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The Comedians

Ano: 1967

Realizador: Peter Glenville

Actores principais: Richard Burton, Elizabeth Taylor, Alec Guinness

Duração: 150 min

Crítica: Acho que ninguém pode contestar que o maior par romântico dentro e fora do ecrã de toda a história do cinema foi aquele constituído por Richard Burton e Elizabeth Taylor. Ela era uma das grandes child stars dos anos 1940, realeza de Hollywood, que despoletara em papéis adultos nos anos 1950 como uma deusa viva, não só da actuação, mas também sexual, com performances dramáticas electrizantes como aquelas em ‘The Giant’ (1955) ou ‘The Cat on a Hot Tin Roof’ (1958). Ele, um inglês da escola teatral, que combinava de uma forma única uma abordagem quase animalesca e viperina aos papéis, digna de Brando, com a suavidade e o charme dos palcos shakespearianos, e fizera nome no cinema em filmes como ‘The Robe’ (1953). Casados não uma, mas duas vezes na vida real (o seu primeiro divórcio demorou menos de um ano), juntos geravam faísca, na celulóide e na bilheteira.

Mas os filmes que fizeram em conjunto não eram apenas meros produtos mediáticos, para capitalizar a sua fama nas revistas cor de rosa. É só olhar para os títulos. Em 1967, altura em que contracenaram em ‘The Comedians’, Burton e Taylor já tinham contracenando em 6 filmes nessa década; o majestoso épico ‘Cleópatra’ (1963), o drama ligeiro ‘The VIPs’ (1963), o fabuloso drama ‘The Sandpiper’ (1965), que para mim contém uma das melhores performances de Taylor, o animalesco ‘Who’s Afraid of Virginia Wolf’ (1966), que valeu a Taylor o seu segundo Óscar de Melhor Actriz (Burton nunca ganhou nenhum), a adaptação Shakespeariana ‘The Taming of the Shrew’ (1967) e o mais esquecido ‘Dr. Faustus’ (1967). No final de 1967, o par não precisava de nenhuma introdução, e ver um filme de Burton e Taylor era quase um dever cívico. Por outro lado, parecia quase que não podiam fazer um filme em separado, o que no caso de ‘The Comedians’, o seu terceiro filme em 1967, foi um erro, ou talvez melhor dito, um exagero. Na realidade, acho que nem se deve considerar ‘The Comedians’ um filme de Burton-Taylor. Burton é a personagem principal, é a força motriz do filme, e é a personagem na perspectiva da qual o filme é contado. Taylor é uma personagem secundaríssima, atirada para a mistura de cabeça, provavelmente para capitalizar na popularidade do par, e se alguma coisa faz algum mal ao filme, porque é um elemento de distracção e lhe tira o foco, já que salta à vista que as suas cenas com Burton foram artificialmente alargadas, e provavelmente nem constavam do argumento original. Isto claro, não tem nada a ver com Taylor. Sempre que aparece, a sua performance é praticamente imaculada (só aquele sotaque alemão que tenta fazer….) e o seu magnetismo é tão intenso como em qualquer outro filme. É difícil encontrar uma actriz de quem a câmara estivesse tão enamorada como Liz Taylor…. 

O último filme da curta carreira cinematográfica do actor e encenador de teatro Peter Glenville (o homem que fizera, por exemplo, ‘Becket’ em 1964), ‘The Comedians’ ostenta um argumento escrito por Graham Greene, o escritor seminal da intriga politica-policial do pós-guerra, baseado no seu próprio romance. Como outros romances de Greene, foca-se na instabilidade politica e social de um meio semi-exótico e misterioso, da tensão subjacente mesmo que pouco visível, e de um herói improvável que se vê envolvido neste clima e tem que fazer a escolha de agir. Neste caso, o filme passa-se todo no Haiti, numa altura em que o regime ditatorial dos anos 1960 está em vias de entrar em pleno vigor, e a policia militar, os Tontons, lentamente apertam o certo aos estrangeiros e a todos os opositores do regime, criando um clima de medo através da ameaça, da violência e, até, da superstição vodoo. Mas ‘The Comedians’ não é nenhum ‘Third Man’ (1949) – também baseado num livro e argumento de Greene. Para começar falta-lhe alguma beleza visual. O encenador Peter Glenville pode perceber de gestão de actores e de actuações, mas a sua gestão cinematográfica não é distinguível. Depois falta-lhe força para ser cativante, para prender o espectador. Acaba por seduzir mais pelas suas brilhantes actuações, do que propriamente pelas suas situações, embora tivesse mais do que condições para isso.

