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On Her Majesty's Secret Service

Ano: 1969

Realizador: Peter R. Hunt

Actores principais: George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas

Duração: 142 min

Crítica: (Nota: Confesso que sou um fã incondicional dos livros e dos filmes de James Bond (mais dos livros que dos filmes na verdade), por isso peço um pouco de paciência por parte do leitor, já que esta crítica está carregada de referências e contra-referências! Bem vindos ao universo de Bond, James Bond!)

O 6º filme da saga de James Bond, ‘On Her Majesty’s Secret Service’ (doravante OHMSS), é um dos menos recordados hoje em dia (em grande parte por ter como Bond o actor George Lazenby, na sua única aparição como o espião inglês), mas é também, em muitos aspectos, um filme especial e inovador, quer para a saga Bond, quer para os filmes de acção em geral. Na verdade, existe uma forte dicotomia em OHMSS. O filme tem do melhor e do pior de todos os filmes de James Bond, e existe num plano claramente à parte de todos os outros. Há um surrealismo inerente, um auto-gozo, que só se encontra ou nas paródias de espiões, ou mais concretamente nos dois filmes ‘oficiais não-oficiais’ de James Bond, ou seja, os dois filmes legalmente feitos como adaptações de livros de Ian Fleming mas que não foram produzidos por Cubby Broccoli (e após a morte deste, pela sua filha) para a MGM/UA/EON: ‘Casino Royale’ (1966) – abertamente uma comédia – e ‘Never Say Never Again’ (1983) – o regresso de Sean Connery durante o reinado ‘oficial’ de Roger Moore. Mas por outro lado, OHMSS tem das mais intensas cenas de acção de toda a saga (isto é, até chegarmos aos explosivos finais dos anos 1980 e às épocas de Brosnan e Craig), e tem uma profundidade dramática raramente encontrada na saga (e ainda menos após a aparição de Moore no papel).

Após ‘You Only Live Twice’ (1967), Sean Connery decidiu dizer um adeus definitivo à saga, porque estava farto do papel (5 filmes em 6 anos) e queria evoluir na carreira (mal sabia ele que ia fazer de Bond mais duas vezes…). Os produtores de Bond depararam-se com um grande dilema. Só um actor tinha feito de Bond (aliás dois, há o ‘Casino Royale’ de 1954 com Barry Nelson, mas isso é só para os historiadores de cinema) e portanto não se sabia se o público iria reagir positivamente a outro actor a interpretar Bond. Para o público Connery era Bond, portanto fazer um novo filme, com um novo actor, era um risco sério. O casting, obviamente, fica para a história como algo épico. Roger Moore foi, na altura, o mais forte candidato, mas ainda estava ligado contratualmente à série ‘The Saint’. Por fim, Broccoli acabou por se decidir por Lazenby. Lazenby, um modelo australiano com um cinturão negro em Karaté (que mais tarde seria um discípulo de Bruce Lee e entraria em muitos ‘épicos’ de kung-fu nos anos 1970), nunca tinha feito um filme (apenas anúncios na televisão), e foi uma das escolhas mais estranhas de toda a saga Bond. Lazenby sabia lutar e nota-se isso bem nas cenas de acção de OHMSS (muitas concebidas de propósito para exibir estes dotes) e tinha algumas parecenças físicas com Sean Connery, mas, verdade seja dita, não sabia actuar. No decorrer do filme, o seu andar desengonçado e a forma similar e sem expressão com que diz todas as frases claramente demonstram que Lazenby não é um bom actor e, como consequência, não é um bom Bond, excepto quando está calado e tem que lutar. Aliás, Lazenby está bem melhor quando Bond se mascara de Sir Hillary Bray, um choninhas historiador de árvores genealógicas, para se infiltrar na mansão de Blofeld, do que propriamente a fazer de Bond. O contraste é ainda mais forte porque Lazenby é posto a contracenar com dois portentos dos anos 1960. Blofeld é protagonizado neste filme por Telly Savalas, talvez o melhor Blofeld (a par de Charles Gray em ‘Diamonds are Forever’). A principal Bond girl, a Condessa Tracy diVicenzo, é protagonizada pela gloriosa Diana Rigg, a curvilínea e inteligentíssima actriz que alcançara estrelato nos palcos ingleses e na série televisiva ‘The Avengers’ no papel de Emma Peal, entre 1965 e 1968 (a anterior protagonista feminina de Avengers, antes de 1965, Honor Blackman, fez de Pussy Galore em ‘Goldfinger’ e o protagonista masculino de toda a série, o genial Patrick Macnee, entra em ‘A View to A Kill’ – mostrando a cumplicidade entre a saga Bond e as principais séries de espiões inglesas; ‘The Saint’ e ‘The Avengers’).

