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Home on the Range

Ano: 2004

Realizador: Will Finn, John Sanford

Actores principais (voz): Judi Dench, Cuba Gooding Jr., Jennifer Tilly

Duração: 76 min

Crítica: No início de 2004, com 19 anos de idade, tive um dos maiores choques da minha vida ligada ao cinema. Li a notícia que o seminal Disney Animation Studios estava a poucos meses de distância de lançar o seu último filme feito através de técnicas de animação tradicional (à mão). Depois de 60 anos que incluíram filmes e personagens como Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, 101 Dálmatas, Bernardo e Bianca, Pequena Sereia, Rei Leão ou Pocahontas, entre tantos outros, o estúdio iria fechar portas e dedicar-se exclusivamente à animação por computador. A Disney sempre teve os seus altos e baixos e o virar do milénio foi uma dessas alturas menos conseguidas. Não que as produções tenham sido propriamente más, mas faltou-lhes magia, ao mesmo tempo que se afastaram dos valores da Disney para tentar imitar a produção da Pixar ou da Dreamworks que começava a surgir em força – um dos maiores erros da Disney que felizmente, nos últimos 5 anos já emendou (a compra da Pixar acalmou-lhes os nervos).

Mas no virar do milénio, enquanto filmes como ‘Shrek’ (2001), ‘Ice Age’ (2002) ou ‘Finding Nemo’ (2003) faziam milhões na bilheteira, os filmes contemporâneos da Disney começaram a passar completamente despercebidos e a lutar para conseguirem fazer lucro. Não é por acaso que (ainda!) os únicos dois filmes dos 53 que a Disney já leva que eu ainda não vi são precisamente deste período: ‘Atlantis: The Lost Empire’ (2001) e ‘Treasure Planet’ (2002). As atenções estavam todas numa nova forma de fazer animação, e a novidade é geralmente sempre moda. Mas estou seguro que estes não serão maus filmes, até porque os filmes que vi deste período são interessantes: ‘Lilo and Stitch’ (2002) é um bom filme familiar, ‘The Emperor’s New Groove’ (2000) é hilariante e ‘Brother Bear’ (2003) pode ter uma história batida, mas tem excelente animação. Na realidade o pior filme desta fase é mesmo o único que a Disney já tinha feito por computador, ‘Dinosaur’ (2000, que eu já critiquei neste blog, aqui). Mas não se pode discutir com números, e os rendimentos de bilheteira simplesmente não eram suficientes. ‘Home on the Range’ iria ser o ultimo filme de animação tradicional. 

Se isto foi uma manobra de marketing ou não, eu não sei. Só sei que se foi não resultou. A produção foi lançada sem pompa nem circunstância, e os rendimentos nem chegaram para cobrir os custos de produção, o que só solidificou a decisão do estúdio. Eu, que já não ia ao cinema ver um filme da Disney provavelmente desde ‘Hercules’ em 1997 quando tinha 13 anos, fiz questão de o ir ver. Afinal, estava a morrer um pedaço da História. Este acabou por ser o primeiro filme da Disney que vi no cinema sem os meus pais e arranjar um shopping que o estivesse a exibir não foi fácil, mas lá acabou por ser possível (versão dobrada claro, não havia outra!). Mas sem esperar deparei-me, não com um grande filme, mas com um filme cheio de coração, um pedaço de entretenimento familiar, leve e com qualidade, com personagens engraçadas, momentos divertidos e muita (literalmente) animação, que me apaixonou na altura e continua a apaixonar-me, nas várias vezes que o revi desde então (na versão original, claro está!). ‘Home on the Range’ é uma pérola esquecida da Disney simplesmente porque surgiu numa altura em que estávamos todos deliciados a ver o Gato das Botas em ‘Shrek 2’ (2004) e, talvez, porque não tem princesas. Mas para fazer grandes filmes a Disney não precisa de princesas.