Um barco chega ao porto de Port-au-Prince, a capital do Haiti, e  trás consigo aquelas que irão ser as personagens principais do filme. Nenhuma está bem ciente dos eventos recentes do Haiti. Até Burton, o dono de um dos principais hotéis estrangeiros de Port-au-Prince, completamente familiarizado com os trâmites do país, se vê um pouco perdido na nova ordem. Ele já suspeitava, havia ido a Nova Iorque tentar vender o seu hotel, mas não arranjou compradores. Mas ele voltou porque tinha um forte motivo. Está a ter um caso com a mulher de um embaixador (quem mais, Taylor) e mal sai do barco vai ter com ela, na primeira de muitas cenas quentes e tempestivas entre ambos em que pouco mais falam do que da situação do país e da sua. Ambos querem estar juntos mas vão sempre adiando, ou pelo medo do compromisso, ou pela situação do pais, ou pela pouca vontade que Taylor tem de deixar o seu filho pequeno (de dizer que o embaixador é interpretado pelo extraordinário Peter Ustinov, mas que neste filme tem uma performance abatida, porque o argumento não lhe dá espaço nenhum). Da primeira à última cena em que Taylor e Burton acabam por aparecer juntos, pouco mais avançam na sua relação pessoal, o que é uma das grandes fraquezas do filme.

Outro dos passageiros do barco é Alce Guinness, que tem aqui uma das performances da sua carreira. Bem melhor que em ‘Bridge on the River Kwai’ (1957), bem melhor que em ‘Kind Hearts and Coronet’ (1949), Guinness prova neste filme porque foi um dos melhores actores da história do cinema. Interpreta um suposto ex-major do exército, que chega ao Haiti a convite de um antigo ministro, que agora com o novo regime, foi deposto. Logo à saída do barco é preso, simplesmente por ser amigo de um ‘inimigo do regime’, e mais tarde na prisão é torturado.

Os últimos passageiros do barco são um casal americano idoso mas influente (ele é um ex-candidato a presidente americano), que pretende vir ao Haiti investir a sua fortuna para criar uma estufa de agricultura biológica. Este casal é interpretado por Paul Ford, numa mistura de comédia de costumes e indignação constante, e pela extraordinária Lillian Gish, a maior actriz da década de 1910 e 1920, musa de D.W. Griffith, que entrou em ‘Birth of a Nation’ (1915), e que prova aqui, com 75 anos, como havia provado em ‘Night of the Hunter’ (1955), que era uma fabulosa actriz, mesmo no sonoro. A presença do casal é tolerada inicialmente pelo regime, quando descobrem o montante financeiro que pretendem investir, embora os tenham sempre debaixo de olho.

Rapidamente, todas estas personagens se vêm envolvidas no clima de caos e medo que assolou o pais de uma ponta à outra, principalmente para os estrangeiros. Por isso, formam um núcleo duro de inter-ajuda. A primeira coisa é tentar tirar Guinness da prisão e para isso o casal tenta usar a sua influencia politica. Mais tarde, descobre-se que Guinness tinha ido para o pais como traficante de armas, e ele torna-se o centro da história. Os rebeldes querem usá-lo como líder, e o filme transforma-se numa luta de Burton e dos seus aliados a tentarem ajudar Guinness a fugir para as montanhas, para se juntar aos opositores do regime. Mas o próprio Guinness tem um grande segredo a esconder... Pelo caminho assistimos a assassinatos de opositores do regime e de amigos da causa, a massacres e às constantes ameaças de assassínio dos estrangeiros, em cenas impactantes que são entre-cortadas pelos pequenos dramas pessoais, como é norma.

Porém, o que poderia resultar num drama politico extremamente interessante acaba por soar a pouco. Por um lado isto parece dever-se, pelo menos a meu ver, ao facto de o filme se estruturar como um livro. A personagem de Burton entra em todas ou quase todas as cenas, o que às vezes não é muito credível (por exemplo, porque é que um dono de hotel acompanha o casal americano à audiência que têm com o novo ministro?). A forma como o filme está estruturado obriga Burton a ir de cena em cena, de sítio em sítio, interagindo com uma personagem de cada vez, em cenas de dialogo por vezes longas. Claro que há cenas com várias personagens, mas estranhamente estas são raras, e a maior parte das personagens parece desaparecer até Burton regressar ao sitio onde elas estão. Esta semana vi este filme pela segunda vez na minha vida, depois de o ter visto há uns anos. Confesso que da primeira vez esta estrutura do argumento me chocou mais do que agora. Agora, talvez por eu já conhecer a historia, pareceu-me mais natural e fluída. O mesmo se passou para mim com as cenas ente Burton e Taylor. Da primeira vez enjoei-me dos diálogos cíclicos do género “amo-te, mas não posso deixar o meu marido, tenho de pensar no meu filho, mas eu amo-te”, do estranhíssimo sotaque de Taylor e da forma como as suas cenas são integradas quase a martelo no filme para capitalizar na sua química. Agora, confesso que estes elementos não me fizeram assim tanta impressão. Há realmente uma tentativa de dar ao filme algum conflito interior e profundidade à personagem de Burton (a de Taylor é o apoio mas não tem existência isolada), mas que nunca é completamente bem-sucedida, pois o ritmo do filme é sempre, ou quase sempre, quebrado.