Outra escolha menos conseguida foi a do realizador, Peter R. Hunt. Hunt tinha sido o editor dos primeiros filmes de Bond, sendo depois promovido, a meio da década de 1960, a realizador da segunda unidade. Finalmente, deram-lhe a oportunidade de realizar (estas ‘promoções’ eram usuais na ‘família’ fechada de Bond – o realizador com mais filmes na saga, John Glen, que realizou 3 do Roger Moore e os 2 do Timothy Dalton, também teve uma ‘ascensão’ similar). Dos anteriores 5 filmes de Bond, Terrence Young tinha realizador 3 e Lewis Gilbert e Guy Hamilton 1 cada um (e iriam realizar mais 5 filmes entre eles após OHMSS, até John Glen assumir as rédeas). Ou seja, os primeiros 16 filmes de Bond tiveram apenas 5 realizadores, e desses, só Hunt realizou apenas um filme. Se Young, Gilbert e Hamilton foram decisivos para a criação da imagem cinematográfica de Bond nas primeiras décadas, Hunt quebrou ostensivamente com essa tradição visual. Claramente visualiza a edição das cenas quando as está a filmar e claramente sabe coordenar sequências de acção (as perseguições nas montanhas suíças são magníficas), mas não sabe gerir muito bem o dramático e o intimista. Esta constatação, perfeitamente perceptível em OHMSS, é corroborada na análise de toda a sua carreira posterior, que contém apenas filmes de acção de qualidade inferior.

Juntos, realizador e actor principal, têm química suficiente para mostrar das sequências mais violentas de luta corpo a corpo da saga Bond praticamente até à cena inicial de ‘Casino Royale’ (2006) e das cenas de perseguição que mais tiram o fôlego. Mas a gestão do ‘drama’ fica muito aquém. E depois há a necessidade de não levar tudo completamente a sério. Portanto gera-se esta dicotomia. Por exemplo, o filme inicia-se com uma luta pesada na praia em que Bond tenta salvar Tracy. Uma vez aniquilados os mauzões, Tracy, em vez de capitular a Bond como é costume com as Bond Girls, foge no carro deste. E é então que Lazemby se vira para a câmara e diz a frase mais surreal de toda a saga: “This never happened to the other fellow!”, uma clara referência a Connery. E aí entra o genérico inicial, sem a clássica música cantada (essa, de Loius Armstrong – ‘All the Time in the World’, só aparece depois, na sequência romântica), e contendo imagens dos 5 filmes anteriores. Há claramente a necessidade de estar agarrado aos filmes de Connery, para que o público aceite o novo Bond. Mas também há a necessidade de uma libertação dos estereótipos que a saga já começava a ter. É uma liberdade bem-vinda mas que trás consigo uma desnecessária auto-paródia. E em cima de tudo isto o filme também quer ser sério. E dramático. É muita coisa junta, difícil de definir e explicar, que destrói a maior parte do equilíbrio do filme.