O filme é co-escrito e co-realizado pela dupla Will Finn e John Stanford. Finn já andava nestes meandros desde que trabalhou para Don Bluth em ‘The Secret of Nihm’ (critica aqui), e esteve no departamento artístico da Disney em produções como ‘Pocahontas’ (1995) ou ‘The Hunchback of Norte Dame’ (1996), mas o seu único filme como realizador tinha sido para a concorrência, o também extremamente sub-valorizado ‘Road to El Dorado’ (2000) da Dreamworks. Stanford estreava-se como realizador mas era um alumini dos departamentos de história e animação da Disney, de filmes como ‘Hunchback of Norte Dame’, ‘Mulan’ (1998) ou ‘Atlantis’. Juntos propuseram à Disney fazer um filme sobre o flautista de Hamelin, mas o estúdio considerou o tema demasiado sombrio. O resultado foi um reciclar quase completo da história, que passou por vários estados de desenvolvimento e várias linhas argumentais ao longo dos anos. O imdb lista 19 argumentistas creditados para este filme, o que geralmente dá asneira. Mas como o leitor sabe na animação raramente há argumentos escritos em papel. O filme é escrito em storyboards e nota-se que ‘Home on the Range’ é mais uma mistela de boas ideias de animação (provavelmente de várias fontes), do que propriamente uma coisa pensada do inicio ao fim. Mas isso não lhe tira o encanto. Pode não ter magia nem ser um produto sólido, mas tem um encanto inocente, uma animada liberdade, e faz sorrir.

E por fim, há ainda outra coisa que ajuda a coser o filme e a dar-lhe coerência, ritmo, e uma camada de pó, senão mágico, no mínimo cintilante. Depois de anos longe das produções da Disney (a última tinha sido 'Hercules'), Alan Menken regressava ao papel de compositor, uma justa homenagem ao homem que tinha vencido já 8 Óscares ao serviço da Disney, e que havia composto as músicas que todos sabemos cantar de ‘Little Mermaid’, ‘Beauty and the Beast’, ‘Alladin’, ‘Pocahontas’, ‘Hunchback of Notre Dame’ e ‘Hercules’ (e agora também ‘Tangled’), nesta que seria a despedida de uma era. As personagens não cantam (as músicas são dadas na banda sonora como ‘pensamentos’, num estilo então em voga de filmes como ‘Spirit: The Stallion of the Cimarron’, 2002, ou ‘Road to El Dorado’), mas as músicas, tal como o filme, encantam.

E é logo com uma música genial que o filme abre. Numa sequência que demora menos de um minuto, ouvimos o espectacular tema ‘Home on the Range’, com letra de Glenn Slater e música de Menken, à medida que assistimos a um conjunto de cowboys a cavalgar pelas planícies e um coelho com uma perna de pau (perdeu a pata da sorte!) a chocar contra todos os perigos do deserto, de cactos a cobras. Como nos diz a letra animada "Out where the bad are a whole lot badder, If yer the type with a nervous bladder, Yip! Yow! Yer saddle's gonna reek! 'Cause you aint home on the range, Cowboy- Yer really up the creek!". Nesta pequena sequência, a Disney diz-nos exatamente como vai ser o filme. Vai ser leve, colorido, acelerado, vai ter humor visual e músicas que as crianças podem ouvir mil vezes sem se cansar. E neste caso, o que a Disney promete, cumpre.

A história é a simplicidade em pessoa. Neste caso, em pessoa bovina. As personagens principais são três vaquitas de um pequeno rancho chamado Patch of Heaven (Pedaço de Céu), cuidado por uma senhora idosa simpática. É a musica ‘Little Patch of Heaven’, cantada por K.C.Lang que nos introduz a esse rancho de porquinhos simpáticos, pintos fofos, um bode rezingão, uma galinha hilariante (voz de Estelle Harris, a mesma que faz de Senhora Cabeça de Batata em Toy Story 2 e 3) e duas vacas, a líder idosa Mrs. Calloway (uma contida mas eficaz Judy Dench) e a desmiolada Grace, que vai dar um ar da sua graça eventualmente (voz de Jennifer Tilly). A estas se junta uma terceira logo no inicio do filme, a narradora, Maggie (voz de Roseane Barr), que tem muita da personalidade sarcástica mas de bom coração que esta comediante possui na vida real, e que vai desequilibrar o status quo da quinta.