Depois de navegarmos pela resistência, pela polícia corrupta, pela superstição vodoo, pela lavagem ao cérebro dos cidadãos, pela tentativa do regime de mostrar opulência ao mundo exterior, pelo ambiente cada vez mais claustrofóbico em que as personagens principais circulam, e por ainda mais assassinatos (como o da interessante personagem de um jovem James Earl Jones, um médico que ajuda a resistência) – ou seja, depois de percorremos toda e qualquer possível situação do cliché do regime totalitário – o filem chega ao seu clímax. Os que podem simplesmente fazem as malas, apanham o avião e vão-se embora (como o casal americano). Os que não podem ficam e lutam, cada um à sua maneira. No último terço do filme, Taylor e Ustinov escondem Guinness na embaixada e depois Burton tem a missão suicida de tentar levá-lo até às montanhas, onde a resistência o espera… Mas mesmo nesta altura, o heroísmo nunca é cantado, nem a tensão absolutamente explorada. Burton, aliás, está mais preocupado com um ataque de ciúmes (pois pensa que Guiness terá dormido com Taylor), do que propriamente com toda a história do golpe de estado. Esta contradição poderia ser excelente num filme desta natureza. Mas não o é, infelizmente, em ‘The Comedians’.

E o final, talvez demasiado vago, e algo aberto à interpretação do público, de novo não canta o heroísmo, não salienta o dramatismo, e em vez disso prende-se a pontadas de emoção que, passe a expressão, não são assim tão emocionantes. Tudo somado, com quase duas horas e meia, ‘The Comedians’ é um filme com fortes cenas de diálogo, e interpretações a condizer, mas acção muito descompassada para o contexto da história, e, o pior de tudo, com um ritmo que acaba por ser demasiado lento, e que ainda se torna mais demorado cada vez que a dupla Taylor-Burton tem mais uma cena íntima. Este era um filme que pedia o corte de uma ou duas personagens (sim, Taylor incluída!), que dão uma extra, mas dispensável, dimensão emocional à história, e mais foco na tensão política e na ascensão do regime. Burton é um magnífico pilar emocional onde o filme assenta, mas quando é mais necessário (no final, nas montanhas) o filme deixa-nos pendurados e, depois de 150 minutos a segui-lo de perto, nega-nos um final com ele, quando o dá a partir de outras personagens. Um corte na história e na exploração de algumas personagens secundárias resultaria num filme mais curto, de ritmo mais rápido e com mais tempo para explorar o final, quando quer Burton quer Guiness enfrentam, cada um à sua maneira, o seu destino. Estou seguro que assim o filme ficaria muito mais interessante.

Independentemente disto, ‘The Comedians’ poderá não ser o melhor filme para ver a faísca entre Burton e Taylor (para isso é só ver ‘Cleopatra’, ‘The Sandpiper’ ou ‘Who’s Affraid of Virginia Wolf’), mas é mesmo assim um interessante e ousado (para a época) drama político, com poderosas performances de grandes actores, que chama a atenção para um problema então bem real (e que ainda hoje existe em alguns países) e para os inocentes que se vêm de repente envolvidos numa revolução sem sentido. Claro que pouca atenção é dada aos mártires locais (são até fortemente gozados, a meu ver, por Burton no final), e só os ‘coitadinhos’ dos estrangeiros é que têm alguma coisa para sentir neste filme, mas hey, isto é Hollywood! Interessante em conceito, menos em forma, incisivo mas nunca demais e pecando por tentar capitalizar excessivamente na popularidade de Burton e Taylor, ‘The Comedians’ tem contudo um trunfo imaculado: a performance de Alec Guiness. Só por isso, vale a pena ver o filme.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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