Para além de actor e realizador, o terceiro motivo diferenciador de OHMSS é a escolha da história. Numa época em que os livros de Ian Fleming ainda eram a inspiração para os filmes, a escolha deste livro é ousada. Mais ousado é a forma estrutural como o adaptam para o grande ecrã. Tendo eu já lido todos os livros de Fleming afirmo sem sombra de dúvida que esta é, de todos, a adaptação mais fiel. ‘Casino Royal’ (2006) fica perto, pois todas as cenas do livro estão no filme, e todos os sentimentos também, mas como este é um livro muito pequeno ocupa apenas cerca de 40 minutos de um filme de 2h30, por isso há muita coisa ‘inventada’ – em consonância com o tom, é certo, mas não deixa de ser não-Fleming. Já em OHMSS, o filme vê-se como se lê o livro. A maior parte dos diálogos são frases do livro, e a sequência de eventos é também a mesma. Isto é um pau de dois bicos. Por um lado o lustro emocional, a acção explosiva e o jogo psicológico que o livro contém estão presentes no filme, pelo menos nos diálogos e nas situações. Contudo, o realizador não consegue transportar aquilo que se está a ver e a ouvir para a sub-corrente emocional do filme. Ou seja, muita coisa soa a artificial, o que contribui para o tal tom surreal, de auto-gozo existente. Muitas vezes frases e situações que resultam no papel (pois o leitor as pode imaginar como quiser) não resultam em filme, já que uma vez materializadas podem parecer lamechas ou pouco credíveis. O romance de Bond com Tracy e a infiltração de Bond mascarado de Sir Hillary na mansão de Blofeld são dois elementos, por exemplo, que no livro resultam mas no filme ficam estranhos e forçados.

Mas há ainda outro motivo pelo qual a escolha do livro é ousada, e que a pobre qualidade da actuação de Lazenby e a falta de destreza de controlo emocional do realizador não conseguem aproveitar. OHMSS é o antepenúltimo livro que Fleming escreveu, e foi lançado em 1963, quando ‘Goldfinger’, o terceiro filme com Connery, estava a sair nos cinemas. Por esta altura, e com o louco sucesso dos filmes, Fleming já estava um pouco farto e brincava com a ideia de matar o seu espião, tal como Connan Doyle fizera com Sherlock Holmes. Com a excepção do último romance, ‘The Man With the Golden Gun’ (publicado em 1965 logo após a morte de Fleming), uma clara tentativa de ressuscitar Bond (da mesma forma que Doyle também ressuscitou Holmes várias vezes), os dois livros anteriores, OHMSS seguido imediatamente de ‘You Only Live Twice’ (YOLT) (publicado em 1964), constituem inequivocamente o final do Bond literário. Estou seguro que os dois livros foram planeados em conjunto para terminar com Bond, sendo que OHMSS constitui o primeiro e o segundo acto e YOLT o terceiro. Portanto, há no livro um retomar da profundidade de ‘Casino Royale’, e uma construção de eventos dramáticos e psicológicos que vai crescendo e crescendo até que em YOLT Bond explode, tem a batalha decisiva com Blofeld, e acaba, com perda de memória, a viver (supostamente) o resto dos seus dias numa ilha do Pacífico como pescador (algo que nunca foi usado nos filmes!... pergunto-me porquê…) (NOTA: em ‘The Man with the Golden Gun’, o livro, Bond é encontrado nessa ilha pelos russos, lavam-lhe o cérebro e enviam-no para matar M….).

Isto tudo para dizer que o livro de OHMSS, em paralelo com a aventura, inicia este dramático arco emocional em Bond, numa tensão soberbamente construída que culmina no final climático. No filme de OHMSS há este final climático, sim senhora, reproduzido frase a frase, linha a linha, a partir do livro. Mas não existe a mínima construção emocional para lá chegar, porque esta existe, não naquilo que é dito ou filmado, mas no sub-contexto. O filme é então a adaptação fiel mas superficial do livro.