Infelizmente a vida no rancho não é fácil. Com a crise (há algumas achegas, mas que nunca são exploradas – ainda bem!) mas principalmente devido a um ladrão de vacas que anda a ‘limpar’ rancho após rancho, os rancheiros começam a ter dificuldades em pagar as suas obrigações ao banco, e são forçados a vender as suas propriedades. Não é preciso ser vidente para logo entender que este ladrão de vacas, Alameda Slim (voz excelente de Randy Quaid) é o mesmo que está a comprar os ranchos. Finalmente, só sobra Patch of Heaven. Quando a senhora idosa recebe a notificação do banco, e tem apenas três dias para arranjar 750 dólares (precisamente a mesma quantia da recompensa do Sheriff por Alameda Slim), as vacas decidem tomar o assunto nas próprias mãos (ou devo dizer patas) e ir atrás do malfeitor.

O que se segue é quase um road movie em que as três vacas mais Buck, um cavalo hilariantemente eléctrico, sedento de fama (voz de Cuba Gooding Jr.), se fazem às planícies do Oeste Americano atrás dos ladrões de gado. Elas fazem-no pelo bem do rancho, o cavalo pela glória. Há discussões (obviamente as vacas e Buck não se entendem, nem Mr. Calloway se entende com Maggie), momentos de redenção (as belas sequências musicais de Menken), a clássica luta no saloon, o showdown na mina e nas linhas de comboio (embora sem capitalizar demasiado nos clichés do Oeste – outro ponto a favor) e momentos atrás de momentos com piada. Piada simples e infantil, mas piada na mesma. Estes vão desde os one-liners de Maggie, às varias aparições do coelho perneta (uma espécie de Scratch deste filme), à maneira como Slim rouba as vacas (‘I don’t sing, I Yodel!!’ – o elemento que mais ou menos se manteve da lenda do flautista de Hamelin), à insanidade psicadélica de Buck, aos capangas de Slim (uns trigémeos desmiolados extremamente engraçados), e às aparições especiais, das quais se destaca a de Steve Buschemi como um associado de Alameda Slim, cujas semelhanças com este actor não se limitam apenas à voz… 

‘Home on the Range’ é um filme que se desenrola alegremente, a bom ritmo, com cor, música e espectáculo visual, ingredientes que cativarão qualquer criança. Relembra os velhos clássicos desenhos animados passados nos grandes espaços abertos americanos, de violência ligeira, caricaturalmente exagerada mas nunca ofensiva, e animais antropomorfos falantes de personalidade não profunda, mas de valores morais inequivocamente delineados. Contudo o seu maior problema é a sua grande falta de ambição. O filme não toma uma atitude derrotista ou saudosista, como se tivesse ciente de que seria o último de uma era. Tudo isso é evitado com destreza e a história é imbuída, pelo contrário, de joie de vivre. Mas a fasquia que o filme se propôs atingir foi estabelecida demasiado baixa. A sua maior contrariedade é o seu tempo de duração. Com pouco mais de 70 minutos simplesmente não há tempo para explorar a história e as personagens. A história é linear e na realidade contam-se pelos dedos o número de sequências diferentes que o filme tem. Isso não é necessariamente mau. Filmes como ‘A Goofy Movie’ (1995, critica aqui) ou o seminal ‘Beauty and the Beast’ (1991) têm igualmente uma duração de 75 minutos, mas possuem argumentos estruturalmente perfeitos, onde tudo encaixa no sítio. A história é dada de uma forma sucinta, sim, mas ter a mais ou a menos só estragaria o filme. Já no caso de ‘Home on the Range’, falta claramente mais qualquer coisa, porque as sequências não encadeiam umas nas outras com fluidez, e nem todos os ingredientes são dados, sucintamente ou não. Isso é devido, mais do que tudo parece-me, à falta de coragem dos animadores. A preocupação de fazer um produto que pelo menos cumprisse as suas obrigações na bilheteira e não fosse muito caro levou a algumas decisões menos conseguidas.

