que possui, aos críticos que quer agradar e aos prémios que quer ganhar.

Por isso mesmo foi com uma enorme alegria que vi ‘Jersey Boys’, um back to basics, um produto simples, descomplicado e despretensioso, que é, ao mesmo tempo, uma gigantesca lição de fazer bom cinema. E isto mesmo sendo um filme musical (Eastwood parecia decidido a fazer um!), um género que se esgotou completamente em anos recentes. Recentemente, descrevi a fundo na crítica de ‘Nine’ (2009) como este género – a adaptação de sucessos da Broadway – despoletou em Hollywood depois de ‘Chicago’ (2002). E despoletou de uma forma tão cega e tão sedenta de lucro que os filmes se tornaram exibições kitsch sem sabor, desprovidas de originalidade, e números musicais pouco cativantes pois centraram-se, não na música, não na dança, mas sua parada de estrelas, e nos concursos de quem consegue cantar melhor sem treino (ou pior, como Pierce Brosnan e Russell Crowe…).

Por todos estes motivos ‘Jersey Boys’ ganha logo pontos com a decisão ousada de Eastwood (ousadíssima!) de não usar actores famosos e ir buscar, tanto quanto possível, talentos da Broadway. John Lloyd Young, que interpreta o papel principal no filme, o de Frankie Valli, também originou o papel quando a peça estreou em 2005 (ganhou inclusive um Tony de Melhor Actor), e o mesmo se passa com muitos outros actores secundários, muitos deles estreando-se no cinema após anos de experiência no teatro. Só Christopher Walken, como o líder mafioso do velho bairro e protector da Frankie ao longo dos anos, constitui o único nome de peso, e oferece a consistência necessária para que os outros actores se possam suster à sua volta. Mas não quero com isto dizer que os actores são maus. Longe disso. Podem ser inexperientes e desconhecidos, mas fiquei surpreendido com a sua naturalidade e o seu talento. Eastwood soube pescá-los, e se choverem Óscares (pouco provável) eu não ficarei nada chocado.

O filme começa no velho bairro em Nova Jersey, na década de 1950, onde Frankie estuda para ser cabeleireiro. Mas o miúdo tem uma voz de ouro, que todos no bairro reconhecem, principalmente a personagem de Walken. É uma voz que primeiro estranha (ao início parece que estamos a ouvir um desenho animado), mas depois entranha, e no fim ainda ficamos agarrados ao genérico final, só para a ouvir mais um bocadinho. Frankie irá tornar-se o grande Frankie Valli (o verdadeiro é produtor executivo do filme), mas para lá chegar o caminho é tortuoso, especialmente porque o seu melhor amigo, Tommy (interpretado por Vincent Piazza), o está sempre a levar por maus caminhos, pequenos assaltos para ganharam dinheiro. Mas é também na banda de Tommy que Frankie dá os primeiros passos na música, e é também Tommy que inicialmente narra o filme.

A narração, feita em apartes directamente para a câmara, constitui talvez a pior escolha do filme. Contudo, dá um ar estilizado, quase de conto de fadas, que se adequa. Isto não é a história verdadeira. Essa só os próprios é que conhecem, e ninguém pode assumir, só de ler esta ou aquela autobiografia, o que realmente aconteceu. Esta é a história como cada um se lembra, feita de pequenos mosaicos embelezados. Por isso mesmo é que as rédeas da narração vão rodando entre personagens. E só por esta escolha o filme ganha mais credibilidade que sérias adaptações, como ‘Ray’, por exemplo. Estamos a ver a lenda destes músicos, e é essa lenda que sobrevive, quando os anos passam e só a música fica. Quando se tenta impingir a lenda como verdade (Eastwood tentou fazer isso em ‘J. Edgar’) não (me) cai bem. Mas quando se assume a articialidade do material, então o filme não fica a dever nada a ninguém. Por isso mesmo, para mim, o enquadramento é mais que perfeito, e o tom do filme, mesmo narrado assim, também.

Quando Frankie, Tommy e o seu outro colega de banda, Nick (interpretado por Michael Lomenda e que é, nas suas próprias palavras, como se fosse o Ringo), aceitam a sugestão de um jovem Joe Pesci, (hilariantemente interpretado por Joseph Russo – atenção Óscares!), também lá do bairro (true story), de incluírem na banda um talentoso compositor e pianista, Bob (interpretado por Erich Bergen), o grupo finalmente faz clique e torna-se os ‘Four Seasons’.

O filme segue um esquema clássico, mas sempre com ritmo, sempre com humor, e sempre com um enorme respeito às músicas, dadas em momentos musicais bem trabalhados e naturalmente inseridos na trama (um concerto, uma aparição na TV, uma gravação no estúdio). Aqui ninguém começa a cantar e a dançar no meio da rua, há que dizer, e ainda bem… Assim assistimos à luta pelo primeiro contrato discográfico, que finalmente chega pela forma de um produtor homossexual (mais um escape cómico que outra coisa). Assistimos à fama do primeiro single. Assistimos à sucessão de tournées. Assistimos ao equilíbrio com a vida familiar. Só Frankie não se deixa seduzir pela bebida e pelo sexo fácil, e volta sempre a casa quando possível. Mas isso nunca é suficiente, e alheia a sua mulher (Renée Marino) e a sua filha, que vai crescendo ao longo do filme, tornando-se uma jovem rebelde e perdida.

