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Criança dos "eighties"

Miguel, porque é que és assim?

Bem… eu nasci em 1984, e muito se passou nesse ano seminal. 

Mais importante que tudo, Anthony Michael Hall (o supremo!) contracenou com Molly Ringwold naquele que foi o primeiro grande filme de adolescentes da era moderna (“Sixteen Candles”) e com jeitinho pronunciou a melhor frase da história do cinema, e que instantaneamente marcou uma geração: “Can I borrow your underpants for 10 minutes?”. Nem o Live Aid do ano seguinte conseguiu transmitir os sentimentos de generosidade e partilha que esta frase tão distintamente possui, e que eu, subtilmente, adquiri.

Toda a minha capacidade intelectual proveio do filme “Gremlins”. Para quem não está familiarizado, o Gremlin é um bicharoco simpático (tal Ewok) mas que se for alimentado depois da meia-noite torna-se um monstro capaz de destruir a típica cidade média americana (e quiçá as grandes). Sempre me intrigou um facto. Quando se muda para a hora de Verão ou de Inverno, a hora de alimentar o bichinho passa para as 23h ou para a uma da manhã? A maldição do Gremlin está ciente que há 200 anos o Benjamin Franklin inventou o “daylight savings”? Outra coisa, imaginem que vou de férias para Los Angeles ou para a China. A hora de não o alimentar muda também, ou é sempre meia-noite independentemente do sítio onde se está? Porque vá, em maldições destas acredito perfeitamente, agora desafiar as órbitas dos planetas é que não! Pensar nisto estimulou, e muito, o meu raciocínio. 

Diz-se por aí (não acredito muito) que até destroco em termos de capacidade linguística. Explicação? Simples. Não fosse 1984 o ano em que Pat Morita nos ensinou as frases mais complexas da história da linguagem: “Wax on. Wax off. Wax on. Wax off.” Espera, creio que havia mais. Ah sim, era qualquer coisa como: “Wax on. Wax off. Wax on. Wax off”. Mr. Miyagi mete claramente num bolso os discursos prolíferos de Rowan Atkinson (“The Black Adder” começou nesse mesmo ano), e os não menos elaborados de Schwarzenegger no “Terminator”, que também chegou às salas em 1984. “Wax on” versus “Sarah Conner”? “Wax off” versus “I’ll be back”? Não tem comparação possível. E mais nada.

Desde rebento que corro muito. Aliás, até há um grupo de facebook intitulado “Quero correr tanto como o Mike!” (não da minha autoria, juro!). É isto devido aos slow motions de “Chariots of Fire” ao som da música de Vangelis? Não, pois o filme é meramente de 1981. É devido à vitória na maratona do português Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles nesse Verão de 1984? Humm, tentador, mas não me parece. Acho que a minha fuga desesperada do pelotão dos outros meninos foi de modo a conseguir chegar o mais depressa possível ao final do “NeverEnding Story”. Ou de “Romancing the Stone”. Ou de “City Heat”. Por mais que corresse estes filmes nunca mais acabavam. Ou isso ou a fugir do Stevie Wonder, que esse ano ganhou um Óscar (!) pela música “I Just Called to Say I Love You”. Nas palavras imortais do Macaulay Culkin: “Iayks!”.

Claro que 1984 teve também grandes obras-primas. Wim Wenders fez “Paris, Texas”. Cassavetes fez “Love Streams”. Os mestres Sergio Leone e David Lean tiveram o seu canto de cisne com, respectivamente “Once Upon a Time in America” e “A Passage to India”, enquanto outros se estreavam, como Jim Jarmush com “Stranger than Paradise”, Miyazaki com “Kaze no tani no Naushika”, Roland Joffé com “The Killing Fields” ou os irmãos Coen com “Blood Simple”, um filme que nos ensina que por mais que um tipo esteja morto no cinema, ainda se pode levantar mais uma vez para a derradeira desforra. Está aqui uma séria lição de vida, meus meninos! Mas como tomar seriamente qualquer um destes filmes se a comédia sensação do ano (“Ghost Busters”) tem como vilão um boneco gigante que mais parece o símbolo da Goodyear? “Ai ai ó Bill Murray, espera aí que acho que a cidade vai ser atacada por um pneu gigante!”. “Tens a certeza, Dan Aykroyd? É que eu acho que é o Sr. Marshmallow gigante!”. “A mim parece-me o bicharoco da Goodyear. Ontem tinha dado jeito matá-lo, que se me furou um pneu. Hoje parece-me um desperdício destes nossos raios à la anos 80.