Inúmeras sequências tem backgrounds computadorizados (uma técnica recorrente no final da era da animação tradicional americana), que neste caso chamam a atenção para si próprias bastante bem, mais do que deviam. Para além do mais, o caminho optado foi sempre pelo da piada, pelo elemento cómico (embora não sejam, alguma vez, fáceis), que por vezes se atabalhoam e não deixam as emoções brilhar. Se por um lado, a título de exemplo, há um vilão chamado Rico e sabemos sem sombra de dúvida que mais cedo ou mais tarde vamos ouvir a frase clássica de ‘Little Caesar’ (1931) (tal como qualquer animação com uma personagem chamada Stella faz a associação a Brando) – a piada ligeira e previsível mas que não deixa de ter piada – por outro nunca foi uma prioridade do filme ligarmos-nos emocionalmente e de uma forma mais profunda a estas personagens, nem dar uma maior dimensão à história. As cenas têm constantemente diálogos reduzidos ao mínimo, o que soa algumas vezes a falso. O discurso heróico de Mrs. Calloway, no início do terceiro acto, por exemplo, parece estar pleno de auto consciência. Ok este era o discursos heróico que era necessário. Siga para a cena animada, colorida e engraçada seguinte…. A vantagem aqui é que a cena animada, colorida e engraçada seguinte é realmente boa, o que ajuda a perdoar a telegrafia emocional e cenográfica.

Este desequilíbrio será perceptível do público mais maduro, mas nem será notada pelo público mais jovem ou menos preconceituoso em relação ao espólio da Disney. ‘Home on the Range’ pode ter falhas, ser demasiado simples e por vezes demasiado superficial, mas a sua superfície brilha, mais do que muitos filmes de animação. É como um épico desenho animado de sábado de manhã (não estou a falar dos Power Rangers, estou a falar dos verdadeiros desenhos animados de sábado de manhã). E dá sempre vontade de sorrir. É paradoxalmente, uma grande despedida da Disney da animação tradicional, mas em ponto pequeno. É uma despedida modesta, mas extremamente honrada. É uma despedida que vai ao cerne da animação, da essência infantil do espectáculo animado, mas à qual não foi dada o mínimo espaço de manobra para poder crescer como deveria, enriquecer-se como deveria. Mas pelo que é, é maravilhoso, porque não tem um único traço impuro ou maléfico. É vibrante, cheio de energia e não implica qualquer esforço de concentração para o ver. E não é assim que é suposto ser a animação infantil? Quando surge o reprise da música ‘Little Patch of Heaven’, e os animais da quinta dançam porque tudo esta bem quando acaba bem, a Disney voltou a roubar-nos um pouco da nossa infância, para nos oferecer de volta, logo em seguida, num embrulho dourado.

Por 5 anos ‘Home on the Range’ manteve-se, para mim, como a última grande entrada da Disney, o que fez ainda mais enriquecer o seu valor a meus olhos. A Disney mergulhou de cabeça na animação por computador com o hoje esquecido ‘Chicken Little’ (2005), o péssimo ‘Meet the Robinsons’ (2007), e o melhorzinho ‘Bolt’ (2008), com elementos de génio (aquele hamster!), mas uma concepção extremamente ‘vendida’. Decididamente, quando a Disney quis ser Pixar, só fez asneiras. A solução foi extremamente simples. A Disney comprou a Pixar, e assim ficou com a Pixar para fazer filmes Pixar. Ganhou humildade, cedeu as pressões dos puristas e críticos, e regressou à animação tradicional já por duas vezes com ‘The Princess and the Frog’ (2009) e ‘Winnie the Pooh’ (2011, critica aqui). E quando fez animação por computador, optou por produtos híbridos, mais assentes nos velhos valores, como ‘Tangled’ (2010) e ‘Frozen’ (2013, critica aqui), que bem poderiam ter sido desenhados à mão. Face ao passado recente, ‘Home on the Range’ empalidece, deixa de ter importância histórica e é de novo posto na gaveta. Mas não na minha. O fim de semana passado comprei o blu-ray e revi-o há poucos dias. Não perdeu uma única grama deste seu humilde e pouco ambicioso encanto, e é tão simplesmente divertido, colorido e animado como sempre foi, e, bem entendido, sempre será.

E se gostar do filme, leitor, ouça também a banda sonora. As canções e as músicas instrumentais de Menken estão tão boas como sempre, mas o cd tem outro trunfo. A última faixa, a faixa de bónus, apresenta-nos a música ‘Everytime you need a friend’ cantada pelo próprio Menken, numa versão que não se ouve no filme, nem sequer no genérico final. Alan Menken não é só o melhor songwriter do cinema moderno. Afinal, também sabe cantar! 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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