A história começa com Bond a ser retirado da missão de encontrar Blofeld. Dois anos passaram desde a última vez que alguém o viu e M acha que não pode desperdiçar assim o seu melhor agente. Bond não fica nada satisfeito e ameaça sair do serviço. Em vez disso, Moneypenny consegue que ele tire umas férias. É em Portugal (sim, este é o único filme de Bond alguma vez filmado em Portugal, mais concretamente no Ribatejo!), que Bond encontra Draco (o actor Gabriele Ferzetti, uma presença calma mas imponente), pai de Tracy. Embora Draco seja o líder de uma máfia italiana, que o leitor não se iluda, este não é o vilão. Draco sabe que Bond salvou a vida a Tracy (e que mais tarde nessa noite foi para a cama com ela) na sequência inicial na Riviera Francesa. Portanto, Draco acha que Bond é o homem ideal para domar a sua filha rebelde e tenta convencê-lo a namorar e casar com ela. O leitor, se não viu o filme, deve estar a achar isto tudo muito estranho. E se vir o filme vai achar ainda mais. Só se ler o livro é que perceberá como isto surge muito naturalmente, e que Bond começa a ver em Tracy uma substituta para Vesper, o seu primeiro e único amor, que morrera no final trágico de ‘Casino Royale’. Mas no filme, pelo que já expliquei, porque o realizador não consegue ser subtil, tudo parece (e é!) muito artificial. Bond está interessado em Draco porque este poderá saber onde está Blofeld. Contudo, enquanto namora Tracy, Bond não parece ter muita pressa em saber essa informação. O filme estagna completamente, e ao som de Louis Armstong lá nos mostra os passeios pelos jardins, pelas praias, pelo nosso Ribatejo, em que Tracy e Bond se vão apaixonando. A certa altura, isto não parece um filme de Bond, mas sim um romance! Quem viu ‘Casino Royale’ de 2006 (peço desculpa pelas continuas referências a Casino Royale, mas é a história mais parecida com OHMSS em termos de estrutura da personagem de Bond) certamente se recorda da cena em que Bond e Vesper se sentam no chuveiro após ambos quase terem morrido, e aí se abraçam. Essa profundidade, esse início de paixão, muito subtil, é credível. No filme de OHMSS não existe nada de análogo, mesmo tendo em conta os padrões dos filmes dos anos 1960.

Eventualmente, quando o casalinho já está muito apaixonado, Bond lá se lembra de seguir a dica que Draco lhe deu e vai procurar Blofeld. Neste momento Tracy desaparece do filme por mais de meia hora e Bond segue o rasto de Blofeld até o topo de uma montanha nos Alpes Suíços. Mais uma coisa ridícula do filme (embora baseada no livro) é Blofeld (mascarado claro) querer ser reconhecido como o Conde de Bleuchamp e portanto estar em contacto com o College of Arms de Londres para que lhe enviem um especialista para lhe reconhecerem o grau! E aí vai Bond para o ninho da águia, um suposto instituto para cura de alergias. Lá Blofeld, o director da clínica, está na realidade a lavar o cérebro a umas jovens pacientes, para que se tornem os seus anjos da morte, prontas a libertar vírus mortais em várias partes do globo. Explorando a clínica e tendo vários tête-à-têtes com Blofeld, Bond, esquecendo Tracy por vários momentos, vai para a cama não com uma, mas com duas destas bonitas jovens.

Na realidade, o plano de Blofeld acaba por ser a coisa menos importante no filme. Assim sendo, estas sequências na clínica consomem muito do tempo do filme, que aqui, com a agravante de que Bond não é Bond (é Sir Hillary), perde de novo ritmo, depois de ter acelerado um bocadinho depois da parte do ‘romance’. Com 2h20min, este era o filme mais longo de Bond até ‘Casino Royal’, 37 anos depois, e consegue-se perfeitamente perceber onde é que este tempo é gasto, muitas vezes desnecessariamente. Só depois disto, quando Bond desmascara o plano e é ele próprio desmascarado, é que o filme reganha momento, com as excelentes perseguições da neve (entretanto Tracy aparece e faz parte das perseguições), e depois, com a ajuda do exército de Draco, dá-se o ataque final à torre.