És tão céptico Miguel. Relaxa um bocadinho”. Não posso. Se é para falar de vilões, há uma verdade imutável. Ganham sempre. No “Blood Simple” nunca mais morre. Do Freddy Kruger (que se estreou nesse ano no primeiro dos seus quarenta e sete filmes em Elm Street) nem se fala. Bem, ao menos é melhor que o Jason da Sexta-Feira 13, que após ter sido decapitado num dos filmes, ainda voltou para a trigésima sequela. Ok, um tipo pode ser um verdadeiro Rasputin. Pode ser alvejado, esfaqueado, drogado, atirado ao rio, possuído por um deus pagão (tal como o Indiana Jones na sua aventura de 1984), ter um camião de gelados a cair em cima da tola que eu ainda compreendo que se possa arranjar uma explicação para o trazer de volta para a sequela, por mais inverosímil que seja. Agora DECAPITADO?! Acho deveras complicado… Nem o Conner MacLeod, do clã dos MacLeod, consegue. Mas claro, aqui se vê a diferença, o Jason não é de 1984. Bem, como dizia, os vilões ganham sempre. Até nos Óscares. “Amadeus” (uma obra-prima) nesse ano ganhou 8 Óscares, incluindo Melhor Actor. Mas não foi o Tom Hulce, que fazia de Mozart, e que o Mundo inteiro já detinha como garantido vencedor. Foi o F. Murray Abraham, que fazia de Salieri, numa das maiores “surpresas” da história (merecida contudo!), provando que o mal será sempre mais atraente.

Agora num parágrafo sério (vá, semi-sério), a maior lição de 1984 para a vida daqueles que nesse ano abençoado vieram ao Mundo vem-nos de Martin Brest, o realizador do êxito blockbuster desse ano “Beverly Hills Cop”. Esse filme atirou dois, vá, três tipos para o estrelato. O terceiro foi aquele marmelo que compôs a música midi do genérico que ainda hoje me atormenta em sonhos (atormenta-me mais que o próprio Freddy Kruger!). O primeiro foi o Eddie Murphy. E o segundo Martin Brest, que após comédias de foro duvidoso nos anos 1970 e 1980, fez dois filmes dramáticos fabulosos nos anos 1990: “Scent of a Woman” e “Meet Joe Black”, pelos quais ganhou fama, reconhecimento da crítica e dinheirinho do bom. Mas após estes dois, que filme decide fazer este indivíduo em 2003? Bem, “Gigli”, com a Jennifer Lopez e o Ben Affleck, um dos maiores flops de sempre, totalmente dizimado pela crítica e basicamente por todas as pessoas que o viram. Eu nunca vi, mas parece que é podre de mau. Como pode um filme ser podre de mau se a Lopez é podre de boa? Aparentemente nem isso vale ao filme e portanto até hoje, 11 anos depois, Brest ainda não fez mais nenhum. Lição: podem ter os vossos momentos de génio e os 15 minutos de fama, mas serão sempre fraquinhos, fraquinhos a maior parte do tempo (e é se querem!), e o anonimato está logo ali de novo, ao virar da esquina. Mas não se preocupem, “This is Spinal Tap”, um mockumentary de 1984 sobre uma banda de rock fictícia, dá-nos um incentivo. Podemos ser uns fiascos, mas seremos sempre “big in Japan”, como quem diz, se procurarmos bem, em algum lado haverá sempre um conjunto de badamecos aos saltinhos que gostarão de nós, por mais porcaria que façamos ou qualquer que seja a marca que escolhamos para o nosso verniz das unhas.

Maior lição disse eu? Onde tinha a cabeça?! Claro que não! Em 1984 estava em pré-produção a série que iria mudar o Mundo em 1985 e que me ensinaria, essa sim, a lição mais importante de todas. A pastilha elástica, associada às propriedades químicas de um girassol, é capaz de criar um campo de forças magnético suficientemente forte para repelir um ataque nuclear. Estás aqui (estou a apontar algures para o meu coração, aonde quer que ele esteja) Richard Dean Anderson.

E creio que depois desta pequena explicação se percebe muita coisa. Não é à toa que alguém me apelida de “esquisito”. Ou é por isto ou é pelo filme de culto “The Revenge of the Nerds” também ser, curiosamente, de 1984.

Ser uma criança dos eighties já significa muita coisa. Agora adorar cinema e ser de 1984… bem, é melhor mas é chamar a Maya (a vidente, não a abelha) ou chamar o Oráculo de Bellini… fogo, chamem até o Professor Caramba, porque deve haver qualquer coisa no cosmos que não está a funcionar devidamente.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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