Felizmente estas e outras tragédias pessoais são oferecidas ao público, como disse no início, como breves quadros em sítios estratégicos do argumento. Podem pecar por ser de curta duração, mas não pecam nem por serem artificialmente trágicos, nem por não terem substância. O argumento parece sempre encontrar as palavras certas. Se é apenas dado tempo à mulher de Frankie para dizer uma frase, por exemplo, então essa frase atinge o alvo perfeitamente. E também não são aquilo que eu chamo ‘frases trailer’. Estamos simplesmente a assistir a um argumento compacto, muito bem escrito. E como um bom filme clássico e familiar, ninguém aparece a beber ou a drogar-se abertamente. Para bom entendedor meia palavra basta, e um bom filme não precisa de ser explícito para ser eficaz.

Inevitavelmente, o grupo irá quebrar. O elo mais fraco é sempre Tommy, que gasta o dinheiro do grupo nos seus vícios, contrai uma enorme dívida dos mafiosos e tem inveja do talento de Frankie e Bob. E depois, Frankie também terá ele próprio uma enorme tragedia pessoal, mas que mais uma vez o filme não capitaliza como se fosse um tablóide. Mostra-a porque aconteceu na vida de Frank, e ele interioriza-a e continua a sua vida, através da música. A música que canta pouco depois é a resposta mais perfeita que podia dar (o filme não o mostra a chorar uma única vez). Cantando o seu famoso tema ‘Can’t take my eyes of you’, no momento musical mais extraordinário do filme, Eastwood e Lloyd Young mandam a casa abaixo. No final do número, apeteceu-me levantar da cadeira e gritar ao projeccionista para chegar a fita atrás para poder rever a cena outra vez. A última vez que isso me aconteceu no cinema foi a ver a sequência ‘I See the Light’ do filme ‘Tangled’, em 2010. Ambos momentos perfeitos de sétima arte.

Passando pelos anos 1960 e 1970 (onde todos os actores ganham barbas e patilhas), e com a sequência final em 1990, na noite em que o grupo entrou para o Rock and Roll Hall of Fame (onde todos os actores ganham forte maquilhagem e cabeleiras brancas), ‘Jersey Boys’ não treme, não vacila, não perde o ritmo, não tem cenas a mais nem tem cenas a menos. Pode perder personagens secundárias pelo caminho, mas nunca perde o rumo emocional dos meninos de Nova Jersey. E ao som de músicas como ‘Sherry’, ‘Big Girls Don’t Cry’ ou ‘Walk Like a Man’, o filme embala o espectador até ao final, onde Eastwood ainda nos brinda com um medley dos Four Season, dançado por todo o elenco (cuidado Jai Ho, tens aqui um concorrente de peso!).

Com tanto musical da Broadway passado para o grande ecrã nos últimos 10 anos, foi preciso vir Clint Eastwood, puxar dos galões e mostrar aos amadores como a coisa se faz. Não faço ideia se a peça é assim tão boa, ou se foi o talento de Eastwood que a catapultou para esse patamar. Independentemente disso, este filme é uma paragem obrigatória para qualquer amante do musical, ou até do cinema em geral. O musical moderno nunca vai ser o que foi na década de ouro de Hollywood. Nunca vai ter a graciosidade de um filme de Fred & Ginger, nunca vai ter a joie de vivre de um filme de Gene Kelly, nem a energia avassaladora de um filme de Debbie Reynolds, nem a magia de um filme de Jacques Demy, nem a epicidade de um ‘My Fair Lady’ ou um ‘The Sound of Music’. Mas a ser o que é, que seja como ‘Jersey Boys’ – um produto familiar e sincero, de sensações puras (bela fotografia, belos planos), enquadramento de época subtil (ninguém é visto a fazer coisas “típicas” da década de 1950), com guarda-roupa e design de produção a condizer, emocionalmente (se não historicamente) sincero, e com extraordinárias vozes e extraordinárias canções.

Os puristas poderão argumentar que o filme não é suficientemente dramático, que as personagens não têm profundidade ou que o filme tem demasiado lustro. Pois eu digo, com respeito, para irem pregar para outra freguesia, e me deixarem ouvir as músicas. Ontem saí do cinema a cantar, saciado. Hoje fui ao YouTube ouvir a banda sonora. E o filme não é um mero complemento da música. É o mais perfeito companheiro. Continuo a pensar no que vi, ao contrário de muitos filmes que apago da memória 30 segundos depois de sair da sala. Numa época em que os Óscares são ganhos por filmes extremamente comerciais, o filme de Clint Eastwood é suficientemente comercial, mas suficientemente bom e inteligente para almejar esse galardão e não ser injusto se o conseguir. E Lloyd Young também não deve ser negligenciado. Tal como Frankie Valli, este miúdo tem talento. E ainda por cima está a interpretar uma personagem baseada numa celebridade viva. A Academia gosta disso.

Sem dúvida, o melhor filme de Eastwood deste ‘Gran Torino’. Valeram a pena, os três anos de espera. E com ele, Eastwood completa a sua trilogia da música americana. ‘Honkytonk Man’ percorreu os anos 1930. ‘Bird’ os anos 1940 e 1950. E agora ‘Jersey Boys’ aborda os anos 1960 e 1970. Kubrick é famoso por fazer obras primas em todos os géneros. Mas nunca fez um musical. Agora Clint Eastwood pode gabar-se de ter feito obras primas (ou pelo menos filmes muito bons) em todos os géneros. Incluindo um musical.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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