Tracy é, sem dúvida, a mais complexa Bond Girl desde Vesper, mas ao contrário de Eva Green em ‘Casino Royale’, Diana Rigg, embora seja muito melhor actriz, não tem tantas hipóteses para brilhar porque o argumento não a deixa. Chega a um ponto em que finalmente nos apercebemos como estão apaixonados um pelo outro, e sentimos essa emoção a pesar nos dramáticos segundos finais do filme (é o único filme Bond que não ‘acaba em bem’), mas Lazenby insiste em estar desprovido de emoção, o que torna tudo muito difícil de digerir. É difícil entender este Bond infantil, que a certo ponto do filme lê abertamente uma Playboy e que usa umas frases bem lamechas para ir para a cama com as raparigas da clínica, mas que depois é uma máquina de artes marciais. É difícil ver Lazenby como um homem que logo a seguir aos eventos deste filme (no livro YOLT), supostamente correria meio mundo para vingar Tracy, culminando num ataque suicida a um castelo japonês. Basicamente, é difícil ver e acreditar em Lazenby como Bond! Felizmente Lazenby, mal aconselhado por amigos, e temendo ficar rotulado neste papel como Conney ficara (por esta altura Connery estava com dificuldades em criar uma carreira fora de Bond), recusou o contrato para 7 filmes de Bond que Broccoli lhe ofereceu. Em vez disso, assinou um contrato milionário com o Golden Harvest Studios, para fazer 4 filmes com Bruce Lee. Infelizmente Lee morreu antes do primeiro filme ser feito, e Lazenby ficou contratualmente preso a filmes que viriam a ser pouco conhecidos do público em geral, o que praticamente terminou com a sua carreira, exceptuando a sua habitual presença em paródias de espiões.

Depois deste longo debitar de referências e sensações sobre o filme, que conclusões se podem tirar daqui? OHMSS é um filme de dualidades e contrastes, que nunca se equilibram num meio termo. Não é por acaso que há facções que consideram este um dos melhores Bonds, se não o melhor, e outras que fazem de conta que nunca existiu. Se por um lado eu creio que Fleming ficaria desapontado com este filme, porque lhe retira muito da intensidade dramática, por outro sou forçado a admitir que esta é uma das adaptações mais fieis, que não se vende a cenas de acção e a piadas fáceis só para satisfazer uma imagem cinematográfica do espião que se foi criando e evoluindo no imaginário do público mas que efectivamente não existe nos livros. Se por um lado é quase de louvar que Hunt não tenha voltado a realizar um Bond e que a saga tenha sido posta de novo nas mãos de Gilbert e Hamilton, por outro é com respeito enorme que se revêm as grandiosas cenas de acção que o filme possui, quer em termos de batalhas corpo a corpo, quer em termos das magníficas perseguições nas montanhas gélidas, que Hunt tão bem conseguiu gerir e filmar. Se por um lado se lamenta o desperdício de Rigg num papel tão insosso e submisso como Bond Girl (embora haja sempre a tentativa de a mostrar como mulher rebelde e forte), por outro é inegável que ela foi uma das melhores Bond Girls de sempre, porque mesmo assim consegue criar uma personagem especial, com uma personalidade bem definida e uma enorme naturalidade. Rigg daria também uma excelente Vesper. Desde Rigg a Eva Green praticamente não houve uma Bond Girl que fizesse completamente jus aos livros de Fleming. A única coisa que não gera conflitualidade é Lazenby. É mau. Mas mesmo assim, ainda há uma certa nostalgia associada ao facto de ele interpretar um Bond mais próximo dos livros do que aquele de Connery, embora só em termos de frases que pronuncia e da violência dos seus ataques. A forma como pronuncia essas frases, a sua expressão e o seu andar são completamente não-Bond.

Pela positiva destaco ainda a música de John Barry. Esta é, sem dúvida alguma, uma das bandas sonoras mais icónicas da saga Bond, mesmo que muitas vezes a imagem não esteja à altura da qualidade da música. O tema principal, ‘Sky Chase’, uma música impactante e cheia de bravado, perfeita para as explosivas cenas de acção, é ainda hoje o tema mais reconhecível de Bond, a seguir, claro está, ao famoso ‘Bond theme’, o hino da personagem, composto por Monty Norman para ‘Dr. No’, o primeiro filme.

No final, acho que o maior mal de OHMSS foi ter receio da reacção do público a um Bond que não Connery. Daí os produtores terem tido a necessidade de aligeirar as coisas, de fazer uma semi-paródia, de enumerar uma série de referências internas. Mas a escolha do livro não foi adequada, se o objectivo era este, e a insistência na acção também não. Ver OHMSS é ver um filme que no global acaba por ser bom entretenimento de acção e romance, que foi melhor construído que filmes de Bond subsequentes, que tem locais de filmagem de tirar o fôlego (e que inclui passagens por Zambujal, Estoril e até a visita a uma tourada portuguesa), mas que é uma montanha russa emocional. Passa do brejeiro e do insosso para o pico da emoção dramática. Passa de cenas infinitas de romance banal com músiquinha a condizer, à acção mais nua e crua que a saga Bond viu durante 30 anos. Vai buscar diálogos ipsis verbis ao livro de Fleming, e depois dá uns apartes à câmara para não se levar a si próprio a sério. É um filme sem sentido do todo, sem uma estrutura coesa e coerente. Mas, se abraçarmos esse universo de contrastes surreais (que não será à primeira visualização do filme de certeza… talvez à quarta ou quinta), iremo-nos aperceber que aqui está uma das pérolas da saga Bond. Inexplicável eu sei, mas há aqui qualidade no vilão, na acção, na Bond girl, na psicologia do Bond (mesmo que o próprio Bond não o mostre!), nos locais de filmagem, que são flemescos por definição, ou seja, tudo elementos ultra-Bond. Mas depois, inevitavelmente, estragam tudo.

Quer no livro, quer no filme, é revelado pelo verdadeiro Sir Hillary que o lema da família Bond é, há séculos, ‘The World is Not Enough’. Este título não só serviu para dar nome a um filme de Brosnan, como define o que está nas entrelinhas desta história. A minha recomendação final é que, vendo o filme como ente isolado, esta vertente emocional ficará perdida, muito embora o final surpreenderá qualquer espectador novo (pena não ter tido continuidade, pedia-se um ‘Quantum of Solace’ para este ‘Casino Royale’, se permitem a analogia). Neste caso, restará apenas o auto-gozo e a fenomenal acção. Mas se se vir o filme já tendo lido o livro, ao menos o espectador poderá colmatar na sua cabeça os vazios emocionais que o filme tem, e portanto terá uma experiência de visualização muito mais recompensadora. Assim sendo, até poderá um dia começar a gostar deste filme. Confesso que, tendo-o visto outra vez a semana passada (a primeira vez em Blu-ray após anos de um VHS bem batidinho), continuo a achar os contrastes quase impossíveis de suportar cinematograficamente, mas que, estando tão familiarizado com o arco emocional de Bond, consigo arranjar motivos suficientes para desfrutar deste filme imenso, porque não o levo a sério como uma adaptação do livro, mas considero-o como um primeiro exercício de tentar tornar a saga mais dura, que peca contudo por ter um mau Bond e ser vítima da influência de todas as paródias ao género que começaram a surgir  poucos anos antes deste filme ser feito.

Recentemente descobri que Hunt disse, em relação aos filmes de Bond: “My feeling was always that one should make the films seriously, but never take them seriously”. E isto assenta em OHMSS como uma luva.


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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